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14 de agosto de 2017

Miracleman. A Idade de Ouro. Neil Gaiman e Mark Buckingham (G. Floy)

Antes de mais, queríamos esclarecer a declaração de intenções, uma vez que, tendo sido os tradutores deste volume, somos parte interessada no projecto.

Dito isto, e na continuidade de alguns projectos da editora, que nos tem disponibilizado alguns dos melhores títulos do mainstream norte-americano contemporâneo (Saga, Fatale, Southern Bastards), e depois de uma edição com todo o run de Alan Moore (a que corresponderiam 3 livros), eis que se publica um volume com todo [v. comentários] o material criado e publicado na época por Neil Gaiman e Mark Buckingham, herdeiros imediatos do anterior autor, e seus múltiplos colaboradores artísticos. Como é consabido, o Miracleman, nas mãos de Moore et al., transformar-se-ia no principal cadinho e laboratório de cruzamentos de muitas das noções daquele autor britânico que tanto seriam influentes no seu próprio trabalho no território dos super-heróis como depois em todo este género, e a que se viria a dar muitos nomes, desde “desconstrutivismo”, a “pós-moderno”, até mesmo “maturidade” ou “revisionismo”. Não é que algum desses termos esteja errado, mas tampouco serão completos. Seja como for, é inegável que se encontrariam aí muitos dos elementos que depois se tornariam inevitáveis na esmagadora maioria da produção deste género. (Mais)

11 de novembro de 2016

Miracleman/Watchmen. Alan Moore et al. (Levoir/G. Floy)

A publicação destes dois livros no mesmo ano, por dois projectos diferentes (mas que sabemos estarem aliados por agentes comuns), vem repor uma das muitas falhas da banda desenhada disponível em Portugal em língua portuguesa na norma europeia. As relações de ambos os títulos partem da circunstância de ambas partilharem o mesmo escritor, Alan Moore, e de fazerem parte de um projecto que ele não tem abandonado, pois mais que o pareça nas suas afirmações explícitas: a da reinscrição do género dos super-heróis numa nova relação com a referencialidade real para, a partir disso, interrogar o género mas também a fantasia, a efectividade das utopias, a realidade política que nos assiste, etc. E à distância de mais de trinta anos, não pode haver dúvidas de que houve de facto uma transformação radical desse género provocado pelo trabalho do escritor inglês. (Mais) 

21 de julho de 2016

The New Mutants. Ramzi Fawaz (New York University Press)

Tendo como sub-título Superheroes and the Radical Imagination of American Comics, compreender-se-á de imediato o objecto de estudo deste volume académico, assim como a matéria que é desalojada para lhe prestar atenção crítica. Basicamente, este é um estudo das figuras dos superheróis no contexto histórico e cultural norte-americano, criando um filtro que permite ver essas personagens como capazes de reconfigurar imaginativa mas igualmente politicamente (isto é, com efeitos na pólis) vários tipos de inscrição cultural. Desta feita, o autor contribui de uma forma sustentada e feliz para com a consideração da banda desenhada como, acima de tudo, para citar uma das cartas enviadas às editoras que o investigador utiliza, “espaço legítimo para pôr em prática ideais” (195). (Mais) 

26 de junho de 2016

Superman: American Alien. Max Landis et al (DC Comics)


Em outras ocasiões tivemos oportunidade de revelar algum tipo de acompanhamento que fazíamos de séries mainstream de super-heróis em continuidade, o que ainda se mantém, ainda que de modo menos visível do que se pensaria pelos textos aqui publicados. Maior atenção, todavia, é dada a projectos que surgem como “one shots” feitos fora dessa mesma continuidade, que dessa forma se permitem explorar de modos mais interessantes as potencialidades das variações do género. Foi o que aconteceu, por exemplo, com títulos de Batman ou dos Vingadores. Apesar de termos iniciado igualmente uma abordagem de um outro projecto com o Super-homem, apenas agora surge a oportunidade de sermos mais específicos. (Mais) 

16 de dezembro de 2015

Bending Steel. Aldo J. Regalado (University Press of Mississippi)

Para Regalado, os super-heróis são “seres da imaginação”. Nesse sentido, eles não possuem em si mesmos princípios ideológicos ou culturais absolutos, mas são antes figuras que são empregues em vários usos e contextos. Este autor não olha para estas personagens como figuras salvíficas, à la Grant Morrison, uma vez que entende de modo sério as limitações intrínsecas às criações da cultura em relação ao poder sistémico, como ele diz. Sendo a modernidade entendida como uns grilhões de aço, porém, essas figuras são metáforas “com criatividade, inteligência, sensibilidade, inclusividade e dedicação suficiente” para as dobrar (228). Mas para entender os instrumentos com que o farão, e o modo como têm respondido ao curso da história, é preciso percorrer os passos para trás e ter uma visão de conjunto. (Mais) 

16 de julho de 2015

The League of Regrettable Superheroes. Jon Morris (Quirk Books)

Corre a ideia feita de que o género dos super-heróis é o único género que nasceu em exclusividade no cadinho do meio da banda desenhada. Não nos compete a nós contestar nem defender essa ideia, que peca, a nosso ver, por, paradoxalmente, misturar forma e conteúdo mas não tomar em atenção especificidades formais e expressivas do meio, cristalizar um conceito apesar das suas constantes reformulações e todavia estender em demasia a atenção por campos diversos e até mesmo incomparáveis. Aceitemos, porém, essa ideia. Por mais que seja um conceito de que se goste, por estar embebido em toda a sua cultura (os super-heróis são uma “cultura holística”, e não propriamente um campo alargado no qual depois se possam escolher intensidades), eles são um modelo de uma fantasia algo estrambólica. E como sabem os seus leitores, mais até do que os não-leitores, há variadíssimas gradações de delírio. Este livro pretende encontrar personagens com um elevado grau desse delírio. (Mais) 

9 de julho de 2015

Punisher, Black Widow, Deathlok. Nathan Edmondson et al. (Marvel)


Com o seu programa editorial Marvel Now, uma das maiores forças de produção da banda desenhada mainstream norte-americana, sobretudo de super-heróis (mas não só, já que a Disney e a saga de Star Wars tem entrado aos poucos na sua produção), tentou toda uma série de direcções novas, sobretudo apostando num grau de (possível) diversidade autoral, humores e estilos. É possível lermos títulos bem-humorados e frescos como Ms. Marvel ou Silver Surfer, espatafúrdios como The Unbeatable Squirrel Girl, de contornos cosmo-épicos como os vários Avengers de Hickman et al. Nesta paisagem, portanto, não nos surpreende que encontremos títulos mais “duros”, em termos de violência, e referências ao mundo real dos conflitos bélicos, o poderio industrial-militar, os jogos de poder político entre as potências, e todos os ditos “danos colaterais”. Ocupando esse território, destacar-se-iam os títulos escritos por Nathan Edmondson. 

7 de junho de 2015

The Multiversity. Grant Morrison et al. (DC Comics)


Por ocasião das considerações tecidas sobre Supreme: Blue Rose e Batman: Earth One vol. 2, estabelecemos alguns pontos de ligação com esta série de Grant Morrison, a qual se associa igualmente a outras tantas questões debatidas cada vez que se fala de super-heróis, multiversos e as estruturas narrativas específicas dos grandes mundos ficcionais da banda desenhada norte-americana deste género. Durante um período, pensámos que poderíamos seguir o mesmo exercício que estamos a tentar elaborar com a leitura capítulo a capítulo de SandmanOverture, mas a leitura dos dois primeiros números fez-nos desistir dessa direcção, preferindo a leitura global, necessariamente fragmentada, como veremos. (Mais)

2 de junho de 2015

Batman. Earth One Vol. 2. Geoff Johns e Gary Frank (DC Comics).

