14 de agosto de 2009

Qu’Inferno. AAVV (Mula)


Por toda uma série de vicissitudes, este livro demorou algum tempo a ser publicado, o que implicaria que alguns dos trabalhos reunidos acabariam por surgir noutras publicações ou plataformas, tornando-o, para todos aqueles que seguem com regularidade e atenção os trabalhos dos autores aqui agregados, que compõem de uma certa forma um corpo mais ou menos coeso e coerente (no que diz respeito aos criadores de banda desenhada , ilustração, desenho livre), menos um veículo de novidade do que uma transformação em arquivo mais perene. De facto, deveremos considerar a Qu’Inferno não como mera continuidade da actividade editorial d’Os Gajos da Mula, que haviam editado os fanzines Paint Suck’s, Lamb-Hãert e Hum, Hum! Estou a ver... e Estou careca e a minha cadela vai morrer!, mas como gesto de inflexão, reflexão e memória dessa mesma actividade. O título foi também tomado de empréstimo pra uma exposição no Espaço Campanhã, no Porto, que mostrava trabalhos dos participantes e outros amigos. Há, portanto, a importância de levar em conta esta verdadeira antologia como um gesto que almeja fazer não só um balanço de acções anteriores e das relações, cumplicidades e alianças entretanto formadas entre criadores, como também marcar um momento que se quer como de consolidação e memória. Daí o cuidado feito nesta publicação, bem diverso do dos fanzines mais clássicos anteriores. Um aspecto digno de nota, e repetido noutros lugares, é o facto de que foram publicados 300 exemplares e as capas, impressas pelo atelier Mike Goes West, num magnífico trabalho de serigrafia, e que são todas diferentes: apresentando várias combinações de verdes, vermelhos, laranjas, amarelos e rosas, prateados e dourados (e alguns exemplares mesmo a preto-e-branco e outros monocromáticos), não haverá qualquer hipótese de existirem dois exemplares totalmente idênticos. Uma forma curiosa de promover uma discussão e questionamento sobre a reprodutibilidade destas artes no seu mais famoso veículo e a multiplicidade de “objectos únicos”.
O que encontramos no seu interior é a reunião de trabalhos de autores que estão reunidos nestes gestos desde o início, sobretudo Marco Mendes e Miguel Carneiro, mas também João Marrucho e Arlindo Silva, como outros cúmplices de acções comuns do/no Porto, como Nuno Sousa e Carlos Pinheiro, d’O Senhorio, os Von Calhau, Lígia Paz, Mauro Cerqueira, comparsas de Lisboa como Filipe Abranches, João Maio Pinto, André Lemos, José Feitor e Júcifer, assim como outros nomes menos comuns nas suas acções, mas não de somentos importância, desde o veterano Carlos Zíngaro (que aqui se agrega por ter sido organizada uma exposição antológica sua em Guimarães e no Porto comissariada por Marco Mendes, mas que faz todo o sentido na ideia de haver um gesto que tanto tem de recuperação como de integração dos novos artistas na tradição iniciada por Zíngaro), ao pintor Rodrigo Neto, a ensaísta Aida Castro, e o escritor e editor (das sub-míticas e auto-marginais Edições Mortas) A. Dasilva O, entre outros.
É, portanto, uma reunião. Nesse sentido, podemos interpretar este “espaço” instituído pela publicação Qu’Inferno tanto como uma tomada de posição colectiva como um simples agregado de pessoas unidas por uma circunstância ou outra, inclusive a da amizade. Se sublinho esta última ideia, é porque penso que a junção de trabalhos de banda desenhada e de desenho livre, quando colocadas lado a lado a discursos críticos, correm o risco de serem amalgamadas num único propósito. E se os “discursos” das bandas desenhadas e ilustrações, quer sejam mais directos como os de Nuno Sousa, Carlos Pinheiro, Miguel Carneiro e, de certa forma, José Feitor, quer os mais indirectos dos restantes artistas, apontam a uma toma da de posição e uma efectivação de acções e gestos que demonstram logo as suas valências enquanto força de criação alternativa em relação aos mais normalizados e institucionalizados veículos da arte e da cultura no nosso país, sobretudo na cidade do Porto – independentemente do facto de alguns deles integrarem desde logo caminhos, como disse, “normalizados e institucionalizados” por via de galerias, instituições e/ou programas de bolsas de apoio -, parece-me excessivo empregar como que “ataques” verbalmente expressos a essas mesmas estratégias da normalização. Em primeiro lugar porque ao se fazerem esses ataques há uma imediata reacção (que pode mesmo roçar o “reaccionário”, sem dúvida, mas é preciso pensar as coisas até ao fim, mesmo que as consequências nos sejam adversas) em procurar em que é que esses discursos diferem de uma atitude complacente ou cúmplice com essas mesmas normalizações. Em segundo lugar porque estamos em crer, de uma forma talvez conservadora e romântica, que as acções e a efectividade do que está feito é muito preferível e bem mais eficiente do que programas.
Faça-se uma exposição num barracão abandonado, com dinheiros ajuntados por um churrasco ou a venda de bonés, e publique-se um pasquim como se consegue, com a ajuda de muitos, o que importa é que é essa mesma exposição e essa mesma publicação os discursos que deverão ficar marcados. Não os “intentos”.
Durante algum tempo, anos, Miguel Carneiro e Marco Mendes planeavam que a capa desta publicação fosse uma enorme tela que produziram intitulada “As Portas do Inferno”, que podem ver aqui e ali no blog dos editores. Acabaram por utilizar a que agora se vê, com o traseiro de uma mula desaparecendo no incêndio dos nomes... Todos estão familiarizados com a última frase escrita sobre os portões do inferno no poema de Dante: “Deixai toda a esperança, vós que entrais” (na tradução de Graça Moura). Todavia, o facto de podermos virar esse desenho e ver o que está para além dele prova precisamente que existe algo mais para além dessas portas, desse inferno e que as acções de todos estes autores são positivas. Façam-no. É discurso suficiente.
Nota: agradecimentos aos editores, pela oferta do exemplar; o vídeo no início é dos editores.

1 comentário:

teresa disse...

fuuuuuuiiiiiicccc que musica tenebrosa
captain beefheart "electricity" teria sido melhor escolha