Um fanzine é, acima de tudo, um espaço de liberdade. Um espaço no qual os intervenientes têm toda a liberdade de expressão possível. Isso porque o fanzine, assim como outros meios de expressão existentes (nada vive sozinho), vive à margem dos vários campos de poder, sejam estes económicos, políticos, e outros, inclusive os das hegemonias culturais, insistentes em hierarquias de gostos e ou processos de criação. Isto não quer dizer que este ou aquele autor, ao criar um fanzine, não esteja a responder aos campos da criação cultural - ao fazer um trabalho de género, que procure se referenciar em trabalhos de outras pessoas, que procure chegar a um público mais alargado ou mais elitista - ou ao económico - como "trampolim" de chegar a publicações mais comerciais, ou tentando competir com elas - ou ao político - sobretudo no que diz respeito às publicações "de intervenção" ou com grande expressividade social. (Mais)
23 de novembro de 2004
UM FANZINE É...
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Pedro Moura
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6:26 p.m.
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In the Shadow of No Towers. Art Spiegelman (Pantheon; ed. esp., Norma, ed. fr. Casterman)

Como é possível que, a um só tempo, seja perigoso ler este livro com expectativas criadas por Maus, e também operativo não esquecer essa ligação? É possível, na medida em que se Art Spiegelman tem algo de diferente, é a sua capacidade quase única em trabalhar na fronteira artificial que separa a forma e o conteúdo da banda desenhada. Não se trata de um livro taxativa e escorreitamente narrativo ou fechado, mas é ainda um livro sobre um tema obsessivo do autor: o modo como a memória pessoal se reintegra no consenso social, por um lado, e numa tradição específica da criação da banda desenhada (a criação de uma verdadeira memória?). Spiegelman procede, através duma multiplicidade de formalismos funcionais, à explicitação do que sentiu imediatamente antes, imediatamente depois e durante o fenómeno a que chamamos "11 de Setembro". É um livro confessional, político, expressivo, ensaístico, e para além disso, numa harmonia caótica, se tal é possível. O texto introdutório e o ensaio final (e o "apêndice") não só consolidam o propósito dessa "Não-Sombra", como apontam os limites do território em que o autor trabalha (a memória).
(publicado em Mondo Bizarre 21) 
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Pedro Moura
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5:56 p.m.
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Etiquetas: EUA
Na prisão. Hanawa Kazuichi (ed. fr., Ego comme X; ed. ingl. e esp., Fanfare/Ponent Mon)

A palavra medíocre, no seu sentido primário, significa "a meio da subida de uma montanha". Ainda que nem sempre nos possamos obrigar a sofrer experiências-limite, é perfeitamente possível apreciarmos ao máximo o meio de um caminho, se descobrirmos onde se encerra a mais subtil das belezas nele próprio. Hanawa foi um dos participantes da Garo, a plataforma de lançamento de uma manga menos convencional, menos devedora a Tezuka, e mais autoral. Preso três anos por posse ilegal de armas de fogo, essa experiência levá-lo-ia à criação deste livro, que mostra a sua vida na prisão. Fã e "discípulo" de Tsuge Yoshiharu, também Hanawa prefere menos melodrama e mais atenção às subtilezas que podem compor (ou antes decompor) "o tempo que passa". Numa imagem que mostra a sala de jantar, indica-se o local da "Ratoeira. Às vezes apanham-se ratos". Essas ratoeiras estão espalhadas pelo livro todo, e servem para nos apanhar quase imperceptivelmente. Numa leitura descuidada uma colecção de narrativas pedestres, este é antes um livro que segue o coração, a cabeça e o estômago: a contínua dissertação sobre comida, a concentração nos movimentos das mãos e dos rostos, as pequenas relações ora tensas ora desprendidas entre as pessoas, os momentos em que a representação física se altera com alguma metáfora visual, a adaptação de uma canção infantil, são apenas indícios dissemelhantes e dispersos numa obra quase arrítmica e, por isso, mais imitativa da vida. (Em 2002, foi adaptado ao cinema).
(publicado em Mondo Bizarre 21) 
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Pedro Moura
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5:55 p.m.