Planetary/Batman: Night on Earth, de Warren Ellis e John Cassaday, é um exercício muito curioso de meta-textualidade para pensar a maquinaria ficcional específica da banda desenhada de super-heróis norte-americana, com as suas linhas de continuidade, feitas de nós de modelos cambiáveis. Nessa história, os arqueólogos da imaginação deparam-se com várias versões de Batman, acompanhando as facetas com que foi sendo burilado ao longo do tempo, desde o final dos anos 1930 até à contemporaneidade, passando pela possibilidade dos Elseworlds. Mas quando finalmente se aproximam do “conceito central” dessa personagem, eles apercebem-se de que ele não é nem um “polícia” nem um “vigilante”. Elijah Snow não tem a palavra certa. (Mais) 

16 de novembro de 2013

Avengers, Endless Wartime. Warren Ellis e Mike McKone (Marvel)

Gostaríamos de experimentar um exercício. Se neste espaço privilegiamos aqueles textos que de uma forma ou outra apreciámos ou nos estimularam a escrever, preferindo passar em silêncio aquelas obras que, de medíocres, triviais, ou cujos elementos a discutir acabam por ser exíguos, a mescla de expectativa e desilusão com este projecto leva-nos a querer dar a ver o que seria possível num texto negativo. Ao contrário da sabedoria popular, que por vezes se engana, a tarefa da crítica não é “falar mal”, nem “botar abaixo”, mas antes tecer um discurso que visa, através de argumentos, uma perspectiva qualquer ancorada e que pretende, enquanto fito último, um diálogo, uma discussão que contribua para a comunidade final dos seres humanos, a saber, a comunidade estética. Se o que faz mover um crítico em relação a um determinado texto é totalmente negativo, ou por outras palavras, se o crítico não gosta de um texto, porquê deixar-se abandonar no doloroso trajecto de tornar palpável essa bílis, que apenas por ser remexida se torna mais biliosa ainda e por isso de baixo interesse em ser interessante para o público?

Daí que este não seja um exercício a ser repetido muitas vezes.

Depois de termos tecido alguns comentários sobre a nova direcção editorial da Marvel, cuja promessa rapidamente se gorou pelos mecanismos expectáveis e pelas economias normalizadoras de registos narrativos e visuais da companhia, ainda assim havia uma pequena esperança de que a nova linha de “graphic novels” pudesse significar um alento a este universo de referências. A associação do nome de Warren Ellis ainda estimulara mais essa expectativa, mas Avengers, Endless Wartime acaba por ser mais uma caixinha de boas intenções do que de um texto bem desenvolvido.

Parte destas expectativas estarão relacionadas com a colecção “Graphic Novel”, que nos havia chegado às mãos através das traduções da Abril durante os anos 1980, com títulos que ficaram na memória dos seus leitores, até porque, existindo menos material e menos acesso ao mercado internacional, tudo o que surgia com um grão de diferença no interior desta economia dos super-heróis parecia digno de atenção. Se alguns desses títulos sobreviveram em todo o seu conjunto, desde A Morte do Capitão Marvel, o Demolidor de Miller e Sienkiewicz, o volume de Alien Legion, outras recordam-se mais pelo impacto visual, como o Homem-Aranha de Wrightson, o Drácula de Jon J. Muth, e outras ainda por serem material em relação ao qual não estaríamos, na altura, preparados, e deixaram mossa (Void Indigo, de  Steve Gerber e Val Meyerik). A partir desse primeiro (para nós) gesto, sempre que surgiriam formatos especiais (“prestige”, “graphic novel”, algumas mini-séries, etc.), estava associado a um conjunto de constituintes permanentes: histórias isoladas da “continuidade”, pelo menos de um modo suficiente para serem apreciadas por um público maior que o habitual, histórias mais desenvolvidas por terem mais espaço para isso, explorações mais espectaculares ou complexas por elementos usualmente fora da economia mensal, e, acima de tudo, um tratamento gráfico que a tornava desde logo especial, digna de nota (mesmo que tenha havido um número de coisas feias). Ora, todas essas expectativas verificaram-se com este título. Però

Para aqueles que têm acompanhado os títulos com os Vingadores de Jonathan Hickman (Avengers e New Avengers), mesmo no interior do crossover Infinity, saberão que tipo de estruturas narrativas altamente contemporâneas, e até experimentais (bebendo de fórmulas de jogos electrónicos, formatos ficcionais televisivos, a cultura youtube, etc.), podem ser empregues no seio do mainstream de super-heróis para, em primeiro lugar, gerir um número impressionante de personagens que poderiam assumir o protagonismo mas se tornam como que elementos de uma verdadeira equipa (e não uma pirâmide móvel, com um líder isolado e os “especialistas” em cada um dos seus papéis) e, em segundo lugar, conseguir criar uma dinâmica fluidez entre elas, fazendo ainda assim emergir a noção de uma narrativa coesa, com propósito e um “arco” definido e legível. Endless Wartime centra-se naqueles Vingadores afectos aos filmes (de modo a compreender tratar-se de um projecto que pretende chegar antes aos leitores casuais ou não-leitores conquistados pelos filmes), a saber, Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Hulk, Viúva Negra e Hawkeye, numa confusa mescla entre os desenvolvimentos que estas personagens têm sofrido no “universo normal” (616), as intervenções estilísticas e narrativas dos Ultimates/Marvel Now, e factores dos filmes. Wolverine junta-se a eles, pois Wolverine é sempre o factor “edgy” que tem de entrar para subir a parada da violência, da entrega quase gratuita mas “necessária” a essa violência, da história que estiver a ser desenvolvida. E ainda temos a Capitã Marvel Carol Denvers, que tem sido impelida pela companhia de modo evidente, e poderá vir a ser mais uma das personagens a chegar aos ecrãs no futuro. Ou seja, desde logo há aqui uma clara vontade de gerir o melhor possível as personagens enquanto propriedades intelectuais transmediáticas desta companhia integrada (não é apenas a Marvel, mas a Disney).

Essas estruturas não se conseguem desenvolver aqui, contudo. Ellis até parece “forçado” a trabalhar com estas personagens e tenta encaixá-las em fórmulas habituais da sua escrita. Ellis quer que algumas das personagens tomem conta do “cínico” que costuma ser o seu protagonista (Elijah Snow, Spider Jerusalem, Michael “Desolation” Jones, etc.), mas parece não estar seguro qual das personagens aqui deve assumir esse papel… então vai apimentando os diálogos de todos com “bocas”, de uma forma que as torna todas cheias de fastio, arrastando-se na relação que têm de manter com os demais… Em vez de criar geometrias interessantes entre estas personagens, Ellis acaba por construir apenas barragens seguidas de diálogos cínicos, de respostas e ripostares, que acabam por ser demasiado vincados para se tornarem factores de moldagem das personagens (de resto, com um historial mais ou menos conciso que poderia ter sido usado mais elegantemente). Quase todos parecem não ter elos de amizade entre eles, e até têm atitudes algo “desconectadas” com os outros membros, como se fosse uma aglomeração de solitários.


Não é a primeira vez que Ellis tem estes “brinquedos” na mão. Para além da oportunidade que teve em citar pastiches dos vários Vingadores ao longo dos “arcos narrativos” de The Planetary, Ellis trabalhou em títulos com Wolverine, escreveu a trilogia Ultimate Galactus, que envolve todos estes personagens (versão Ultimate), escreveu uma das mais celebradas e hard sci-fi histórias do Homem de Ferro (da continuidade), escreveu Ultimate Human, com essa personagem e o Hulk… e até havia criado um curioso exercício “meta” com Ruins, uma espécie de Marvels ao contrário. Em Endless Wartime, porém, Ellis não explora nenhum dos seus pontos fortes. Ou melhor, acaba nos seus pontos fracos: não ser capaz de criar uma história em que os heróis se têm de manter “limpos” (pelo menos o Capitão América, por demais jogado “contra” o papel de Wolverine). É como se se tivesse lavado o cinismo e o humor negro e tivesse ficado algo sem muita personalidade, quase mecânico. Além do mais, se uma das coisas que pode funcionar nestas personagens é a forma como teriam de trabalhar juntos – e sendo uma equipa líquida em termos de membros, todos estão envolvidos porque o desejam, porque sabem trabalhar para isso, porque têm como fito algo comum -, o tratamento de Ellis transformando-os em uma mão-cheia de pessoas que parece serem forçadas a colaborar não se coaduna com a “marca”. Até a entrada de Bruce Banner/Hulk parece mais de um funcionário a picar o ponto do que um momento alto da narrativa. Que essa fosse uma estratégia perfeita em The Planetary, ou os “seus” Wildcats, ou outra equipa, é uma coisa, mas a equipa mais “clean” dos super-heróis, é simplesmente não fazer o trabalho de casa.

