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25 de outubro de 2017

AmadoraBD 2017: participação

Como em ocasiões anteriores, participamos mais uma vez no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Desta feita, estaremos presentes com um comissariado mais simples (!), em companhia da Sandy Gageiro, em torno da exposição sobre o ano editorial de 2016-2017, procurando mostrar uma selecção/mistura da grande diversidade da oferta de banda desenhada para todos os públicos e de álbuns ilustrados para a infância. 

O propósito principal é o da celebração dos espaços de leitura. Eis o texto que estará na apresentação dos núcleos, assinado por ambos:

« A diversidade da banda desenhada para todos os públicos e os álbuns ilustrados para a infância tem crescido exponencialmente em todos os sentidos. Há cada vez mais livros para mais tipos de leitores.

Distinguindo-se de tendências anteriores, há mais banda desenhada para um público feminino (o que não significa que os rapazes ou os homens não possam ler esses livros fantásticos!), tal como para um público mais maduro (tantos “romances gráficos”!), interessado em questões como as relações humanas realistas, política internacional, personalidades históricas nacionais ou até como fazer vinho. E há mais livros, despretensiosos, capazes de ensinar às crianças as raízes das descriminações raciais, de género, de idade, ou outras, que explicam como se constrói a democracia ou a memória, como brincar e cuidar dos nossos avós, e até como disparatar da forma mais criativa possível.

Os géneros clássicos continuam de boa saúde também, e com novos heróis e heroínas.

Esta exposição não pode mostrar tudo o que foi publicado nos últimos doze meses, mas enfrenta essa mesma variedade. Cada sala mistura livros para miúdos e para graúdos, livros sérios e livros tontos, tomos grandes e livrinhos esguios, uma vez que acreditamos que os leitores (e os livros) se devem misturar. Os pais devem ler com as filhas, mas os filhos também devem ler para os pais. E sozinhos. Ou com os colegas da escola, da natação, ou de jogar à bola lá na rua. E os pais podem falar deles lá no emprego.

Cada sítio cria a sua própria comunidade de leitores. Um bando de leitores no banco de jardim. Um cardume de outras leitoras no metro. Uma turma na escola. Outra no recreio. São tantos os sítios onde se pode ler! Pode ser qualquer lugar. Aqui estão apenas cinco.

Qual é o teu favorito? O nosso é... todos!»

Para além disso, estará patente na Bedeteca da Amadora uma exposição dedicada ao projecto The Lisbon Studio Series, a série de volumes antológicos desse colectivo, na qual temos participado enquanto argumentista da artista Marta Teives. O segundo volume, na verdade, será lançado no AmadoraBD. Os autores estarão presentes todos os fins-de-semana no Festival para autografarem as obras, inclusive nós mesmos (no último fim-de-semana somente).

Mais informação, aqui.

22 de setembro de 2017

The Lisbon Studio = Filhos do Manguito


Ficam todos os leitores convidados a estarem presentes na vernissage da exposição Filhos do Manguito, uma acção do The Lisbon Studio, na próxima Sexta-Feira, dia 29 de Setembro, pelas 19h00, no Museu Bordalo Pinheiro, ao Campo Grande, Lisboa.

Trata-se de uma mostra em que os artistas residentes desse estúdio prestam homenagem ao Pai-de-Todos Bordallo, com versões contemporâneas do Zé Povinho, novos trabalhos de cartoons políticos acesos à hora, e respostas gráficas aos tantos gestos desse grande autor, sobretudo aquele gesto mais resistente que se cumpre com os braços cruzados.

Será lançado igualmente o livro-companheiro deste projecto, com a presença dos artistas.

Vinde, compradres!

17 de maio de 2017

20/MAIO: 17h: "Da Iconofagia", encontro com Hervé Di Rosa, na NLF.

Car@s amig@s, no próximo Sábado, dia 20 de Maio, na Nouvelle Librairie Française, em Lisboa, decorrerá uma conversa entre o artista Hervé Di Rosa, figura fundamental de um certo "regresso à figuração" nos anos 1980 em França, e cultor da mais diversa produção de imagens, e este vosso criado. 
Estará patente uma pequena mas importante mostra bibliográfica e gráfica do autor, e a conversa rondará sobretudo as fronteiras diluídas pela sua arte entre territórios que muitos ainda forçam a estar separados.
Apareçam.



9 de setembro de 2016

Sequência mínima: exposição de Filipe Abranches (e texto)

É amanhã a vernissage de uma exposição de desenhos de Filipe Abranches, todos eles provenientes de projectos de banda desenhada, alguns deles "completos", outros "fatiados" de algo maior. 

Fomos convidados a escrever um texto que acompanhasse essa exposição, apanhado quase superficial de algumas reflexões debatidas e partilhadas com o autor, de quem somos colegas enquanto docentes e parceiros em projectos criativos, e que de certa forma teriam levado à selecção e baptismo desta mostra. 

Apresentamo-lo aqui, com algumas alterações de pouca monta, apenas com o intuito de prendre date, uma vez que não terá o valor que poderia ter caso fosse reforçado com os instrumentos de maior precisão académica que estão ausentes. (Mais)

10 de maio de 2016

Vários títulos. André Oliveira et al. (Kingpin/Polvo)

De certa forma, não será alheia a co-organização de uma pequena exposição dedicada a André Oliveira na Bedeteca da Amadora ao lavramento do presente texto. Se é certo que essa exposição, produzida pelo Festival da Amadora, não teve o nosso contributo, a sua re-integração num expectável ciclo dedicado a argumentistas – uma noção que foi tentada várias vezes junto a instituições, sempre incumpridas – deve-se a um entendimento que, sem querer de forma alguma colocar o trabalho e contributo absolutamente fulcral dos artistas em detrimento, a concentração no escritor poderá revelar características específicas não apenas ao trabalho da banda desenhada como à personalidade criativa destes autores, e à sua mundividência “completa” (contra a ideia de “autores completos” e “incompletos”). Ao abordarmos toda uma série de títulos que, até agora, ficaram sem leitura neste nosso espaço, não deixaremos de repetir o mesmo gesto. (Mais) 

18 de abril de 2016

Comic Invention. Laurence Grove e Peter Black (BHP Comics)

Esta caixa é um projecto-companheiro de uma exposição patente no museu Hunterian, da Universidade de Glasgow, co-organizada por um dos curadores do museu, Peter Black, e por Laurence Grove, um investigador académico da Universidade de Glasgow que tem estudado as relações entre texto e imagem, com uma especialização na emblemática e na banda desenhada (mormente de expressão francesa, em torno da qual tem livros e artigos importantes). A caixa possui cinco publicações fisicamente separadas, mas que pretendem dar conta das várias dimensões tentadas nessa exposição, ao mesmo tempo que alertam para dois princípios: por um lado, o de que a relação da banda desenhada com o leitor é directa, material, física, exigindo um contributo activo de construção do significado (qual das publicações ler primeiro?, que relações construir entre elas?), por outro, a de qualquer narrativa desejada é sempre composta por linhas diferentes que podem ter desenvolvimentos distintos conforme a perspectiva de aproximação. (Mais) 