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Etiquetas: Japão
Montanhas de Verde na Serra de Sintra. João Paulo Cotrim e Alain Corbel (Área Metropolitana de Lisboa)
Usualmente, quase por princípio, um projecto institucional que envolva a criação com um fito determinado estabelece delimitações dentro das quais é difícil algum movimento livre. Mas quando entregue a autores competentes - na melhor acepção da palavra - esses fitos são apropriados e empregues, juntos ao talento, para alcançar novos e diferentes frutos. Reinventando os propósitos (talvez seja um preconceito meu) limitados ou estreitos desse projecto, nomeadamente a sensibilização ecológica, geográfica, etc., os autores atingem algo mais pessoal, Cotrim sublimando cada vez mais a sua escrita sinestésica e Corbel gerindo o equilíbrio entre uma linguagem ora despojada ora metafórica. Ainda que não seja a melhor das plataformas para estes autores que já provaram noutros trabalhos a capacidade de experimentação e diferenciação que possuem, não deixa este de ser um livro interessante no seu percurso. Terceiro volume de uma colecção dirigida sobretudo aos jovens, acompanhamos Ana na descoberta da Serra de Sintra. A colaboração das cores de Alex Gozblau e a consultadoria científica de José Manuel Marques são seguramente peças importantes neste jogo equilibrado duma colaboração criativa e mutuamente exponenciadora.
(publicado em Mondo Bizarre 21)
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5:51 p.m.
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Etiquetas: Ilustração, Infantil, Portugal
Blood Orange. Vários, # 1 - 3 (Fantagraphics)
Para quem não pode estar a par e passo dos artistas mais alternativos dos principais focos de criação de banda desenhada no mundo (leia-se "centros"), ou perdeu a oportunidade de comprar os fanzines que publicaram esses trabalhos, surgem de vez em quando estes projectos editoriais que pretendem fixar de uma forma mais permanente essas fabricações. Alternando material de vários fanzines norte-americanos ou inéditos e éditos de artistas menos conhecidos (ex., J. Hankiewicz, Huizenga, a holandesa Hartjes, o brasileiro Fábio Zimbres) com outros mais famosos (Altergott, Collier, Regé Jr.), e ilustrações (sketchbook de G. Baseman), parece que o editor Chris Polkki pretende também um retrato geral de uma tendência alargada de criação. Os próximos números prometem-se maiores (80 e tal páginas) e juntando artistas de muitos quadrantes, desde americanos, a europeus como a malta do Le Dernier Cri e Fréderic Poincelet e a fabulosa "scary-cute" japonesa Junko Mizuno.
(publicado em Mondo Bizarre 21)
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Pedro Moura
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5:49 p.m.
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Etiquetas: Antologias, Brasil, EUA
17 de setembro de 2004
Broderies. Marjane Satrapi (L’Association)
Satrapi abomina que a encerrem nesse inexistente género e aprisionante preconceito político da banda desenhada (e de tudo o resto) conhecido como "feminina". E chega mesmo a recusar convites que a integrem em exposições da "criação feminina" desse modo. Não obstante, a autora do ainda não sobejamente conhecido Persepolis resolve revisitar o território das memórias, estas últimas mais recentes, sob o signo exclusivo da mulher. Mais, um grupo de mulheres iranianas, que fala de tudo e mais alguma coisa, de narizes, coisas várias que se cosem, chá, chaves, fugas, mas sobretudo de homens, sejam eles amantes ou maridos, amados ou odiados. O estilo continua simples, a preto e branco, o que não impede Satrapi de nos ofertar com soluções extremas e constantemente surpreendentes num livro feito sobretudo de diálogos. Para um público exigente e aberto à mais pessoal das expressividades, Broderies (Bordados) serve muitos objectivos: aproximarmo-nos de uma realidade que não nos é familiar (o Irão das últimas décadas), abalar as diferenças (o que move as mulheres é universal), alertar-nos (da Internacional Machista) e até mesmo fazer-nos rir com momentos tristes.
(publicado em Mondo Bizarre no. 20)
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Pedro Moura
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6:47 p.m.
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Etiquetas: França-Bélgica
Enfants C’est L’Hydragon qui passe. Jean-Claude Forest (Casterman)
Das várias definições de Calvino, um clássico pode ser "o que tiver tendência para relegar a actualidade para a categoria de ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não puder passar sem esse ruído de fundo". O ponto importante é o pólo "actualidade-ruído de fundo"; Calvino não explicita se se refere à nossa (leitores actuais) contemporaneidade ou à da obra. Seja como for, é justo que na (desiquilibrada) colecção Classiques a Casterman inclua este álbum dos anos 80 do autor de Barbarella. Como todo e qualquer livro, este também tem a sua dimensão de virtuosismo técnico, de propósitos estéticos e de âmbito político, mas talvez não sejam muitos os livros de banda desenhada que alcancem este equilíbrio interior desses propósitos que parecem claros e por isso mesmo mereça esse nome de "clássico". Superficialmente, é a história de um jovem rapaz, Jules (quase-andrógino, nas feições e nos comportamentos), e as relações tempestuosas com uns (a mãe, os "inimigos"), cúmplices com outras (o pai, o velho Original), e outras ainda mais dúbias (com Lili Tambour, uma "andrógina"?). O que se busca é compreender o jovem? Ou os caminhos desaparecidos de uma Europa feita de canais? O por que razão um pássaro de cabeça de vidro pode significar algo mais que um sonho concretizado? Uma obra contida, textualmente densa e de temporalidade curiosa, mas ainda assim uma interessante reminiscência de um tempo que não se dá como perdido.
