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1 de julho de 2018

Introdução à Filosofia em Banda Desenhada. Michael F. Patton e Kevin Cannon (Gradiva)


Na esteira de toda uma produção de livros de banda desenhada que procuram popularizar, sobretudo junto a um público mais jovem, ou alargado, ou apressado, etc., temas de alguma complexidade através de discursos mais simples mas não menos sistematizados e sempre com humor e a facilitação permitida pela camada visual, este livro é uma espécie de súmula da história da filosofia ocidental. De certa forma, Larry Gonick é o percursor imediato deste projecto, com os seus variadíssimos guias disciplinares e a sua História Universal, igualmente publicada pela Gradiva, a qual também lançou recentemente os primeiros volumes da colecção Pequena Bedeteca do Saber. Mas poderíamos citar ainda projectos tão distintos tais como Dinosaur Empire! ou os Science Comics para um público infantil, ou o projecto mais ensaístico de Jens Harder... (Mais) 

23 de março de 2017

Science Comics, vários títulos. AAVV (First Second)

A ideia de usar a banda desenhada como um meio de transmissão de informação, como meio de educação, não é de todo nova. Se englobarmos as imagens Quentin nessa equação, ancoramo-nos mesmo nas origens populares e na infantilização desta disciplina no século XIX. Mas poderíamos recuar ainda mais, se se pensasse em questões dos livros ilustrados medievais, das enciclopédias aos Musterbuchen, e a inúmeras práticas. Usualmente, esta utilização é vista com alguma desconfiança quando se parte de um ponto de vista estritamente estético, uma vez que os instrumentos empregues por estes exemplos não serão aqueles que mais preocupados estarão com a pesquisa da expressão, com a individualidade autoral, mas antes subsumem-se a noções tais como as da legibilidade, da inteligibilidade, da clareza de argumentação, etc. E muitas vezes acompanham-se de um qualquer enquadramento moralista que é bem distinto da visão mais progressiva. Não se pode, porém, negar que esse “uso”, não sendo artístico ou literário ou politicamente relevante, ainda assim conseguirá conquistar de quando em vez um qualquer grau de competência que a faz escapar de uma oferta desapaixonada. (Mais)

12 de junho de 2015

Climate Changed. Philippe Squarzoni (Abrams)

O emprego de livros de banda desenhada com intuitos informativos ou mesmo pedagógicos não é uma novidade. Todavia, a esmagadora maioria dos projectos que se entrega a esses fins usualmente trilha caminhos didácticos e secos, no sentido em que partem de posições de saber ou mesmo de poder para depois veicular “lições” aos seus leitores. Uma das formas de corrigir esse posicionamento é aquele proposto por Squarzoni: o de, ao ir fabricando o seu projecto, procurar ele mesmo compreender a questão sobre a qual se propõe aprender. (Mais) 

26 de novembro de 2013

Les gens normaux. AAVV (Casterman)

Este projecto antológico, que mistura géneros tais como os da reportagem, testemunho, autobiografia e ensaio, na banda desenhada, encontra-se numa linha que começou há décadas atrás com Paroles de taulards, em 1999. Projecto colectivo que conta com inúmeros agentes, editoriais, criativos, artísticos, e a nível mesmo de logística à sua produção, estes projectos podem-se englobar num sentido geral como a criação de condições para que pessoas possam contar as suas histórias, nos seus termos, pelo meio da banda desenhada. Isto é, através de várias estratégias de produção, procurar que cidadãos do mundo os quais rara ou parcamente têm acesso aos instrumentos que os tornarão agentes relatantes da própria história, possam encontrar um caminho a essa mesma expressão. O projecto começou com os “taulards”, isto é, os presos, e atravessaria “classes” tais como os surdos, os iletrados, os drogados, os imigrantes… e agora os homossexuais. Longe de querer tornar cada um desses grupos “comparáveis” entre si por uma qualquer perspectiva, ainda assim emerge a ideia, ancorada em factos e atitudes generalizadas, de que todos esses “grupos” são, de uma forma ou outra, marginalizados pelas estruturas normativas das nossas sociedades, as quais criam uma noção, ilusória, falsa, fantasmática, de “normalidade” - a infografia “sem marca” da casa de banho dos homens - a partir do qual todo e qualquer desvio será visto como “diferente”, “desvio”, “marginalizável” se não mesmo “marginalizado” de modo efectivo.

