27 de setembro de 2009

Logicomix. An Epic Search for Truth. Apostolos Doxiadis, Christos H. Papadimitriou, Alecos Papadatos e Annie Di Donna (Bloomsbury)

Este livro de banda desenhada, para o explicar de um modo brevíssimo, quase catalogador, será o de que conta a demanda da parte de um punhado de filósofos e matemáticos em assegurarem a construção fundamental de um edifício a que se dá o nome de Filosofia Analítica, que apesar das suas origens europeais (Alemanha e Inglaterra), marcaria sobretudo o campo filosófico contemporâneo americano, assim como áreas disciplinares como a computação. Mais exactamente, foca-se aqui a figura de Bertrand Russell como a de fundador, ponto nevrálgico e narrador da história desse campo, a partir do qual se lançam as pontes aos outros nomes que lhe estão associados: Frege, Moore, Hilbert, Whitehead, Wittgenstein, Gödel. Não sendo nós conhecedores suficientes de todas as implicações e complexidades associadas a estes temas, Logicomix não deixa de ser suficientemente claro a quem o desejar ler. Não se trata de uma abordagem totalmente virgem (“for dummies”, como é citado no livro), mas tampouco uma leitura que necessite de uma prévia aprendizagem precisa dos mesmos elementos. O livro é escrito por dois autores associados às ciências que mostram interesses e perspectivas que, a partir dessas mesmas ciências, iluminam uma qualquer produção do mundo da “arte”, da “ficção”: Apostolos Doxiadis é matemático e escritor, Christos H. Papadimitriou é professor de computação, de teoria de jogos e também romancista. Não surpreenderá, portanto, que os pontos mais assinalados se relacionem precisamente com os fundamentos matemáticos, as sementes do que levaria às descobertas de Turing, chegando-se mesmo a ver nas discussões e crises atravessadas pelas personagens principais como os momentos arqueológicos de uma revolução, trazida pelo computador, que permitiria um certo grau de liberdade (e com consequências absolutamente óbvias e ubíquas na vivência contemporânea). O livro em si é desenhado e estruturado por uma equipa de autores habituados ao mundo da animação, e, na verdade, Papadatos e Di Donna criam um livro o mais claro e legível possível, aqui e ali com pequenos rasgos de libertação de regras mais clássicas da linguagem da banda desenhada, mas a maior parte numa produção consensual, sem problemas, e também sem genialidade de maior.
A trama acompanha como que três linhas narrativas. Por um lado a contemporaneidade com toda a equipa criativa deste mesmo livro, uma espécie de trama meta-referencial, que tanto serve de enquadramento das questões centrais, como plataforma de apresentação e comentário da parte dos autores, como ainda espelho das consequências mais imediatas ou mais profundas da revolução que dão a ver. Por outro, acompanha-se “na íntegra” uma conferência dada por Bertrand Russell numa universidade norte-americana, a 4 de Setembro de 1939, precisamente no dia em que a Inglaterra declarara guerra à Alemanha, conferência intitulada “O papel da Lógica nos assuntos humanos”, e onde Russell, pacifista, e confrontado com toda a sorte dos isolacionistas americanos (que tanto englobavam simpatizantes nazis como verdadeiros objectores de consciência). É a partir dessa conferência, que se torna uma conversa quase biográfica da parte de Russell, que chegamos à terceira linha narrativa, e onde Russell se torna então narrador de segunda ordem (e moldador da narrativa que conta, naturalmente): desde a infância do filósofo inglês, passando por todo o seu estudo, crises e descobertas, os encontros sucessivos quer com os mestres (Frege, Whitehead) quer com seguidores (que se tornariam também mestres, como Wittgenstein e Gödel), e, claro, episódios da sua vida privada, doméstica (os autores explicitam no fim, através de um série de notas, quais os pontos em que tomaram “liberdades poéticas” e revelam fontes, gestos generosos que tornam a ficção, o relato, ainda mais “natural” na sua estruturação).
