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3 de outubro de 2020

A menina dos olhos ocupados. André Carrilho (Bertrand)

Será inevitável que todos os autores de banda desenhada, ilustração, literatura, música, teatro, ou empadas de galinha, no momento em que se tornam pais e começam a enfrentar a necessidade de participarem na educação de uma criança quer para a cidadania quer para a liberdade da imaginação, sentem a responsabilidade de criarem algo nesse sentido? Haveria muitos exemplos a apontar, uns movidos por uma certa capacidade em encontrarem caminhos comuns entre um território e as suas disciplinas de trabalho, outros talvez até por um certo egoísmo e egotismo, julgando-se capazes de fazer algo melhor do que aqueles que se dedicam a essa mesma tarefa. E haverá projectos que, nutridos por um movimento ou outro, trazem um contributo indelével a esse campo, mas muitos mais em que há um claríssimo falhanço, alimentado por uma pífia compreensão do que é preciso fazer, ou pior, empurrado pela tal arrogância cega aos demais exemplos. (Mais)

21 de abril de 2020

Tinta nos Nervos/LERBD: Apresentação da revista «Dois Pontos» # 02



Notas ?  margem mais ou menos organizadas.

25 de agosto de 2019

A Piscina. JyHyeon Lee (Orfeu Negro)


Porque é tão fascinante quando mergulhamos na água? Trata-se de uma memória da espécie, ou do nosso desenvolvimento ontogenético, ou uma mera sugestividade devida a tantos mitos? Dever-se-á à alteração das percepções e capacidades físicas, do incrível equilíbrio entre os limites impostos e as novas liberdades? Em A Piscina, de JiHyon Lee, encontraremos esses encontros, descobertas e possibilidades. (Mais) 

4 de julho de 2019

A guerra. José Jorge Letria e André Letria (Pato Lógico)


A expressão “para a infância” deverá, cada vez mais, libertar-se do seu juízo de valor associando-o a produções que significam tão-somente um entretenimento formulaico, protegido, incontroverso e afastado das mesmas preocupações que regem (regeriam? Deveriam reger?) o “mundo dos adultos”. E, cada vez mais, são livros como A guerra que contribuem para essa alteração. Mais, se acreditarmos que a formação cognitiva, intelectual, cultural e para a cidadania das crianças começa “de pepino”, genuinamente, então que se lavre esse trabalho com instrumentos intensos, directos e acabados. Ei-lo. 

8 de abril de 2018

Noite estrelada. Jimmy Liao (Kalandraka)


Como ocorrem nos casos de alguns dos projectos de Maurice Sendak, Shaun Tan, Brian Selznick e António Jorge Gonçalves, por exemplo, também alguns dos livros de Jimmy Liao vivem numa fronteira algo esquiva entre a banda desenhada, o livro ilustrado, e a literatura tout court. Noite estrelada tem apenas umas poucas páginas com texto isolado, mas depois desdobra-se em spreads, ilustrações por página, com texto ou sem ele, e pelo menos uma sequência dividida em vinhetas. Tipologias e divisões que, para além disso, têm explorações formais no interior das próprias imagens, que apresentam planos distintos, texturas, espaços com objectos repetidos (sejam padrões no chão, bibliotecas, jardins, florestas ou os telhados de prédios cheios de néons). (Mais) 

15 de novembro de 2017

Peek a Boo: A Masmorra dos Coalas. Psonha (Plot)

Na esteira de No caderno da Tangerina, este outro volume é também endereçado a um público jovem, se bem que no caso deste livro brasileiro, pretende-se chegar a um público ainda mais jovem, diríamos abaixo dos 10 anos de idade. Com esse fim, é natural que se abracem de forma mais aberta alguns princípios ou mesmo fórmulas que, tendo servido de base, são abandonadas por Rita Alfaiate na direcção de outras complexidades. No caso de Psonha, pelo contrário, há toda uma aceitação pela ideia de aventura linear, sem pejo nem demais, para demonstrar as dinâmicas relacionais entre as personagens que melhor comporão uma lição. (Mais) 

20 de junho de 2017

O convidador de pirilampos. Ondjaki e António Jorge Gonçalves (Caminho)