Les gens normaux nasce de um gesto entre as publicações bd Boum e Les rendez-vous de l’histoire, com a Casterman (esta última aceitando este projecto no quadro da sua colecção Écritures à medida de Japon e projectos similares), projecto que convidou Hubert (apenas Hubert) a recolher dez testemunhos de contactos da cidade de Touraine, entre lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais, os quais depois foram transformados em bandas desenhadas curtas. O fito é portanto criar uma massa crítica de experiências reais e ancoradas em casos singulares e individuais que poderão dar um “rosto humano” ou pelo menos uma “escala doméstica” a questões que muitas vezes são discutidas e esgrimidas em quadros absolutos, abstractos e muitas vezes na ignorância, e ainda as mais das vezes na ausência quase total de uma compreensão de como estabelecer diálogos entre as partes, mormente aquelas que se vêem a si mesmas como “opositoras”. Os artistas convidados a estas “traduções” são Cyril Pedrosa, Alexis Dormal, Virginie Augustin, Jeromeuh, Zanzim, Simon Hureau, Merwan, Freddy Nadolny Poustochkine, Freddy Martin, Natacha Sicaud e Audry Spiry. Com a excepção dos autores de Portugal, de En silence, de que faláramos, a maior parte destes autores não são de forma alguma nem de primeira linha na fama nem tampouco na conquista de linguagens particularmente singulares e diferenciadas. Ainda assim, já havíamos mencionado um projecto de Martin, também. A ideia de que este não seria o espaço ideal para pesquisas que levassem ao desenvolvimento de uma linguagem mais vincada e forte seria imediatamente desmontada pela participação de Baudoin em Paroles de taulards, cuja história é uma das mais concisas mas ainda assim visualmente, a um só tempo, estruturadas e livres dos seus trabalhos. Ainda assim, temos aqui autores cuja arte é digna de nota nos seus gestos mais contínuos, como Sicaud e Merwan.

Além do mais, para contextualizar as palavras dos testemunhos, apresentam-se ainda textos curtos dos mais variados autores (políticos, activistas, investigadores, historiadores) que não apenas constroem uma imagem do espaço da “homossexualidade” enquanto tema político recente em França (devido à lei dos PACS, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adopção homoparental, etc.), mas integram-na em discursos variados e alargados no tempo: da medicina à psicologia, passando mesma pela religião, a legislação e o papel “cultural”, revisitando a Antiguidade, a Revolução Francesa, os séculos XIX e XX… Estes textos são escritos por pessoas como Éric Fassin, Maxime Foerster, Florence Tamagne, Louis-George Tin e Michelle Perrot, a última das quais alguns leitores poderão reconhecer como uma das coordenadoras do imenso projecto História das Mulheres no Ocidente, cujos 5 tomos foram publicados em português pela Afrontamento.

A ordenação entre histórias dos testemunhos e estes textos complementares estão organizadas de maneira a que a leitura linear se possa informar mútua e/ou consecutivamente. E as histórias, como não podem deixar de ser, são tão diferentes como os caracteres humanos dos intervenientes: temos mulheres e homens que saíram de relações anteriores heterossexuais, temos pessoas que se identificam enquanto homossexuais desde tenra idade, temos pessoas cujos confrontos com as respectivas famílias foram de extrema violência e incompreensão e outros em que esse factor em nada alterou as redes de ternura e relacionamento. Há histórias que se centram na desaparição mortal de um companheiro, outros que se enleiam nos problemas jurídicos e económicos das relações entre dois homens ou duas mulheres à face da sociedade, histórias tristes e histórias felizes, histórias trágicas e histórias banais. Mas acima de tudo, o que deveria sobreviver da leitura conjunta é de facto a “banalidade” das experiências, no sentido em que as emoções, medos e alegrias têm de facto um denominador comum a que se deve adjectivar como “humano”. O título é, como se compreende, uma provocação. A “normalidade” - e não foi preciso Arno Gruen para pensar nisso? - não existe em si mesma, mas apenas uma conformidade a certos princípios sociais que são passageiros, ou voláteis, mas que, acima de tudo, não deveriam tornar-se obstáculo para a felicidade dos outros. É curioso o estudo da palavra “heterosexualidade”, a qual foi empregue como “desvio a uma norma” nas disciplinas médico-psicológicas, e apenas mais tarde, já no século XX, tomada para representar “o normal”, ou pior, “o natural”.