Poder-se-ia colocar este livro junto àqueles, por exemplo, de Larry Gonick, ou outros tantos, que não obstante o seu valor próprio (quer de estilo quer de rigor da informação), passam por introduções generalistas a um qualquer tema “escolar” (da biologia à psicologia, da energia nuclear à sexualidade humana, da religião à lógica). No entanto, a sua catalogação teria de dar conta de uma diferença de grau, já que, ainda que se possa descobrir em Logicomix uma apresentação de bases para começar a entender o significado da disciplina da Lógica, e o seu papel quer em campos como a matemática, a ciência computacional, quer na filosofia, a sua trama vai muito mais além dessas mesmas bases para – e empregando uma imagem cara aos autores – cartografar as suas implicações mais dilatadas. A verdade é que se estrutura aqui uma “demanda”, como já se afirmou, e que vai ao encontro do título da conferência de Russel. Logicomix mostra o papel que a Lógica tem nos assuntos humanos, quer dos seus imediatos agentes quer dos de toda a gente.
As sementes desta demanda poderão ser encontradas a todo o longo da história do pensamento ocidental, e na sua lenta separação entre o nous (a razão) e o mundo material, o númeno, a psique (não, de forma alguma, substantivos intercambiáveis, nem construindo dicotomias simples), para “encontrar o método perfeitamente lógico para resolver todos os problemas, desde a Lógica até ao topo, isto é, a Vida Humana” (palavras que Russell-personagem emprega para falar de Leibniz). A ambição de Wittgenstein fê-lo encontrar em The Principles of Mathematics um fito que o guiaria à glória desejada (e alcançada). Se Russell tinha operado com essa obra uma revolução sobre pensadores anteriores, procurando num pequeno número de princípios fundamentais, objectivos, e, lá está, lógicos, no qual assentar todo o edifício da matemática, essa mesma revolução levá-lo-ia à conclusão, também lógica, proposta no seu paradoxo dos conjuntos (ou “de Russell”). De novo, alerto para a minha falta de domínio destas matérias no seu mais profundo sentido; entendo, porém, que foi este o caminho que colocaria Wittgenstein no seu caminho pessoal, estudando em Inglaterra, e procurando lugares de maior concentração e encontro com a “a reflexão filosófica e as explicações metafísicas do mundo” que, nas palavras de Schopenhauer, apenas se conquistariam com “o conhecimento da morte”... levando Wittgenstein a voluntariar-se no exército austríaco, ir para a frente russa e, lá, procurar o mais perigoso dos encargos... e, ao mesmo tempo, à redação daquilo que viria a ser o Tratactus ou Tratado Lógico-Filosófico, o qual, desde a sua primeira frase (“O mundo é tudo o que é o caso”), demonstra claramente a forma como tenta resolver todos os problemas da Lógica. Delimitando a linguagem, percebendo que a própria linguagem é um sistema simbólico de representação do mundo, e não o mundo (Tratado, 4.001: “A totalidade das proposições é a linguagem”), Wittgenstein chega à epifania – no campo de batalha em que ele atinge essa clareza trazida pela “experiência da morte” preconizada por Schopenhauer – de que “O sentido do mundo não reside no mundo!” Wittgenstein via então como os “simples” existiam independentemente da experiência humana, o que se diferenciava da perspectiva de Russell, que exigia a atenção do observador. Estas complexidades são precisamente o sumo de toda a filosofia e, enfim, a tal separação a que aventei acima, entre empiricismo e razão, entre percepções e conceitos, levaria Kant, que as entrelaçou, a dizer que as percepções, sem conceitos, são cegas, e os conceitos, sem percepções, vazios; por outro lado, Deleuze e Guattari, em O que é a Filosofia?, demonstraram – pelo menos naquelas escolas que aceitam essas argumentações – os modos como as fronteiras entre filosofia, ciência e arte se poderiam delir...
