22 de março de 2013

Três Sombras. Cyril Pedrosa (Polvo).

Depois da edição em português de Portugal, cujo sucesso se deve mais a circunstâncias locais do que a qualidades inerentes da própria obra que a permitissem ombrear outras num contexto mais alargado, não é de todo estranho que se procurem modos de distribuição de outros seus trabalhos, sobretudo aquele que mais tem angariado crítica em seu torno. É dessa forma que Três Sombras surge, nessa economia de circulação.
Se por um lado, não pode haver dúvida de que, no crescimento social e estético da banda desenhada verificado na última vintena de anos (que serve de contrapeso à sua progressiva perda de significado em termos de presença mediática, linguagem de massas, etc.) temos verificado obras cada vez mais maduras, complexas e capazes de se integrar em tendências artísticas, culturais e intelectuais suas contemporâneas, e não mais ora a reboque de alguns aspectos superficiais lavrados sobretudo noutras linguagens (cinema, artes visuais, literatura) ora totalmente isolada dessas tendências, ao mesmo tempo não deixa de ser pertinente a crítica a fazer, de que muitos trabalhos surgem, no interior da banda desenhada, que mimam fórmulas de sucesso, ou aspectos da sua própria superfície, mas sem jamais serem tão profundos como os seus melhores exemplos. Isso é inevitável, e faz parte mesmo dos ritmos internos, da respiração, de qualquer meio, mercado ou tecnologia (termos diferentes que podem, cada um a seu modo, descrever ou constituir a banda desenhada).
Três sombras, parece-nos, é um livro que se encaixa nesse corpo de trabalhos. Aparentemente, pela sua apresentação física, temas nominal, e explorações de estilo, tratar-se-á de um livro que parece querer almejar uma espécie de monumentalidade que nunca alcança, que pretende mimar uma gravidade que não se consubstancia, por uma contemporaneidade no tratamento dos afectos que não se consolidam. Acaba por ser mais uma rábula leve, com alguns pontos de interesse, sem dúvida, mas sem rasgos de imaginação que o tornem de facto excepcional.
Esta é a história de um amor paternal, de um sacrifício a que, em princípio, qualquer progenitor se proporcionaria na defesa da sua cria, de uma viagem cujo preço não é nunca negado nem adiado. Face à prospectiva morte do seu pequeno filho Joaquim, anunciada pela chegada de três cavaleiros (as “três sombras”), as quais depois apercebemos, sem nunca serem nomeadas como tal, as Parcas (uma das figuras segura uma tesoura, recordando inevitavelmente Atropos), o pai decide fugir-lhes, alongando dessa forma a vida do filho. Essa fuga dá entrada ao livro de outros troços narrativos, divididos em “episódios”, “momentos”, dando-lhe uma estranha estrutura de partes desiguais, mas que não deixam de contribuir para a aventura iniciática que todo o enredo significa.
De facto, todo o ambiente do livro - trajes, arquitectura, modos de viagem, urbanização, objectos, tecnologia, alimentação - apontam para um intervalo em torno do século XVIII, provavelmente em França, claro, mas há também pontos de escape dessa era, e uma ausência de balizas temporais ou geográficas exactas (a tradução dos nomes, nesta versão, para português, corrobora essa deslocação) reforça a ideia de fábula, no seu sentido popular, necessariamente ahistórica. A fuga do pai e filho para uma suposta terra dos antepassados permite a leitura fácil e biografista de que se encontraria aqui uma ideia percursora do autor revisitar as suas próprias raízes familiares, que se confirmariam em Portugal, mas em nenhum caso se fazem sentir explorações verdadeiramente ancoradas em especificidades culturais que permitissem encontrar uma  dimensão forte. Tudo fica na esfera do fabuloso (enquanto qualidade da fábula, compreenda-se).
A relação entre pai e filho, por exemplo, nunca é explorada senão em torno da dependência do segundo pelo primeiro, ou da bonomia do pai para com a criança, na cena idílica, pretérita, das primeiras páginas, que parecem confirmar toda aquela ideia nostálgica que fazemos da própria infância (se bem que aqui é o pai que a forma, o que tampouco é de estranhar). Não há aqui de forma alguma espaço para as dúvidas e as brechas negativas que existem, de facto, nas relações filiais, nem nas distracções e autonomias dos pais para com os seus filhos, mas uma linha quase neutra de “felicidade”. Tudo o que se segue é uma fiada mecanicista, de causa-consequência, com algumas ideias mais ou menores expectáveis das moralidades contrastantes entre as “boas gentes” e os “aproveitadores”, que apenas corroboram, sempre, esse tal ambiente popular e infantil de um conto moralizante.