A menos que seja um projecto de Ellis: o minar “por dentro” estas personagens. Mas isso não faria sentido, nem resultaria, pois a história em si, os eventos e gestão deles, não chega sequer a ser significativo.

O ponto de partida da história é uma boa equação entre o cliché e a ideia original. O cliché é que “fantasmas do passado” de Thor e Capitão América os revisitam na contemporaneidade, mas isso poderia até ser bem gerido (como o é, por exemplo, no recentíssimo Captain America: Living Legend, de Andy Diggle e Adi Granov): em primeiro lugar, faz-se uma aliança em retrospectiva dos caminhos dessas duas personagens durante a 2ª Grande Guerra, que poderiam vir a ser explorados de uma forma curiosa e produtiva; depois ancora as mesmas personagens na história quer real quer da fictícia que lhes pertence mas é igualmente significativa para as personagens e os leitores que os acompanham desde as suas origens (1941 e 1962, respectivamente). No entanto, o cruzamento logo acaba por cair em clichés ainda mais ridículos: os inimigos acabam por ser demónios da mitologia nórdica transformados em mísseis nazis. Sim, o combate destes Vingadores será contra, basicamente, dragões-drones argardianos nazis. Isso bastaria para fazer ruir o edifício, mas os leitores de Ellis poderiam ainda assim esperar que a alucinação techno-mágica ou oculto-tecnológica poderia ser escavada até um ponto profundo (recordemo-nos dos conceitos loucos em Global Frequency, City of Silence, Supergods…), como costuma ser pelo escritor inglês… mas não é. Aliás, a trama da origem destas criaturas, a sua continuidade na era contemporânea, e depois a sua resolução (através da violência massiva, que surge como “inevitável”, o que abre a grandes possibilidades de leituras ideológicas) é desordenada, lacunar (quem é que Wolverine encontrou, afinal?), e, no fundo, algo ridícula.

É verdade que Ellis tenta evitar aquele mecanismo óbvio que seria colocar todo o destino do planeta Terra em perigo. Não se trata aqui de uma invasão alienígena (é-o apenas quase) nem de uma ameaça de um conquistador global (é-o apenas quase), mas um inimigo localizado. Existe também um outro equilíbrio entre as relações intricadas com pequenos elementos do universo Marvel para entreter os nerds atentos, e coisas mais ridículas como a menção de um conflito num pequeno estado fictício do Médio Oriente, entre o Irão e o Afeganistão, a Slorénia, com a capital Tblinka. Não percebemos sequer se isto é para ser sério, se serve para “associar-se a temas reais” ou é apenas um disparate pegado. Seja como for, se esta se trata de uma graphic novel auto-contida de mais de 150 páginas, um one-shot de preço elevado e altos valores de produção (física) e de publicidade, esperar-se-ia, lá está, uma espectacularidade desmesurada, que se verifica, afinal de contas, quase todos os meses em todos os pequenos comic books que a Marvel produz. Nada há de negativo numa exploração consciente e dominada dos elementos e convenções tipificados que constituem um género altamente estilizado como este, e pode-se mesmo atingir a perfeição no seio desse género. Já havíamos aventado sobre este aspecto a propósito de algumas séries, e mais recentemente com Smoke/Ashes. Todavia, este caso é uma prova acabada que o nome do autor não é de facto suficiente para assegurar uma conquista nessa direcção.

Talvez se tivesse desejado uma história menos densa e negra, que pudesse servir o seu propósito de conquistar novos públicos, com uma história “leve”, tal qual como nos filmes, de certa forma. A mescla de vários desejos é muito nítida e o resultado é medíocre, infelizmente. Porque Ellis tenta enfiar, mais uma vez à força, uma “relevância social” destas personagens no “nosso” mundo, mas de uma maneira duplamente falha: em termos estruturais, através de intervenções de um narrador externo, com legendas esparsas ao longo da narrativa, mas que apenas desequilibram a fluidez geral, e não dialogam directamente com o resto das opções; em termos sociais, porque o mundo seria deveras diferente se existissem pessoas destas nos destinos das nações, e melhores projectos de banda desenhada exploraram essa via… Ellis atira umas quantas “notas” dessas ideias e espera que colem à narrativa. Nem sequer um determinado vigor que se esperaria do género está presente (como o havia explorado em Nextwave, por exemplo).

E finalmente temos a questão do aspecto visual do livro. Tendo em conta a forma como era vendido, esperava-se que se escolhesse um peso maior para a prestação artística. A arte de Mike McKone é, pura e simplesmente, má. Não péssima, não totalmente feia, mas incompetente para o seu propósito, ilegível na sua relação narrativa, desajeitada em muitos pormenores, e, muito francamente, desgraciosa. Na maior parte dos casos, as personagens são desprovidas de emoção, e isso é notório da forma como o artista desenha os rostos. E há também uma falta de coerência interna, como se não fossem as mesmas pessoas de vinheta para vinheta, com opções toscas em termos de rostos ou mesmo posições dos corpos (ou, no caso que mostramos, uma espécie de repetição de rostos no Capitão América e o Thor). Mesmo algumas cenas de grande acção não têm dinamismo, ou então a ausência de cenário, objectos ou mesmo linhas de movimento parecem enquadrar as personagens num líquido espesso que as suspende. A opção de tornar todas as composições de acção em estruturas oblíquas por McKone pode dar um efeito de dinamismo, mas é apenas superficial, e é até mesmo uma “espectacularidade” que confunde a leitura (um pouco como os movimentos de câmara nos filmes de super-heróis, que parecem uma montanha-russa mas em nada ajudam a perceber os movimentos, que ganhariam em imitar antes bailados ou natação sincronizada, à la Power Rangers). E se bem que as personagens femininas, a Viúva Negra e a Capitã Marvel, não sejam abusivamente representadas a partir de uma perspectiva sexualizada (ajuda o facto de que os uniformes delas cobrem o corpo todo), há aquela vinheta de Natasha Romanova que põe tudo em causa, e sublinha a imaginação fantasiosa sexualizada dos artistas e leitores usualmente associados a este género (posições que revelem a um mesmo olhar o peito generoso e anti-gravitacional e o traseiro afro-brasileiro recauchutado não constituem o melhor exercício de yoga)…

O tratamento das artes-finais e das cores digitais é também particularmente medíocre, tornando todo o projecto numa espécie de camada empastelada, sem brilho, sem vida. Tendo em conta a existência de um Gary Erskine, um Leinil Yu, um Jae Lee, um John Cassaday, um Alex Maleev, um Andy Granov (para apenas mencionar os mais competentes e interessantes artistas deste género a trabalhar agora na Marvel), ou até os portugueses Jorge Coelho e Filipe Andrade, que insuflam uma frescura e dinamismo aos títulos em que trabalham (mas menos interessantes pelas direcções narrativas que seguem), poder-se-ia imaginar uma alternativa mais brilhante e acabada para estas “graphic novels”.