6 de janeiro de 2016

Estúpidos, maldosos, belos: alguns livros e uma exposição em torno do “Charlie Hebdo”. AAVV

Fará amanhã um ano desde que o ataque levado pelos irmãos Kouachi (que os Profeta lhes cuspa nas tumbas) mataram os artistas Charb, Honoré, Tignous, Cabu, e Wolinski, os membros da redacção Elsa Cayat, Bernard Maris, Mustapha Ourrad e Michel Renaud, o guarda-costas Franck Bronsolato, o segurança Frédéric Boisseau e o agente da polícia Ahmer Merabet. Com vista a assinalar essa data, mas de forma alguma desejando cair na tentação da homenagem emocional, ou em questiúnculas irresolúveis como a compatibilidade do regime democrático e os princípios inerentes à Revolução Francesa com quaisquer dogmas religiosos, as contradições de um discurso que compactua com categorias facilitistas e maniqueístas de um “eu” e um “eles”, ou sobre os “limites” e o papel do humor, da sátira e, até mesmo, da brejeirice ordinária, preferimos tão-somente olhar para a produção efectiva de toda a família associável a esse título. (Mais) 

23 de novembro de 2015

28 NOV | 16h00 | Conferência com José Marmeleira: "Um olhar plural sobre as imagens."


Como forma de retomar algum ritmo de trabalho neste espaço, serve o presente para dar a conhecer o seguinte encontro:

"Integrada na programação complementar da Exposição SemConsenso, Banda Desenhada, Ilustração e Política, patente no Museu do Neo-Realismo até 20 de Março de 2016, realiza-se no próximo dia 28 de Novembro, pelas 16h00, a Conferência Um olhar plural sobre as imagens.

"A Conferência conta com a presença de Pedro Moura, Curador da Exposição e de José Marmeleira, jornalista e crítico nas áreas da música pop e da arte contemporânea,  colaborador no jornal Público, na revista de arte Contemporânea, nas publicações Ler e Time Out Lisboa, professor de Fundamentos do Jornalismo na Universidade Europeia e doutorando em Filosofia da Arte na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FC-UL).

"Entrada livre.

"Contamos com a sua presença."
Imagem: Carlos Pinheiro, em Sobrevida (com Nuno Sousa. Imprensa Canalha: 2012)

13 de novembro de 2015

Rodapé: 20-22 de Novembro.

Serve o presente post para anunciar que no próximo fim-de-semana de 20-22 de Novembro terá lugar a edição do encontro O que um livro pode, co-organizado pela Oficina do Cego, à qual pertencemos. Este ano os encontros terão lugar no edifício/projecto Rua das Gaivotas 6 (que é também, obviamente, o seu endereço) e são exclusivamente dedicados aos livros para a infância. Durante esses dias, haverá lançamentos de novos livros, conversas e mesas-redondas, apresentações breves, leituras e mostras, e uma feira de edição de livros para os putos (óptimo para Natais alternativos).

No âmbito desse encontro, terá lugar uma exposição ou mostra de ilustração para a infância, intitulada Rodapé, e que foi coordenada por nós, contando com trabalhos de Afonso Cruz, Ana Biscaia, André Letria, António Jorge Gonçalves, Bernardo de Carvalho, Catarina Sobral, Daniel Silvestre da Silva, Gonçalo Viana, João Fazenda, Madalena Moniz, Madalena Matoso, Marta Monteiro, Richard Câmara, Susa Monteiro e Yara Kono. Esta exposição tenta escapar da lógica "white cube" das exposições, e, utilizando meios muito simples e limitados, é pensada para os visitantes mais jovens. Para além das imagens expostas, a exposição conterá o "arquipélago do Faztu", constituído por quatro mesas-ilhas-atelier, nas quais os visitantes poderão encontrar objectos para desenhar, fazer postais, brincar, preencher paisagens, etc. numa relação interactiva com a criatividade de todos. Este arquipélago é coordenado por Alexandra Baudouin e por nós. É, portanto, uma óptima oportunidade para trazer os miúdos para um fim-de-semana fora de casa. 

Estamos ainda responsáveis por uma mesa-redonda que terá lugar no Domingo, dia 22, pelas 17h00, em torno dos processos de edição dos livros ilustrados infantis, moderando a conversa com André Letria, Catarina Sobral e José Oliveira. Esta conversa já é para os mais graúdos.

Aqui ficam os agradecimentos aos organizadores do evento pelo convite feito, a todos os artistas que responderam positivamente ao projecto e a toda a malta que ajudou. Até lá.


5 de novembro de 2015

SemConsenso: um manifesto.

Agora que a exposição está patente no Museu do Neo-Realismo (até 20 de Março de 2016), é tempo de convidar todos os interessados a visitarem-na, não apenas pelas razões pessoais que daí possam advir mas sobretudo por acreditarmos que esta pode ser uma forma de ver estes trabalhos de uma nova perspectiva, mas também uma maneira de re-eletrificar a matéria conceptual e política que eles implicam, assim como as das obras do próprio museu. 

Deixamos aqui o texto que lemos no dia da abertura (com ligeiras modificações), esperando que complemente todos os outros materiais textuais disponíveis (o panfleto à entrada, o jornal da exposição). "Manifesto" aqui deverá estar quer no seu sentido dissertativo como no de declaração de carga, digamos assim. As fotografias foram disponibilizadas pelos serviços do museu, e espero que sirvam para abrir o apetite. (Mais) 

24 de outubro de 2015

Museu do Neo-Realismo: SemConsenso.



Serve o presente post para finalmente anunciar que no próximo Sábado, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, inaugurará a exposição


SemConsenso
Banda desenhada, ilustração e política.

Trata-se de uma mostra de trabalhos que compreenderá banda desenhada publicada em livros, jornais, revistas, publicações de vário cariz, assim como ilustrações editoriais, cartoons, e outros objectos menos comuns que, de uma forma ou outra, "abrem um novo espaço da política" (o texto costumeiro de comissário teorizará mais, a incluir na publicação a lançar, mas aqui sejamos mais curtos). É uma constelação que não tem respostas nem pretende seguir os caminhos já trilhados ou pré-preparados para a "discussão séria". Bem pelo contrário, são colocadas muitas perguntas. 

Esta exposição contará com a presença de trabalhos dos seguintes autores, de forma mais alargada ou mais concentrada:

Alice Geirinhas
Álvaro Santos
Amanda Baeza
António Jorge Gonçalves
Bruno Borges
Carlos Pinheiro
Cristina Sampaio
Daniel Seabra Lopes
João Fazenda
José Feitor
José Smith Vargas
Jucifer
Marco Mendes
Marcos Farrajota
Marriette Tosel
Miguel Carneiro
Miguel Rocha
Nuno Saraiva
Nuno Sousa
Pepedelrey
Tiago Baptista
e ainda mural de Pepedelrey & André Lemos. 


A entrada, para além de grátis, é livre. Seria muito bom ter a vossa presença. 
Nota final: ver "manifesto".

22 de julho de 2015

Quarto Interior. Exposição de Francisco Sousa Lobo.

