26 de janeiro de 2010

Mademoiselle Else. Manuele Fior (Delcourt).

Aquilo que mais suscita a leitura desta adaptação da novela de Schnitzler [cuja tradução portuguesa, informam-me, foi editada pela Cotovia; e aproveito para indicar que se prevê uma sua apresentação pelo Teatro da Cornucópia, entre 28 de Maio e 21 de Junho, numa tradução de Vieira Mendes], é tentar compreender como é que a conhecida contribuição do escritor austríaco para aquele mecanismo literário que se conhece como “fluxo da consciência” se presta nestoutra linguagem artística, nestoutra estruturação do pensamento, a qual dá a ver não apenas as palavras (signos que permitem traduzir noções mais abstractas) como as imagens (uma tradução mais concreta, ou uma tomada de opção em relação aos acontecimentos) previstas na novela.
Este autor italiano não pretende desviar-se desse programa da novela, logo, a passagem que faz do material literário para aquele que opera é relativamente “fiel”, encontrando o equilíbrio necessário entre o suscitado pelo pensamento de Else, a narradora e praticamente fonte única das informações diegéticas, e o peso das suas decisões imagéticas. Uma das grandes transformações imediatamente ocorridas é o facto de vermos a personagem. Isto é, por mais que um texto literário se teça na primeira pessoa, a própria presença do/a protagonista na malha visual de um livro obriga-a a surgir como que na terceira pessoa. Como imaginam, esta é uma questão por demais complexa, e que terá a ver com a transposição textual-visual, os elementos constituintes de cada uma destas linguagens bem diversas, e terá implicações maiores daquelas que alguma vez poderíamos abordar neste exíguo espaço (apesar de termos feito, noutro local, uma tentativa de debater este assunto, e exista uma bibliografia específica que lhe está relacionada). Existem casos de bandas desenhadas que tentam dar a perspectiva visual do protagonista (tal como milhentos jogos digitais), como por exemplo um trecho de uma história do The Spirit, de Eisner. Todavia, as mais das vezes essa estratégia visual não corresponde à nossa perspectiva natural, provocando uma maior estranheza face à “naturalidade” (ou melhor, uma convenção mais consensual) de representarmos o protagonista no nosso campo de visão, encontrando momentos parciais de entrosamento da sua e da nossa perspectiva (tema este estudado por Miller e Lavanchy a propósito do livro de Juillard).
Dito isto, a narração operada por Fior leva a que em variadíssimos momentos pequenas legendas que correspondem ao pensamento de Else irrompam no plano de composição visual, mostrando reacções dela às situações que se lhe apresentam. Noutro momento, em que Else recebe a fatídica carta da mãe instando-a a, transversalmente, a pedir um “favor” ao senhor Dorsay para que este salve uma dívida do pai, a leitura da carta – sob os nossos olhos, através dos de Else – é interrompida pelas memórias dela de um encontro com esse homem providencial. São apenas trechos mínimos, que nos fazem “descer” pelos corpos de ambos, de modo desarrumado. Estão aí, porém, as sementes para um sentimento de asco que se começa a formar em nós em relação a Dorsay, precisamente porque adivinhamos os sentimentos de Dorsay. Mais à frente, quando Else se sente torturada entre o pedido dos pais e a solução abjecta encontrada por Dorsay, que recai na categoria da mais pura das prostituições, ela fantasia desfechos trágicos, como qualquer adolescente ultra-romântico… essas fantasias, que passam pela sua própria morte, são-nos mostradas em pé de igualdade com a realidade vivida. Essa é outra forma de dar a ver os pensamentos e invenções de Else no plano de visibilidade da banda desenhada, sem estratégias de estranhamento (que se poderiam dar através de um filtro colorido, enquadramentos diferenciados das vinhetas, etc.).
Isto não significa que o autor da banda desenhada não procure outras formas de expressar as pequenas diferenças morais e éticas operadas sobre Else. Se se reparar com atenção, apesar de Else imaginar o que poderá “oferecer” a Dorsay em troca da quantia que salvará o pai, no momento em que essa oferta é ditada pelo próprio Dorsay a cor dela, assim como todo o enquadramento, a focalização, e a gestão de distância/aproximação entre as personagens muda radicalmente, lançando Else numa palidez enfermiça, e Dorsay num enrubescimento lúbrico. Fior gere bem as cores, preocupando-se menos com um determinado realismo do que com a transformação de várias paletas que pretendem corresponder a estados específicos quer da protagonista quer dos espaços por ela atravessados. As associações ou referências formais, da composição de página, de cor, e até mesmo da eleição de uma perspectiva feminina, partem não apenas das promessas da prosa de Schnitzler, como flutuam entre o movimento Secessão de Viena (o que é óbvio, claro está, como se vê na fantasia de Else no seu féretro aberto, colagem a Klimt) e outras bandas desenhadas que tenham atravessado a mesma matéria (penso sobretudo em Casque d’or, de Goetzinger). Mas, sem querer insistir demasiado num tema recorrente, há aqui continuidades do território de Sfar, igualmente (o desenho breve caligráfico, a aguarela como modo de escrita da banda desenhada, a eleição do impressionismo em vez de uma consolidada uniformidade figurativa, etc.).
Else é uma jovem mulher, bela, consciente da sua beleza, algo coquette até. Um determinado grau de sedução e flirt é-lhe natural. Mas aquilo que separa essas fantasias da sua prossecução real, o contacto frio e desapaixonado dos corpos em qualquer paixão é a matéria do estudo de personalidade a que Schnitzler se entrega com a sua novela. Fior consegue mostrá-lo através da inconstância do rosto de Else, a mutação das suas expressões. Pouco importa se o desfecho, a saída, parece datada de um tempo em que ainda parecia possível escapar ao cinismo através de gestos nobres e derradeiros. A sua previsibilidade faz mesmo parte da questão do destino na novela, o grau em que o livre arbítrio é limitado pelas escolhas a que somos forçados, ou até mesmo para as quais caminhamos voluntariamente apesar de sabermos o seu propósito e remate. O que importa nesta instância é o modo como o autor da banda desenhada consegue restituí-lo – e é essa a grande vitória de uma adaptação, não a mera conservação da trama superficial –, a esse gesto, através de uma relação inversa entre o desaparecimento das palavras e a sobrevivência do ambiente pelas imagens do outro lado da vida de Else, traduzindo-se, talvez, as suas últimas impressões.
Nota: livro proveniente da biblioteca da ESAP-Guimarães. Este mesmo artigo foi traduzido e publicado no site SuccoAcido, aqui.

