24 de maio de 2011

Um lugar nos olhos. Luís Manuel Gaspar (Ao Norte)

Os leitores de determinadas revistas literárias, como a Ler, a Viva Voz, a Colóquio Letras, depararam-se durante anos com bandas desenhadas que em nada, ou pouco, deviam às restrições usuais de género, figuração e espetacularidade. Tratavam-se de, então, estranhos elos entre poemas e uma estruturação de página com pequenas vinhetas ilustradas. Não se tratavam de bandas desenhadas, pois não parecia haver uma personagem nem um evento retratados, muito menos um episódio anedótico. Também não se podia falar de mera ilustração (se é que essa ilustração “mera” existe), uma vez que se pretendia ir para além da imagem única a responder a um texto, mas antes uma sequência misteriosa de cenas cuja acumulação na leitura levasse a um sentido que ultrapassasse a sua conjunção no papel. Também não eram traduções básicas das palavras em imagem, procurando prender pela figura concreta onde a palavra vogava pelo geral, nem fazendo baixar à matéria aquilo que nas mentes dos leitores atingiria sempre pequenas variações tímbricas e jamais seria seguro ser idêntico entre a sua comunidade. Era como se - voltando como sempre, como sempre, às palavras de Marina Tsvietáieva - as imagens revelassem outra vez pela primeira vez o sentido das palavras com que se uniam. (Mais) 


O autor dessas bandas desenhadas é Luís Manuel Gaspar, um nome reconhecido de certos círculos, mas arreigado das avenidas de maior fama na comunidade da banda desenhada e da ilustração, as mais das vezes perseguindo a mesmidade, e apenas ao de leve territórios de facto que procuram sendas diferentes, caminhos mais estreitos, quem sabe mesmo rotas que poderão não dar a largas alamedas, mas pelo menos a cantos cujo encanto pertencerá àqueles que se esforçam para o atingir. Esses trabalhos jamais foram reunidos em qualquer espécie de antologia, e este livro-catálogo, associado a uma sua exposição que reúne (alguns d)estes trabalhos, repõe essa justiça e torna acessível a um maior número de leitores este estranho mas decisivo contributo a um capítulo menor da banda desenhada: a sua união com a poesia. (Se digo menor, quero apontar o seu uso por Deleuze e Guattari, uma ideia que balbuceia no interior de uma linguagem segura, oficial, para conseguir dizer algo que não é apenas diferente no tom, na estrutura, mas em toda a sua condição. É aí que se instalará a pesquisa de novas ramificações (ou saídas rizomáticas, se preferirem) da banda desenhada, e esta arte em particular encontrará espaço para crescer, diversificar-se, transformar-se por dentro, partir noutras direcções).

As páginas aqui reunidas são portanto de bandas desenhas cuja matéria verbal bebe de um punhado de poemas e prosas, escolhas judiciosas, ditadas pelo conhecimento e sensibilidade do autor (que também é poeta), e talvez num ou outro caso pela circunstância da publicação. Esta antologia mínima da poesia portuguesa abre um leque variado, mas sobretudo voga pelos poetas do século XX. Como explica e nada nestas águas João Paulo Cotrim no seu prefácio, a matéria de Luís Manuel Gaspar é multímoda, procurando beber de muitas fontes e trazendo para o mesmo espaço - o da composição dos seus poemas desenhados, das suas bandas poéticas - referências que tanto podem ser vistas como contraditórias - a exactidão do traço e da trama do desenho científico e a brusca captura de um momento - como íntegras na mais profunda das justezas de união.

As leituras que os poemas e os desenhos de Gaspar permitem são muito diversas, e seria necessário uma interpretação passo a passo, talvez mesmo o repetir todos os seus gestos, para compreender a envergadura desta pequena grande obra. É verdade que existem outros autores que estabelecem elos criativos e verdadeiramente transfiguradores entre a matéria original de um poema, ou de um texto literário maior, e as suas bandas desenhadas (Dice Industries, Diniz Conefrey, von Blixen, Warren Craghead III), ou outros que procuram pulsações poéticas no seio da própria banda desenhada (Vaughn-James, Richard McGuire, Aidan Koch, Fabrice Neaud), mas tal qual como ocorre na poesia, por oposição a certos tipos de prosa (romance, géneros mais específicos), também esta banda desenhada está aberta a leituras que se alterarão a cada nova leitura, haverá sempre espaços de silêncio e de novos desdobramentos a cada nova intenção de um só leitor, e a sua transmissão ao outro encontrará sempre barreiras de mais difícil travessia. Afinal, é sempre mais fácil recomendarmos um romance a outra pessoa do que um poema, sobretudo se o outro leitor não estiver desde logo disposto a ouvir esse poema.

