6 de julho de 2012

Blankets. Craig Thompson (Biblioteca de Alice)

Por ocasião da edição portuguesa do livro que mais cimentou o nome de Thompson no universo da banda desenhada, inclusive num panorama mais alargado que os habitués, e tendo já escrito sobre ele quando da edição original, e também por ocasião da nossa leitura, difícil, de Habibi, deixemos aqui uma breve nota. Reler Blankets, ou ler pela primeira vez o livro em português, é uma sensação de uma distância estranha, que parece ter deixado mais um hiato do que pontos de associação (não negamos o que se escreveu anteriormente, nem queremos reificar esse texto - ou o presente - como esgotando as suas possibilidades interpretativas - mas assinalemos que também o foi feito num processo de - ainda - aprendizagem crítica). O tom confessionalista marcava uma viragem na senda cada vez mais consolidada das autobiografias em banda desenhada, cuja exponenciação dos anos 1990 conheceu várias vertentes e, apesar de ter as suas conquistas magníficas  mais recentes (Bechdel, Barry, Mendes e, sempre, Baudoin), também conheceria as suas versões “demóticas”. De certa forma, Thompson era uma delas, apesar de formalmente ser um tour de force das suas várias linhas de desenvolvimento em tensão.
O autor experimentava ali formas narrativas novas - sem com isso partir para experiências disruptivas, experimentais, mas antes negociando-as com modos clássicos - que se tornam palco das re-significações do Si que o trauma explorado lhe havia imposto. Nesse aspecto, Thompson não está longe da expressão da subjectividade que emergiu na contemporaneidade, e sobretudo graças ao género da autobiografia na banda desenhada. Como dizemos a propósito de Habibi, essas formas novas associar-se-ão a uma tradição que remonta a Eisner, e segue-lhe os passos quer mais acabados e positivos como os abusos de expressividade. Mas Blankets é um livro que poderá representar, quase cabalmente, a ideia do Bildungsroman como ele ocorre na banda desenhada, e essa sumptuosidade visual, as múltiplas tramas misturadas, as “interrupções” ou “excursos”, etc., prender-se-ão portanto com a multiplicidade e frenesim da personalidade em formação e passagem para a idade adulta. Não há ainda decisões tomadas, mas elas surgem como enigmas electrificantes. É aliás, essa dimensão interiorizante que tanto o torna próximo de uma determinada genuinidade existencial como também da dimensão ensimesmada, senão mesmo piegas, que levou às diatribes (não sem razão) de Menu em Plates-Bandes em relação ao aproveitamento imediato que o mainstream francófono fez das tendências criadas no cadinho alternativo.
Conforme à experiência autobiográfica (ou de “auto-ficção”, dadas as pequenas distâncias operadas na matéria narrativa e sua relação com a verdade histórica), Blankets é mais revelador de uma reacção para com um modo externo de constituição da personalidade e da expressão de valores do que de uma constituição primária da vontade de expressar o eu (que ganharia outros contornos e possivelmente obedeceria a outros géneros). É, digamos, esse ponto de partida negativo que leva a que se formem no seu interior determinadas maneiras de dizer, como, e neste caso em particular, a confissão e a defesa (da sexualidade, da sua exposição demasiado cedo, da sua dolorosa descoberta, da tensão que ela implicava com a educação religiosa, que é ela mesma atacada, a descoberta de um amor sexualizado, etc.). O autor elege a obra, isto é, o acto de contar essa mesma história num acto de exorcismo.
Esta obra, no fundo, e à luz de alguns dos descritores possíveis que emergem ao aplicar instrumentos dos Trauma Studies, revela de um “narcisismo ferido” ou de uma “obsessão com a  falta de amor-próprio”, perfeitamente verificável em Blankets. Quer dizer, mais do que uma exploração distante, que seria dada pela (total) ficcionalização, há uma procura insistente pelas partes mais feridas para atingir quer uma possibilidade de “cura” (presente no própria existência do livro, o tal exorcismo) quer para tornar mais operativo todo o processo (e suas várias linhas concorrentes).
A sua edição em Portugal, aliada a alguns (não todos) gestos da Contraponto e de vários projectos nacionais, fazem imaginar a possibilidade idêntica da conquista de um público mais adulto - na verdadeira acepção da palavra, e não apenas por questões temáticas - entre nós.
Nota final: agradecimentos à Biblioteca de Alice/Devir, pelo envio do volume.

1 comentário:

Fernando Morais Gomes disse...

http://www.alagamares.net/alagamares-informacao/artigos/noticias/677-prorrogado-o-prazo-para-entrega-de-trabalhos-de-bd-ate-31-de-julho
Agradecemos divulgação
Alagamares-Associação Cultural www.alagamares.net