25 de fevereiro de 2009

Un voyage. Philipe de Pierpont e Eric Lambé (Futuropolis)

Na esteira do livro anterior, Pierpont e Lambé continuam a explorar os interstícios que se estendem entre duas pessoas, em cada relação, e o imenso silêncio que pode por vezes desenvolver-se entre aquelas que mais pareciam próximas, como os amantes. É, também novamente, um livro sobre a morte, se bem que Un voyage o seja de um modo directo e aberto e, talvez por isso mesmo, mais cândido e calmo.
Um daqueles problemas em que gosto de insistir parece ter aqui um bom exemplo a essa discussão. Se eu fizer um mero resumo da história (o seu conteúdo), ficar-se-á com a sensação de se tratar de algo de demasiado simples, linear, até patético. Um homem sabe que vai morrer dentro em breve e parte, abandonando a sua amante, para não a fazer sofrer. Essa viagem é ao mesmo tempo um retorno, não apenas a um local, mas a um tempo, a uma situação do passado, uma memória, e a uma pessoa, e muito provavelmente a algo que não existe mais. É ao mesmo tempo um retraçar de responsabilidades e um falhanço. Mas esta descrição, por mais completa que fosse, não daria conta de tudo. Claro está que nenhum descrição dará jamais conta de tudo, mas há vários modos de conseguirmos circunscrever uma ideia do todo, mesmo que não o possamos esgotar (e não podemos, nunca).
Nem sempre importa a comparação, obviamente, entre objectos que estejam afastados uns dos outros de tal modo que parece não existir qualquer traço em comum. Mas se procurarmos colocar lado a lado este livro com um outro que venha do campo da banda desenhada mainstream de super-heróis, como Silver Surfer: Requiem, de Straczynski e Ribic (no qual a premissa é idêntica a Un voyage, no sentido em que um homem se apercebe de que está a morrer, confirmando-o junto a um especialista, e decide então embarcar numa viagem que não é apenas geográfica, mas também no recuado tempo e na moral ferida), algumas das vantagens ou fortalezas do livro de Pierpont e Lambé surgem mais nítidas. Algumas delas prendem-se com a ausência de histrionismo no livro destes autores, ao contrário daquele outro, no que importa mais é a exacerbação das emoções do modo mais melodramático possível, a busca por sentidos “profundos”, o que usualmente é um caminho recto para a platitude, e a associação da inevitabilidade da morte a um “sentido último da vida”, o que é um consolo pífio. As mais das vezes, na banda desenhada de super-heróis a morte é sempre transitória (ou gratuita), quando não apenas uma estratégia de marketing... A verdadeira morte que pode ocorrer sobre uma dessas personagens é outra: o esquecimento, a queda na arqueologia. Mas uma verdadeira, real aceitação é algo bem mais difícil de gerir. Pode-se optar por fazer ligações estranhas, alegóricas, simbólicas, figurativas, como aquelas operadas por Manouach, ou investigar a possibilidade de desdramatizar de tal modo que se esgota quase a força terrífica dela... É o que sucede neste livro de Lambé e Pierpont, penso.
Lambé reduz as personagens e os objectos e os espaços a linhas de contorno flexíveis, muitas vezes quebradas ou abertas, deixando que as manchas de cor invadam dois objectos que deveriam ser autónomos e tornando-os o mais superficiais possível, entendendo aqui superfície como a profundidade específica do desenho. O que corresponde ao gesto da escrita de Pierpont de procurar as várias sombras que tornam aqui misturáveis as fronteiras de duas pessoas, e ali as separa nitidamente. O casamento, a relação de plasmação, é grande.
A plasticidade de Lambé é idêntica, em termos de figuração, àquela de certos filmes (animação) de Georges Schwizgebel, na medida em que ambos moldam personagens e espaços de contornos espessos, no interior dos quais se encontram esparsas e mudas cores fluindo. O emprego da música e do movimento incessante, rodopiante, de Schwizgebel, contrasta com o enquadramento cerceado de Lambé, e os silêncios ou frases inertes, rápidas, quase evidentes, de Pierpont (isto seguindo uma separação líquida entre o trabalho de ambos, o que apenas faz sentido analiticamente). Se nos filmes do primeiro se procuram encontrar todos os elos que permitem o trânsito e até mesmo a comunhão entre espaços diferentes e níveis que pareceriam afastados, nos segundos há uma gravidade que prende os movimentos a um só, e pequeno, espaço, do qual se perscruta o resto da cidade e do céu, mesmo que apenas visíveis através de uma estreita faixa. O que isto ajuda é a uma maior concentração na consciência do protagonista de Un voyage, que tem direito a narrar e explicar aquilo que se vai desenvolvendo ao longo das páginas do livro.
Mas há, todavia, um outro elo – subtil e rápido - que emerge entre os autores. Schwizgebel tem um filme intitulado L’homme sans ombre, que nos fará recordar, imediata e simultaneamente, as histórias de Adelbert von Chamisso (Peter Schlemiel), Andresen (A Sombra) e de Hofmannsthal (o libreto de A mulher sem sombra), praticamente com a mesma ideia central (e fonte do filme de Schwizgebel): um homem vende a alma ao diabo, e esse pacto é selado pela desaparição da sombra, sendo essa não só a marca visível do pacto, como também aquilo que os afasta da sociedade (ou as variações previstas). O elo é plástico, mas invertido, uma vez que a personagem principal de Un voyage não perdeu a sombra... mas é como se tivesse feito um pacto. Ele foge, com a ideia de poupar a sua amada. Ele corta a relação com o mundo, com os seus, ainda que queira retornar àquela que já não é seu elo. Mas todo o livro é repleto de sombras, de jogos de máscaras, de rostos que se trocam, como entre o homem o cão ou os cães vadios na praia (ou no sonho). O cão, aliás, surge aqui como uma importante personagem que lhe serve de âncora, de peso, de bóia à vida que parece querer abandonar. Não o cumprirá. A viagem é afinal para descobrir um espelho, o qual não apenas nos devolve a nossa imagem como nos permite olhar para trás e, assim, retomar os passos donde pensávamos ter tido a necessidade de partir.

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