O livro atravessa de facto vários registos, que apenas retrospectivamente são subsumidos a uma só unidade, entendida até do modo mais clássico em termos literários ou cénicos. Esses registos tanto têm a ver com modos – o realista, o fantástico, o fabuloso, o parabólico – como com géneros – “capa e espada”, “piratas”, “high fantasy”, etc. Pedrosa parece beber de toda uma série de tradições da banda desenhada francesa, quer a mais clássica quer a mais contemporânea, mas que navega nas águas familiares destes géneros, para lhes responder com uma espécie de colagem.
Em termos visuais, mais do que em Portugal (em termos de produção original, anterior a este livro), Pedrosa não abandona aqui os instrumentos que terá adestrado na indústria da animação. Existem diferenças internas, e delas falaremos. Mas quase tudo se pode agregar numa única ideia, que é a do esboço, a do apontamento a lápis, o da pesquisa basilar. Algumas páginas, algumas vinhetas, parecem aqueles estudos primeiros que existem para projectos de animação, o mais próximo que existe da tradução da visão interna do criador, antes da entrega aos instrumentos técnicos que a tornarão possível. Muitas vezes, esses mesmos materiais podem ser fruto de admiração estética, e se não tiverem conhecido essa sua realização final ganham uma espécie de patina de maravilha acrescida (pensamos nos desenhos de um Kay Nielsen ou de Sylvia Holland para os vários projectos da Disney que nunca foram feitos). Sobretudo por haver neles, e isso é visível no trabalho de Pedrosa, uma espécie de abandono na alegria do próprio acto de desenhar, sobretudo notável naqueles elementos de “excesso”, que ultrapassam a mera necessidade representantiva (voltaremos a esse “excesso”).
A figuração também é bastante devedora de uma certa escola da animação, na qual a plasmaticidade e a notória estilização bem demarcada – e até formulaica, poder-se-ia dizer – das personagens leva a uma clareza total na legibilidade das mesmas (o aspecto formulaico prende-se com as opções de desenhar um pai/homem hercúleo, as mulheres diáfanas e élficas, a criança em modo quase-chibi, etc.). Aliás, quase nos perguntamos se não é por trabalhar no interior dessa mesma estratégia figurativa, que convida ou constitui um fundo emocional restrito, que Pedrosa se circunscreve nessa exploração afectiva mais usual, expectável, em vez de mergulhar numa mais surpreendente e incómoda interrogação das relações entre membros de uma família, e o espaço que está reservado ao amor, ao medo, à morte (tão bem explorado noutras obras, como as de Ware, Bechdel, David B., e, noutro grau, Peeters, Gallardo, ou outros).
É precisamente o convívio dessas figuras legíveis e claras e os excessos lúdicos do lápis ou do pincel que dão a Três sombras uma qualidade algo etérea. É preciso temperar esta descrição na medida em que esse trabalho final não se trata tanto de uma exploração pela materialidade da grafite como pode ser verificada em autores distintos como Vähämäki, Marco Mendes ou Chihoi, mas não deixa de haver uma busca pelas várias intensidades possíveis com os lápis e pincéis: desenhos de linhas negras simples contra fundos despojados e brancos, outros mais densos, com figuras bem demarcadas mas integradas em espessos rendilhados (como que no Mattotti de Stigmata), episódios com pinceladas meio-secas, moldando-se objectos esquálidos e isolados, outros ainda onde se joga com inscrições brancas sobre fundos negros recordando a linogravura, e muitos com vários planos em que cada um deles segue essas regras várias… Todavia, cada uma dessas opções procura uma razão diegética, ou cria-a, cada “estilo” remetendo para um ambiente propício ao que é representado ou incutindo-lhe o timbre apropriado, por assim dizer.
Todavia, o balanço final é o de um livro que apresenta os seus elementos de uma forma elegante, fluida, mas cujo impacto emocional é muito restrito e convencional. Um livro que  encontrará seguramente um público alargado, sobretudo num sector mais jovem e em aprendizagem precisamente das questões mais prementes da vida emocional, mas que não atinge a sofisticação que, como dissemos acima, parece por vezes querer alcançar.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.