Gostaríamos de informar todos os interessados que esta Sexta-Feira, 24 de Julho, inaugurará às 18h a exposição retrospectiva do artista Francisco Sousa Lobo, Quarto Interior.

Esta exposição integrar-se-á numa nova programação da Bedeteca da Amadora, sita na Biblioteca Municipal Piteira Santos, sob a minha responsabilidade. Intitulada Os 5 sentidos da banda desenhada, esta programação contará com grupos de leitura, acções de formação, exposições e debates. Sendo esta exposição uma experiência "beta" (no sentido informático, não de classismo social), prevê-se que a apresentação oficial do programa seja feita em Setembro. 

Quarto Interior conta com a  apresentação de dezenas de pranchas da arte original dos títulos do autor de O desenhador defunto, sobretudo de trabalho mais recente, inclusive várias curtas e mesmo trabalhos inéditos. 

O título é tirado de um poema curto de Fiama Hasse Pais Brandão.


Quarto interior
Na cómoda algumas gavetas
com os caprichosos guinchos da madeira
não só entoavam sons como aspergiam
o ar de antiquíssima alfazema.
Moviam-se devagar para o regaço,
aceitavam escassamente a luz,
gemiam até estancarem
abertas e exalarem
por fim a plena
onda de aroma.

Contamos com a vossa presença!




19 de dezembro de 2014

Revoir Paris, e outros títulos relacionados. Benoît Peeters e François Schuiten (Casterman)

Para ser rever algo, é porque já se viu isso antes. Apenas com experiência directa é que se podem criar tessituras posteriores de memórias. As reminiscências são sempre restos de algo que passou. O que acontece quando não vimos, não se experienciou, não se passou por algo em concreto? Como é que se pode rever, rememorar, recordar essa mesma coisa? Podemos ter memórias em nome de outro? Podemos criar (não re-criar) memórias utilizando os mais díspares elementos, reais e fictícios, imaginários e herdados? Essa é possivelmente a trama central da aventura de Kârinh, a protagonista de Revoir Paris. (Mais) 

25 de outubro de 2014

The Lisbon Studio no FIBDA 2015.

O presente post serve para indicar que amanhã, 26 de Outubro, terá lugar uma apresentação do The Lisbon Studio (TLS), que terá a presença de um número substancial dos artistas associados a este colectivo, e com moderação nossa. Uma vez que são, como reza a expressão, em número superior às entidades maternas, torna-se difícil arrolar, e para mais com certezas, todos os nomes dos que estarão presentes. Mas adivinha-se uma conversa animada, se bem que provavelmente sem ordem. (Mais).

26 de abril de 2014

Exposição "Succedâneo" na Moagem (Fundão).

Serve o presente post para divulgar mais alargadamente um texto que escrevemos para a folha de sala referente à exposição "Succedâneo", n'A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes. Trata-se de uma mostra das produções fanzinísticas de João Bragança, do famoso Succedâneo e outros fanzines-objecto. Esta exposição estará patente entre 12 de Abril e 18 de Maio, e é merecedora de uma visita, uma vez que estes objectos, apesar de terem já estado expostos noutras ocasiões, como por exemplo no Tinta nos Nervos, encontra-se aqui apresentada não apenas de forma exclusiva, o que permite sublinhar a sua importância, o seu lugar único na produção nacional, mas também internacional, mas além disso abrindo um caminho para, de uma forma especial e exclusiva, pensar estes objectos e território sem pedir favores a outras áreas artísticas de maior consolidação social. O texto procurou responder às várias solicitações necessárias a uma folha de sala para uma exposição desta natureza, de uma forma o mais sucinta possível (o que é uma qualidade, como sabem, desconhecida para este escrevinhador). Ficam aqui os agradecimentos a João Bragança e a Pedro Novo pelo convite, e os parabéns pelos 10 anos de estranhezas.(mais)

9 de outubro de 2013

FIBDA 2013: Seis esquinas de inquietação (autores brasileiros).

