9 de fevereiro de 2012

Blue. Pat Grant (Top Shelf/Giramondo)

Este livro tem várias particularidades no seu desejo de circulação. Apesar de existirem cópias impressas, em forma de livro, pela Top Shelf e pela Giramondo, o autor disponibiliza no seu site a totalidade do livro num formato navegável online (e com um trabalho de composição diferente da versão impressa, naturalmente), englobando-o ainda no conjunto de direitos previstos pelo Creative Commons, o que permite a sua distribuição gratuita, desde que se garanta a atribuição da autoria. Sendo assim, existe mesmo uma versão em formato pdf [não nos sendo possível disponibilizá-la online, enviá-la-emos a quem a solicitar, bastando deixar um email]. Só este(s) facto(s) torna Blue imediatamente num caso curioso de trabalhos que existem numa primeira fase online, mas sempre com um intuito de reprodução em papel, e ao mesmo tempo procurando posicionamentos diferentes, alternativos e até mesmo resistentes aos circuitos normalizados do comércio da cultura (havíamos já aludido a este facto a propósito de Finder).
Essa atitude, política, não é de surpreender ao tomarmos em conta a temática e o tratamento desta obra. Apesar de aparentemente se tratar de um leve Bildungsroman, em torno do surf, em que um homem se recorda de momentos da sua adolescência (um dia em particular), aquilo que marca Blue é o surgimento e a consequente presença de uma “espécie” de criaturas muito diferentes daquelas que habitavam o local, criaturas essas a que dão o nome de “azuis” e que acabam por trazer um impacto significativo no tecido cultural, social e económico daquele mesmo local. Surf e imigração. Não há sequer uma velada metáfora aqui: o autor, em variadíssimas ocasiões, revela as razões que o levaram à criação deste livro, a saber, os tumultos de Cronulla, perto de Sydney, em 2005, que opuseram “australianos” (brancos anglófonos) e “libaneses” ou “muçulmanos” (visto como “invasores”, “recém-chegados”, etc.). Ambas as partes mostraram rapidamente a cabeça feia do desentendimento e os dentes do ódio xenófobo. Enfim, tensões culturais, étnicas e políticas que se têm exacerbado nos últimos anos devido a toda uma série de factores que se têm complexado mutuamente. Se bem que o autor tenha criado uma história curta directamente sobre esse acontecimento, é ele quem explica que Blue nasce de um desejo de explorar as suas causas, consequências e entorno disso. Aliás, claríssimo no modo como apresenta o livro no seu blog: “A minha ‘novela gráfica’ sobre cultural local [localism], racismo, imigração e a praia”.
O embate de culturas, por assim dizer, entre os “locais” e os “azuis” nunca é demonstrado de uma maneira expressa, directa (com a excepção da longa introdução, mas temperada pela também oposição entre as crianças na praia, as que “de cá” e a “de fora”, o que complica dicotomias fáceis), mas antes através dos ecos que esse conflito traz: percebemos que os azuis chegaram em embarcações improvisadas; que se instalaram rapidamente e procuraram ocupar como puderam um nicho naqueles locais; que a economia se transforma - do ponto de vista dos locais, “piora” - mas que surgem oportunidades de aproveitamento; e que rapidamente emergem tensões e negociações entre as duas “populações”. Na verdade, confessamos que talvez uma leitura mais aturada e cuidadosa deste livro pudesse revelar algum desconforto da parte do autor (ou pelo menos do narrador) em relação a esses forasteiros. Quer dizer, o protagonista, Christian, que abre a narrativa para explicar como era a vida naquele subúrbio de Bolton quando era miúdo, parece querer construir a ideia de uma idealidade perdida, se bem que ele mesmo possa ser visto como um pária social, qualificando essa perspectiva como, pelo menos, “errónea”. A narrativa principal é a sua memória, de um só dia na sua adolescência, marcada pela sua descoberta dessas criaturas tão diferentes que são os azuis. Não é claro, porém, se a palavra dele deve ser tomada cum grano salis, ou se no fundo, mesmo que distorcida, pode ser vista como uma variante da voz do próprio autor.
Para já, por exemplo, por em momento algum termos acesso à voz dos azuis, ou sequer à construção da personalidade de um azul singular que seja, ao contrário do que sucede com toda uma série de personagens locais. Quererá procurar-se simplesmente criar uma distância para melhor compreender a incompreensão dos locais? Haverá uma ideia de os agregar a todos como um “mesmo” e, assim, perceber a objectificação a que são sujeitos? A noção de desequilíbrio das representações não é evitável…
Figurativamente, este livro de Pat Grant parece ser habitado por personagens saídas de um universo da Rua Sésamo, quer os “nativos australianos” quer os “forasteiros azuis”, com os seus narizes ovais, os corpos maleáveis e esguios, as suas linhas simplificadas. E estas personagens estão no interior de paisagens densas, cheias de pequenos pormenores, vegetação cerrada, detritos urbanos e civilizacionais no meio da natureza, os estranhos grafitti dos “azuis”…