Enfim, talvez seja uma parte nostálgica que gostaria de facto de encontrar material deste quadro de referências que fosse digno de partilha para além do público habitual, mas é possível que isto apenas seja um dos sintomas que confirma a mediocridade geral destas produções, e explica porque não há necessidade de visitar o mainstream, quando existem tantas alternativas…
Nota final: imagens retiradas de ficheiros digitais. Agradecimentos a Hugo Almeida pela correcção de uma informação que colocámos na versão original, já corrigida: faláramos de um pastiche dos Vingadores em The Authority, mas isso era do Mark Millar e Frank Quitely... Nerd alert indeed.

9 de setembro de 2013

Image (Comic Books, parte 5)

Falarmos da Image hoje nada tem a ver com falar da imagem que a Image projectou no seu início, o que permite - e não nos excusamos desse uso - de utilizar a expressão “à la Image” para se falar de trabalhos de qualidade duvidosa, usualmente povoado por composições espalhafatosas, figurações de anatomia risível e explosiva, trabalho de cor berrante, e uma construção narrativa praticamente mentecapta, sem quaisquer noções de ritmo, desenvolvimento de personagem, carga emocional, etc. e que serviria apenas as fantasias mais basilares de uma adolescência confinada (ou à sua protelação pela idade adulta, mais problemática). De facto, as transformações internas da editora foram variadas, mas podemos dizer que desde a entrada de Eric Stephenson como publisher (isto é, o equivalente a gerente ou director editorial) que as coisas se reforçaram na senda da diversidade e da qualidade, sobretudo com os novos títulos tentados, desde o convite a Brandon Graham para continuar Prophet, ao surgimento de Saga e Orc Stain, etc.
Se bem que a nossa compreensão do lado empresarial seja deficitária, julgamos poder descrever a Image contemporânea como um grupo editorial que reúne várias editoras independentes ou estúdios de produção (Shadowline, Top Cow, Image, Joe’s Comics) numa só plataforma, coordenando todos os esforços, desde os criativos e de direitos autorais aos da distribuição e marketing. Isso permite que a Image esteja nos lugares de topo do seu mercado, com outras editoras como a Dark Horse, naquela segunda linha possível de conquistar (já que a primeira é eternamente dividida pela Marvel e a DC). Por outro lado, essa relativa independência e o modo como as marcas, personagens e relação com os autores são geridas no interior da companhia torna o trabalho mais feliz para os criadores. Do ponto de vista do leitor, não haverá diferenças substanciais no género, no humor, nas estratégias narrativas (afinal, que diferença substancial existirá entre America‘s Got Powers e uma qualquer saga dos Vingadores/Avengers?), mas do ponto e vista da produção, e sobretudo no que diz respeito aos autores, é algo de muito distinto, já que a Marvel e a DC são corporações no interior das quais os escritores e artistas trabalham para produzir histórias que não lhes pertencem com personagens que são marcas registadas ou IPs/propriedades intelectuais [a relação “work for hire”], na Image produzem obras sobre as quais deterão todos os direitos [relação “creator ownership”].

