20 de junho de 2012

A crise explicada às crianças. João Miguel Tavares e Nuno Saraiva (Esfera dos Livros)

Estamos em crer que seria muito possível que “as crianças” previstas no título duplicado deste livro fossem mais uma estratégia de marketing e circulação comercial do que um verdadeiro fito intrínseco do projecto. Ou então, poderíamos entender as “crianças” como uma desculpa para poder apresentar, não sem humor, uma narrativa que simplifica uma situação pela qual atravessamos. No entanto, este livro tenta criar um genuíno gesto de simplificação e transmissão em termos perceptíveis sobre a actual crise financeira, económica, estrutural, em que Portugal e outros países se encontram (momentaneamente, esperamos nós…, por isso, esperemos que este livro tenha tanto sucesso imediato como obsolescência rápida).
A opção de eleger um universo com animais antropomorfizados é uma opção que se revela, graças a certos estudos recentes, como um instrumento pedagógico bem mais eficaz do que a tentativa em “falar da realidade” de forma directa. As crianças não são estúpidas, mas há sem dúvida alguma limitação nos processos cognitivos, que se vão formando ao longo da vida (siga-se Piaget ou seja quem for na descrição desse desenvolvimento). Mais, o seu uso para o ensino de mecanismos que possam ajudá-los a se defenderem de vários tipos de ansiedade, de projectarem situações hipotéticas ou imaginárias nas quais jogam a sua afectividade, emoção e poder de decisão, ou até somente como plataforma de aquisição de conhecimentos e experiências está atestado. É um grande desafio e risco escolher esta via para um tema tão premente, e historicamente preciso (não se trata de uma realidade natural ou que faça parte da experiência contínua das pessoas). Será ela uma ferramenta eficaz para compreender situações tão complexas, multifacetadas e permanentemente mutantes como a da “crise económica”, que é tão produto como produtora do tecido social, cultural e político? Por outras palavras, em que se inscreve e que ela mesmo cria, a um só tempo? Se, de acordo com John Morgenstern (Playing with Books: A Study of the Reader as Child) se verifica de facto uma usual repressão de aspectos da vida humana como o horror, a morte, o sexo e a ironia, como abordarmos um tema como este, no qual a distância irónica e a consciência dos abusos permitidos pela situação é necessária?
Não há falta de livros que tentam, de uma forma sucinta e simples, tornar mais acessíveis determinados problemas cuja complexidade muitas vezes parece derrotar quem deseja deles aproximar a compreensão, derrota essa muitas vezes esmagadora logo à partida. Os volumes Para principiantes (da D. Quixote) ou a colecção Já percebi! (de Kellie Gardner e colaboradores, projecto da Flammarion e, por cá, da Eixo) fazem parte da nossa memória pessoal, aplicadas não somente àquelas coisas que as crianças e adolescentes imediatamente quererão saber porque fazem parte do seu mundo visível – as flores, os animais, as máquinas, as estrelas – mas igualmente àquelas que parecem ser mais intangíveis e imateriais (nunca o sendo), como conceitos, pressupostos, categorias culturais. A “crise” é uma dessas realidades, carregada que está numa rede densa de tantos outros conceitos intimamente relacionados, e muitas vezes nem todas as suas facetas são claras, por mais informados que sejamos enquanto cidadãos activos no nosso sistema político, social e cultural. A crise explicada às crianças trata-se portanto de um desse tipo de gestos, e se não mergulha na ironia de forma directa, nem procura explicitar todos os factores envolvidos “na realidade”, apresenta uma versão suficientemente simplificada que permite o início da discussão (um livro dito infantil nunca se lê somente de capa a capa, mas deve tornar-se parte do diálogo permanente entre pais e filhos, educadores e educandos, factor da construção de identidade).
Em breve, falaremos do projecto To Whom Who Keeps a Record (Abonnenc, Pestana, Abranches) o qual faz menção a projectos educativos “de esquerda” dos anos 1970, tal como os livros de propaganda de banda desenhada chineses ou angolanos, ou o Livre d’histoire… Esses são projectos que claramente demonstram como é impossível atingir-se uma qualquer posição para além (ou acima) das ideologias. Quer dizer, não há qualquer discurso ou posicionamento possível que esteja de fora de uma qualquer construção ideológica; a defesa de que se fala a partir de uma “posição a-ideológica”, “neutra”, “objectiva”, as mais das vezes relaciona-se com os discursos vigentes do poder, o que significa, no nosso caso, aos mecanismos de construção societal burgueses, capitalistas e dirigentes. O seu segredo está em apagar a possibilidade mesma de outra alternativa, ou se ela for indicada, será sempre vista como “utópica”, “idealista”, “nefelibata”, “irrealista”, “inconsequente”. De que posição falava afinal Fukuyama para declarar “o fim da história”?