Nalguns casos, Gaspar é atencioso e respeitoso para com as regras da versificação, procurando soluções de composição e posicionamento das legendas textuais sobre as vinhetas de modo a cumprir aquilo que está previsto no poema original. Um exemplo acabado desses elos é a banda desenhada do poema de As Evidências, de Jorge de Sena. Esta é uma composição que apresenta uma prancha composta de quatro tiras, com duas vinhetas cada. As duas primeiras correspondem aos quartetos do soneto, e as duas últimas aos tercetos. A distribuição assim dos versos é a de duas legendas por cada vinheta na primeira metade, e de um verso isolado na primeira vinheta da terceira e quarta tiras, seguindo-se de dois versos nas segundas vinhetas dessas mesmas tiras. Escusado será dizer que essa distribuição segue a par e passo a versificação do soneto de Sena, de um esquema ABBA ABBA CDF CDF. Porém, tal como a convenção gráfica de afastar os quartetos e os tercetos entre si, com uma linha de intervalo, é mais tardia em relação à própria origem do soneto, Gaspar introduz, nesta sua transformação mediática para uma banda desenhada, uma segunda variação, que volta a entrosar as estrofes umas nas outras, reforçando a ideia de unidade. Se repararem, a composição segue uma estrutura simétrica centralizada, em que a primeira tira é idêntica à última, com uma primeira vinheta menor seguida de uma segunda ao comprido, e as do meio são iguais entre si, com rectângulos do mesmo tamanho. Outro tipo de investigação levar-nos-ia aos espelhismos e distorções encontradas entre as labaredas do fogo dos marinheiros na primeira vinheta e o rosto do boi parietal (“animais pintados”) da penúltima; o contraponto entre as paisagens arborescentes e as secas paredes de rocha e pedra, quer a natural quer a criada por mão humana; a lenta e inexorável aproximação, depois de sairmos do fogo, de espaços humanos, para terminarmos numa rua onde se dará um eventual encontro (“a ténue teia” do “seio” da interlocutora do poema).

Poderíamos quase explorar outro tipo de ritmos e distribuições em todos os poemas/prosas, como aquele logo ao lado d’As Evidências, o Nome de Guerra, de Almada: as legendas encontram-se num fluxo rítmico constante em cima e em baixo em relação às vinhetas, e onde ela não existe (a quinta vinheta) encontra-se “substituída” pelas letras garrafais das inscrições de uma loja, não permitindo assim a total ausência da palavra escrita, e curiosamente encimando o rosto de Almada, a única representação humana, e muito contrastante, dessa transformação. Mais curioso ainda, é esse rosto poder ser visto como algo que interrompe a(s) porta(s) que perdem o lugar em nome dos arcos, ou o próprio arco do olhar e da escrita de Almada, logo a seguir transfigurada na forma da ponte de ferro. E no caso de Aldeia, de Manuel da Fonseca, das ruas apertadas do Alentejo acompanhamos os “pombos bravos” para a abertura do “longe” e do “descampado”…