Em retrospectiva, não pensaríamos há dez anos que se encontraria na Image uma diversidade destas, e muito menos que alguns dos títulos seriam interessantes, estimulantes ou mesmo excelentes. Ainda que não nos possamos distender demasiado sobre cada um deles - apesar de dois ou três merecerem uma análise mais cuidada -, deixaremos aqui algumas notas sobre os títulos seguidos com interesse, sem ordem particular, e com a rápida menção que outros foram abandonados (como os dois títulos de Joe Casey The Bounce e Sex, por serem, francamente, muito), e outros não iniciados, como os de Matt Fraction. Com a excepção de Infinite Vacation, lido em volume, tudo o resto foi seguido em comic book. 
Prophet. Brandon Graham. Tendo já falado desta série, não nos alongaremos, e simplesmente acrescentaremos que o seu escopo, em termos de espaços e personagens, se alargou, ainda que tenha se revestido ao mesmo tempo de um “arco narrativo” mais claro, em torno da grande guerra inter-imperial que enquadra todos os acontecimentos. A estranha ciência, a mistura de explorações pela biologia alienígena, as formas de comunicação e relação, as tecnologias e os assuntos mais mundanos deste(s) mundo(s) distante(s) continuam a ser os elementos que tornam esta série uma das mais interessantes que nos foi dada a  conhecer no género da ficção científica, que se afasta de todas as mais usuais normalizações ou inscrições na nossa sociedade.
 Infinite Vacation. Nick Spencer and Christian Ward. A banda desenhada norte-americana de ficção científica encontrasse num momento, do que nos é dado a ver, muito sofisticado, e este título, uma série curta já terminada, juntamente com Prophet, Saga (na Image) Mind MGMT e The Massive (na Dark Horse), é um grande contributo nesse sentido. Se Prophet é mais devedor de títulos também de acção e aventura, ou guerra, Saga com a fantasia, Mind MGTM do policial, etc., Infinite Vacation bebe da comédia romântica. A premissa desta história é que, através de um mero app em qualquer dos aparelhos electrónicos usados nos nossos dias, podemos aceder a qualquer um dos nossos eus “paralelos” ao longo de todos (infinitos) universos, e, pagando, podemos assumir as opções deles. Ou seja, a física quântica permite viajar através de realidades paralelas, e isso é um produto comercialmente viável. A trama coloca o protagonista da primeira realidade (a “nossa” ou “basilar”, se quiserem) no centro das atenções – é um escolhido, especial, o costume. Mas apesar dessa intriga clássica, povoada por toda uma série de elementos relativamente expectáveis no género (um tipo de cultura que já estava presente em Forgetless, de que falámos e em que Jorge Coelho participou) é curioso ver as convolutas exposições sobre as possibilidades quânticas ao serviço de um serviço idêntico àquele do Facebook ou de um novo telemóvel, e cujo resultado é um romance transdimensional que ainda assim mantém a aparência de “quotidiano”. Nalguns aspectos, tem linhas de força parentes daquelas exploradas na série televisiva Black Mirror. Os desenhos de Ward, sendo de contornos líquidos, composições livres e cores fecundas, parece estar a trabalhar com materiais maleáveis e em constante movimento, sendo perfeito para esta história de passagens, transformações e colapsos de estados da matéria. 
Change. Ales Kot et al. Esta mini-série quase passava despercebida, e uma breve descrção também não fará jus às suas forças. A um tempo homenagem a Lovecraft (sim, mais uma), e exercício metatextual sobre o acto da criação se virar contra o criador, onde as fronteiras entre a criação e a realidade se anulam, Change é uma espécie de banda desenhada em stream of consciouness que exigirá uma leitura aturada, confiante e dedicada, senão contínuas releituras. Ou então, bem pelo contrário, exigirá que seja fruído como quem escorrega pelas suas páginas, quase como se o sentido viesse coalescer mais tarde, já depois de poisarmos as páginas. Seguimos um número de personagens quase típicas da cidade de Los Angeles, em busca de impedirem o apocalipse de ter lugar, mas nem todas essas personagens têm contacto directo entre si, ou não é aparente que o tenham. A cultura do rap e do cinema, nas suas faces dos bastidores da produção, elementos do crime e de cultos satânicos, são colocadas nesta plataforma e sacudidos, de maneira a que nenhuma dessas partes saia incólume do embate com as outras. É muito curioso que nas capas dos comics, o nome do escritor, do desenhador (Morgan Jeske), do colorista (Sloane Leong) e do legendador (Ed Brisson) estejam sempre presentes, como se se quisesse sublinhar que as funções de todos eles não é meramente intrínseca à cultura/forma de produção taylorista desta banda desenhada norte-americana, mas os acentuasse enquanto autores em termos idênticos. E, de facto, há uma diversidade em termos de composição, dinâmica, cromatismo, uso ou não de texto dialogado, narrado e onomatopeias que incutem nas linhas flexíveis de Jeske, que cria como que corpos líquidos e mutantes, uma fluidez muito apropriada ao texto também mutante de Kot, um autor seguramente a seguir, que, das duas uma: ou foi um fluke momentâneo e terá deixado este estranho título numa pilha de muitas obras singulares e quase esquecidas, ou estará genuinamente interessado em compreender como empregar poesia num veículo aparentemente convencional, com resultados inesperados.
Orc Stain. James Stokoe. Uma possível sinopse ocultaria a razão de maior interesse deste título, já que superficialmente estamos perante apenas uma relativa variação de outras narrativas de high fantasy, envolvendo exércitos indomáveis de um tirano orc, magia e aventuras guerreiras, e um orc especial que será o salvador de todos. Mas a energia nasce não apenas da velocidade e impacto da escrita (que recorda trabalhos mais maduros de títulos europeus/à europeu do género, como a Métal Hurlant/Heavy Metal), como da forma como as imagens são construídas. Stokoe é um desses autores contemporâneos, à la Brandon Graham, Michael DeForge, etc., que não apenas é devedor de toda uma série de escolas díspares - mangá, super-heróis, ilustração, art comics, arte psicadélica, etc. - como é capaz de criar uma amálgama de tudo isso muito coerente (já que faz tudo ele próprio, e com uma diversidade salutar). Capaz de criar mundos fictícios com duas ou três páginas bem pensadas, a sua atitude punk não lhe permite que isso seja levado demasiado a sério, estando povoado por pequenas piadas, desvios sarcásticos ou simplesmente pontos de fuga temáticos que fazem o leitor oscilar nas suas certezas. Já num trabalho relacionado com Godzilla, Stokoe mostrava a sua capacidade em preencher vinhetas de forma musculada e eletrificante, à la Geoff Darrow mas mais livre, mas neste título em quer toda a matéria narrativa é da sua responsabilidade - mesmo que não se trate de uma obra-prima do género - permite-lhe muito mais espaço de liberdade. 
The Bulletproof Coffin. David Hine e Shaky Kane. Estas notas devem tomar em conta a existência da série original e aquela mais recente, subtitulada Disinterred. A primeira era um exercício de nostalgia por toda uma série de referências associadas à cultura dos comic books norte-americanos dos anos 1950-1960 (supostamente a infância dos autores) onde não apenas as personagens de banda desenhada e filme de série Z estão presentes, mas toda a catadupa de produtos vendidos nos anúncios. A personagem principal encontra uma espécie de tesouro em cada sótão dos seus “clientes” (o seu trabalho é esvaziar casas de mortos sem herdeiros, e com isso constrói uma espécie de mausoléu nostálgico, mas o qual lhe dará acesso a um universo sórdido em que as ideias loucas dessa cultura têm lugar real. Os interstícios entre o real e o fictício são demolidos, naturalmente. Disinterred poderia ser visto como uma continuação, mas é na verdade uma fuga numa direcção totalmente diferente. Trata-se de uma estrutura muito mais fragmentada, como cada número independente entre si, mesmo no que diz respeito a estratégias narrativas, e que exploram contornos semi-experimentais no que diz respeito à causalidade narrativa, e a uma forma exacerbada de explorar essas tais referências. Como alguma da crítica às séries notaram, Hine e Kane fazem uma espécie de bricolage, e caberá aos vários leitores a destrinça de quais pistas estão presentes, e em que medida é que elas são ou não úteis para as imagens gerais subsequentes. Já o uso de palavras como “psicadélico”, “subversivo” e referências a Burroughs parecem-nos algo óbvias, mas apenas a título superficial. Há, parece-nos, um balanço muito estranho - quer dizer, há balanço, mas é a sua própria existência que produz a estranheza - entre o abjecto, misturando géneros como horror, fantasia, ficção científica da EC, bebop fiction, etc., e o humor leve de uma comic strip de grande circulação. O estilo de Kane é algo reminiscente do Kirby tardio, mas sem o mesmo tipo de solidez e dinâmica, antes devedor daquela tendência dos anos 1980 de Mark Newgarden e Mark Beyer, logo perfeito para esta alucinação electrificante.  