A assunção de uma posição clara, a revelação de quem fala e de onde fala é necessária para a clareza desse mesmo discurso. Ora este livro pretende, através do seu mecanismo aparentemente simples de apresentar duas histórias, duas versões de uma mesma realidade (voltamos aqui à questão de os factos não existirem por si só, mas se constituírem através dos discursos que os apresentam), ser visto como “objectivo”, como “equilibrado”, deixando que os leitores se decidam por eles mesmos conforme a versão que lhes fizer mais sentido. Mas isso ocorrerá de facto?
É que a própria forma como elegemos os elementos a explicar, a opção em tornar visíveis estes e não aqueles factores, o modo como se narra a sua relação e preponderância, fará desde logo surgir uma perspectiva, que não se corrigirá, seguramente, com a tentativa de ver as coisas por outro prisma, uma vez que esse prisma, emergindo como “diferente”, “alternativo” no seio de um outro – que se vê não como “prisma” mas “realidade” – será sempre também visto como “insustentável” senão mesmo “ficcional”. Como se entenderá, a nossa preocupação está em não diminuir a metodologia da leitura crítica da chamada literatura infantil a abordagens temáticas, sobre as suas matérias e conteúdos, mas antes numa atenção particular para com as suas estratégias discursivas, atentando sobretudo à lição estruturalista e pós-estruturalista (ainda que sem abusos) sobre as relações entre a própria linguagem (aqui devendo englobar todo o tipo de estruturas sígnicas, inclusive as imagens e a suposta “realidade”).
O livro apresenta, portanto, uma versão “para miúdos de direita” e “para miúdos de esquerda”. Do ponto de vista “da direita”, o problema está no apetite voraz e progressivamente crescente dos ursos (que é o défice, mas também poderia ser chamado de Estado e, portanto, também de contribuintes ou devedores individuais). Do “da esquerda” está nas abelhas (os mercados, mas que deveriam ser vistos antes como os agentes financeiros, sobretudo especulativos) descontroladas. E o produto que leva à contenda, tensão, desequilíbrio, é o mel… É óbvio que quer uma quer a outra analogia são incompletas: afinal, quem produz o mel? Qual a reciprocidade do consumo do mel pelos ursos? Qual a função (ou dieta) dos outros animais que são chamados à colação? Essas são algumas das facetas que revelam as suas fragilidades quando se tenta mostrar “os dois lados”, quando nenhum deles explora de uma forma completa a descrição do mundo em que se querem expressar. De alguma forma, este projecto recorda-nos aquelas lições, pouco veladas para os adultos, que eram transmitidas pelas canções do (marxista) José Barata Moura. “Os ratos cozinheiros Pimpocas e Rinhaunhau”, por exemplo, era relativamente clara sobre a relação entre as forças de produção (os ratos) e o aproveitamento desequilibrado pela parte dos detentores do capital (o gato). Dizemos relativamente porque não explicava a canção que os meios de produção eram afinal propriedade do detentor do capital, e como os meios de produção são ele mesmo capital em circulação. No caso do livro presente, a “dieta” do urso, por exemplo, não é um instinto natural, mas sim uma imposição que lhe foi colocada – pelas abelhas (o Capital nos seus vários avatares), se quiserem, ou pelo que nós chamaremos o “Parlamento dos Animais” (que será seguramente uma representação da UE).
O livro é um instrumento eficaz, curioso e não sem inteligência e humor para dar início a essa aprendizagem, e torna-se ainda mais agudo - para nosso próprio exercício de adultos - tentar compreender o que é deixado “de fora”… Por exemplo, não é explicado que parte das consequências da crise não são suportadas nem pelas abelhas (as quais têm acesso a mel produzido por outras abelhas) nem pelos ursos (que sempre arranjarão maneira de encontrar dietas de engorda alternativas, ou pura e simplesmente aparentes), mas sim por outras criaturas… Se seguirmos a analogia animal que animais escolheríamos? As pulgas? Seja como for, a crise, que de facto é provocada por abelhas e ursos, é “paga” por terceiros, excluídos desta pequena narrativa (a menos que as vejamos integradas no corpo do urso).
Haverá algum momento em que esta fábula explicita que toda esta situação actual é provocada precisamente pela natureza endémica do tardo-capitalismo financeiro? Não queremos dizer que outros sistemas económicos alternativos – como as oligarquias de estado ou um capitalismo de estado – estejam desprovidos das suas próprias crises, desequilíbrios e até horrores, tão-somente indicar que, estando nós inscritos num determinado sistema, não podemos imaginar que ele seja alvo de uma tensão por agentes claramente divididos por linhas ideológicas, mas antes que a sua própria constituição leva inevitavelmente a certos resultados. No caso presente, a crise actual (semeada há décadas, repetida desde os anos 1980, prevista) foi provocada pelas próprias regras do sistema (algumas das quais refeitas à medida que se avança, como a de não deixar morrer as abelhas que se portam mal mesmo que tenha sido por culpa delas) – os subprimes, as dívidas soberanas galopantes, as desregulações governativas dos mercados, e a “guerra silenciosa” entre o euro e o dólar, como entre o petrodólar e o petroeuro (e preparemo-nos para o petroyen, petroyuan ou o que for), já para não falar das profundas transformações que o próprio mercado europeu (o parlamento dos animais, como lhe chamámos, na extensão desta narrativa) impôs nos tecidos produtivos dos seus membros, empurrando-os para o resultado que agora se colhe. E a questão não é se é a direita ou a esquerda podem resolver a questão, já que ambos os campos têm a sua quota-parte de responsabilidade nos abusos sobre o tecido económico que aqui nos trouxe… Ainda assim, do nosso ponto de vista, a versão “de direita” retira algum peso de responsabilidade à agressividade  das abelhas antes da crise e que para ela conduziram (a forma como enfiavam mel pelas goelas abaixo dos ursos).