Na física existe um fenómeno relativo às frequências de ondas da luz, em função da velocidade relativa existente entre a fonte dessa mesma luz e o observador. Bem mais complexo do que o nosso uso metafórico poderá atingir, digamos apenas que existem os “desvios para o vermelho” e “desvios para o azul”, assinalando este último o caso em que a fonte dessa luz se vem aproximando do espectador. Por outras palavras, o vermelho seria sinal de expansão, ao passo que o azul de contracção. Muito possivelmente, esta descrição e uso metafórico não tem qualquer préstimo na leitura de O convidador de pirilampos, mas não podemos deixar de sentir que a família cromática que alimenta o “fundo” (já lá iremos) das imagens convida-nos a irmos além de interpretações de representação superficial (cenas nocturnas) para chegar a um gesto de convite, previsto no próprio título. Tendo deixado uma nota brevíssima sobre este volume anteriormente, voltamos aqui com uma leitura mais dirigida. (Mais) 

9 de abril de 2017

Torrente de ilustração (várias editoras).


Permitam-nos iniciar este texto com uma nota pessoal e um pedido de desculpas. A nota pessoal prende-se com uma justificação de termos estado “em silêncio” em relação a toda uma série de livros ilustrados para a infância que têm sido publicados nos últimos meses em Portugal, não por falta de atenção e menos ainda por falta de interesse, mas devido a vários compromissos profissionais e académicos que nos têm impedido de poder fazer uma recepção crítica mais atempada, individualizada e específica a cada um desses projectos. O pedido de desculpas deve-se às editoras, que têm sido generosas em deixar-nos a par das suas novidades e apostas editoriais, que não acarreta de forma alguma a obrigatoriedade de escrever sobre elas mas parte de um pressuposto de atenção, dada a (ainda) desequilibrada recepção crítica desta produção nos meios de comunicação mais massificados, e mesmo nos mais especializados reduzidos muitas vezes a discursos impressionistas. Porém, esse pedido de desculpas deve ainda dizer respeito ao presente texto, pois ao abordar mais de trinta títulos de um só fôlego, é mais do que natural que incorramos numa profunda injustiça, já que nem poderemos entrar numa leitura formal pormenorizada que cada título mereceria nem poderemos dar conta de um juízo de valor mais argumentado e claro. (Mais)

23 de março de 2017

Science Comics, vários títulos. AAVV (First Second)

A ideia de usar a banda desenhada como um meio de transmissão de informação, como meio de educação, não é de todo nova. Se englobarmos as imagens Quentin nessa equação, ancoramo-nos mesmo nas origens populares e na infantilização desta disciplina no século XIX. Mas poderíamos recuar ainda mais, se se pensasse em questões dos livros ilustrados medievais, das enciclopédias aos Musterbuchen, e a inúmeras práticas. Usualmente, esta utilização é vista com alguma desconfiança quando se parte de um ponto de vista estritamente estético, uma vez que os instrumentos empregues por estes exemplos não serão aqueles que mais preocupados estarão com a pesquisa da expressão, com a individualidade autoral, mas antes subsumem-se a noções tais como as da legibilidade, da inteligibilidade, da clareza de argumentação, etc. E muitas vezes acompanham-se de um qualquer enquadramento moralista que é bem distinto da visão mais progressiva. Não se pode, porém, negar que esse “uso”, não sendo artístico ou literário ou politicamente relevante, ainda assim conseguirá conquistar de quando em vez um qualquer grau de competência que a faz escapar de uma oferta desapaixonada. (Mais)

7 de julho de 2016

Hora de aventuras, vol. 1. Ryan North et al. (Devir)

O lançamento do primeiro volume desta série faz esperar por uma tendência de alguma saudável diversidade em relação à banda desenhada para um público mais infantil, que não passe nem pelos grandes impérios comerciais costumeiros (se bem que este seja igualmente um produto da indústria massificada de entretenimento e consumo, não tenhamos dúvidas), nem por uma subsunção a princípios pedagógicos moralizantes, criados por uma comissão de marketeers e pedagogos. Adventure Time, ou Hora de Aventuras, é apesar de tudo um projecto autoral, algo doidivanas e divertido. O que poderá, todavia, ser precisamente um dos factores que cria obstáculos junto aos progenitores do seu público-alvo. (Mais)