É hoje divulgada publicamente alguma da programação do FIBDA 2013. Este ano, o tema geral - uma espécie de obrigatoriedade política na organização do Festival mas que nem sempre ganha relevância organizacional, estética ou de programação -  é o “cenário”, noção que poderá ganhar várias interpretações, desde o espaço topológico representado nos trabalhos de banda desenhada, sejam eles reais e históricos ou ficcionais, à espacialização do tempo e dos protocolos de leitura na composição das pranchas, ao “fundo” ontológico e temático que as bandas desenhadas podem percorrer, ou mesmo, se nos permitisse o desvio francófono, pelas próprias histórias ou narrativas (o “argumento”). Como era de esperar, a ilustração do cartaz deste ano é assinado por Ricardo Cabral, que criou uma paisagem imensa, cheia, exuberante, precisamente de um cenário em permanente mutação, óbvio homenagem/decalque/reconstrução da “Veneza Celeste” de Moebius, mas também sintoma das suas próprias viagens diversas que transformou em diários tocantes e interpelantes, e onde a geometria não-euclidiana de um Escher se encontra com os espaços reais do próprio FIBDA, e o seu entorno local (o comboio, alguma fachadas e bairros, a topografia ao fundo, e até a sua própria inscrição múltipla autobiográfica nas personagens que flutuam nessa paisagem, procurando vários avatares que bebem das mais variadas fantasias da banda desenhada, da mangá aos super-heróis passando pela plasticidade pós-Incal de Moebius, mais uma vez). A estratégia de comunicação deste ano leva a que em cada instrumento de divulgação (cartaz, banner, MUPI, badana, capa, brochura do programa, etc.) surja apenas um fragmento da imagem total, ainda em consonância com o tema, interrompido por simples formas geométricas informativas que criam ainda mais vontade de revelar a imagem na totalidade, um jogo muito próximo de Baldessari, que cria um desejo particular sobre as imagens que eram dele desprovidas. Nesse sentido, a elegância, suavidade e cromatismo “plasticina” de Cabral encontra um drástico contraste nessas formas simples e mecânicas, provocando esse diálogo contrastivo e paradoxal. Apesar da celeuma que tem criado na blogosfera, muitas vezes repentina no seu julgamento sumário, e independentemente de pequenos desequilíbrios ou soluções mais acertadas que se poderiam ter feito, a relação entre o briefing, a imensa ilustração de Cabral e as consequentes intervenções infográficas e textuais planeadas foram pensadas atempada e anteriormente. Enquanto autor de banda desenhada, Cabral preferiria ter planeado de avanço o espaço a ser ocupado pelo “texto”, tal como se prevê numa vinheta a parte que desaparecerá sob um balão de fala, mas ao mesmo tempo esta estratégia mostra desde logo o inteligente desejo de não fazer uma simples ilustração que fosse emoldurada num rectângulo, em torno do qual se colocariam as informações. Cabral cria, em conjunto com a estratégia comunicativa, uma hipótese de passeios plurivectoriais. E ao mesmo tempo, uma imagem soberba que parece encerrar desde logo "promessas narrativas".
No entanto, o ponto principal que desejamos divulgar e discutir é uma exposição integrada no seio deste FIBDA, que tivemos o prazer e a honra de ter organizado, e que tenta, de certa forma, endereçar esses mesmos tema e paradoxo, focando em seis autores brasileiros contemporâneos. A exposição intitula-se Seis esquinas de inquietação, e junta os seguintes autores, por ordem alfabética dos apelidos: André Diniz, Marcelo D’Salete, Pedro Franz, Diego Gerlach, André Kitagawa e Rafael Sica.
Tendo tido já a oportunidade de escrever sobre alguns dos trabalhos destes autores (vejam os links), e não nos interessando meras apresentações biográficas, discutiremos brevemente o conceito da exposição (remetemos para o catálogo os interessados, onde poderão ler um ensaio algo denso sobre a dimensão política destes autores, assim como uma breve apresentação de cada um deles).
O que se pretende com este núcleo é tão-simplesmente mostrar seis exemplos de banda desenhada contemporânea brasileira, mas cujo traço comum não tem nada a ver com uma suposta “essência nacional” ou “brasileiridade” (coisas como o samba, alegria, folia, verde e amarelo, catatuas ou bundas em forma de balão). O que se pretende acentuar são as afinidades electivas entre estes autores particulares, se bem que seria possível seguramente ter arrolado outras referências da mesma geração. A nosso ver, a linha de força que os une é tratamento que os autores fazem, não de uma forma directa e dogmática, mas antes subtil, inteligente e com um foco muito forte e até mesmo, poder-se-ia dizer, “engajado”, da vida vivida pelas pessoas no quotidiano, do estado sócio-político do Brasil de hoje, e que pode ser associado a muitos outros eventos políticos localizados no mundo, desde a Primavera Árabe ao Occupy Wall Street passando pelas manifestações dos indignados em Espanha e Portugal (cada uma dessas realidades com fortunas diferentes e desenvolvimentos específicos, naturalmente). Ou seja, em vez de entender “político” de uma forma limitada aos partidos e detentores do poder representativo, estas bandas desenhadas criam pequenos espaços de resistência de representação: colocando personagens e locais que usualmente são vistos como 2marginais” e “sem voz” no centro da acção, sendo eles mesmos os actores dessas acções. Além do mais, uma outra características forte é a forma como representam - figurativa e estruturalmente nas suas páginas - o urbanismo: favelas, ruas pobres, ruas apertadas, becos e ruas secundárias, mas, de novo, onde se vive uma vida qualquer. Como Maurício Hora afirma em Morro da Favela, de André Diniz, também estes autores têm como propósito central “mostrar pra todo mundo que aqui também tem vida!”
Portanto, sendo o conjunto dos autores e trabalhos algo melancólicos, nada é negro ou soturno e, sendo urbano, não significa que se seja despojado de traços humanos.
Reunir-se-ão aqui trabalhos de alguma variedade de temas e géneros, formatos e técnicas, humores e estratégias de comunicação, produção e circulação. Alguns dos trabalhos são mesmo “experimentais” ou de um humor absurdo - Rafael Sica -, ao passo que outros parecem mais reportagens ou “autobiografias emprestadas” sobre a realidade histórica - André Diniz, sobretudo, com Morro da Favela -, e outros ainda misturando géneros mais convencionais para criar histórias de alguma “raiva social” - Pedro Franz, André Kitagawa, Diego Gerlach - ou uma resistência pela não-acção - Marcelo D'Salete. Alguns autores apresentarão um largo espectro da sua produção, enquanto que outros estarão mais confinados a um grupo menor de trabalhos.
Atempadamente serão divulgados mais pormenores, mas podemos desde já indicar que 1. estarão em Portugal os artistas Pedro Franz e André Diniz; 2. este último apresentará ainda um novo projecto a ser lançado igualmente pela Polvo, Duas Luas, como desenhos de Pablo Mayer; 3. haverá visitas guiadas todos os fins-de-semana, inclusive com os artistas presentes; 4. estarão disponíveis para venda alguns exemplares das publicações destes artistas, mas em quantidades compreensivelmente limitadas.
Nota final: agradecimentos à organização do FIBDA/CNBDI, por aceitar a proposta, e às suas equipas pelo trabalho. Aos artistas, por todos os gestos de facilitação. Ainda a Sara Figueiredo Costa, Rui Brito, Maria Clara Carneiro e Fábio Zimbres por várias razões. E ainda a Ricardo Cabral, por esclarecimentos.

23 de julho de 2013

Crónicas de arquitectura. Pedro Burgos (Mundo Fantasma)

Mais importante do que a data da recepção de uma determinada obra – o seu rápido anúncio ou divulgação, a sua atempada publicitação – importa, a nosso ver, uma sua recepção crítica, algo que a contextualize, coloque num espaço histórico e quebre a sua imediata superfície para perscrutar os mecanismos estéticos, ou outros, que a componham.
Apenas uma leitura superficial “despachará” este projecto de Pedro Burgos, sem lhe tomar o pulso.

Este pequeno livro ou publicação é, a um só tempo, catálogo da exposição havida na Mundo Fantasma assim como compilação das crónicas de uma página que Pedro Burgos havia publicado no JA [Jornal Arquitectos], no seu ritmo trimestral entre 2009 e 2012. Além dessas 12 crónicas, há uma extra, inédita. No entanto, desde já consideraremos esta nova imagem como relativamente exterior ao projecto central, por várias razões. Não apenas por não ter sido publicada no JA, e ter sido pensada para esta publicação, servindo-lhe de coda a vários níveis. Apesar do grau de colaboração que terá havido entre o artista e a equipa editorial, de maneira a seguir os temas de cada número do jornal, e a forma como responderia aos temas então contemporâneos e “quentes”, esta crónica tem texto de Manuel
Graça Dias, na sua qualidade de director do JA. Não seria isso somente que a arrancaria da economia das restantes crónicas, mas ela acaba por se pessoalizar em torno de uma personagem de um modo que não ocorre nas restantes (mesmo tendo em conta que ela pode ser recorrente, se a identificarmos como o arquitecto de “ser populista”), sendo a “piada” mais ancorada nas circunstâncias do nosso tempo do que as restantes (se bem que muitas das crónicas tenham referências enviesadas ou directas sobre “cenas da época”), e com uma estrutura muito menos livre e fluida do que as restantes. Essa separação, porém, não será mais do que um exercício de análise, já que naturalmente será fruída na continuidade das outras.

