14 de setembro de 2009

Margens & Confluências # 13-14. AAVV (Esap-Guimarães)

Serve o presente post para indicar aos leitores que já saiu do prelo o último número, duplo, da Margens & Confluências, publicação afecta à Escola Superior Artística do Porto, extensão de Guimarães, na qual tenho o prazer de leccionar. Sendo uma publicação usualmente temática, este número é dedicado especificamente à banda desenhada e ilustração, e tem toda uma série de intervenções e textos por pessoas que, de uma forma ou outra, estão afectas à escola, expuseram o seu trabalho no espaço da escola, ou foram convidados pontualmente.
A abrir encontramos um artigo de Vítor Silva, “O desenho humorista: a escolha de Marcel Duchamp”, o qual, como se depreende do título, se concentra nos trabalhos do jovem Duchamp no inequívoco campo da ilustração, mais especificamente os desenhos que criou para os salões humoristas e as publicações ilustradas da época, integrando essa produção numa questão de opção artística, visando um encontro entre este território da “ilustração” e aquele, mais instituído, das ditas “artes visuais” (enquanto peso cultural, não descritivo). O autor do artigo parte daquele campo desenhado por grupos mais ou menos organizados e programados como os Incohérents, ou revistas tais como Le Chat Noir, Le Rire, La Caricature, L’Assiette au beurre, entre outras (que são o ambiente do último livro de Blutch), para notar que ligações foram conseguidas por Duchamp a esse mesmo campo, assim como as especificidades críticas desses trabalhos a relação texto-imagem, as características próprias da imagem, o refinamento do humor). Tendo em conta que mesmo as monografias sobre o artista atravessam, quando muito, estes trabalhos en passant, tipificadamente como “fases de juventude”, necessariamente transitórias, alimentares, etc., e que não contribuem para o núcleo duro da obra a vir, esta concentração de Vítor Silva, e a sua aguda análise estética, vem provocar um reequilíbrio necessário. Todavia, e assumindo o tom de provocação que isso implica, faria a pergunta se não estará todo o gesto de Duchamp – pois não se trata somente ou sequer, no seu caso, de um conjunto de obras, de um portfólio ou catálogo, mas de um único, coerente, verdadeira e profundamente original em toda a acepção desta palavra, como raras vezes é notável na História da Humanidade e, mais concretamente, na da Arte – construído sobre este primeiro gesto (contínuo, perene), incohérent, jemenfoutiste, humorista?
Segue-se “Uma notícia iconográfica: O mundo às avessas no palácio Condes de Anadia”, de Susana Rafaela Leite, um breve trabalho mas esclarecedor e contextualizador sobre uma série (constituídos como tal) de azulejos, os quais se integram num dos temas populares iconográficos mais sustentados a partir do advento da imprensa, o “mundo às avessas” (e cuja tradição se mantém ainda hoje, naturalmente, como o demonstra o artigo de David Kunzle construído na óptica deste mesmo tema em Gary Larson, no último IJOCA). A integração deste estudo numa publicação que visa uma ideia ampla de ilustração é não só justificada, como de uma atitude informada e inclusiva, e que perspectiva e questiona os constrangimentos usuais da área, em determinados círculos menos académicos. A autora elabora assim um estudo aberto, mas rigoroso, uma leitura próxima dessa série de azulejos, procedendo à sua interpretação e integração no quadro teórico.
A revista inclui dois textos sobre áreas muito específicas da utilização do desenho enquanto instrumento menos estético do que de comunicação de rigor e precisão, o que não é uma valência de somenos dos campos da ilustração em geral. Abordam-se, nomeadamente, a ilustração científica e a arqueológica, a primeira pelo consagrado Pedro Salgado, a segunda por Luís Fortunato Lima (no fundo, são ambas áreas científicas, de “formação bivalente”, como diz Salgado). São textos que nascem de um entendimento, em primeiríssimo lugar, pragmático, profissional, de aplicação real, mas que não impede, de todo, a emergência da capacidade reflexiva e intelectual de ambos os autores, sobretudo Fortunato Lima, que explora questões teóricas mais consolidadas. Ambos os textos permitem aos leigos (permite-nos) um entendimento substancial dos pressupostos e princípios filosóficos e pragmáticos dessas mesmas áreas, levantando questões fulcrais, e até propondo uma atenção às suas aporias especiais (as da expressão vs. rigor, beleza vs. representação exacta, etc.), que ajudam a pensar não só essas áreas, como a sopesar outras.
Existem ainda páginas de projectos de Miguel Carneiro e Marco Mendes, mostrando parte do seu trabalho mais recente, e ainda de Filipe Abranches, que apresenta um breve ensaio que explicita o modo como procedeu à criação de uma encomenda de duas páginas. Um raro exercício de teorização da prática, decerto que iluminador.
Há também um artigo de João Paulo Cotrim, mas que temo estar um tanto ou quanto deslocado do contexto. Cotrim é um nome incontornável pela integração da banda desenhada na circulação das artes, a determinados níveis e campos, e de um trabalho sustentado sobre o balanço histórico e a memória da banda desenhada e da ilustração, nomeadamente nos volumes recentes que organizou sobre Bordalo, Stuart, Abel Manta, André Carrilho e João Fazenda. E os seus textos provocam sempre um equilíbrio excelente entre a apresentação e o rigor das suas opções. No entanto, integrado nesta publiação em particular, em que o pressuposto da aceitação destas áreas como disciplinas autónomas, dignas de atenção, reflexão e estudo académico é dado à partida, não tem cabimento a apologia generalizada do seu texto. Não falo, portanto, so seu valor intrínseco, mas da sua contextualização. Questões mais editoriais que autorais, portanto.
Incluem-se ainda três entrevistas, a saber, a Daniel Clowes, Trina Robbins e Teresa Câmara Pestana. E, ainda, uma nota de Isabel Carvalho, na sua qualidade de directora do curso de Licenciatura de Banda Desenhada e Ilustração na ESAP-Guimarães, como um balanço do trabalho até agora cumprido e conquistado.
Encontrarão, finalmente, um artigo deste vosso criado, intitulado “O Peregrino Cego. Leituras livres a propósito de O Peregrino Blindado de Eduardo Batarda”, em torno, como se entende, do livro de artista de Batarda, editado em 1973 pela Galeria-Livraria 111. Não afirmo tratar-se de um livro de banda desenhada, nem indico o contrário. Simplesmente leio-o no seguimento da minha desejada linha de investigação e instrumentos que me parecem pertinentes. Deixo-vos aqui alguns excertos:
[da parte intitulada Contexto]: “Apesar de os tempos correntes gostarem de criar a ficção de que não existem fronteiras, ou de que as existentes se abolirão final e felizmente, e não obstante a atenção paulatinamente expansiva para com as margens e confluências das artes, para a subsidiarização de territórios inter-, trans- ou multidisciplinares, enfim, para a submersão em toda a espécie de “cremes, espumas, espermas, cuspos” (Luiza Neto Jorge) das linguagens do acto criativo, há ainda uma forma de ver separada, hierarquizante, que teme colocar suspensos num mesmo fiel objectos que julga inanalisavelmente incomparáveis e que, bem vistas as coisas, se deve tão-somente à manutenção de velhos preconceitos, dicotomias (julgadas) inabaláveis, silêncios cúmplices desse primeiro silêncio.
“O nome ‘banda desenhada’ incute desde logo, no melhor dos casos, durante as conversas na cidade das artes, um sorriso, talvez complacente, talvez nostálgico, mas quase sempre enigmático, surpreso e as mais das vezes constituindo-se num muro que se deseja intransponível. (...). Se várias artes se queixam contemporaneamente de serem as “ovelhas negras” dos discursos e diálogos do poder artístico-económico (a dança, o vídeo, a instalação, o teatro, etc.), a banda desenhada parece não poder sequer alcançar o estatuto de ovelha...”
[da parte intitulada Texto]: “... entendo menos n’O Peregrino Blindado a existência de uma “pseudo-narrativa” (palavras do autor) do que uma narrativa mais descentralizada, isto é, menos atreita a uma lógica aristotélica clássica.”
& Agradecimentos: “Para o desenvolvimento deste artigo foram necessários e inestimáveis os apoios de Susana Pomba e Alexandre Melo, e as frutíferas discussões com Miguel Carneiro, Marco Mendes, Filipe Abranches, Isabel Carvalho e, como sempre, Domingos Isabelinho.
Um agradecimento muito especial, evidentemente, deve-se a Eduardo Batarda, não só pela criação do livro, mas pela sua disponibilidade para uma conversa sem grandes regras ou programa, a sua generosidade e humor, e igual rigor intelectual na discussão e redacção deste artigo”.
Uma nota final e um pedido de desculpas ao Professor Nuno Crato, que me ajudou num pequeno aspecto mas importante e cujo nome, por um lamentável lapso da minha responsabilidade, não foi integrado nos agradecimentos. Que fique aqui a nota, pública, desse mesmo obrigado.