Fatale. Ed Brubaker e Sean Phillips. Uma equação que mistura hard boiled e horror lovecraftiano, o primeiro género o qual já a dupla dominara com as sequentes séries Sleeper, Criminal e Incognito, este novo título desenvolve-se em vários momentos cronológicos, mas que contribuem para um mesmo quadro de referências, muito coeso, e ainda que misture muitos chavões (Nazis, ritos chtulianos, e os elementos habituais do noir, etc.) funciona como um caldo elegante. Brubaker está aqui numa plataforma alargada, entre o policial, que domina, e todas aquelas suas referências preferenciais, já tentadas noutros trabalhos. Não sendo tão sério como o seu excelente The Fall, esta série é um bom corolário aos seus últimos anos. O trabalho de Dave Stewart como colorista acaba por, tal como noutros dos seus trabalhos (Hellboy, Daytripper) trazer muita da ambientação perfeita a toda a intriga, acentuando o estilo a um só tempo suave e sólido de Philips.
Invincible. Robert Kirkman, Cory Walker e Ryan Ottley. Discutivelmente, um dos títulos de maior longevidade, vitalidade e sucesso comercial (dentro dos modos mitigados como isso sucede nesta indústria a um tempo febril e volátil), Invincible tentou contribuir para a era da recuperação sadia do género dos super-heróis (como Astro City, acima de tudo). Os primeiros números pareciam uma homenagem à era de ouro de Lee e Kirby no Homem-Aranha, já que existe aqui também a coincidência deste novo super-herói ser um adolescente que acompanhamos na aprendizagem das suas novas capacidades, e a forma como isso o afecta a ele, às suas relações e à sua posição no e com o mundo. No fundo, muito light-hearted. Rapidamente o tom mudou, para algo de mais grave e violento, muitas vezes gore, e a montanha russa não tem parado. Aliás, o que mais caracteriza esta série, parece-nos, é o constante “plot twisting”, que bebe sem qualquer vergonha de décadas e décadas de ideias feitas, clichés e elementos clássicos deste género. Invincible leva muito a sério aquela expressão do “esperar o inesperado”, e ler o título é quase um estudo da história do género. Com a ressalva, positiva, de que Kirkman emprega um grupo muito diversificado de personagens, o que lhe permite também um leque diversificado no que diz respeito às personalidades, sexualidades, níveis de agência e posicionamentos políticos dessas personagens (o mesmo ocorre em The Walking Dead), sem sinais de estereótipos, mas explorando ambiguidades. No entanto, não só nos perguntamos se não será um mecanismo que apenas funcionará bem junto a leitores muito familiarizados com essas mesmas ideias, e até que ponto é que a saga aguenta essas transformações e reveses constantes. Enquanto dose mensal descartável e leve, é excelente; enquanto plataforma para repensar o género, é menos conseguido. Mas toda a escrita de Kirkman (autor de Walking Dead, de que falaremos noutra ocasião, e partner na Image, o que prova o peso das suas criações na economia da editora), as ideias, as inúmeras personagens, e a arte colorida e descomprometida (primeiro de Walker, co-criador, agora de Ottley), é suficientemente fluida para permitir essa navegação rápida. 
Jupiter’s Legacy. Mark Millar e Frank Quitely. Mesmo quando existem muitos indícios de que um determinado autor não é capaz de cumprir o que promete (e Millar deve ser o autor com os maiores índices de self-hype do planeta), a verdade é que se cria uma espécie de pressão para acompanhar as suas criações. Além do mais, a presença de Frank Quitely, que a nosso ver consegue produzir um equilíbrio interessante entre personagens de ar másculo (inclusive as femininas) sob o efeito e esteróides e uma estilização clara (ao contrário de, por exemplo, Simon Bisley) poderá significar uma mais-valia. Até agora apenas saíram dois números espaçados, e não parece haver uma mesma estratégia de “world-building” como verificada em títulos anteriores (de que Nemesis foi o melhor projecto, parece-nos). Jupiter’s Legacy é mais uma variação nos temas “o que aconteceria se existissem super-heróis no nosso mundo?” e “como é que as novas gerações de super-seres reagiriam com os seus pais?”, logo, é mais um herdeiro de Watchmen. Porém, tirando algumas ligações curiosas à cultura popular e política actual, mas de uma eficiência infantil, as personagens ainda não estão totalmente formadas, para além das sua premissa básica, se algumas vez o estiverem (afinal, já passou metade). As páginas sobre as “origens” eram curiosas, mas culturalmente falhas, e o salto para a contemporaneidade é demasiado abrupto para sequer se formar algum tipo de compreensão ou interesse emotivo pelas personagens. Quiçá a sua leitura completa poderá revelar um interesse maior. Duvidamos, mas o vício é duro. 
Mara. Brian Wood e Ming Doyle. Ao contrário de Millar, Wood não tenta criar narrativas grandiosas e que abarquem explicações cabais para os universos diegéticos que apresenta. Mas inscrevendo-se no mesmo tipo de premissas - como seria um universo em que houvesse pessoas com super-poderes e que consequências haveria para a sociedade? -, acaba por, nas suas mais elegantes e simples respostas, revelar uma maior inteligência social, cultural e até artística do que o escritor britânico. A trama de Mara tem lugar num futuro relativamente distante, onde o desporto-rei parece  ser o voleibol feminino, cujo culto ganha contornos fortíssimos em termos nacionalistas e económicos. A grande estrela, Mara Prince, sem grandes explicações, começa a desenvolver capacidades extraordinárias, e isso não apenas vira o seu mundo pessoal de cabeça para baixo, como todo o mundo. Questões sobre as relações entre patrocinadores, interesses militares, tecnológicos e sociais são explorados, mas acima de tudo como é que um indivíduo responde face aos obstáculos que lhe criam, até um ponto insuportável? Estando apenas a um número de terminar, poderá haver uma resolução surpreendente, e há ecos de Miracleman nestas páginas. A opção de ter uma personagem feminina é também muito significativa, sobretudo na economia geral deste género. E Mara, apesar de ser uma personagem solitária, revela um tratamento emocional e intelectual muito bem feito da parte dos autores, isto é, não apenas na sua dimensão narrativa, mas também visual, nos traços de extrema elegância, quase próximos de uma certa tendência da ilustração contemporânea de moda, com laivos de esboços expressivos e românticos (mas consolidados pelo trabalho, também ele muito elegante e rico, não necessariamente naturalista, de cor por Jordie Bellaire) de Ming Doyle. 