Se seguirmos, por exemplo, a cartografia do desenvolvimento das representações dos homossexuais (e lésbicas, se se preferir uma distinção que respeite não apenas a “diferença biológica” mas os esforços políticos específicos das mulheres) proposta por Didier Eribon, em Réflexions sur la question gay, entender-se-á que é muito recente (e não totalmente desprovida de escolhos) a emancipação, e constituição mesmo, dos homossexuais enquanto sujeitos. Estas questões, de dimensões políticas, económicas, jurídicas, etc., não são de forma algum matéria secundária ou complementar em relação à vida quotidiana dos entrevistados. Bem pelo contrário, são elas os obstáculos ou blocos que constroem a progressão das suas vidas. Estas dez histórias mostram dez pessoas, não dez “modelos”. Mas ainda assim dez pessoas que poderão servir de dez exemplos às formas como navegar essas representações. E são muitas, como se imagina, as noções que estimularão a discussão. De facto, Les gens normaux será menos um livro de entretenimento - ou não o será de todo - mas antes uma forma de pensar essas mesmas noções. Quer já elas façam parte do quotidiano dos leitores quer sejam ainda matéria tabu das suas considerações.

Regressando ao filósofo francês, Eribon constitui parte da sua discussão em torno da ideia da linguagem enquanto constituinte do sujeito, e foca sobretudo no insulto (aliás, a tradução inglesa elege mesmo a palavra como título). Eis uma cena famosa, citada: em Brokeback Mountain, Ennis, enquanto rapazinho, é exposto ao cadáver de um homossexual morto pelos cowboys da  área, e esse exemplo serve de advertência, lição moral e política, mas igualmente como argumento para evitar que os jovens “escolham” aquele caminho. Eribon, sob o signo dessa cena, indica como “a homossexualidade é portanto proscrita das relações prescritas entre os homens”, recordando quase os princípios do Levítico. O insulto surge assim como a interpelação de Althusser - Eribon diz mesmo ser uma das “mais notáveis (e concretas) formas” da interpelação - apontando como a constituição destes sujeitos é feita, à la Foucault, entre as estruturas de domínio e os processos de resistência a esse poder. Eribon também aproveita de Foucault a noção da “heterotopia”, espaços outros que se encontram no seio de um mundo social pejado de regras e limitações e normas disciplinares, mas nos quais se consegue ocupar um espaço de escapatória a esses mesmos poderes, ao destino da subjugação. Menos do que utopias, as heterotopias são espaços que marcam a diferença para com os restantes espaços, e no interior do qual o sujeito poderá encontrar outras formas de se constituir enquanto sujeito. De certa forma, todos os relatos de gens normaux procura precisamente essa constituição. Quando homossexuais ocupam lugar de personagens de banda desenhada sem que a sexualidade seja o aspecto central - como nos casos da ficção científica, de Artifice a Nu-MenI (de que falaremos em breve), ou todos os exemplos nos super-heróis norte-americanos - isso ainda é notícia, porque estimula o “grau de diferença” dos restantes textos…

Essa constituição, porém, não se constrói na ilusão de uma direcção entre aquele que fala e o que lê/vê sem mediação. Bem pelo contrário, depois do, e no, prólogo desenhado por Pedrosa, as condições das entrevistas de Hubert às pessoas são não apenas mostradas mas debatidas, ele próprio surge sempre representado no plano do enquadramento das histórias, mesmo que todas elas optem por uma analepse que torna visível os pretéritos de cada um. Essa inclusão do entrevistador, desenhado de modos diferentes por cada artistas, servem menos para uma flutuação da personalidade de Hubert do que para sublinhar o carácter mediado e flutuante, ou seja, necessariamente dialogante, entre todos os intervenientes, inclusive o leitor. Em todos os casos, jamais estamos perante histórias definitivas, normalizadas, portanto, mas em espaços de fluxo, em espaços de esperança de que o diálogo possa ser cada vez maior.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.

5 de maio de 2010

Footnotes in Gaza. Joe Sacco (Macmillan)