3 comentários:

Loot disse...

Claro que não posso generalizar, mas pelo menos a título pessoal "Portugal" não me conquistou por se passar cá. Por mim podia-se chamar igualmente "Papua-Nova Guiné".

Digo isto com alguma segurança porque do que me lembro o capítulo que me disse menos até foi o que decorre em Portugal (o 3º). A nível estético conquistou-me logo, acho-o mesmo excepcional. A história tem aquela vantagem das biografias, há sempre percursos interessantes e gosto dos "perdidos" à procura de uma identidade.

O 3 sombras concordo que é melhor (não a nível de desenho aí empatam). Tocou-me mais e foi dos livros que saíram o ano passado dos meus preferidos a par com Fun Home.

O que me remete para o mais importante deste comentário. Penso que a bagagem que temos de BD é importante para depois compararmos obras entre si. E por isso vinha até pedir algumas sugestões para aumentar a minha. Pergunto-lhe por alguns dos seus livros favoritos (porque ao seguir o blog já conheci muita coisa - obrigado).

Pedro Moura disse...

Caro Loot,
Em primeiro lugar, fico-lhe agradecido pelas palavras.
Penso que dizer quais são os meus livros favoritos do momento seria pouco útil, pois a minha aprendizagem não termina nunca e posso vir a mudar por várias razões. O que lhe poderia aconselhar, mas sem qualquer obrigatoriedade, era que procurasse as edições portuguesas recentes de vários livros internacionais que têm a sua importância, como o "Persepolis", o "Comprimidos Azuis", o "Blankets", o "Rugas", para ficarmos num universo de "quotidiano", "realismo", etc. Outra senda possível é procurar os muitos autores portugueses de que tenho falado, e outros que negligenciei, pois não há nada melhor do que sabermos o que se passa entre nós. Uma visita às Bibliotecas municipais, inclusive a Bedeteca de Lisboa, expo-lo-á seguramente a toda uma série de autores importantes, históricos ou contemporâneos, famosos ou mais obscuros, de países mais "centrais" ou de outras paragens.
Depende sempre muito de tantos factores, que dize "você gostará deste livro" sem conhecer a pessoa é temerário, e "todos vão gostar disto" é estúpido.
Mas olhe, fique-se com estes nomes, predilectos por várias razões ou obsessões até: Edmond Baudoin, Yoshiharu Tsuge, David B., Gary Panter, Chris Ware, Gabrielle Bell, Guido Buzelli, Lynda Barry, Yvan Alagbé, Oki Suzuki, Herman G. Oesterheld e Alberto Breccia, Luiz Gê, Joann Sfar. Num tom mais experimental, llan Manouach (bruxo!), Frédéric Coché, Brian Chippendale, Jung Hyoun Lee... e mais comercial mas electrificante, Naoki Urasawa, Brian K. Vaughan e Grant Morrison?
E o que deixo de fora...
Até breve!
Pedro

Loot disse...

Ainda sobre "Portugal" faz sentido que o facto de se passar cá tenha contribuido para o seu sucesso, ao reler a minha resposta vi que não passei esta idéia, estava mais a pensar nos textos que li sobre o livro que não me pareceram tendenciosos nesse sentido. Mas faz todo o sentido que o facto de se passar aqui deve ter peso nas vendas.

Muito obrigado pela resposta. Em relação à parte mais comercial essa conheço bem, o último livro que li foi precisamente "Rugas" e já o acho um forte candidato a melhor edição de 2013. Falta-me comprar o "comprimidos azuis". e adoro Naoki Urasawa, Brian K. Vaughan e Grant Morrison, tal como Alan Moore e Neil Gaiman (o Sandman, o Sandman :))

Os restantes nomes é que me são completos desconhecidos e que irei certamente aprofundá-los. Na BD aquele que ainda é o meu maior entrave é que não sou grande leitor de francês. Tentos empre encontrar edições inglesas ou espanholas.

Em relação aos autores portugueses, totalmente de acordo e também muito contribuem blogs como este para dar a conhecer uma fatia da nossa BD actual que tem pouca projecção em termos da comunicação social.

mais uma vez, obrigado pelo tempo dispendido.