Uma vez que um dos temas recorrentes é a cultura do surf, há muitas referências a essa prática, assim como descrições dos “swells”. Esta imagem, por exemplo, fala de uma pequeníssima praia mas cujas condições levam a um momento perfeito para o surf. E é impossível não pensar em ecos de Hokusai atravessando-a. Outra referência, talvez presente noutros momentos, ou na própria prática de ilustração de Grant, seria a dupla Victor Moscoso e Rick Griffin, acrescida de um incrível - e que era para nós desconhecido - Tony Edwards, autor australiano de banda desenhada de temática surfista [imagem ao lado]: mas tudo isto é uma quase obviedade permanente (recordemo-nos das opções dos famosos artistas underground, igualmente por personagens estilizados e abonecados e pormenores maleáveis e modulares das suas paisagens, objectos e intervenções plásticas), e, de resto, todos eles são citados expressamente nas notas finais de Blue, que se espraia sobre “surf comics”.
Ainda outro acrescento, mas mais obscuro e muito tangencial, é um episódio particular e lindíssimo da saga de Swamp Thing nas mãos de Alan Moore, um episódio passado num planeta longínquo, em que toda a vegetação era azul - ler algumas das páginas de Blue lembra precisamente o estranho, lento e nostálgico ambiente extralunar dessa história, “My Blue Heaven”, desenhada pela (magnífica) dupla Rick Veitch e Alfredo Alcala [aqui ao lado]. Blue encontra-se, portanto, a nosso ver, numa série de encruzilhadas de heranças e linhas de desenvolvimento que a torna um vaso ressoador muito curioso, mas de um modo despretensioso (na faixa do visual, já que tematicamente levanta questões complexas, como vimos).
Blue é ainda um objecto curioso na medida em que, sendo um livro estruturado num formato oblongo, leva a que o autor explore toda uma panóplia de possibilidades de combinações compositivas, desde estruturas regulares, semi-regulares, retóricas, decorativas, a incrustações, manuseamentos e sobreposições, variações cromáticas (entre o cinzento e o azul apenas, levando a efeitos surpreendentes), splash pages, duplas pranchas, vinhetas isoladas em expansões brancas, etc. É quase um catálogo de possibilidades, mas todas elas sempre cumprindo um propósito preciso na economia da narrativa.
Há um pormenor na estruturação da narrativa que nos chama a atenção de modo particular. Uma das linhas que organiza a história é que no dia relembrado por Christian, em que ele e os seus amigos faltaram à escola, o plano de ir surfar é alterado porque ouviram que um azul havia sido atropelado por um comboio, e que ainda era possível verem os seus órgãos espalhados na linha. Isto leva a que os miúdos, movidos por uma mórbida curiosidade, se dirijam até esse local. E, à medida que vão caminhando, surgem sempre interrupções no desenrolar linear das suas acções - se não tomarmos em conta a permanente “invasão” ou “presença” das legendas do narrador no tempo presente -, surge uma imagem com o corpo retalhado. O trauma é usualmente algo que ocupa um lugar no passado, uma ferida no tempo, por assim dizer, ao qual os seus protagonistas regressam obsessivamente, ou do qual não escapam, ou que exerce sempre um peso que vem de trás (do passado). É curioso, porém, que no caso desta narrativa, haja permanentemente uma interrupção na fluidez dos acontecimentos com essa imagem (um “flash”) proléptica: a hipotética cena dos fragmentos do cadáver da vítima que irão encontrar. Isto é, os três jovens, ao caminharem na sua direcção, são “assaltados” por essa imagem - dizemo-lo assim pois tudo leva a crer que é algo que é partilhado pelos três, mesmo que jamais o expressem verbalmente. No entanto, tendo em conta que toda essa narrativa é, em si mesma, uma analepse na vida do personagem principal, esse salto no futuro é-o no interior de um passado. E mais, uma vez que os jovens acabam por desistir de ver esse cadáver mutilado no último momento, a cena é mesmo “hipotética”. Eles nunca a viram, afinal. Isso torna a sua presença contínua ainda mais significativa como “interrupção”.
Blue é um objecto estranho, cuja integração na circulação e catalogação da banda desenhada contemporânea não encontrará um nicho fácil ou que não seja alvo de tensões. Sendo uma mescla de autobiografia, memória e ensaio social, empregando instrumentos gráficos aparentemente simples e legíveis com camadas complexas de narrativa e questões sócio-políticas, é seguramente um texto que se irá revelar cheio de possibilidades de leituras, a que novos leitores chegarão.

1 comentário:

Daniel Serrano disse...

Muito interessante mesmo. Gostaria, se possível, de dar uma olhada no pdf. Meu e-mail: dbmserrano@gmail.com