Poderíamos dizer que a posição de Sacco é uma espécie de compromisso entre as tradições herodoteana e tucidideana. Por um lado, Sacco transmite, quase directamente, os relatos que escuta das pessoas entrevistadas, mas isso não o impede de se munir de toda a espécie de documentação que lhe é disponibilizada para procurar um contra-balanço “objectivo”, esperando que o confronto entre as duas estratégias possam fazer emergir alguma ideia de verdade. É claro que esta é uma interpretação redutora, porque reduzida. Há toda uma série de aspectos que devem ser (e são-no, por vários investigadores) estudados: a relação entre o entrevistador e as fontes, e a forma como ele as revela ou negoceia; a acumulação de várias perspectivas para ir procurando uma ideia comum, mas em vez de se decidir por uma delas através da síntese e sumário – um número de mortos, um percurso exacto, detalhes técnicos – Sacco dá espaço e voz a todas, deixando ao leitor parte dessa tarefa; o próprio acto de mediação duplo permitido pela banda desenhada, em primeiro lugar o trabalho de “montagem” e “organização” das vozes e relatos, em segundo o da “reconstrução imagética”, com tudo o que acarreta de expressão e o balanço curioso entre realismo e caricatura do seu estilo; a forma como o seu discurso não pretende qualquer ambiguidade e avança um posicionamento político. Por exemplo, no prefácio ele escreve “[Abud El-Aziz En-Rantisi, do Hamas] foi assassinado por um míssil israelita” (nosso ênfase). A escolha daquele verbo em particular está em franco contraste com o tipo de vocabulário empregue pelos meios de comunicação social, os quais optariam talvez por “vitimados por” (como se fosse um acidente), “danos colaterais” (as inevitáveis circunstâncias dos conflitos armados), etc.
É curioso como este livro, que acumula vários trabalhos previamente publicados, sendo o maior livro de Sacco, se centra em dois acontecimentos relativamente curtos e circunscritos: os massacres de civis palestinianos às mãos do exército israelita em Khan Younis a 3 de Novembro de 1956 e em Rafah a 12 do mesmo mês. Este é o único propósito da nova visita de Sacco à Palestina, à Faixa de Gaza. O(s) egoísmo(s) é às vezes atroz, mas não se evita mostrá-lo, como se o curso dessa pesquisa fosse o único propósito que permite constituir o livro. O de Sacco e os seus ajudantes em perseguir apenas as histórias relativas a essas datas: sempre que alguém se mostra interessado mas tem pouco a dizer sobre esses acontecimentos, ou tem uma memória de outra data (e pouco importa que sejam histórias tão temíveis e violentas como todas as outras, há como que uma confusão em criar hierarquias de horror), o jornalista apressa-se a agradecer e passar para outra. No campo da smemórias reconstruídas, o das pessoas preocupadas em salvar a pele face ao fogo israelita, mesmo que isso implique abandonar vizinhos e amigos moribundos. Todavia, é esse propósito único, esse olho de ciclope, e esse egoísmo aquilo que traça a linha central do livro, e que estrutura todos os outros elementos em seu torno.
A atenção de Sacco, apesar de concentrada, abre-se sempre em múltiplas linhas. Muitos de nós terão visto dezenas senão centenas de vezes os cortejos funerários palestinianos, em que pessoas armadas abrem o transporte de um cadáver de alguém que se torna símbolo e mártir da sua luta, e as mulheres atrás, ululuando. Essa imagem surge-nos sempre numa montagem videográfica que a separa de tudo o resto, do mundo e da notícia, e leva-nos a criar uma imagem de algo ininterrupto naquele mundo longe do nosso. Um momento há em que Sacco nos mostra a rua principal de Gaza, a Sea Street, na sua existência mais banal e quotidiana, de repente interrompida por um desses cortejos, e a sua retirada. Esta perspectiva, que pretende demonstrar como esses cortejos são algo de frequente e pouco surpreendente para a população de Gaza, em que continuam com os seus afazeres diários apesar desses funerais (de pessoas que não das suas famílias), é talvez mais indicativa de um sentido de vida, de um choque que banaliza a presença da morte, do que o modo como as notícias se escrevem nos meios mais convencionais. O título Footnotes in Gaza pretende, da parte do autor, apontar para aquilo que ele entende serem os dois eventos: nada mais do que “notas de rodapé”. Quer dizer, dois eventos que não têm um peso substancial na já de si pesadíssima guerra entre estes dois povos (ou entre povos além deles, evidentemente, pelos apoios políticos mundiais), dois eventos que não suscitam particular interesse nas memórias quer dos que lá lutam quer dos que cá reportam, dois eventos que não inflectem de modo nenhum o progresso (uso a palavra ironicamente, caso escape à alguém) do conflito. No entanto, a “nota de rodapé” é algo que está ainda visível na mesma página do texto principal, e parece-nos que estes dois eventos haviam sido relegados para as notas de fim do livro... Sacco, ao recuperá-las, ao colocá-las no centro da sua atenção ou exigindo que as testemunhas se recordem ou permitindo que essas memórias ganhem um corpo textual, quer desdobrá-las em texto propriamente dito, sem porém lhes retirar essa aura, secundarizada, pequena, diminuída, de notas de rodapé. Quer dizer, é precisamente por manter o seu papel secundário no conflito que os dois massacres se tornam significativos, tal qual todos os elementos dramáticos espalhados no relato – a demolição das casas na fronteira com Israel, os tiros e rockets que atravessam as ruas, os funerais repentinos, a falta de condições mínimas de vida e trabalho e dignidade, a dor e ódio do povo isolado de Gaza –, enquanto “ruído permanente de fundo”. É sempre assim, parece quer dizer-nos este livro. Maktub.