Se bem que o tom do sub-título de Logicomix, e algumas afirmações dos seus autores, narradores e/ou guias sejam bombásticas demais – falando de “verdadeiros super-heróis”, “uma tragédia a nível pessoal”, “uma batalha contra as forças ilógicas”, etc. -, é verdade que se procuram desenhar as linhas que essa “saga”, essa “demanda” lançou nas mais variadas esferas da existência humana, apercebamo-nos delas ou não, vislumbremos essas consequências ou não, utilizemo-las ou não. As contradições fazem parte da vida humana, e nem todos os seus domínios poderão ser cobertos pelos mapas da lógica, e há espaços em que este livro deixa ver essas zonas de indeterminação ou “escape”.
Uma das formas como os autores cumprem isso é quando procuram enlaçar toda a trama desta demanda dos lógicos e os seus comentários com uma peça literária fundamental, a saber, a última peça da trilogia da Oresteia de Ésquilo, As Euménides (para a tornar pertinente em termos narrativos, é a assistente dos artistas que está a participar enquanto actriz numa sua encenação contemporânea). É pela voz dos autores/comentadores que se torna clara a “razão” dessa união. Uma delas terá a ver com a exploração da loucura como permanente sombra não apenas sobre Russell, como sobre todas as personagens que à Lógica se dedicaram (Frege, Gödel, o próprio idiossincrático Wittgenstein), que ganha na peça uma espécie de eco e variação, pois “há ocasiões em que o terror é bom”, numa frase do Coro da tragédia de Ésquilo.
Uma outra imagem que surge várias vezes, segundo leit-motiv da obra, e de novo não apenas sobre Russell-personagem, mas sobre todas as personagens, é a ideia do mapa. Não só toda esta demanda, isto é, “a demanda pelos fundamentos da matemática”, é vista como uma “Odisseia incompleta”, como a “certeza lógica” ocupa o “papel de Ítaca”. Além disso, e ligando ambos os motivos – mapa e loucura – o mapa é por vezes confundido com o próprio mundo, servindo, desta feita, não apenas como rememoração de uma história de Borges precisamente sobre a hubris eventualmente associada com a busca da maior exactidão possível da ciência, como também para delinear de uma forma candidamente integrada o inerente abismo da loucura que parece ter afectado todas as personagens arroladas neste relato, de uma forma ou outra. Wittgenstein, algures na sua obra (Aulas sobre fé religiosa?), discute o facto de que um milagre não pode ser explicado pela ciência, não por existir mesmo um milagre, não por a ciência não ser exacta o suficiente para o negar, mas por serem dois sistemas incompatíveis. Também a última frase do Tratado aponta para a incomensurabilidade (é provável que quem a entenda totalmente a possa aproximar do Teorema da Indecidibilidade de Kurt Gödel) de certas questões, da sua irredutibilidade ao conhecimento e compreensão humanas, aos instrumentos da Lógica, enfim: “7. Acerca daquilo de que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio”. E não nos podemos esquecer que, apesar dessa tentativa dos Gregos a Leibniz a Russell a Wittgenstein de criar uma “linguagem ideal”, Wittgenstein, com Investigações Filosóficas, atacaria essa ideia, inclusive a que ele próprio apresentara antes... É como se tudo concorresse para a ideia de que quanto mais se discursa mais nos aperceberemos da incapacidade final em esclarecer algo.
Não sem se revestir com uma faceta curiosa, os autores encontram na banda desenhada, uma linguagem artística que parece em nada se prestar à busca da lógica e da racionalidade (os próprios autores sublinham o modo como este veículo se presta aos “heróis”, que estas personagens arroladas não deixam de ser aos seus olhos), uma “linguagem ideal” para o relato não só de toda esta demanda, como de todas as suas complexas contradições e perigos, balanço entre o arrazoado discurso e o súbito desregulamento passional. O próprio título do livro ganha assim uma segunda interpretação, após a sua leitura atenta.
Nota final: agradecimentos a Ana Alves Pereira e Rui Carrilho, pelo empréstimo do livro.

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