Para encomendar esta publicação, contactar a ESAP-GMR.

8 comentários:

teresa disse...

que leccionas tu em guimaräes?
desenho näo espero eu...
depois mando-te o gambuzine 2 para o escrofulariares escrutinizando sem dó nem piedade
gnnnnnnnnnhhhh
tá quase a sair

Pedro Moura disse...

Sou professor de modelos em barro, físico-química e história geopolítica das Berlengas. De vez em quando, organizo visitas de estudo de espeleologia a um grupo de claustrofóbicos numa nova técnica de terapia de choque.

teresa disse...

uhhmmmm näo acredito nesses teus cursos deves estar lá por asilo politico ...ou em cursos täo pudibundos que nem podes falar deles ....
näo podes dizer que cursos dás?gostava mesmo de saber que faz um homem das letras nas belas artes....

a palavra que me saiu na rifa é
arre-pide ( o ifen pus eu)

teresa disse...

é óbvio que quase toda a gente escreve mal e um homem das letras tem lugar em todo o lado ...vá lá ,sacia a minha curiosidade näo é semäntica que ensinas por aí ou é?

Pedro Moura disse...

Copy-paste de um CV:
"na Escola Superior Artística do Porto, extensão de Guimarães, nos cursos de Licenciatura em Banda Desenhada/Ilustração e Grafismo Multimédia e de Mestrado em Ilustração e Animação Digital (com as Unidades Curriculares de História e Abordagem da Banda Desenhada e Ilustração, Panorama Actual da Banda Desenhada e Ilustração em Portugal, Ilustração Contemporânea, Argumento e Estruturas Narrativas)"

teresa disse...

só posso dizer rudemente
"cum catano"

Anónimo disse...

oi Pedro,
a revista tem muito bom ar, nem parece uma publicação académica sizzzuda :-D porém faço uma breve reclamação: 4ªf mandei um e-mail para comprar 2 números mas ninguém respondeu. dá-me o contacto do chefe, sub-chefe ou presidente da junta para eu poder insistir! beijinh* até amanhã,
Isabel

Pedro Moura disse...

Isabel...quem/qual? Eu tenho algumas comigo, e pode ser mais fácil. Mas é insistir junto aos contactos da escola. O ano lectivo abre na próxima Segunda-feira, será mais fácil apanhar uma resposta.
Pedro