Noutros casos, o que se procura são encontros dissonantes entre texto e imagem que encontram um outro tipo de associações e fortalecimentos mútuos. Veja-se o caso do poema O valor do vento de Ruy Belo. Temos aqui uma estrutura de página claramente dividida em duas metades, também elas simétricas a seu modo, e que se procuram instalar nos interstícios e na respiração do poema original - as pausas, as cesuras internas. Mas não há uma procura por seguir a estrutura de uma frase, que vai para além da unidade-verso (“só ele traz o perfume das flores só ele traz/a música que jaz à beira-mar em Agosto”): há antes a exploração de um outro ritmo que o substitui na camada visual. O próprio tema, o vento, é invisível à imagem, e Luís Manuel Gaspar não procura retratá-lo através das muitas técnicas icónicas disponíveis aos autores de banda desenhada, nem opta por perseguir um qualquer objecto que fosse levado pelo vento para o marcar. São os nossos olhos e mente que, ao se passearem por aquela praia, atravessando vinheta a vinheta, olhando aqueles azuis e negros e castanhos, devem ouvir, nas palavras de Belo ditas na nossa cabeça, o som do vento, a música de Agosto… Este poema tem uma viragem cómica, prosaica, que é mantida pela banda desenhada, ainda que de um modo transformador e paradoxal. Trata-se das sexta e oitava vinhetas, que se unem para mostrar o edifício, onde supostamente o “vidro grande da janela do meu quarto” se haveria partido. Essas duas vinhetas, compondo um todo num canto que desestrutura o protocolo de leitura habitual de uma banda desenhada (a oitava vinheta depois da sétima, e não associando-se à sexta), abre-se com precisão à divisão entre o ritmo da palavra e o da imagem - criando assim um lugar que pertence aos olhos, como deseja o título da antologia de Gaspar. Mais uma vez, leituras alternativas seriam possíveis: interrupção/suspensão da “narrativa”, ou promessa de chegar a um lugar com uma breve pausa noutro lugar antes de um retorno derradeiro, ou ainda percurso do mar que vemos bater nas rochas impelido pelo moinho inicial até esculpir uma casa, onde vem descansar.
A preferência do artista é para paisagens de onde a presença humana é retirada, não para criar lugares sob a patina de fumos, sombras ou ecos fantasmáticos, como Atget, mas para espaços esvaziados, ou melhor, acabados de esvaziar. Isto é, não interessa tanto um fingimento de não haver marcas humanas - afinal vemos casas e ruas, algumas em ruínas, outras prístinas, vemos construções, transportes, interiores de lojas e cafés, aqui uma pega ao touro, ali o trabalho agrícola ou a faina, a pesca da baleia - mas antes uma desatenção à figura humana de um modo central. Como se se quisesse integrar na consciência de que alguém passou por ali, mas sem jamais interessar olhar para essa pessoa passando. Claro que nem sempre isto se verifica: vemos um casal dando as mãos, vemos homens em busca e capturando a baleia e a luta com o touro nas quatro pranchas de Mau Tempo no Canal; um retrato de O’Neill e outro de Almada nos textos respectivos; um rosto de mulher sangrando (recorda a pintura de Magritte, La Mémoire) no de Sophia; homens trabalhando n’“A ria de Aveiro” de Brandão; um transeunte em Desaparecido, de Carlos Queiroz; planos aproximadíssimos de olhos que se querem expressivos e estatuários a um só tempo. Algumas dessas actividades mostram-se ao longe (quase todas as cenas de pescadores), ou em enquadramentos que os colocam fora de campo (a tourada, por exemplo), ou em ângulos que quererão dar a ver uma perspectiva impessoal (o transeunte do poema de Queiroz). E, tal como afirmámos, os olhos que nos perscrutam intensamente são mais próximos dos de uma estátua do que os de um ser vivo. Mesmo alguns animais em vida - a cobra, o cão, o touro - , têm qualquer coisa de inerte, no sentido de se congelarem como uma palavra, passível de ser lida pela eternidade, mas revelando sempre contornos diferentes a cada passagem.

Quererão estas construções de Luís Manuel Gaspar procurar nessas estranhas inércias um espaço que pertença à morte, figura tutelar do acto poético? Será uma busca pela ausência de vida, com todo o desconforto, caos e antipatias que trazem as coisas que se movem para fora dos planos possíveis de fazer? Será uma forma de negar espaço ao humano porque ele já está prenhe de forma indelével nos próprios poemas? Este é um livro que obriga a ler em conjunto texto e imagem, não para perceber que síntese será possível - talvez nenhuma o seja - mas para jogarmos aos espelhos, retornando de um para outro incessantemente, até encontrarmos sempre novos caminhos para retornar, de novo, sempre, à leitura original.
Nota: agradecimentos à editora, pela oferta do livro. A capa é em tons de amarelo-creme, o scanner faz um serviço péssimo.

8 comentários:

aureas T. disse...

pedro, obrigado por este texto magnífico. um grande abraço!

Pedro Moura disse...

Os meus textos não são mais do que meras respostas feitas no interior da obra que ecoam... pouco mais.
Abraço,
Pedro

gambuzina disse...

o scanner pede sempre a ajuda do photoshop

colherdechá disse...

Pedro, agora por escrito: muito obrigada pelo seminário na Fluc e pelas posteriores impressões!
Não tenho facebook mas vai-nos mantendo a par destas "academicisses", por favor. Hoje Coimbra, amanhã o mundo!

Best
Cláudia Pinto

Pedro Moura disse...

Olá, Teresa.
É verdade, mas não percebo da poda. Procure quem queira, possa e deva!
Cláudia, obrigado eu! Eu também não tenho (ainda?) facebook, mas darei notícias muito, muito em breve.
Pedro

gambuzina disse...

entäo se näo queres saber da poda, näo te queixes

Pedro Moura disse...

Não é não querer saber. Não tenho Photoshop nem scanner, por isso nem sempre consigo fazer essas correcções. Apenas espero que haja quem arranje melhores imagens do livro e, melhor ainda, o compre, obtenha, troque...
Abraços
pedro

gambuzina disse...

ok