22 de setembro de 2007

Reading Comics. Douglas Wolk (Da Capo Press)


Os ensaios que compõem os capítulos deste livro foram publicados anteriormente em toda uma diversidade de suportes editoriais, ocasiões, diálogos, circunstâncias que não importam especificar senão na sua própria natureza circunstancial que se dissipa na medida em que Wolk os reescreve ou reapresenta para se tornarem num corpo coerente e organizado neste livro. Ainda assim, essa natureza multímoda é notável pela própria diversidade de aspectos da banda desenhada que são debatidos, desde aspectos históricos e sociológicos a abordagens mais profundas, em termos artísticos, ontológicos ou de posição epistemológica no concerto dos saberes e das artes.
Uma outra grande força de Wolk está no facto de não haver tanto um desejo de catecismo, isto é, de uma instrução pelo dogma, do estabelecimento de uma doutrina infalível, mas antes na instauração de uma possibilidade de argumentação, de discussão no seu sentido kantiano: a de que um juízo de gosto pode ser proferido sem interesse (de “interesseiro”, não de “interessante”), e num tácito acordo de que ambos os interlocutores convergirão, mais tarde ou mais cedo, num sentido comum (diferente do “senso comum”). Assim sendo, são menos importantes as “lições” que Wolk ambiciona materializar do que os passos que ele dispõe em toda a sua argumentação para as tornar pertinentes, exequíveis, passíveis de serem debatidas.
Uma primeira e curta parte é feita de princípios gerais sobre os significados, potencialidades e especificidades da banda desenhada, matéria debatida já por muitos outros autores anteriores a Wolk (quer do campo particular da banda desenhada, como Kunzle, McCloud ou Groensteen, quer de um campo mais vasto, de Arnheim a Lessing, Barthes ou Sontag), e em relação às quais o contributo de Wolk é mais da ordem da exposição clara do que do rompimento fulgurante de novos trilhos. A segunda e mais extensa parte é constituída por recensões particulares de uma série de trabalhos específicos, ou melhor, se mo permitem, artigos sobre ler bd. Wolk revela de imediato que não se trata de uma escolha qualitativa ou sequer uma espécie de exercício catedrático de construção de cânone – muito interessante de notar, sobretudo contra os que acreditam na existência de “idades de ouro” no que diz respeito à criatividade e poder interno da banda desenhada, e impermeáveis e insensíveis ao feroz, titânico e brilhante momento em que vivemos nesta arte. Um cânone é impossível de se construir, pois este só pode emergir com um largo intervalo de tempo, um consenso que nasça de um diálogo de saber e de memória, grave ausência neste território. Todavia, essa falta acaba por se tornar numa espécie de robustez da liberdade de pensamento e de diversidade da banda desenhada, permitindo oscilarmos, enquanto apreciadores, leitores, críticos, pedagogos, fãs, seja qual for a nossa atitude, por todos os géneros, círculos de produção, formas de apresentação. Como, de resto, ocorre na cultura. Isto é óbvio. Mas parece ser ainda necessário afirmá-lo, sendo a banda desenhada um modo de expressão que suscita mais paixões e tribalismos do que verdadeira curiosidade intelectual e amplitude de visão. Essa liberdade de leitura expressa-se na diversidade dos autores ou livros discutidos nas recensões-ensaio de Wolk, que vão desde um mainstream com Frank Miller, Alan Moore, Jim Starlin, ao círculo alternativo dos irmãos Hernandez, Dave Sim e Kevin Huizenga, a autores que escapam de todos os modos dessa dicotomia (já de si fluida) como Alison Bechdel, Carla Speed McNeil, passando ainda por David B., como exemplo de “estrangeiro” (claro está, por ter sido traduzido para inglês).
De uma forma muito superficial, poder-se-á dizer o seguinte (banalidade): Wolk faz apresentações sumárias das obras de que fala e através da mais feliz das associações livres, ainda que ancoradas na inteligência, pertinência e uma forte cultura humanista, vai despertando os sentidos inerentes às mesmas, sublinhando aquilo que mais suscita interesse e força na leitura, o que leva a despertar a curiosidade e busca pelas obras que não se conhecem (partindo do pressuposto que haverá um ou outro autor desconhecido para os leitores portugueses) e uma reponderação ligeira sobre os que se conhecem. Essa reponderação deve-se a pequenas chamadas de atenção, análises textuais brilhantes, súbitas fulgurações esclarecedoras, ou simples reparos de algo que não havíamos notado. Nem todas as suas considerações são concordáveis, como se disse, mas todas elas são sustentadas da melhor forma. Só isso merece o estabelecimento de um diálogo inteligente com este livro.
Mas nem tudo são rosas... Na badana do livro reza que este é o “primeiro livro de teoria e crítica da banda desenhada sério, legível, provocador e destruidor de cânones”. Sei que provavelmente esta é uma superficial impressão da minha parte em sentir-me vexado e abespinhado até com estes comentários de elogios publicitários, tão típicos dos livros norte-americanos (e que, infelizmente, a meu ver, vão entrando no nosso mercado livreiro), mas a razão mais profunda é que revela a falta de honestidade em estabelecer um contínuo diálogo com outros autores que anteriormente falaram da banda desenhada de um modo equilibrado. Aliás, e esta é uma questão em aberto que os scholars norte-americanos não parecem conseguir chegar a uma conclusão única, há uma grande diferença entre a investigação europeia, onde vemos nomes como os de Groensteen, Peeters, Baetens, Lefévre, Morgan, entre outros, a serem citados uns pelos outros, a entrarem num diálogo extremamente coeso e inteligente, a completarem-se mutuamente, ou a contradizerem-se para melhor esclarecer as especificidades deste meio. Mas quando se lêem livros do campo da investigação norte-americana, ou livros como este que versam mais uma crítica livre, as mais das vezes parece que cada novo autor quer “começar do zero”. Isto já ocorrera com o filósofo David Carrier, por exemplo, mas apesar de podermos falar de autores como David Kunzle, Bart Beaty, Charles Hatfield, Joseph Witek, entre outros, como autores de livros fundamentais no estudo e acompanhamento da banda desenhada contemporânea (não necessariamente apenas norte-americana), parece que muito dificilmente se consegue construir um discurso de continuidade. Apenas McCloud e Eisner são sempre citados pelos seus livros, que estão mais próximos de manuais do métier do que de verdadeiros exercícios de sistematização e análise. O que, de resto, revela muito em relação à atitude intelectual dos “investigadores” norte-americanos; é como se todos desejassem ser “o primeiro a ter pensado na banda desenhada como algo realmente digno de discurso intelectual” (veja-se, por exemplo, a apresentação do mais recente This Book Contains Graphic Language: Comics As Literature, de Rocco Versaci, para “mais do mesmo”). Hélas!, estão atrasados por décadas dessa originalidade, pois poderíamos aqui lembrarmo-nos de Gilbert Seldes ou e. e. cummings, para falar apenas dos norte-americanos. Talvez se prenda com o facto de que cada um destes autores parte de uma disciplina completamente diferente do outro, talvez até diametralmente oposta (uns são historiadores, outros sociólogos, outros “English majors”, outros filósofos, etc.). Talvez se prenda com o facto de que cada um se dedica a um nicho da banda desenhada que está em termos separada de um outro (mainstream vs. alternativos vs. undergound vs. super-heróis vs. fantasy vs. etcs. sem fim). Talvez se prenda com o típico egoísmo de um fã (“lemos o mesmo, é certo, mas eu li melhor que tu”). Talvez se prenda com uma simples falta de vontade em realmente estabelecer um diálogo. Não tenho resposta para esta situação, é apenas uma constatação de factos.
Não obstante, Wolk mostra mesmo ser capaz de navegar em toda a sorte de águas, e mantendo o barco numa rota certeira. Só lendo, no mais acabado dos gerúndios, é que podemos pensar sobre a banda desenhada.