Multiple Warheads. Brandon Graham. O projecto originário de Graham com estas personagens - Sexica, uma traficante de órgãos, e Nikoli, um mecânico com orelhas e rabo de  lobo (mas não é nem lobisomem nem furry) - começara num livro one-shot ainda pela Oni Press em 2007. Mas desde a entrada de Graham para a Image, com vários projectos, de King City a Prophet, que ele os tem feito transitar. Publicou então a mini-série que dá continuidade às aventuras - a palavra é o mais certeira possível - destas personagens, cujo sub-título Alphabet to Infinity é claro no seu sentido de road trip. Muitas das dimensões que apontámos em relação a King City estão aqui presentes, claro, sobretudo nos instrumentos gráficos, plásticos e expressivos do autor, se bem que haja uma maior presença de facetas risqué, dado o erotismo entre os protagonistas (mas sem escorregar para a pornografia, mesmo divertida e bem-disposta, que o autor cultivou nos seus trabalhos “alimentares”). Graham continua a abandonar as suas personagens, e ao seu próprio gesto criativo, num puro e contínuo prazer de encontros felizes com o acaso, em torno de trocadilhos, ideias visuais e trouvailles que fazem este “universo” cantar a cada página, mesmo que coloque em causa uma expectativa mais normalizada por intrigas, resoluções, ou narrativas “naturais”, ainda que as remeta/prometa para uma próxima série. É uma espécie de máquina de triturar formas sempre em avanço, recordando a ontologia presente na animação de um Ivan Maximov, por exemplo, e que importa degustar a cada página, não no seu cômputo arrumado e final. 
Happy. Grant Morrison e Darick Robertson. A expectativa de encontrar Morrison num título independente abria a possibilidade de encontrarmos aqui uma narrativa totalmente livre de caminhos por entre os géneros, ou pelo menos aquela típica verborreia de conceitos colidindo a que o autor nos habituou. A ideia de partida parecia genuinamente inclinada a isso: um antigo polícia chamado Nick Sax, que agora se dedica a limpar o sebo a seja quem for por dinheiro, prometia arrastar a narrativa pelo nariz num bas fond de crime, e quando dá de caras com um pequeno cavalo cartoonesco alado chamado Happy - e que nunca percebemos e é alucinação, efeito de um tumor, sprite fantástico - , que o quer forçar a encontrar e derrotar um serial killer vestido de Pai Natal, parece atingir esse patamar de estranheza. Mas a verdade é que os elementos não cantam em coro. Se o tema da “imaginação é poder” de Flex Mentallo, Joe the Barbarian, e outros trabalhos de Morrison está aqui patente, isso é demasiado nítido, de uma tal forma que passa de programa narrativo a “mensagem” óbvia. Além do mais, parece que Morrison quer imitar a brutalidade de um Garth Ennis (por isso, o convite ou possibilidade de trabalhar com Robertson, perfeito para a solidez dessas cenas, acentua essa busca), mas sem genuinamente se abandonar à sua orgia, como o seu colega consegue. Final feliz obrigatório, ausência de espelhamento da realidade, algumas cenas algo gratuitas, mas o regresso a Morrison é, como a Millar, um vício. 
Ten Grand. J. Michael Straczynsky e Ben Templesmith. Nalguns aspectos, isto recorda de imediato o one-shot Dream Police, do mesmo escritor. Mas onde nessa história o policial cruzava-se literalmente com o onírico, aqui encontramos os elementos típicos da novela de crime com a fantasia negra e o sobrenatural – mortos, demónios, encantamentos, redenção, etc. Não numa exploração desse cruzamento como a bem-humorada R.I.P.D., mas com contornos de seriedade, fortalecida pelos desenhos riscados de Templesmith, veterano de um novo horror, e as suas manipulações digitais de cores glaucas e ocres e apontamentos de luz. Os ingredientes necessários estão todos nos sítios, as pequenas pérolas de honra e moralidade no centro da abjecção são expectáveis mas justos, os factores entre o cool e o brutal equilibrados, a promessa de uma intriga maior do que se pensa ofertada. Se bem que alguns elogios a comparem a Hellblazer, será na ausência da análise cuidada e engajada de Delano nos primeiros números da sociedade em que se inseria, e mais isolada na sua bolha de fantasia (mais próxima do run de Ennis, que chamámos de “ópera”), mas ainda assim cria-se um perfeito ambiente para uma circunferência competente de escrita, eventualmente de culto. 
Lazarus. Greg Rucka e Michael Lark. Esta é outras das séries iniciadas há pouco tempo, como Ten Grand, por isso existem ainda elementos apena adivinhados. Mais uma vez deparamo-nos com uma exploração pela ficção científica de contornos sociais ou mesmo de crítica à actual política económica do mundo ocidental. Num futuro não particularmente distante, a propriedade da riqueza do mundo está literalmente nas mãos de um número muito reduzido de Famílias, e a esmagadora maioria da população humana é tratada como “Desperdício” (Waste). Os “Lazarus” são uma espécie de super-agentes protectores dessas Famílias, que podem sempre ressuscitar das mortes (daí o nome) e Forever é a protagonista da série, lançada num complot (claro), o qual se adivinha pôr em crise toda a sociedade em questão (claro), sendo ela o centro das atenções (claro). Rucka e Lark permitem-se a exploração de toda uma série de elementos pré-fabricados (as relações entre famílias parecem ser decalcadas da série A Game of Thrones), mas queremos acreditar que a longo prazo este título terá alguma relevância. Tendo em conta o seu trabalho no excelente Whiteout, e em Queen & Country, Batwoman, e Stumptown (que não lemos), Rucka demonstra gostar de trabalhar com protagonistas femininas, e essas personagens surgem sempre como mulheres autónomas, capazes, e cujas fragilidades nascem das circunstâncias das suas biografias (e não de uma suposta “natureza”), mas onde se encerram igualmente os factores que erguerão a sua força. O trabalho de Lark continua sóbrio, e até sombrio, com composições frugais mas eficazes, apenas se permitindo pequenos desvios significativos, tudo muito correcto e sem surpresas de maior. 
Saga. Brian K. Vaughan e Fiona Staples. Terminamos com aquela que possivelmente pode ser vista como a melhor série neste momento na Image de ficção científica, ou na banda desenhada mainstream norte-americana, ou outros contornos que quiserem. Tal como em relação a Prophet, esta série mereceria um post próprio, mas eventualmente esperaremos pelo seu término, como no caso de Scalped ou Y: The Last Man, também de Vaughan, para compreender toda a sua cristalização final. Saga é explícito no seu título, e centra-se na relação, à la Romeu e Julieta, entre dois protagonistas que partindo de cada lado de uma guerra interstelar, se apaixonam e abandonam os seus papéis antagonistas: Alana, de Landfall, e Marko, de Wreath, um satélite de Landfall. Uma guerra assola o universo há anos, mas fora dos planetas, o que faz com que os mais diversos povos e criaturas se encontrem de alguma forma de um dos lados das barricadas. Alana e Marko acabam por se juntar e têm uma filha, que ainda é bebé mas é a narradora da história (fazendo-nos crer de que tudo isto nos é contado em retrospectiva, mas poderá haver, e com Vaughan ao leme, haverá certamente, uma reviravolta inesperada). Para além da referência à maior história de amor de Shakespeare, é repetida por críticos também o modelo Star Wars, no sentido em que se une ficção científica, fantasia e magia, aventura e toques de comédia. Criando uma rede bem mais estimulante do que os Skywalker, por haver uma distribuição mais contemporânea de agência entre as personagens, algumas surpreendentes em termos de fantasia mas todas curiosas e inteligentemente criadas, e um grande escopo de ambiguidade moral e política sobre todas elas, Saga poderá vir a tornar-se indubitavelmente não só num título de grande sucesso junto a um público extremamente diversificado como um título de culto. Mais leve e menos preachy que Ex Machina, são tantos os elementos divertidos (a leitura de um romance rosa como se fosse o evangelho, dezenas de referências à nossa cultura de “lixo” contemporâneo num contexto de f.c., uma excelente compreensão - autobiográfica? - do que significa ter um bebé para cuidar e o tipo de tensões que isso gera em família; ah, e testículos de gigante), que se atravessam todas as facetas possíveis. A arte de Staples é belíssima, no interior da sua abordagem convencional: uma figuração impecável, composição justa, cores digitais competentes e com pormenores inteligentes, a sua “limpeza” permite que Saga se conduza numa leitura espontânea e desembaraçada.
Nota final: agradecimentos a G., por dar a conhecer Black Mirror, S.S. por insistir sobre Invincible, e P.B. pelos empréstimos. Imagens empregues colhidas da internet ou ficheiros digitais.