O prefácio de Graça Dias é muito explícito nos pormenores dessa relação de trabalho, de ritmo, de resposta (corroborados pela inclusão de uma reprodução dos sketchs que caçam a ideia e estrutura em primeiríssima mão, ao lado da imagem publicada), já para não falar de outras informações sobre a vida do autor, que por vezes roçam o biografismo e o essencialismo entre as informações daí provenientes, tantas vezes repetidas. Por exemplo, Pedro Burgos é formado em arquitectura e (caso mais raro, devido ao, nas palavras do autor, “a grande gruta dos talentos perdidos”) trabalha como arquitecto, mas essa informação biográfica de pouco serviria ou servirá se não houvesse esta capacidade de transposição do seu gesto de moldação de espaços, formas, personagens em vivências legíveis nos seus cartoons, se assim os podemos chamar. Não há nada na formação académica e profissional de um arquitecto que o torne particularmente apto a esse gesto nem nada da banda desenhada que a torne melhor ecrã para temas ou formas de banda desenhada. Quando surgem casos de estudo que merecem uma atenção crítica particular – como aqueles casos que vão sendo estudados de modo sistemático por Renata Pascoal ou aqueles casos nevrálgicos como Building Stories, de Chris Ware, de que falaremos muito em breve – eles rasgam a vulgaridade desses encontros. É um arquitecto uma profissão que à partida o/a torna mais sensível à plenitude humana? Claro que não. Torná-lo-á mais propenso a um determinado grau de qualidade de conquista na fabricação da banda desenhada? Independentemente do número que se possa angariar de arquitectos na banda desenhada, esse “casamento” ou esses actos criativos são singulares, não expectáveis. Caso contrário, seria roubar ao(s) artista(s) a sua capacidade idiossincrática de conquistarem esse papel.
Além do mais, e um dos aspectos que importa sublinhar sobremaneira nestas 12 crónicas é que não há de forma alguma uma concentração nos aspectos objectuais da arquitectura, isto é, o isolamento dos edifícios ou das suas formas (trata-se de uma resposta ao acto da arquitectura bem distinto do de Blanciak), nem uma reificação quase absoluta dos estilos (à la Peeters-Schuiten). É importante notar que o autor opta por colocar como títulos de cada peça o verbo “ser” [se bem que, em rigor, esse título tenha sido dado a todo o número respectivo do JA, podendo ter partido a equipa da redacção], recordando a lição de Erich Fromm sobre a paulatina mas decisiva emergência do materialismo nas sociedades capitalistas avançadas, servindo então aqui, através do humor, da observação do quotidiano, português ou outro, de solução. Mesmo o nom de plume do autor reflecte essa tendência de vivência, e não tanto de reificação do objecto-edifício.

Podemos dizer que, em termos gerais, estas crónicas são sobre os obstáculos que o acto de arquitectura conhece. Imaginemos que nas mentes dos arquitectos o projecto é tudo, um mecanismo ideal de passagem do conceito ao objecto e sua implementação no espaço, mas que infelizmente tem de atravessar o atrito da realidade, sob a forma de clientes, orçamentos, materiais, barreiras legais, vontades de terceiros, recepção e coordenação com os vários círculos concêntricos de contextos.
Cada um deles é visitado pelas crónicas. Isto não significa que os arquitectos surjam como pessoas desinteressadas ou sacrossantas, e muitas vezes a sua soberba aparece retratada ou pelo menos relativizada de alguma forma nestas curtíssimas histórias (se é que lhes podemos incutir uma ideia de facto de narrativa, e não antes de retrato social em acção), como nos casos de “ser populista”, “ser pobre”, “ser crítico” ou mesmo “ser arquitecto” e “ser nada”. Por outro lado, tal como nas várias histórias que Burgos foi criando ao longo dos anos, de modo esparso, e pelas forças das circunstâncias dos projectos em que esteve envolvido, como as publicações que a Bedeteca de Lisboa coordenava com os transportes dessa cidade, ou o absurdamente esquecido e subapreciado À Esquina, com João Paulo Cotrim (uma dessas pequenas obras-primas que fica esquecida no meio do ruído criado por fãs mais vocais de tantas mediocridades), Burgos (de novo sublinhando o nome artístico?) dá uma atenção particular à cidade de Lisboa, incutindo-lhe uma pátina especial de observador da cidade, de colhedor de costumes, de retratista das suas facetas, à la Carlos Botelho (v. adiante). Isto é particularmente vincado na presença dos corvos antropomorfizados, na porteira tacanha para com as outras culturas que pintam Lisboa, na passagem de modelos à la Gehry que tão provincianamente quase picotaram a capital...Porém, acima talvez dos conteúdos temáticos e populados por personagens reconhecidas de forma óbvia ou simbólica, está a forma como Pedro Burgos compõe as suas pranchas, e essas soluções são uma das grandes vitórias do autor, e que o colocam num trajecto particular da nossa “cena”. Se nos permitirem o desvio, recordemos que algumas destas pranchas estiveram presentes na exposição Tinta nos Nervos, e colocadas de uma maneira pensada na sua possibilidade de diálogo. Do lado oposto da estrutura em que se integrava, portanto como que num diálogo contrastivo, ou complementar, ou gémeo, encontravam-se algumas das pranchas de Richard Câmara, outro arquitecto de formação, nomeadamente as do projecto ainda inédito Almedina (de que mostramos uma imagem) e as pranchas da exposição Estereotomias. No centro, precisamente lançando a ideia de uma hipotética raiz comum, ou modelo, ou gesto inaugural, alguns dos magistrais Ecos da Semana, de Carlos Botelho (ver imagem abaixo), pranchas fundamentais na história da banda desenhada ou ilustração ou cartoon (ou tudo isso) em Portugal. Para todos aqueles que viram, com olhos de ver, esta aproximação, entender-se-iam quase de imediato as suas afinidades. Uma construção livre de espaços e personagens numa única unidade visual, a não-estratificação dos vários episódios e/ou momentos em esquadrias rectilíneas mas a fundação de uma cartografia sinuosa de leitura, uma abordagem dinâmica dos protocolos de leitura mesmo, e uma concentração na emergência de uma espécie de objecto central, ao qual poderíamos mesmo chamar de “edifício”, isto é, uma verdadeira entidade singular, e não uma concatenação de elementos díspares e divisíveis. Um ser orgânico, um ser. 
Nota final: agradecimentos à Mundo Fantasma, pela oferta da publicação.

15 de maio de 2013

On Deciphering the Pharmacist’s Prescription for Lip-Reading Puppets. The Quay Brothers (MoMA).

