27 de fevereiro de 2012

Cinco por Infinito. Esteban Maroto (Glénat)

Como dissemos no texto anterior, é na leitura de Los Profesionales que podemos aprender alguns pormenores sobre as condições e contextos de produção da banda desenhada em Espanha que recolhemos alguns elementos de apoio à apreciação desta obra, bastamente citada, de Maroto. Se bem que não haja uma correspondência total entre o que a série de Giménez retrata e o quadro de criação de Cinco por Infinito, alguns pormenores coincidem. Para começo, o facto de os primeiros episódios serem criados em colaboração (nos desenhos de cenários, algumas figuras femininas, etc.) por Adolfo Usero, Luís Garcia, Ramon Torrents e Suso, na revista Delta 99, na qual participava também Giménez, perfazendo aquilo que se chama de “Grupo de la floresta”. Recordemo-nos que pelo menos Usero e García faziam parte dos que ajudaram a recolher material para Los Profesionales. Seja como for, a luz dessa outra obra faz com que esta perca certos contornos míticos, e certas ilusões dissipam-se, apesar dos discursos de elogios hodiernos parecerem querer que se mantenham passadas tantas décadas desde a sua produção, e que o tornam uma daquelas obras que se mistificam muito, lendo-se cuidadosamente pouco.
Brevíssima descrição. Estas histórias começaram a ser publicadas em 1968, e durariam quase dois anos até à sua conclusão. O último sobrevivente de um planeta destruído pelos seus próprios robôs, e que se chama Infinito, envia à Terra quatro naves espaciais para recrutar quatro terrestres que o poderão ajudar a agregar conhecimento através do espaço e, quando possível, a ajudarem outros povos em situações difíceis. Essas quatro personagens são o professor Altar, um físico teórico com propensão a acreditar na vida extraterrestre (e com cãs brancas similares às de Reed Richards), Aline, uma psicóloga com capacidades extra-sensoriais e de hipnotismo, Orión, um musculado agente do governo francês, e Sírio, um duplo de cinema, de grandes capacidades físicas. Este último é “apanhado” pela nave em conjunto com Hidra, uma estrela de cinema e que se vai tornando interesse amoroso de Sírio. Daí os Cinco. Apesar de não poder não haver qualquer trânsito óbvio entre o género dos super-heróis norte-americanos, cuja fase da Marvel era então recente, há elementos suficientes para se poder fazer uma comparação entre a figura do Professor Charles Xavier com Infinito, que partilham características físicas e modus operandi, ou com o Quarteto Fantástico, pelo processo de junção das personagens, apesar das diferenças. Claro que a comparação é falha no sentido em que estas personagens de Maroto não ganham super-poderes (exceptuando um ou outro episódio em que de facto isso acontece, mesmo que sejam temporários), mas tal como o Quarteto Fantástico bebia de séries imediatamente anteriores de fc pulp (Challengers of the Unknown, etc.), há aqui elementos que permitem esta amálgama de referências.
Repare-se no título. O autor diz ter adoptado um título de um livro de Ray Bradbury, mas na verdade, trata-se de uma antologia que reúne contos relativamente negligenciáveis, um de Bradbury em colaboração com a escritora Leigh Brackett, e outros escritores. Mas mais importante é considerar esse livro num contexto editorial que está (ainda?) muito próximo da tradição pulp norte-americana, com a consequente abertura do género de ficção científica a outros géneros consabidos, pejados de clichés (ou seja, tropos que à força da repetição e esvaziamento emocional e intelectual se tornam pastiches de si mesmos) . Tudo isso é palpável em Cinco por Infinito, já para não mencionar toda a carreira de Maroto, que o colocará junto a uma lista na qual estariam Frank Bellamy, Jeffrey Jones, Frank Frazetta, e Barry Windsor-Smith, ou outros autores que exploraram esse capítulo da ilustração de fantasia (e que Maroto não só conhecia bem como chegaria mesmo a emular numa fase de trabalhos internacionais, sobretudo na Marvel de Conan e Red Sonja ou em Vampirella), afastando-o das escolas mais arreigadas ao naturalismo em que se formara.
Cada episódio de Cinco por Infinito parece permitir associar o quadro geral da ficção científica a outros géneros, trazendo à colagem sociedades pré-históricas, inclusive monstros dinossáuricos, aranhas gigantes, modas derivadas de japonesisme, elementos medievais, dos maias, do Tarzan de Hogarth, de histórias de terror/eróticos dos fumetti gialli… Esta brevíssima lista será suficiente para entender que não havia qualquer programa de coerência literária, ou antes a sua possibilidade, nem preocupações de pertinência, para se poderem integrar elementos provindos de outros géneros desejados à la carte. Poder-se-ia dizer que esse mecanismo “aberto” é apanágio de séries de ficção científica, de Star Trek a Valérian, em que cada capítulo ou episódio permite empregar elementos díspares e diversos no quadro geral (o Capitão Picard como gangster da Chicago dos anos 1930, etc.), mas o problema de Cinco está no modo de tratamento narrativo e conceptual, quase esquelético. É tudo antes uma desculpa para poderem os artistas abandonarem-se a um puro prazer de criação gráfica. Na verdade, “ler” esta banda desenhada pode muitas vezes ser um exercício cansativo e doloroso, e mais vale “vê-la somente”. Não há dúvidas de que a composição das