8 de dezembro de 2009

Grandville. Bryan Talbot (Dark Horse)

Só no título encontramos todo um programa. A palavra não se refere tão-somente a uma Paris hipotética, passada pelo filtro de uma ficção científica retro, ou steampunk, género ao qual este livro pertence, mas é também uma homenagem e uma influência imagética directa. Como o autor revela de imediato numa nota introdutória, este livro baseia-se na obra do grande ilustrador francês do século XIX J. J. Grandville – o qual tem na sua carteira de trabalhos as ilustrações de animais antropomorfizados e gentlemen das fábulas de La Fontaine (1838) como ainda um outro livro dedicado aos animais, Scènes de la Vie Privée et Publique des Animaux (de Balzac, 1842), na qual explora a mesma condição de cruzamento de mundos. É daí que Talbot aproveita estes animais antropomorfizados, no seio de acções de uma sociedade o mais próxima possível daquela em que vivemos (vivíamos). Por outro lado, uma segunda referência é feita ao ilustrador, também francês, de ficção científica desse mesmo século, Albert Robida, que tantas imagens criou daquilo que imaginaria ser o mundo (na perspectiva civilizada da sua Paris) no futuro.
Se se perguntasse a alguém vivendo no século XIX como é que o futuro seria, é óbvio que a resposta procuraria partir dos paradigmas do seu tempo para depois explorar as hipóteses por eles lançados: um exemplo disso seria a noção ausente da electricidade, mas o pensamento de que as indústrias a vapor evoluíriam de um modo impressionante, revolucionando o que de facto viria a se revolucionar (transportes, comunicações, conforto burguês) com mais força e presença do que tinha atingido até então. São essas as imagens e essas as noções criadas por Robida, mas também outros especuladores inteligentes da ciência e tecnologia do seu tempo, sendo Verne o exemplo mais famoso. É esse olhar paradoxal para um futuro que parte de um outro passado, ou melhor, para um futuro que não foi através de um passado concreto, que nasce a corrente do steampunk, que Talbot explora aqui, como já o havia feito na sua série excelente de uma Britânia hipotética, The adventures of Luther Arkwright.
Mas há outras linhas de força que unem esta fábula fantasiosa. Para além do substrato policial (Talbot indica Conan Doyle e Tarantino), há uma outra linha, que é a da fantasia infantil. O autor indica Rupert the Bear, a famosa série infantil de banda desenhada dos anos 20, mas também poderia ter citado essa outra pérola da literatura do início do século, The Wind in the Willows, de Kenneth Grahame (1908). Não é apenas a história em torno de animais, recriando a ideia da fábula, mas o facto de que esse romance dar a ver um tema que seria explorado pela literatura do início do século XX, a saber, o da invasão da modernidade e da multiplicidade na vida do homem, e da inexorável velocidade do tempo. Com a indicação que foi publicado mais ou menos 20 anos antes dos romances de Musil e o poema The Waste Land de Eliot. Todos conhecemos a impressionante abertura de O Homem sem Qualidades (o primeiro volume publicado em 1930), as cenas rodopiantes de Sunrise, de Murnau (1927), ou outras cenas análogas neste tema. O romance de Grahame mostra a personagem do Sapo sistemática e sucessivamente fascinada com veículos cada vez mais rápidos. Essa rapidez é demonstrada de modo imediato, e espectacular, nas primeiras páginas, o prólogo, deste Grandville.
O próprio objecto, com a capa trabalhada em todos os seus elementos constitutivos e com impressão em relevo, cuidado com as guardas ocupadas com um padrão emblemático ao tema, etc., far-nos-á recordar de todos aqueles álbuns de luxo ou “de prémio” do fim do século XIX e princípios do XX, sobretudo os da casa Hetzel, Hachette e outros. Mais uma camada de significação para a sua leitura.
A trama é simples e claríssima em relação àquilo que tenta espelhar do nosso mundo. O inspector LeBrock, um gigantesco e musculado texugo (para além de Grahame, talvez compense saber que uma série de animação de prevenção rodoviária inglesa, Tufty Squirrel, tinha um texugo como polícia, e que “broc” vem das línguas célticas), tenta resolver um caso de homicídio, utilizando uma capacidade extraordinária de associação de ideias e pistas (como Holmes), e descobre estar relacionado com uma conspiração muito maior, com contornos políticos muito graves. Nesse mundo hipotético, existe um gigantesco império francês e as ilhas britânicas estão dele separadas, mas vencidas e vexadas. A animosidade entre ingleses e franceses encontra aqui uma outra forma de paródia e revanche, numa série de pequenos episódios, e sobretudo diálogos.
Essa conspiração tem a ver com um terrível acontecimento passado, a explosão da Torre Robida, e a consequente descoberta que os presumíveis culpados (anarquistas britânicos) nada têm a ver com o caso. A ligação deste caso ao das Torres Gémeas é por demais claro. Talbot não procura fazer comentários directos sobre esse caso real, mas o modo como aproveita os acontecimentos e os molda na economia narrativa de Grandville leva-o a colocar-se numa posição política de maior ponderação e cuidado do que as certezas dos governantes (quer os reais quer os desta ficção). Como é mandatário neste tipo de aventuras, existem todos aqueles elementos que compõem uma história: interesses amorosos, momentos de tragédia, muita acção, clin d’oeil a realidades que partilhamos (da guerra da Indochina ao companheiro de Tintin, de expressões literais – procurem por “horsing around” – à vaca que não ri...). Num mundo de animais antropomorfizados, a presença de humanos é estranhíssima, reduzidos que são a companheiros inferiores e sem direitos de cidadania em relação aos seres mais perfeitos. Nessa realidade, são chamados de “cara de massa”, dada a plasticidade exagerada das suas feições e expressões (LeBrock descreve-os como “uma raça sem pêlo de chimpazés que evoluíram na cidade de Angoulême”). Todo o Grandville é composto desta forma.
Não é, de maneira nenhuma, uma obra tão alongada e cheia de volutas narrativas como Luther Arkwright, apesar de empregar muitos dos elementos que compõem essa outra obra. Não é tampouco uma exploração da história nacional e do imaginário cultural como Alice in Sunderland, se bem que explore também essas ligações. E não é uma obra tão tocante e perturbante como A Tale of One Bad Rat, se bem que o tipo de ligação desse título à obra de Beatrix Potter, isto é, mais uma vez a uma imaginário da tradição literário-artística infantil sob um prisma radicalmente diferente se encontre aqui mais amplamente conduzido. Ou seja, é como se Talbot tivesse vasculhado todas as suas estratégias anteriores para construir um livro relativamente mais leve, mas que não deixa de suportar uma visão de um “futuro que não foi”. E que se adivinha continuar num futuro, este partilhado na realidade, próximo.

3 comentários:

Sam disse...

Muito obrigadpo por este seu fabuloso Blog. É um prazer saber de novos mundos dentro do mundo da BD, principalemnte de alguém que já o degusta (desculpe a´mistura de metáforas) à 30 anos.

Pedro Moura disse...

Olá, Sam,

Obrigado pelas palavras. Espero também que os projectos - presumo que estejas envolvido (e podemo-nos tratar por tu) - da Escreverescrever, e outros, continuem de boa saúde e levem à produção de mais trabalhos divulgados.

Até breve
pedro

bruno azevêdo disse...

pedro, tebnho um material para lhe encaminhar, você pode, por favor, me mandar um email no bazvdo@hotmail.com para que eu possa te explicar do que se trata?
www.bazevedo.blogspot.com