Este post serve apenas para dar conta do pequeno mas rico catálogo da exposição antológica da obra dos irmãos Quay, suscitada pela leitura da monografia de S. Buchan.
Tendo estado patente no ano de 2012, esta exposição apresentava não somente as pequenas câmara-cenário que eles criaram para os seus  filmes de animação de volumes (as quais estiveram patentes em Lisboa, no Museu das marionetas, em 2008, sob o título Dormitorium), como objectos-instalação, posters, capas de livros, ilustrações, projecções de filmes, e “coisas”, à falta de melhor termo, criadas de propósito para a exposição, como as caligrafias anarmóficas nas paredes. Este catálogo, que tem pouco mais que sessenta páginas, reúne stills de filmes, fotografias das tais instalações e dos cenários, dos bonecos-actores e dos cenários para teatro e ópera, algumas fotografias pessoais, imagens da sua carreira em ilustração, e muitas referências das suas formações artísticas, académicas e culturais.
No que diz respeito a textos, apresenta dois textos curtos, mas muito incisivos. O primeiro é de Ron Magliozzi, comissário desta exposição e responsável no museu pelo departamento de cinema, e que apresenta uma contextualização e uma biografia breves, sem no entanto deixar de tecer algumas interpretações sobre temas recorrentes (a ideia de gémeos, a importância da dança, as relações entre espaços interiores, exteriores e inanalisáveis, como os dos sonhos ou dos trompe-l’oeil). O segundo é de Edwin Carels, importante investigador de Ghent, sobre as relações entre a animação e as artes “em geral”. Intitulando-se “Aqueles que desejam para sempre. A ruminação enquanto ‘máquina celibatária’” (a primeira metade do título remete ao subtítulo do filme Nocturna Artificialia), Carels elege “máquinas celibatárias” dos Quay (o que remete a um ponto discutido no livro de Buchan) como ponto nevrálgico do, digamos assim, funcionamento dos seus filmes, como a propósito da cena inicial, introdutória, de Street of Crocodiles, em que se dá a transição, ou relação, ou negociação, importante entre filme e espectador: “de encenar um olhar para a câmara à captura do espectador no interior de uma configuração espacial”. A exposição Dormitorium, de acordo com Carels, convidava o visitante a “activar [aqueles] espaços”, mas os seus filmes atingem uma mais completa “interpenetração sensória”. Num elaborado processo de crítica à emergência da museificação da cultura, mas relacionando essas instituições aos seus imediatos predecessores, as “Wunderkammer” ou “gabinetes de curiosidades” (e o objecto de transição, a vitrine, que implica o princípio “vê mas não toques”), o autor pretende demonstrar como o cinema eleva essa diferenciação absoluta entre o visual - sempre visível, sempre penetrante - e o táctil - sempre fora do alcance, corroborando a transformação que teve lugar quando a “experiência foi substituída pelo conhecimento”, uma lição que, não sendo citada, soa a Walter Benjamin. No entanto, o cinema particular dos Quay, que convida o espectador, nos mais recônditos rincões dos seus corpos e mentes, a transporem as fronteiras existentes entre vigília e sonho, entre tempo(s) e espaço(s), negam muitas vezes o conhecimento para remeterem a uma nova experiência.
Segue-se uma entrevista aos Quay conduzida por Heinrych Holtzmüller, compositor, no seu sentido gráfico, do século XVI, num desses exercícios tão queridos aos autores de apocrifia, palimpsesto e anamorfose com a matéria da história e das suas vidas e obra. Mais do que revelarem pouco de si mesmos, revelam sempre através destes filtros ficcionais, corroborando a mistificação que muitas vezes desejam fazer em torno deles (por serem gémeos, supostamente “reclusos”, etc.). Essa entrevista permite-lhes não somente atravessarem referências usualmente esquecidas mas fulcrais na sua obra (do teatro de marionetas de Michel de Ghelderode a uma marca de cerveja belga vendida num bar favorito, La Mort Subite) ou questão mais metafísicas mas igualmente instrumentalizadoras nas suas pesquisas. A forma como, por exemplo, as suas opções em alterarem a escala do que a câmara pode “ver”, para dessa forma auscultarem sons imperceptíveis, os outros lados da música, o que uma só letra pode encerrar, ou que mundo se esconde quando simplesmente “nos baixamos” à escala das marionetas (citando, precisamente, Ghelderode).
Nota final: as duas primeiras imagens foram tiradas da internet, através de urls directos.

8 de abril de 2013

Cartografias da Memória e do Quotidiano. AAV (Guimarães 2012/INCM)