4 de setembro de 2013

Marvel Now!, 2ª parte (Comic Books, parte 2).

(Em continuação do post anterior) Um outro par de títulos seguido com maior interesse e prazer, mas misturado a desconfianças de longo prazo, são os dois títulos protagonizados pelos vários membros dos Vingadores, escritos por Jonathan Hickman, Avengers e New Avengers. Os leitores da Marvel já estão habituados a estas variações “prismáticas” de uma personagem, grupo ou premissa, em que cada uma delas assinala uma dimensão em particular. Vingadores existem, neste momento, os “principais”, e os “novos”, os “secretos”, os “incríveis” e ainda os “jovens”, cada qual com membros diferentes, mas nalguns casos membros comuns… [também os X-Men se desdobram neste momento em duas ou três equipas ao mesmo tempo, inclusive a equipa original de Lee e Kirby transportados para a contemporaneidade, ao passo que o Homem-Aranha é na verdade o Dr. Octopus, etc; assim se demonstrando a necessidade de gerir uma panóplia de conceitos e ideias a um só tempo]. Hickman, tal como havia feito no caso dos seus runs com a S.H.I.E.L.D. e o Quarteto Fantástico, e o trabalho independente noutras editoras, quer criar um épico de proporções verdadeiramente cósmicas, grandiosas, o que se prova na maneira como desembocará agora no Infinity (ainda que as ligações nem sempre sejam claras e por vezes rebentem as costuras). Basta ver, por exemplo, ou rever, o primeiro número, que abre com uma série de vinhetas apontando aos acontecimentos que só mais tarde seriam desenvolvidos (demonstrando o tipo de planos a longo prazo que a companhia persegue, e em que o autor prima). A escrita de Hickman bebe de ideias cinematográficas e/ou televisivas, acentuada pela inclusão da página inicial em cada número que retoma os acontecimentos do episódio anterior, mas ele explora aspectos estruturais típicos deste género (para bem ou menos bem). Em relação a Avengers, Hickman mostra uma equipa cada vez mais alargada, incorporando desde heróis com poderes limitados àqueles cuja esfera de acção é celestial, precisamente para demonstrar que uma equipa deste tipo teria de contar com toda a espécie de especializações. Porém, “a avareza rompe o saco”, e há um limite de atenção ou tensão ao introduzir tanta coisa: novas personagens cosmicamente poderosas, Hyperion, o New Universe, novos heróis, novas civilizações a crescer na Terra, o regresso à Terra Selvagem, os Guardiães de Shi’ar, etc., etc. É como se se tivesse acesso a uma despensa para cozinhar, e se resolvesse lançar na panela tudo o que se encontrasse, sem preocupações de equilíbrio ou simplicidade.
Logo à partida, seria difícil gerir demasiadas personagens, desenvolver personalidades e interacções emotivas interessantes, mas Hickman consegue fazê-lo (Nick Spenser colabora a partir do no. 12), ora concentrando números numas ora noutras personagens, permitindo que Thor tenha uma conversa com Hyperion sobre ter filhos, ou que um grupo de personagens mais jovens descontraia num casino onde convivem mesmo com inimigos. Além do mais, ele vai introduzindo conceitos imensos a par e passo (o Jardim e, depois a integração dos conceitos do Novo Universo, agora o regresso dos Construtores, etc.), sublinhando a escala cada vez mais cósmica em que quer colocar as suas personagens. Por vezes as coisas são céleres demais, sem grande tempo para desenvolver, como o surgimento do Alto Evolucionário ou a utilização desse tropo que nos ensinaram chamar-se “Worf effect” – isto é, fazer com que uma nova personagem derrote, as mais das vezes fisicamente, uma personagem que já sabemos ser poderosa para mostrar que ela o é ainda mais – em relação a Ex Nihilo, e depois uma versão feminina deste, etc. Mas como esperar outra coisa de séries que têm de mostrar grandes avanços e nódulos de acção a cada 20 páginas mensais que apresentam ao público? Em New Avengers, verificam-se antes os bastidores dos “poderes: reunindo apenas os Illuminati (pois é, mas o que querem?), isto é, um grupo restrito de super-heróis que toma decisões maiores sobre os fados de toda a Terra, observamo-los “obrigados” a gerirem uma ameaça terrível, e eliminam uma Terra alternativa (e pelo caminho, sem grandes explicações, destroem as Gemas, que eram supostamente indestrutíveis: Whorf effect reprise). Aqui há uma menor velocidade e tentativa de criar sementes de ideias a desenvolver a lume brando, mas muitas vezes há abandonos a momentos de acção totalmente despropositados e ridículos, e entradas a outras linhas narrativas (a guerra em Wakanda) que só se desenvolveram noutros títulos.
Seja como for, essa maior concentração em menos personagens permite explorar dinâmicas mais conseguidas, que é outras das forças dos diálogos de Hickman, a nosso ver (e de design, uma dimensão importante neste autor).
Em termos visuais, ambas as séries têm sido desenhadas por toda uma troupe variada de artistas, e arrastam-se por aquela linha média de autores competentes e que queremos ver neste tipo de abordagens, típico na economia de produção da Marvel, mas por vezes menos bons, e que não são coerente no interior sequer de uma mesma página. No primeiro grupo temos Dustin Weaver, Jerome Opeña e Steve Epting (no seu melhor desde o run de Brubaker em Captain America), no segundo artistas que, na esmagadora maioria das vezes, vivem de um certo nome mas espalham-se em detalhes, como Stefano Caselli, Mike Deodato e mesmo Adam Kubert.
Entretanto, Rick Remender e John Cassaday, tentando recuperar os problemas criados de um evento anterior, criam em Uncanny Avengers uma possível mistura das dinâmicas dos Vingadores e dos X-Men numa equipa mista, com plots um pouco já experimentados várias vezes: a ascensão do neofascismo nazi do Caveira Vermelha nos E.U.A. como desculpa de slugfests em catadupa, mas sem nunca tocar nos verdadeiros nervos da sociedade contemporânea norte-americana. Mais tarde, já com outros artistas, prosseguem outros arcos e histórias, cada qual com as suas escaladas de poder e intrigas, chegando mesmo à escala cósmica, mas que vão perdendo ímpeto, e nunca chegam ao nível de organização de Hickman. Os regressos de mortos e outras soluções fáceis são empregues repetidamente. Ainda assim, não sai do primeiro arco com Cassaday uma narrativa despicienda, se descontarmos o surgimento intempestivo e um grupo de vilões algo patéticos, que conta com “A rapariga da face de cabra” e “Mzee”, que parece uma tartaruga. Não é a brincar.
Bem mais “distraídas”, isto é, sem grandes preocupações mas como quem segue vegetativamente uma série qualquer que já está a dar na televisão, foram as leituras dos títulos Indestructible Hulk e Thunderbolts. A primeira série tem sido assinada por Mark Waid, e começou com os desenhos de Leinil Yu, com uma premissa interessante: Bruce Banner é contratado pela S.H.I.E.L.D., que lhe disponibiliza fundos e uma equipa para ele explorar o mundo da ciência de forma continuada e contribuindo para o avanço da civilização humana, e de quando em vez é empregue como arma de destruição maciça na sua transformação em Hulk. Cada número apresenta um caso, tal como uma série de televisão de episódios sucessivos mas independentes, o que é excelente num formato destes. Infelizmente, é veloz a desistência dessa direcção, para colocar a personagem mais uma vez em encontros fortuitos com todas as outras personagens do universo, com um arco horrendo passado no passado com Thor, e desenhado por um desinspirado Walt Simonson. A partir daí, é uma descida ao absurdo, e parámos (ou chegou-se à indigestão, para continuar com a analogia alimentar).
Thunderbolts teve um arco de doze números escritos por Daniel Way e desenhados por Steve Dillon. Esta é uma série, como sempre o foi, que mistura os géneros de guerra com o de super-heróis, cheios de intervenções militaristas brutais, segredos de estado e referências q.b. ao estado dos acontecimentos actuais político-militares (já deixaremos em aberto se crítica e inteligentemente ou se simplesmente cúmplices a uma visão apertada do mundo). Se bem que Dillon fosse excelente em, ou para, Preacher e alguns arcos em Hellblazer, e alguns outros trabalhos esparsos, as suas forças estavam em representar ambientes e personagens aparentemente vulgares mas que subitamente explodiam em episódios de extrema violência. A sua figuração algo perra e até mesmo modular era sempre servida por cores relativamente primárias, como se estivéssemos perante uma versão da indústria norte-americana da linha clara, e funcionava. No entanto, em histórias em que a acção é permanente e a violência expectável – Way interessou-se por criar toda uma cadeia de acções, e mesmo as relações e personalidades das personagens estavam totalmente subsumidas a isso, sem grandes desenvolvimentos - as limitações de Dillon são contínuas, e o tipo de modelagem de cores e sombras tentadas (por Guru eFX) não abonavam a seu favor. Quando foi substituído por Phil Noto, entrámos naquela família de artistas absolutamente “normalizados”, de que nada há a dizer. Aliás, há a dizer que esta é um dos problemas recorrentes neste tipo de indústria, que é seguir um título, mini-série ou o que for, onde há uma aliança interessante entre escritor e artista(s), mas a meio do percurso o artista é mudado – a indústria prefere um artista regular e seguro nos prazos de entrega mas que seja menor do que um “grande” que faz atrasar o projecto (veja-se Age of Ultron, precisamente).
Iron Man, nas mãos de Kieron Gillen e Greg Land, também vai percorrendo caminhos interessantes. Apesar das contradições – tentar compreender como é que o Homem de Ferro anda pelo espaço na senda de uma armadura que mata Celestiais no seu título, a acompanhar uma trupe de guerreiros em Guardians, e a tratar de assuntos na Terra em Avengers e New Avengers, pode levar a dores de cabeça na lógica - e clichés – a típica conversa do potencial humano no Universo, a moralidade aplicada a tudo, os sistemáticos retcons e reformulações de conceitos do universo Marvel – temos aqui uma narrativa relativamente concisa e legível. A arte de Greg Land é por vezes paradoxal. Não sendo terrível como Liefeld ou a escola da Image anos 1990, percebe-se que é alguém que não só está mais apto para trabalhos de ilustração isolada como a forma de desenhar a partir de referências fotográficas em poses heróicas é por demais visível e não o torna o mais dinâmico e fluido dos artistas. Estando melhor do que noutros trabalhos anteriores, e com um trabalho de cor típico da Marvel contemporânea, disfarça os problemas, mas apenas até um ponto sofrível. Gillen, que havia criado um arco curioso com Loki e segue outros interesses com Über (de que falaremos noutro post), tenta jogar aqui com muitas das referências, personagens e conceitos da Marvel, também a um nível cósmico, que poderá ou não vir a ter um papel no que está a ser planeado por Hickman et al. no tal “evento”, mas nada de particularmente novo. Apenas uma oportunidade de brincar com vários géneros e plots típicos, para criar uma narrativa plena de acção e twists.
Finalmente, tentámos seguir aqueles títulos que têm sido desenhados por artistas portugueses, a saber, Captain Marvel, com Filipe Andrade, e um número dos Fantastic Four por André Lima Araújo. Se o primeiro tem tornado os seus desenhos de uma forma cada vez mais plástica e estilizada e conquista um espaço particular na Marvel, onde insufla o “house style” com uma certa leveza europeia, o segundo criou uma pequena variação à la Otomo Katsuhiro para um episódio integrado em Age of Ultron. Infelizmente, em nenhum dos casos estão a servir linhas que pudessem ter um interesse para além da sua estreita província. Anuncia-se outro título no futuro com Jorge Coelho, Venom, mas temos o mesmo problema. É muito mais compensador encontrar estes nomes a trabalhar em narrativas mais desenvoltas, como no caso de Coelho em Polarity, de que falaremos.
Haveria muito mais a dizer, e se houvesse oportunidade, de se ser mais detalhado sobre o que nos parece funcionar melhor ou pior em termos narrativos, figurativos, composicionais, nestes títulos todos. Mas o prazer inerente à sua leitura quase automática e substituível tem um timbre muito próprio, de que não abdicaremos.
Nota final: agradecimentos a S.S., pelas nerd sessions, a F.L. e M.R., pelo empréstimo de algumas séries. Imagens colhidas na internet e ficheiros digitais.