23 de abril de 2016

Os figos são para quem passa. João Gomes de Abreu e Bernardo P. Carvalho (Planeta Tangerina)

Num tempo em que perigosamente a distribuição e acesso a todas as facetas da vida na Terra é compartimentada por direitos de propriedade estanques, sopesar alternativas de relacionamento não é apenas importante como compulsório. A patenteação de produtos agrícolas, até hoje “livres” e “naturais”, a privatização da água, a re-confirmação de fronteiras intransponíveis, a hierarquização de importâncias conforme o poder (económico, militar, social), e a relativização cultural de valores éticos que, sendo esgrimíveis, devem ser claros, são apenas alguns dos escolhos lançados na tempestade dos tempos contemporâneos. Uma pequena distância crítica e mecanismos ficcionais, mesmo que simples (mas não simplistas), é de uma utilidade extrema. (Mais) 

16 de abril de 2016

6 livros para a infância ilustrados (várias editoras)

É possível que seja apenas uma coincidência, em que a força das circunstâncias nos empurra para querer ver uma tendência em que ela pode não se verificar, mas pensamos que poderão existir, de futuro, outros factores que confirmem esta ideia. Se temos notado que no campo da ilustração para a infância tem havido uma maior insistência, quer na produção nacional quer na escolha editorial, num campo da ilustração que se pauta por princípios de design simplificado, de linhas geometrizantes, cores planas, etc. (falámos alargadamente desse tema a propósito das Cerejas), é necessário não tornar a visão vendada a outras possibilidades de criação. Sobretudo quando uma certa atenção mediática, expositiva e de crítica (e até de ensino) parece querer confirmar aquele princípio em detrimento a outras abordagens. (Mais) 

17 de janeiro de 2016

A casa que voou/A sereia e os gigantes. Davide Cali e Catarina Sobral (Bruáa/Orfeu mini)

Graças à recepção do seu trabalho, celebrado pela crítica, leitores, exposições e prémios, mas igualmente por uma intensidade concentrada de trabalho efectuado, Catarina Sobral consegue produzir novos projectos no que parecerá tempo recorde. Eis mais dois títulos a somar a uma das autoras mais produtivas, em termos individuais, da literatura ilustrada infantil portuguesa, que vêm mostrar ainda mais desdobramentos da sua assinatura visual e autoral. Em ambos os casos, podemos dizer que se Catarina Sobral optou por não escrever as palavras, a matéria narrativa e até os elementos que compõe aquilo a que chamamos de “história”, está porém nas suas mãos o enquadramento da matéria visual em torno desses mesmos elementos, assim como toda a organização dos ritmos, objectos e conjunção de tudo aquilo que concorre para a construção do significado, quer aquele paulatino, página a página, quer o total. (Mais) 

9 de janeiro de 2016

Amigos do peito. Cláudio Thebas e Violeta Lópiz (Bruaá)

Numa correria da escola até casa, uma personagem visita vários dos cantos da cidade onde vive, perscrutando espaços de naturezas específicas, que convidam a actividades díspares, sempre na companhia de um seu amigo próximo. Esse passeio, que podemos imaginar repetido todos os dias, é também palco de uma reflexão sobre a amizade, ou melhor, a possível definição de um amigo, alguém que conhecemos por uma razão qualquer que nos leva a colocá-los num lugar que podemos sempre revisitar. (Mais) 

1 de janeiro de 2016

Space Dumplins. Craig Thompson (Scholastic)

Este título está, na obra de Craig Thompson, mais próximo de um dos seus primeiros longos trabalhos, Good-bye, Chunky Rice, provavelmente ainda um dos seus melhores trabalhos, não obstante o sucesso crítico e de exposição de Blankets e o estranho ruído de Habibi. Porém, Space Dumplins parece-nos ser dedicado a um público ainda mais jovem, digamos na passagem da infância para a adolescência. Trata-se de uma pequena saga familiar espacial, em que a jovem Violet Marlocke se perde de ambos os pais, e se lança numa missão de resgate apenas acompanhada pelos seus dois novos amigos, também miúdos, Zacchaeus, um dos últimos descendentes dos Lumpkin (mas excepção dessa espécie, atarracado e irascível), e Elliot, uma pequena galinha-rapaz – não é erro – descendente de galináceos artificialmente humanizados -, sensível, e mais dado às questões do espírito que aos da acção. (Mais)