Produzido no seio de Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura (CEC), pela iniciativa e organização da Escola Superior Artística do Porto, extensão de Guimarães (ESAP-GMR), este foi um projecto que reuniu 6 artistas, todos eles afectos à banda desenhada e/ou à ilustração, e ainda com um pendor muito particular, para que visitassem a cidade e a figurassem nos seus desenhos conforme os instrumentos que melhor lhe conviessem. Esses artistas são Nuno Sousa e Marco Mendes, que têm ou tiveram laços de trabalho com a ESAP-GMR, João Fazenda, as alemãs Ulli Lust e Anke Feuchtenberger e o belga Deniz Deprez. Esses desenhos depois teriam várias “vidas”.
O resultado é um livro oblongo que reúne esses mesmos desenhos nessas vidas. Para além dos desenhos originais, claro está, eles destinavam-se sempre a um qualquer meio de reprodução. O primeiro, desde logo previsto, era uma reprodução em grande escala para ornarem outdoors estrategicamente colocados em Guimarães. Se bem que essa prática possa remeter a todo um historial de práticas artísticas, que envolvem arte politizada, críticas à publicidade, estratégias várias da street art, ou meramente jogos lúdicos de ilusão e referência, a utilização de outdoors para palco de imagens enormes, que não estão associadas a nenhuma mensagem publicitária ou de propaganda (pelo menos no seu sentido comum), criam logo um espaço de disrupção, feliz, do olhar distraído dos transeuntes. Obriga a olhar com uma intensidade particular naquele momento. A primeira parte do livro tem um conjunto de fotografias precisamente mostrando esses espaços ocupados pelos desenhos (e um mapa com as suas localizações, mas desconhecemos se estes materiais estiveram disponíveis durante essa presença). Só essas imagens poderiam levar a leituras complexas e estimulantes sobre o diálogo entre as imagens e esses “não-lugares” (Marc Augé), a ideia de “cidade sobre-exposta” (Paul Virilio), ou outros conceitos, ora desarmando ora reforçando as noções de “memória e quotidiano” que os autores exploravam, e que poderiam ser vistas como resistências.
Seguem-se as secções de cada autor, com pequenos textos introdutórios aos processos, ideias, preocupações, pequenas anedotas. A apresentação geral do projecto atravessa os costumeiros prefácios institucionais, inclusive o de Paulo Leocádio, em nome da escola que propôs e nutriu o projecto, graças ao envolvimento de muitos dos seus docentes, e com um destaque sentido a Maria José Laranjeiro, falecida recentemente, e que era uma das principais “almas” dessa instituição. Mais próximo do “programa” do projecto, está o  texto de João Miguel Lameiras, que não só dá a conhecer a biografia e obra dos autores, como avança uma possível e sensível abordagem à matéria destes desenhos, e às metodologias dos autores, e a quem roubaremos os títulos individuais de cada secção. Além da reprodução dos desenhos propriamente ditos, temos acesso a esboços e estudos, blocos de desenho, e outros materiais. E finalmente o livro é encerrado com fotografias da exposição dos mesmos materiais que teve lugar no Museu da Sociedade Martins Sarmento. No entanto, o livro vem numa caixa-envelope, que encerra desdobráveis de um desenho de cada autor, os quais podem ser vistos como posters, ou outra coisa, mas são, sem dúvida, uma outra “vida” desses desenhos.
João Miguel Lameiras institui estes títulos para cada núcleo autoral: “Anke Feuchtenberger e os caminhos da água”, “Deniz Deprez e a uniformidade dos subúrbios”, “João Fazenda e a síntese impossível”, “Marco Mendes entre autobiografia e memória”, “Nuno Sousa e o fascínio do quotidiano”, e “Ulli Lust e as mulheres de Guimarães” (pp. 18-24). É na sua leitura, e dos textos dos autores, que encontraremos muitos elementos que podem corroborar a leitura e análise das imagens. Se não podemos dizer que haja surpresas, também devemos estar conscientes que não se esperam surpresas destes autores, mas sim antes inflexões inteligentes, como já debatemos noutras ocasiões, em que os autores são capazes de engrenar as circunstâncias e exigências dos projectos para que são convidados na continuidade dos seus projectos, ou linguagem, individuais.
Dessa forma, é quase natural que Feuchtenberger eleja a água como o elemento coordenador da sua viagem, criando pranchas com vinhetas regulares, mas numa estrutura relativamente inédita, na qual engloba as suas impressões de viagem, observações, espaços visitados, pessoas espiadas, histórias contadas por interlocutores, e, pensando no ciclo da água até, ela interrogue o ciclo da memória da terra, das pedras, da história mítica e simbólica e daquela ao rés-do-chão das pessoas ditas comuns.
Deniz Deprez parece ter procurado os “não-lugares” possíveis de Guimarães, a “uniformidade” que Lameiras indica, ou que Olivier Deprez (que dá as suas palavras à secção do irmão) diz ser a “estandardização” e “neutralidade” desses espaços: cruzamentos de estrada, máquinas desligadas em unidades fabris abandonadas, cantos de viadutos (parece ter havido um projecto videográfico paralelo). As tintas acrílicas de Deprez a um só tempo respeitam os referentes e mergulham-nos numa espécie de neblina subtil e pastosa, o que aumenta essa visão desconcertante de uma “mesmidade” possível por entre todo o mundo ocidental(izado).
João Fazenda cria como que mapas da cidade, reduzindo espaços, pessoas e acções a uma estenografia ou infografia colorida, onde tenta a “síntese impossível” (JML), e impondo mais a sua visão gráfica individual do que uma fusão em supostas especificidades daquele local. O contraste entre os desenhos no caderno de esboços e o resultado final faz adivinhar uma resoluta e aturada pesquisa dessa mesma linguagem gráfica, que nos faz recordar sobremaneira alguns dos quadros-mapas de Joaquim Rodrigo, salvo a distância da monumentalidade deste último. Mas, tendo em conta a sua reprodução em outdoors, não seria antes invertida essa comparação?
Marco Mendes integra a sua relação com a cidade de Guimarães (visitante mais assíduo do que os outros artistas, tendo sido docente na ESAP-GMR) no seu contínuo programa de transfiguração da autobiografia em interrogações de identidade, de significado e de valorização social numa contemporaneidade que diminuiu as oportunidades dessas mesmas discussões ao seu mínimo, senão mesmo quase extinguindo a sua possibilidade. Apesar de muitos intelectuais discutirem o fim das “grandes narrativas” (desde os anos 1960), e as palavras “tradição”, “história”, “heróis” serem muito problemáticas, Portugal continua em muitos campos a crer que elas encerram em si mesmas princípios eternos, indiscutíveis e claros. As tiras de Mendes minam esses conceitos, no seu humor melancólico.
Nuno Sousa, que também é docente na ESAP-GMR, olha para as montras mais populares, as feiras, e os parques, enquadra-lhes os pormenores até ao ponto de as recortar dos seus espaços circundantes para as transformar em aparentes quadros ou projectos de instalações totalmente desprovidos de emoções. Apesar da forma, nega qualquer possibilidade de narrativa em arco, de resoluções, de uma compreensão de um progresso, votando o que representa ora a um congelamento eterno ora a uma repetição perpétua. Difícil compreender qual dos dois fins o mais terrível.
Ulli Lust, respondendo à total ausência de estátuas ou fotografias icónicas de mulheres em Guimarães, resolve isolar mulheres de Guimarães para fazer curtos retratos individuais. Uma pequena galeria de mulheres em todas as suas tipologias etárias, profissionais, culturais e de beleza, algumas posando sentadas ou em pé, outras nas suas actividades ou momentos de lazer. Aparentáveis com os (nossos) conhecidos retratos de Colombo, as personagens de Lust querem porém surgir como uma homenagem a lápis das que “em carne e sangue” fazem continuar a vida.
Não deixa de ser importante, e sinal de inteligência da parte dos artistas e da parte dos organizadores do projecto, que estas imagens, quer enquanto núcleos individualizados quer enquanto conjunto, não se pautem por um discurso de encómio simplificado à cidade de Guimarães. Se a CEC é usualmente uma oportunidade de celebração e mitificação mediática, já para não falar de palco de controvérsias, e como sobejam!, em torno das artes visuais e a sua relação com o poder político, as vontades autárquicas e interesses locais, o “grande público” e outros agentes, Cartografias aproveita essa oportunidade – política e financeira – mas para criar pequenas resistências. Afinal, as imagens de Deprez ou de Sousa ou de Fazenda, salvo as diferenças e estratégias (“ausência de singularidade” versus “desencanto” versus “estilização máxima”), poderiam ser as de outro local qualquer, mas não o sendo, retiram uma vontade de singularizar a cidade de Guimarães, “berço de Portugal”. Esta última dimensão não deixa de ser desconstruída por Marco Mendes igualmente, pela oposição que faz dos episódios histórico-míticos (a batalha de Mamede) e cíclico-simbólicos (as Festas Nicolinas) e um absoluto desencanto do dia-a-dia hodierno. E se a banda desenhada de Feuchtenberger parece criar uma ideia de “memória eterna” que mescla os seres viventes e a terra, sob o signo das pedras e da água (tão opostas como complementares), ela não deixa de querer desviar a circunstância espacial e temporal, precisamente para chegar a algo mais universal. Talvez uma das poucas universalidades a que se podem chegar, a do chão que pisamos? E Lust, no seu elogio feminino, não estará a negar, totalmente, aquelas mesmas grandes narrativas, que as mais das vezes são asseguradas pelos “grandes homens da História”?
Um aspecto menos feliz é o facto de que as fotografias dos outdoors, no início do livro, dão melhor conta das cores originais dos desenhos, do que as suas reproduções nas secções centrais, onde há algumas puxadas para o vermelho ou alguns pormenores ficam meio “queimados” ou “borrados”. As imagens de Deprez, Mendes e Sousa são aquelas, parece-nos, que sofrem mais. Nada disto impede que este livro se possa tornar um elemento importante, senão mesmo uma referência, ao edifício que vai sendo construído em torno dos desenhadores do quotidiano, dos diários de viagem, dos urban sketchers e projectos similares.
Nota final: agradecimentos, e saudades, à ESAP-GMR, pela oferta do livro. 

