8 de dezembro de 2009

O Livro Azul. Isabel Baraona (auto-edição)

Numa verdadeira pesquisa artística, as palavras “evolução”, “avanço”, “novidade”, não têm grande valor. Uma pesquisa é um processo que tem antes a ver com um caminho titubeante, tentativo, feito de passos curtos, variações, desvios, que vão aos poucos compondo uma imagem eventualmente, ou melhor dizendo, virtualmente alcançável, mas sobre a qual não há qualquer obrigação de cumprimento, isto é, de vitória. Existem objectivos, sem dúvida, a ideia de um projecto que concerta estratégias, opções e políticas, uma espécie de fim, mas nada implica que se atinja esse fim. Aliás, a pesquisa artística é normalmente coroada com o alcançar-se um local ou estádio bem diverso daquele que, à partida, parecera ser o que se deveria atingir.
Isto para dizer que O Livro Azul de Isabel Baraona faz parte do contínuo do programa iniciado pelos livros anteriores, e que se presume vir a ser continuado pelo menos por mais um volume. Muitos dos seus “temas”, se assim se pode entender, retornam, tal qual como algumas das estratégias de figuração, de composição, de cenografia mesmo.
Numa das páginas conseguimos ler, de forma claríssima, “não há/nem mais/nem menos”, inscrito por sobre uma complicada massa de linhas e manchas que nos recoloca nas questões de organicidade discutidas nos títulos anteriores. Sob essa mancha compósita, uma figura humana parece estar preocupada com a curta frase seguinte: “não és”. Toda esta significação negativa vê-se, por seu lado, negada na página ao lado, onde dois pares de pessoas – envolvidos em actos de uma comunhão íntima – estão colocados sob a égide de uma terceira frase: “dessin de vérité”. É ainda na frase, que encontramos na capa, invertida, e depois nas seguintes páginas, cobertas com novos desenhos, frases, linhas, que encontraremos uma pista adicional: “que linda paisagem vejo quando abro a boca”.
Há, portanto, logo ao início, a ideia de uma formação de um espaço, visível, que apenas emerge por um acto da palavra, da verbalização. O desenho surge como factor, se não da, pelo menos de uma verdade. A inversão das palavras recordará, mais uma vez, a escrita “secreta” de Leonardo, autor para quem os desenhos eram sementes de um projecto, e jamais desenhos acabados, de uma expressão totalmente livre... A qualidade de palimpsesto deste livrinhos de Isabel Baraona, a que cada novo folhear revela como que camadas sobrepostas de desenhos, reescritas, variações, correcções sequentes, aliada a esses princípios ontológicos, leva-nos a pensar em tudo isto como um projecto o qual, ainda que nos surja como uma forma acabada – os livros – aponta à sua potencialidade de infinito, de contínuo e turtuoso gesto inacabado.
Este volume tem mais intervenções não figurativas, sob a forma de manchas e riscos, que quase recordariam sujidades gráficas de tinta fresca, erros de impressão, acidentes para além do controlo do autor, aumentando o grau de ruído e, dessa mesma forma, aumentando a entropia, a abertura, a exactidão pela via do não rigoroso. Como se, ao folhear o livro, nos deparássemos, sem querer, em algo que não deveríamos ter encontrado.
Borges tem um dos seus mais famosos contos, e “objectos”, no “Livro de Areia”, um objecto que lhe chega às mãos de modo misterioso, cujas páginas jamais se repetem, livro que nos impede de encontrar a primeira e a última página, e cujo único fim só pode ser o abandono violento, não tome ele toda a existência do seu leitor. Essa metáfora da impossibilidade do leitor completo e, logo, do autor e criador completo, é como que transposto de modo seguro mas ao mesmo tempo programaticamente falho, por Baraona. Estes objectos têm um formato, informações exactas e legais, uma capa e contracapa, e uma paginação final.
Mas a promessa que têm da sua leitura não tem essa coincidência de ordenação ou de organização. São livros abertos, em aberto. Poderemos lê-los como unidades, perfeitamente legíveis e interpretáveis de acordo com a “promessa narrativa” que cada um, pela circunstancialidade da sua ordem interna, encerra. Todavia, imaginamos também que um exercício violento de os desfazer folha a folha, e reordená-los livremente, levando a uma eventual, ou virtual, nova textura interpretável. Como os actos de magia combinatória, mas em que, menos preocupada em encontrar uma qualquer linguagem universal, um denominador comum a que se pudessem reduzir todos os átomos que constituem o mundo,a autora procurasse uma repetição do caos e liberdade deles, nos desenhos e frases que colecciona.

1 comentário:

Sara Simões disse...

É um objecto muito bonito, que vem envolvido em papel de seda azul. A reprodução das imagens aqui no blog é uma pálida representação do original.
Recomendo!