5 comentários:

Sara Figueiredo Costa disse...

Como sempre, vale a pena ler o que escreves. Mas deixa-me propor uma alteração ao final, para reforçar ainda mais a tua ideia, e porque sei que também aprecias jogos semÂnticos... É que o gerúndio contém em si a ideia de iteratividade, de uma acção continuada ad aeternum (ainda que esta eternidade seja obriamente passível de ser quebrada por outras palavras no contexto), ou seja, melhor do que ir lendo 'no mais acabado dos gerúndios' é ir lendo com a consciência desse gerúndio e da sua iteratividade. Assim, lemos mais do que uma vez, ou lemos uma só vez mas pensamos mais do que uma vez, e lemos e pensamos as vezes que forem necessárias para lermos a sério e sem superficialidades de entretenimento.

Tenho dito (e como se vê, ando outra vez às voltas com a linguística e a semântica... mas não resisti).

Flashfinger disse...

E fizeste muito bem em não resistir. É muito bem visto. Mas é o mesmo dos dois espelhos de superfícies viradas uma para a outra: reflectindo-se mutuamente até a (um) infinito. A leitura de um outro obriga-nos à releitura da obra, que nos permite uma nova leitura, que ofertamos a outrem, e assim sucessivamente, lendo sempre cada vez "mais".
O livro do Wolk tem momentos fabulosos de grandes leituras ("close readings", como se diz nos E.U.A.), como por exemplo com Grant Morrison, em que o prazer implícito das nossas leituras ganham corpo na razão.

Anónimo disse...

Que sensibilidade: Julia Kristeva a falar com Michel Foulcalt (no caso, com a primeira a imitar o segundo, Pedro Moura/Foulcalt/Nuno Rogeiro que sabe de tudo e mais alguma coisa). Dois espelhos (vazios) em conversação, utilizando termos que eles próprios desconhecem e não sabem o significado. Caso para dizer: "a impostura dos intelectuais" (que originou um interessante resenha daquilo que ainda ninguém tinha tentado desconstruir, tal o gigantismo da tarefa). Também só é cego quem quer, sobretudo, perante esta intelectualidade de "épater les bourgeois"

Flashfinger disse...

Mais um anónimo...
Mas se há algum signficado de termos que desconheço, agredecia ao mesmo que explicitasse concretamente o quê, para que possa com ele aprender e melhorar.
Obrigado.
Pedro Moura

Sara Figueiredo Costa disse...

Mais um anónimo, de facto... E assim se perde uma boa oportunidade para um debate civilizado sobre conceitos como os da ‘iteratividade’. Mas como com anónimos não debato, ficaremos por aqui. É triste, porque assim perco a oportunidade de continuar a imitar a Júlia Kristeva a imitar o Pedro Moura (rábula divertida...) e de poder brilhar um bocadinho por conta própria com o que sei sobre a iteratividade e a semântica linguística e com o que já escrevi sobre ela, em espaços devidamente validados pela Academia (essa negra instituição que só sabe produzir impostores intelectuais peritos na utilização “de termos que eles próprios desconhecem e [dos quais – acrescento necessário, mas que sei eu de sintaxe?...] não sabem o significado”.). É triste sobretudo porque do debate civilizado costuma nascer mais sabedoria, e assim ficamos todos privados dela.

(Desculpa lá, Pedro Foucault, a invasão das tuas caixas de comentários desta forma abrupta, mas pareceu-me que também tinha uma palavra a dizer. Retiro-me já, porque gosto de saber com quem falo. Cumprimentos da Kristeva.)