páginas atinge por vezes, na verdade, uma exuberância psicadélica e barroca, em que a vontade de criar imagens, composições livres, texturas através de colagens, tramas e recursos múltiplos parecem colocar em segundo plano a eficiência ou até mesmo a importância da história. Há um prazer quase exclusivamente visual a ser perseguido em algumas páginas. Se bem que também nessa camada de trabalho haja pistas para ver aproveitamentos superficiais - algumas naves são decalcadas do 2001 de Kubrick, muitas das figuras humanas parecem ser decalcadas de várias fontes, tendo em conta a disparidade entre o dinamismo das figuras e as acções ou o ambiente, e situações que se notarão no trabalho futuro de Maroto apontam a uma prática menos correcta, mas que apenas uma aturada investigação poderia demonstrar ou desmentir - e pouco interessantes. Fundos em branco “despachados”, escolhas pouco felizes de figuração, dinamismo… já para não falar dos clichés que tornam a obra problemática no que diz respeito às políticas de representação dos sexos, e etnias, já em abertura no seu tempo…
A linguagem escrita, sobretudo na segunda fase, entra em laivos de poeticidade vaga e barata, muito em voga na década de resto, que se torna insuportável aos olhos de hoje. (“Dias que se alongam e deformam como tenebrosos fantasmas nas paredes do tempo”, “Um vento de tristeza empurra-me até ao silêncio. Ao longe, a esperança cavalga e uma vez mais vem ao meu encontro”…).
Esta edição dá a ver, num ápice, as condições adversas e complicadas da dita indústria da banda desenhada nesta época. A falta de condições de trabalho, de tempo para desenvolvimento, as práticas profissionais, a ausência de projectos de longa duração, a provável falta de pagamentos condignos, etc., levam a que não se possa estar aqui perante uma obra que sobreviva à visão crítica e mais informada da contemporaneidade. As narrativas são resolvidas quase sempre em torno de clichés, o mecanismo deus ex machina é empregue a cada curva, ficam mais buracos por resolver do que resolvidos, não há qualquer tentativa em explorar as personalidades das personagens, mesmo as principais, e tentar criar redes de interacção dinâmica entre elas (na verdade, se é muito imediata a comparação dos agentes terrestres escolhidos à família do Quarteto Fantástico, é preciso sublinhar que na obra de Lee e Kirby, apesar de tudo, se cria de facto um ruído de fundo de interesse humano, na novela emocional e dramática entre essas personagens, ao passo que aqui é tudo reduzido à imediata necessidade das acções, que são quase sempre reacções expectáveis). As habilidades físicas destas personagens - afinal, até a psicóloga Aline e o físico Altar parecem utilizar mais os punhos do que as suas capacidades intelectuais, culturais e dedutivas - fazem pressionar de novo o pendor para os super-heróis…
E narrativamente as coisas são despachadas às três pancadas. Há um episódio em que Oríon passa a poder respirar debaixo de água, mas não há qualquer alteração física. Depois regressa ao normal sem grande discussão. Não há qualquer preocupação em adensar as culturas (monoculturas, diga-se de passagem) que se visitam de planeta a planeta. Há um punhado de histórias, já no final da série, em que todos os acontecimentos e elementos - vampiros, pessoas voando, dragões alados, etc. - são vistos como supostas raízes de mitos na Terra (ou alhures). E o episódio final é uma arrumação apressada, sem qualquer convicção e lógica. Repetimos: parece que o prazer e somente o da criação visual, que de facto, na época - mesmo cotejando-se com os vários livros da Losfeld, as revistinhas de terror com splash pages berrantes, etc. - seria algum marco diferenciador.
E a sua circulação internacional foi imediata, inclusive no Brasil, pela Brasil-América logo em 1971, e Portugal, na revista Topbanda, nos três últimos números, em 1975 (como “Cinco vezes Infinito”). Curiosamente, esta série de Maroto seria reeditada intermitentemente nos Estados Unidos em 1984, pela pequena companhia Continuity Comics, do artista Neal Adams, que viera a conhecê-la através da edição mexicana. Adams traduziria a série como The Zero Patrol, reescrevendo os diálogos, retocando a arte-final e fazendo um trabalho de coloração que a aproximaria aos gostos mais tipificados dos leitores de comics norte-americanos. As alterações são substanciais, mas apenas a torna igualmente negligenciável, se não mais ainda, em termos gerais [compara-se esta página com a primeira apresentada acima].
Não há, realmente, qualquer tipo de sofisticação em Cinco por Infinito, e recordemo-nos que no seu tempo havia já acesso a obras de alguma complexidade, mesmo no interior da banda desenhada e de alguma acessibilidade no país de Maroto. Bastaria citar o primeiro ciclo de El Eternauta, de 1957 a 1959, que teria circulação e fama em Espanha, ou a série Dan Dare de Hampson.
Ainda assim, é um marco na história desta arte em Espanha, que teve uma fortuna ligeiramente maior do que em Portugal em termos de presença, circulação e vendas (apesar da crise recente), e a dedicação a que as editoras comerciais espanholas votam à sua história é inigualável no nosso país. O que nos deveria provocar um pouco de ciúmes, se não vergonha.

1 comentário:

Clauber Costa disse...

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