Quando a edição de artista de Terrea surgiu, há mais de dez anos, encontrámos ali um livro cuja “escrita” era dominada pela pulsão do desenho, que Ricardo Cabral já vinha alimentando há um breve trecho, libertando-se da canga de uma narrativa linear: os seus diários de viagem, alucinações gráficas com a realidade que o rodeava e sobretudo um trabalho de ilustração vinha testemunhando essas ideias. À medida que foram saindo os quatro volumes de TLS Series, o autor foi encaminhando novos “episódios” (mas sem essa linearidade ou propósito), mais ou menos subsumidos aos temas da antologia (“Viagens, “Cidade”, etc.). Quase sempre sem texto (com a excepção da peça para TLS Series: Raízes), deixando sempre aberta a ambivalência das circunstâncias diegéticas daquele universo gráfico que ia burilando. (Mais)
Terrea, nesta sua nova configuração unificada em um
volume de luxo, revela de forma particularmente nítida a tensão produtiva entre
essas duas forças que sempre atravessaram o trabalho de Ricardo Cabral: por um
lado, a pulsão gráfica, intuitiva, quase coreográfica, que organiza a página
segundo ritmos internos do desenho; por outro, a necessidade — talvez
editorial, talvez apenas circunstancial — de conferir uma camada de coerência
narrativa que estabilize o conjunto. O resultado é um objecto fascinante
precisamente porque expõe essa fricção: a obra que antes se oferecia como um
campo de possibilidades abertas, um tecido ambivalente onde as ligações entre
episódios eram potenciais e não obrigatórias, vê-se agora parcialmente
reinscrita num regime de leitura mais convencional.
A introdução de
legendas e diálogos nas páginas que não os continha funciona, assim, como um
gesto de reencarnação narrativa: não apenas reúne as partes dispersas,
mas tenta alinhá-las sob uma lógica de mundo, de personagens nomeadas, de
continuidade diegética. Contudo, é precisamente aqui que se torna evidente o
paradoxo. Os diálogos, sendo redundantes face à acção desenhada, não
acrescentam verdadeiramente densidade dramática; as legendas, ao nomearem e
explicarem, retiram à obra parte da sua força original — aquela força que
advinha da suspensão, da sugestão, da deriva interpretativa. Em termos
narratológicos, poderíamos dizer que Terrea passa de um regime de
indeterminação produtiva, tal como descrito por Wolfgang Iser, para um regime
de determinação que reduz o espaço de jogo do leitor.
Esta mudança não
invalida o projecto, como é óbvio. É válido. Mas parece-me uma subserviência a
um público menos aberto ao risco e à interpretação, e mais preso às cadeias de géneros
populares formulaicos, como a alta fantasia.
Há precedentes ilustres no campo da banda desenhada para este tipo de escrita “à medida das circunstâncias”, em que a narrativa se constrói a partir da improvisação gráfica, da deriva, da contingência editorial. O exemplo mais célebre é, claro, A Garagem Hermética, de Moebius, cuja serialização obedecia a uma regra auto-imposta: cada novo capítulo deveria contradizer ou complicar o anterior. Poderíamos também convocar Jim Woodring e o seu universo de Frank, onde a ausência de texto e a lógica onírica criam uma coerência que é puramente sensorial; ou Yuichi Yokoyama, cuja banda desenhada opera segundo princípios de energia, movimento e arquitectura, mais do que de psicologia ou causalidade. Ou ainda Relvas, mas essa discussão tem de ficar para depois. No cinema, e para voltar lateralmente à saga do Incal (que é uma das sombras sobre Terrea) o paralelo mais próximo talvez seja o de Alejandro Jodorowsky, especialmente em La montaña sagrada, onde a acumulação simbólica e ritualística substitui a progressão narrativa clássica. Na literatura, não faltariam exemplos...
O que distingue Cabral, porém, é que a sua imagética — tão marcada por ecos de Moebius, Druillet, Kirby, máscaras rituais, cosmologias inventadas — nunca se limita à citação. Há uma elegância e uma suavidade no traço, uma monumentalidade feérica, que tornam Terrea menos um exercício de nostalgia e mais uma exploração sensorial do potencial do desenho enquanto forma de pensamento. As grandes estruturas totémicas, as figuras semi-divinas, os viajantes, os xamãs, os cristais, as pirâmides invertidas: tudo isto compõe um léxico visual que funciona como campo de ressonância.
Uma leitura da série
Summer Shadows, a que talvez venhamos em breve, poderá encontrar um
espectro de pontos comuns e de afastamentos curiosos de estudar, quando Cabral
trabalha num espartilho narrativo mais apertado.
É por isso que a
adição de texto, embora compreensível, parece por vezes reduzir o alcance desse
léxico. Ao nomear e até, digamos, explicar, acaba por delimitar a potência de Terrea.
A meu ver, claro, Terrea era — e continua a ser, apesar de tudo — mais
interessante quando permanecia um texto mais fragmentado e aberto, quando cada
fragmento sugeria uma direcção possível mas sem a impor. A grande maravilha do
livro reside ainda na sua prestação gráfica: fluida, mágica, luminosa, capaz de
convocar mundos inteiros com uma economia de meios que é, ela própria, uma
forma de encantamento.
Nota final: agradecimentos
à editora, pela oferta do volume.




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