18 de dezembro de 2015

Com 3 Novelos (O mundo dá muitas voltas). Henriqueta Cristina e Yara Kono (Planeta Tangerina)

A produção de livros ilustrados, sobretudo aqueles que se dirigem em especial, mas não exclusivamente, a um público infantil, em Portugal, tem conhecido nos últimos anos, como se sabe, uma curva ascendente no que diz respeito à sua qualidade global. Há uma cultura visual que se tem tornado cada vez mais premente, uma dedicação ao burilar do texto atenta às várias dimensões sociais complexas da contemporaneidade, alianças mais cuidada entre texto e imagem ou à articulação das imagens na sua possibilidade de leitura, a materialidade dos próprios livros, a coordenação de políticas editoriais e de colecções mais coerentes, assim como a fundação de uma cultura no seu pleno sentido. Se as condições de trabalho, profissionais e financeiras, se alteraram, imaginamos que com dificuldades ainda sentidas, em termos de recepção crítica e da fundação de uma “comunidade imaginária” apreciadora é garantida. E os balanços podem ser positivos, se seguirmos as atentas palavras e ideias críticas de Andreia Brites, no seu artigo “O perigo do eterno retorno”, na revista Blimunda (no. 32, de Janeiro deste ano). (Mais) 

15 de dezembro de 2015

Quero a minha cabeça! António Jorge Gonçalves (Pato Lógico)

Este é o segundo livro do autor nas mesmas circunstâncias que Barriga da baleia, isto é, um livro a solo, dirigido ao público infantil, e numa mesma preocupação ou geminação material com os livros criados na Pato Lógico. Não se estabelecendo de forma alguma com Barriga da baleia para criar uma “série”, partilhará porém alguns princípios comuns com aquele outro projecto, começando pela protagonista, uma menina pequena que se isola da família para mergulhar numa viagem solitária e algo melancólica de, a um só tempo, procura de si mesma e de regresso à vida familiar com uma nova perspectiva. (Mais) 

12 de dezembro de 2015

Blog bd - Sous l'eau-Sous la terre/O professor Astrogato nas fronteiras do espaço. Dominic Walliman e Ben Newman/Aleksandra Mizielinska e Daniel Mizielinski (Rue du Monde/Mini Orfeu)

Estes dois imensos livros fazem remontar os seus princípios à famosa noção de Cícero, na busca de discursos de perfeição em que a tarefa da instrução se articule da forma mais entrelaçada com os movimentos do deleite. Isto é, estimulando o entendimento cognitivo sobre uma área qualquer de conhecimentos, procura-se ao mesmo tempo que haja um decisivo estímulo dos sentidos e de inclinar os afectos. (Mais) 

11 de dezembro de 2015

Amores de família. Carla Maia de Almeida e Marta Monteiro (Caminho)

Na vida diária, na linguagem quotidiana, muitas palavras são empregues de modo despreocupado, sem que o peso da sua etimologia ou do seu uso particular e informado por uma perspectiva específica tenha aí papel. Mas noutros contextos, elas distinguem-se, por meio de subtilezas ou concretudes teóricas, cujo objectivo não é tanto alterar a natureza do seu emprego diário, mas antes ajudar a pensar, em contexto especial, de modo mais cuidado. A área difusa a que se tem dado o nome de “Teoria dos Afectos” , um campo interdisciplinar que nasce da psicanálise mas se entrosa por outros territórios, distingue sentimentos, emoções e afectos. Estes últimos são como que reacções corporais pré-cognitivas, isto é, pré-pessoais, e são depois estudadas como categorias específicas. Os sentimentos estão associados, como que bordados, na tessitura do pessoal, do biográfico. As emoções, por sua vez, são sociais, aprendidas, construídas ou tecidas, nunca na solidão. (Mais)

8 de dezembro de 2015

Partida/Outono. André Letria (Pato Lógico).


Estes dois livros fazem parte de uma série, ou colecção, que Letria tem explorado na sua editora. Chamada Desconcertina, até à data os seus títulos partilham os mesmos princípios formais mas, mais importante, um mesmo espírito, que eleva estes livros de meros objectos de entretenimento infantil a instrumentos ideais para pensar. (Mais)