26 de junho de 2006

Allgirlz. AAVV (Daniel Maia)


Já aqui havia dito o que acho de antologias que partem de pressupostos que não os estéticos ou os de um valor que serve de convergência dos trabalhos apresentados, sobretudo no que diz respeito às mulheres...
Assim, passo a louvar, em primeiro lugar, o gesto de Daniel Maia em editar este AllGirlzine, Banda Desenhada Portuguesa no Feminino (por lapso, o meu scan cortou este supra-título). Em primeiro lugar, porque Maia está, conjuntamente com toda uma série de outros editores, e dos modos mais diversos (André Lemos, Geraldes Lino, a equipa da Blazt, da Sketchbook, os fanzinistas desunidos ou não, e tantos outros) em permanente busca de soluções editoriais que trilham os seus próprios caminhos, sem uma centralidade de preocupações meramente comercial. Estes gestos não me parecem ser feitos “contra” o incipiente mercado nem “contra” as grandes editoras, mas simplesmente num paralelo algo desviado (uns mais que outros, naturalmente, mas todos de forma salutar). Mais, e concretamente sobre a AllGirlz, o objecto é muito simpático, impresso a preto e branco de uma forma que é melhor com algumas histórias (as de Rosa Baptista e Joana Lafuente, esta última participante do Kzine) do que outras (perde-se o “grão” da de Cláudia Dias ou a qualidade da grattage da ilustração de Ana Biscaia), com uma trintena de páginas, e uma capa a cores... Apresentando-se como “no. 1”, sabemos que as diligências para um segundo e terceiro número já começaram. Aliás, leiam-se os pequenos textos biográficos do fim a publicação e entendam-se as forças presentes e as ausentes.
A antologia apresenta-se como bastante democrática, não havendo qualquer tipo de limitação em termos de temas ou forma, de idades ou dos currículos das participantes. Assim, surgem-nos pessoas com algum renome no mundo da ilustração e jovens, outras com alguma experiência no mundo dos zines, e ainda algumas desconhecidas de um maior público, mas cujos passos no mundo da banda desenhada não são nada titubeantes.
As minhas preferências vão, em termos globais, para os trabalhos de Carla Pott e de Rosa Baptista. A primeira está aqui com uma história muito curiosa de Alan Corbel, bretão que vê bem o coração negro que os portugueses podem acalentar, e que Pott com mínimos elementos narrativos faz presente. Rosa Baptista (participante em Memórias 10, Néscio, etc.) apresenta uma excelente versão pop da Bíblia enquanto lição das relações entre os sexos. Depois, em termos estilísticos, o trabalho de Andreia Rechena é obviamente apelativo, de uma simples eficiência, se bem que “perdido” nas vagueações poéticas quanto a personagem destas quatro páginas, e as tiras de Joana Sobrinho são muito curiosas, mas deveria ler mais a GQ para me aperceber se existe um universo narrativo a emergir a partir desta personagem, ou se se limitam a pequenos chistes das “neuras-fêmeas”. Em termos estritamente narrativos, é óbvio que o destaque focaria em KzzZ, de Sara Mena Gomes e Ricardo Silva, mas a sua intencionalidade é mais forte que a execução. Seguramente que novas aventuras e esforços serão recompensados com trabalhos mais acabados.
Finalmente, gostaria de salientar que a história de Cláudia Dias, O diário de um diletante, trabalhando também nesse território de vago fim-de-sonho de que se sai necessariamente em direcção à maturidade (gráfica, literária, poética, etc.), é uma banda desenhada que esteve exposta na íntegra em Almada há uns anos atrás, e a sua estruturação lembrou-me então (e ainda hoje o faz) Chan Woo Kim, uma história de Kevin Huizenga a qual, também quando publicada em papel (no primeiro Or Else) perdeu a inventabilidade formal original e acaba por se “desencaixar” na publicação... É o que se passa com o trabalho de Cláudia Dias, que não se apresenta da melhor maneira em AllGirlz, pois aponta preocupações de criar banda desenhada não-em-papel.
Em suma, mais um gesto salutar e bem-vindo em termos de edição, e política, sem dúvida, mas que em estritos termos estéticos – que são aquele que mais me parecem ser os que deverão ser cultivados – não trilha os caminhos mais arriscados... Talvez mesmo a grafia do zine, “girlz”, diga muito dessa atitude, quando o que se sonharia era com mais “grrrrls”. Esperemos os próximos números e mulheres com pêlo na venta. Posted by Picasa

2 comentários:

joana sobrinho disse...

ola ...por acaso gostava que visse as minhas tiras na GQ para entao chegar a conclusao q realmente sao pequenas "chistes de neuras- fêmeas"....o q não é nada facil de conciliar; uma vez q basicamente significa q nao posso andar de bem com a vida ,, notando (caso contrario) que ha uma significativa reduçao da qualidade das mesmas!!!! :) obrigada pelo comment, joana sobrinho

Flashfinger disse...

Olá, Cara Joana Sobrinho.
ISto já foi há algum tempo, mas é bem-vindo o comentário.
Sim, gostaria de ver mais trabalho, se for possível, ou através e um blog, ou de um envio em pastas zipadas ou correio normal.
Espero que as palavras que eu utilizei não tenham sido lidas como uma espécie de borrifanço mal-educado. Quando referi essas palavras, estava mesmo a associar a uma tradição magnífica que começa com a grande Aline Kominsky (a minha segunda preferida Neura-Fêmea, depois da Roberta Gregory).
Por isso, mais uma vez, sim por favor, envia mais tiras!
Pedro