26 de janeiro de 2013

Jogo da Glória. AAVV (Quidnovi)

O subtítulo deste tomo é claro e explicativo: “O Século XX Malvisto pelo Desenho de Humor”. Projecto assinado por uma série de personalidades de grande importância na revalorização, recuperação da memória, circulação e até mesmo transformação crítica de toda uma serie de artes gráficas que incluem a ilustração, o desenho de imprensa e a banda desenhada no seu necessariamente novo papel num novo contexto social, este livro é um objecto obrigatório numa biblioteca mínima de referência. Apesar de haver um colectivo por detrás do projecto, estamos seguros não sermos ofensivos para com os intervenientes se destacarmos os nomes de João Paulo Cotrim, comissário da exposição a que este livro-catálogo se refere, e de Jorge Silva, designer do objecto, mas igualmente cúmplice no gesto museográfico, arqueológico, expositivo, editorial e do pensamento, em acção, que ele implica.
A exposição partiu de um núcleo de trabalhos pertencentes a uma colecção particular e identificada, a saber, a da família Ricon, que se encontra em depósito no Museu da Presidência da República, o qual recebeu este projecto, com muitas adições e participações de colecções institucionais, pessoais e até mesmo dos artistas vivos que nela se encontram. Mas independentemente do processo se desenvolver num qualquer espartilho circunstancial aos trabalhos existentes, ou aos instrumentos possíveis de criar, o que importa é entender qual o fito da estrutura que emerge deste livro. Como dissemos atrás, este volume parece ter um uso muito claro, que é o de objecto de referência. A parte de leão das imagens dos artistas seleccionados encontram-se em breves secções cronológicas, separadas por décadas e introduzidas por duas páginas, em spread, com breves datas e dados que reúnem o sumo histórico desses mesmos anos em termos de acontecimentos à escala nacional ou mundial, com particular foco nos campos da política e da cultura, ou de outras esferas que influam sobre essas áreas. Isso permite desde logo uma consulta rápida, simples, para confirmar ou providenciar uma qualquer pista que depois tem de ser perseguida com mais atenção. Não é este livro o local ideal para aprendermos um novo nome, apesar das pequenas biografias no fim do volume. Não é aqui que nos poderemos inteirar da força de uma qualquer publicação ilustrada, apesar de se encontrar aqui uma plataforma para conhecer um panorama alargado e variado de publicações dessa natureza.
Poder-se-ia apontar o facto de que as imagens surgem de uma forma reduzida, quase na dimensão de selos, ou que algumas das imagens foram já alvo de trabalhos anteriores – mais ou menos gravitando o mesmo universo de referências dos produtores, de Cotrim a Jorge Silva, passando mesmo por António Antunes, e às exposições, publicações e acções que os mesmos protagonizam. Por outra palavras, que este volume servirá menos como um catálogo de nova presença destas obras no nosso universo de referências do que como um volume de verificação, súmula e síntese desta longa e variegada história. Alias, arriscar-nos-íamos a dizer que ele deverá ser uma espécie de nexo entre essa outra obra expandida, de que haverá seguramente capítulos futuros (pensamos sobretudo nos livros assinados por Cotrim na Assírio & Alvim, por exemplo, ou as transformações do AlmanaqueSilva em objectos livrescos e catálogos). Todavia, é esse mesmo propósito que é preenchido cabalmente.  A prosa de Cotrim, que acreditamos ser aquela que pontua os textos de apresentação, e não apenas o texto introdutório, encontra-se na sua capacidade de síntese e poética mais aguda de sempre. Aliás, podemos encontrar neste verdadeiro compêndio, por assim dizer, uma espécie de súmula do trabalho de investigação, levantamento, divulgação e esclarecimento que ele tem cumprido ao longo dos seus vários volumes dedicados as nomes centrais da história e da contemporaneidade da ilustração nacional, de Bordalo e Stuart a Fazenda e Carrilho.
O centro nevrálgico do livro é constituído por uma colecção assombrosa de desenhos de imprensa, caricaturas, cartoons, desenhos editoriais, retratos, curtas bandas desenhadas, de tiras ou de página inteira, ciclos de imagens ora temáticos ora narrativos, pinturas, esculturas, instalações, stills de filmes de animação, de cinema, (querendo, ainda que não de forma sistemática, identificar territórios mais ou menos distintos entre cada um destes termos). Muitos objectos são fruto do trabalho solitário dos artistas, mas há casos de colaboração. Algumas imagens vieram a tornar-se icónicas e parte de um património colectivo, e que devem fazer parte da cultura geral de um português (o Pessoa de Almada, o Salazar à janela de Abel Manta, o “novo Zé Povinho” de António), outros são pérolas mais ou menos esquecidas mas que nesta ou anteriores recuperações deveriam ocupar o seu lugar respectivo (um mapa da Europa de Leal da Câmara, de que faláramos quandoda sua exposição, um pedinte geograficamente dividido de José de Lemos, o escudo quebrado de Cid, que bem poderia ser substituído hoje pelo Euro, um Gil monstruoso de Nuno Saraiva). E mesmo os casos de trabalhos que parecem ser de segunda linha, ou relativamente secundários face a um património mais vetusto, e haver mesmo exemplos de um humor ora brejeiro ora parolo, ora impenetrável (a ausência das supostas legendas e falas que iluminariam a situação cómica ajudariam, decerto, caso repetido da rubrica “O riso amarelo”, de onde partem, pensamos, as imagens de José de Lemos), tornam a potência arqueológica do livro particularmente sentida.
A inclusão de objectos muito distintos do que se consideraria mesmo uma família alargada de “ilustração de imprensa” ou “desenho de humor”, como o cinema ou as obras de arte no seu sentido mais restrito, encontram-se aqui não numa intenção de refundir nomenclaturas nem de elevar a nobreza do gesto expositivo e editorial, mas sim de contextualizar mas também de recomplexificar a relação desses mesmos desenhos com o mundo mais largo da criação e representação do mundo, assim como para dar a conhecer dimensões interdisciplinares ou multidisciplinares de alguns nomes, sejam os de Almada Negreiros ou de Sam, de Amadeo de Souza-Cardoso ou António.
Para além deles, o catálogo tem um suplemento de cerca de 100 páginas composto por dossiers temáticos, se assim os podemos chamar. Estes vários textos, que se apresentam no núcleo final, intitulado “sínteses”, são de uma qualidade muito díspar entre si, alguns dos quais densos em informação (sobre jornalismo, por José Miguel Sardica), outros pautados por experiências pessoais que informam a história (Paulo Costa Domingos sobre a censura), outros um pouco mais impressionistas (uma breve história do design por Mário Moura), mas todos eles compondo, no seu conjunto, uma exímia demonstração das variadas qualidades que pautaram o século XX português, nas suas especificidades mais renhidas, para bem ou para mal. Essa diversidade de tratamento é salutar, na medida em que a própria selecção dos sintetizadores é pensada nos seus contornos mais exactos, e multiplica assim as visões, instrumentos, sensibilidades, estratégias de navegação, mas nunca colocando em perigo ou em xeque a inteligência e completude que se lhe deve reconhecer.
No fundo, é talvez sob o signo da diversidade a toda a linha que este livro se estrutura. Sendo, como é indicado, um projecto montado sobretudo em torno de uma colecção particular, haverá ausências, é certo, sendo discutível se são “gritantes” ou “circunstanciais”. Mas é um balanço significativo e digno deste capítulo da história da arte portuguesa, e que deveria fazer pensar todos e quaisquer projectos que se arrisquem a querer surgir como representantivos da mesma área.
Nota: agradecimentos à editora, pela oferta do volume (imagens colhidas na internet).