(publicado em Mondo Bizarre no. 20)
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Pedro Moura
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6:46 p.m.
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Etiquetas: França-Bélgica
Caravane. Jorge Zentner e Bernard Olivié (FRMK-Frémok)
"O nosso percurso - explica-me um guia - abre uma ferida na paisagem. A esta ferida... alguns chamam-na de caravana." Outro tipo de feridas são os versos, cuja etimologia remete precisamente para os "sulcos" que se abrem na terra arada. E é a poesia, até mesmo entendida como apenas um mecanismo de retórica, que compõem este livro; é como se fosse uma espécie de colecção de aforismos de um homem que atravessa o deserto: intermitentemente, apresentam-se frases curtas numa folha em branco (mas não branca), ou 3 pranchas que estruturam em banda desenhada uma ideia do que é uma caravana, um deserto, a vida. O escritor de Le Bruit de le Givre (com Mattoti) reúne-se mais uma vez com Bernard Olivié, para publicar um livro cuja simplicidade superficial (o desenho, a planificação, os cinzentos) sustenta a pretensão de apresentar literariamente uma vida mais fiel aos impulsos humanos do que aquela que levamos (nós, urbanos). O fim da viagem é como "um fruto maduro que cai de uma árvore seca", mas as compotas permitem uma continuação do seu usufruto. Dependendo dos gostos por compotas com mais ou menos açúcar, é o que Caravane é, umas vezes pejado de sensibilidade, outras de sentimentalismo.
(publicado em Mondo Bizarre no. 20)
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Pedro Moura
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6:43 p.m.
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Etiquetas: França-Bélgica
Pasolini – Une Recontre. Davide Toffolo (Casterman)
"Que significa ser comunista hoje?" era a pergunta que Nanni Moretti se fazia em Palombella Rossa. A importância estava na absoluta necessidade em revermos quem somos e porque lutamos a cada nova etapa. Igualmente, "quem é Pasolini?" não se trata de uma pergunta a uma ignorância, mas sim a uma intensidade. Toffolo é músico e autor de bandas desenhadas famosas em Itália para um público alargado (Animali, Fragoli, Fandango), e este é talvez o seu trabalho mais pessoal. Autoretratando-se, é contactado por um Sr. Pasolini, que nunca se entende se é o verdadeiro ou se um sósia ou se um fantasma (o site indicado no livro existe, tal como o sósia). Através de uma série de entrevistas a esse misterioso alter-ego, constrói-se um mapa do pensamento do poeta, realizador e, acima de tudo, livre-pensador. Homenagem, revisão de um espírito, o contrário de uma hagiografia, este é um objecto estranho que desafia a catalogação. Não cai nos termos simples de uma biografia, nem tampouco de adaptação, mas antes de um verdadeiro exercício de cidadania cultural ao apropriar-se das forças e do significado pessoal de Pasolini para si-mesmo, para no-lo ofertar com a maior das generosidades. Na capa, esconde-se uma caveira espreitando. Porque também a morte é uma personagem sempre presente neste livro.
(publicado em Mondo Bizarre no. 20)
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Pedro Moura
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6:39 p.m.
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Soupe Froide. Charles Masson (Casterman)
Um alienado social escapa do asilo onde se encontrava porque lhe serviram um prato de sopa fria, e isso tinha sido um atentado à sua dignidade humana. Na verdade, tinha sido um engano. Acompanhando a fuga desse homem, e todos os seus pensamentos, e vendo o que se passa ao mesmo tempo com as pessoas com as quais há relação (a filha, a ex-mulher, o médico, a enfermeira que servira a sopa), tentamos reconstruir o mundo que lhe sobra. Que é primeira obra de Charles Masson, médico, nota-se na qualidade do ritmo, nas desnecessárias repetições (até mesmo quando o objectivo é o esgotamento pela repetição), e até numa certa romantização do trabalho de um médico (é um quem assume a palavra no fim; o autor como personagem?). Não deixa de ser interessante colocar a banda desenhada como forma de expressão das preocupações específicas de uma profissão cujas consequências sociais são aqui exploradas. O autor parece querer-nos mostrar que o alienado é, acima de tudo, um homem, mas pergunto-me se essa compaixão é suficiente para construir um bom livro. É redimido, porém, pela sua despretensão e frontalidade.
(publicado em Mondo Bizarre no. 20)
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Pedro Moura
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6:37 p.m.
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Etiquetas: França-Bélgica