8 comentários:

manuele disse...

Bonjour,
je suis manuele fior, je tombe par hazard sur votre blog sur le quel j'ai lu votre review de Else, je vous remercie. Comme je ne parle pas portugais, j'ai juste partiellement compris le texte, ça me semble d'ailleurs un des analyse les plus juste et approfondie que j'ai lu, jusqu'à maintenant. Si vous jamais avez l'intention de la traduire en français ou bien en anglais je serai très content de la lire et de la publier sur mon site.
une bonne journée! manuele

Antonio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Antonio disse...

Apenas para deixar uma nota curiosa: quando vi as imagens previamente à leitura do post, em concreto a de Else morta, muito mais do que Klimt, saltou-me o “Ophelia”, de John Everett Millais (que, creio, está na Tate Gallery) - especialmente por causa das flores "flutuantes".
Parece que o autor da obra já deu sinal e até pode vir a dar alguma luz sobre o assunto.
Aproveito para lhe deixar os meus mais sinceros parabéns pelo trabalho de excelência que tem apresentado aqui no seu blog, de que sou leitor fiel há muito tempo.
Pedro BM

Pedro Moura disse...

Olá a todos.
Shie-shie, but no thanks!
Mon cher Manuele, grazie mille pour tes paroles. Mon français est très pénible, mais en tout cas, je peux essayer une petite traduction ver le franglais, que tu peut changer à ton avis. J'essairai de le faire tout suite. Et je te félicite pour ton beau livre, bien sûr!
Salut!
Caro António,
é bem visto e seguramente poder-se-ia continuar o exercício de referências. Se apontei aquela obra era por ter relações directas com o escritor, o tempo, etc. Mas acho que o tom deste livro não é tão "romântico"... nem mesmo na fantasia de Else. Obrigado, e espero que tenha oportunidade ler este livro (e outros e outros...)
Pedro

manuele disse...

français or english is perfect, i look forward to it, obrigado!

joaninha versus escaravelho disse...

Boa noite
Frequento um mestrado em Estudos feministas e a minha tese vai ser sobre a representação da mulher na banda desenhada. O que quero perguntar é se possui algum arquivo em que constem bds em que a personagem principal é uma mulher e/ou um arquivo de autoras de bd para poder alargar o meu leque de documentação para o estudo em causa e em caso afirmativo se me poderia ajudar nesse campo.

Agradeço desde já a sua atenção
Lena Berardo, lena.berardo@gmail.com

Vanessa disse...

A editora Cotovia publicou em 2008 o livro "Menina Else" de Arthur Schnitzler. Informo também que o livro está disponível na Rede Municipal de Bibliotecas de Lisboa.

Pedro Moura disse...

Olá, Vanessa, obrigado pela informação. Na verdade fiz uma pesquisa apressada na internet, e a Biblioteca Nacional não me dava qualquer informação útil. Como tenho uma edição francesa, fui apressado.
Obrigado!
Pedro Moura