Onde estão os conceitos de co-responsabilidade dos emprestadores, e os seus cantos de sereia? A política do trash for cash? As políticas fiscais desajustadas aos contribuintes diferentes? A forma como a conversa do desregulamento apenas funciona numa – permitindo que as abelhas-banco recebem mais mel para voltarem a multiplicá-lo quando o emprestam ao urso, mas não se fecharem colmeias quando não há mel a escorrer? Onde está a correlação entre a dieta do urso e a devolução do mel consumido? Onde está a ordenação das várias espécies de ursos, desde os imensos Kodiak que obrigam os pandas a estarem descansados, que lhes enviavam potes de mel, para depois os fustigarem por não fazer nada mais que mastigar bambu? Onde está a entrada de factores como a energia barata, a resposta concertada às outras florestas, a necessidade de equalizar a produção dos vários ursos entre si? Onde está a promessa gorada da solidariedade da união de ursos ou animais?
É claro que não podemos acusar o livro presente por optar por explicações quasi-monocausais, nem apresentar uma dimensão mais ou menos unitária da direita e da esquerda, mas é a sua existência que nos permite projectar e imaginar como é que a narrativa continuaria ou se moldaria para integrar todos esses problemas.
Desconhecemos se existirão desde logo “miúdos de esquerda/de direita”. Estamos em crer que existirão crianças livres dessas construções simplistas e que, à medida que forem expostas ao mundo e às suas lições, irão aperceber-se da realidade complexa e não-dicotómica que se forma em nosso torno. Mas estamos também em crer que não é através de narrativas aparentemente “objectivas” e “equilibradas” que elas construirão a sua própria perspectiva, que é necessária, talvez cada vez mais, ser informada, culta, abrangente e activa. Talvez o aspecto mais problemático do livro seja a dicotomia final, em que cada um dos pais diz que o outro vê o mundo “de pernas para o ar”, parecendo querer sublinhar a aparente impossibilidade de diálogo, de cooperação ou de construção conjunta de soluções, como deveria ser uma responsável cidadania democrática.
É então A crise explicada às crianças um instrumento provavelmente necessário para muitos pais e educadores, eles mesmos (nós) forçando-se ao exercício que os autores seguiram de imaginarem o outro lado da questão, e depois procurarem, quer na leitura quer nas vidas reais, perceber que caminho se deve trilhar a partir do centro do livro…
Tendo em consideração a experiência de Nuno Saraiva, no campo da banda desenhada mas também no da ilustração editorial e outros, não podemos dizer encontrarmos aqui um campo de inovadores gestos do autor. Tudo se pauta por uma comedida expressividade, clara, sem dúvida, linear e respeitadora do propósito narrativo do livro, mas sem que se nutra uma qualquer torção interna ora na composição do livro, ora nos vários níveis de significação que poderiam emergir nas imagens. Há uma maior preocupação em criar imagens hieráticas, simbólicas e pontuais de cada passo da narrativa do que lhes insuflar uma dinâmica própria que as tornasse um elemento suficientemente autónomo e paralelo a essa mesma narrativa. Possivelmente a razão disso é estar tudo subsumido ao jogo principal, da inversão quase simétrica das duas histórias especulares, em que cada imagem se vê reflectida na sua correspondente do “outro lado”, algumas com grandes proximidades, outras com maior subtileza, mas sem que as diferenças ou correspondências façam acrescer uma leitura inesperada.
Um aspecto autoral muito equilibrado é o facto de, havendo duas “versões”, duas capas, qe se permite que os nomes dos autores possam surgir alternados, com a primazia dada a cada um deles nas partes em que são assumidos papéis (semi-ficcionais) no interior do livro como os pais das crianças. O próprio código cromático (azul e vermelho), o tipo de letras utilizado no(s) título(s) e desde logo a estratégia do que é apresentado na(s) ilustração(ões), desde os objectos – iPad versus jornal de papel, consola versus ábaco, e a própria representação física das personagens antropomorfizadas, a diferença do humor do urso nas guardas do livro... -  sublinham a diferença interna das perspectivas, se bem que mais uma vez através das tais dicotomias absolutas.
Um pequeno fait-divers é a justiça de ter sido o actual ministro das Finanças, Vitor Gaspar, a fazer a apresentação deste livro, levando a trocadilhos também eles justos, pela sua especialidade em “contos da carochinha”…
Nota: agradecimentos à editora, pela oferta do livro. 

1 comentário:

Web Services disse...

Thanks for this informative post , keep Sharing like this !