Mas ao mesmo tempo, o título poderia ser lido também como “Footprints in Gaza”, num sentido em que estes passos de Sacco não deixarão de ser pequeníssimos sinais que em pouco alterarão o estado das coisas, demasiado complexo para serem resolvidos mesmo por uma bateria de reportagens, relatórios e acordos, como a História já o demonstrou. Mas estão dados, ficam vincados. Talvez sejam apagadas, talvez não. Depende do modo como agirá sobre os leitores.
Maktub. A notória fatalidade tem também outro peso que nos retorna ao papel sobre a História: aquela famosa frase de Santayana que reza “Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo” é na verdade delida todos os dias. Aqui voltamos à visão de Heródoto, e à sua lei da história, a da “eterna lei da vingança”. Pouco importam as notas de rodapé, as pegadinhas. É inevitável que se mantenha o curso do ciclo.
A expressividade do trabalho de Sacco é reconhecida. A forma como gere a fragmentação dos discursos, como espalha frases em legendas flutuantes, nem sempre obedecendo a qualquer tipo de axiologia organizada, mas bem pelo contrário tirando partido da máxima significação na sua distribuição aparentemente aleatória pelo quadro visual, a escolha equilibrada entre letras desenhadas de uma forma “normal” e outras a negrito, largas, explondindo, a repetição quase minimal de rostos, o tratamento destes de frente como se se tratasse de um retrato-robot ou fotografia de arquivo de identificação, a sua auto-representação num grau maior de caricatura e a eliminação dos olhos (a testemunha-Sacco nunca revela o seu próprio órgão visual), enfim, tudo isto e muito mais concorrem para a efectiva fórmula de reportagem de Sacco, um encontro entre a assunção total do papel subjectivo e integrado que ele tem no ambiente social, e a voz dessa gente.
Sacco opera uma espécie de confluência de temporalidades ao mostrar não apenas a testemunha no momento presente, em que se cruza com o entrevistador, mas também representando-a no momento passado, em que testemunhou o evento que se procura explanar. O que Sacco “vê” e o que Sacco “escuta”, ambas transformadas em matéria visual indiferenciada no seu papel e lugar no livro. O mesmo acontece aos espaços, as ruas, os bairros, mostrando-se a imagem do que Sacco vê agora como aquilo que ele projecta ter sido esse mesmo espaço então. Sacco não procura fazer uma “temporalidade entrelaçada” (o termo é de Hillary Chute) como Art Spiegelman em Maus, por exemplo, em que veríamos numa mesma vinheta a representação do momento presente e uma projecção advinda do passado, mas isso devia-se ao facto de que Maus fazia convergir, complicar e confundir as memórias de Vladek, que as havia vivido, e as de Art, que as reconstruía através das entrevistas ao pai e depois a fabricação do comic. Sacco, distanciando memórias pessoais e reconstrução autoral pelos espaços diferenciados das vinhetas ou pranchas, mostra como há um abismo intransponível, ou que ele não deseja ultrapassar, entre as pessoas envolvidas. Art sente, exige, a memória do seu pai como sua (algo que é recorrente na literatura do Holocausto pela parte da geração dos filhos, como víramos a propósito de Bernice Eisenstein: Marianne Hirsch, num estudo sobre Maus, fala de “pós-memória”, a apropriação da parte dos filhos dos sobreviventes do Holocausto dos relatos e memórias, integradas e reconstituídas como suas); Sacco quer dar voz aos palestinianos entrevistados, mas manter a sua distância, individualidade, respeito. Spiegelman quer dizer: “esta memória é minha também”; e Sacco: “eis a memória deles” (o pronome “eles”, é sabido, tem uma carga de distância substancial, ainda que aqui não seja de desprezo, negativa, recusante). Um dos momentos em que isso se torna absolutamente visível, não mais que duas vinhetas no centro destas quase 500 páginas, é o seu diálogo com Ashraf, um amigo do seu companheiro e tradutor em Gaza, Abed, e professor de inglês em Khan Younis, que conhece mais tarde, já em Rafah, e ao qual apelidará de “leão”. Ashraf rapidamente parecerá tomar o leme da missão de Sacco, prontamente procurando os contactos a fazer, buscando a casa certa da pessoa a entrevistas, abrindo caminho. Ashraf pede um conselho ao jornalista sobre o que deve fazer depois de ter visto a casa que construíra demolida pelos israelitas. Sacco não sabe o que responder, não tem conselho a dar, a sua vida não se entrelaça com a de Ashraf. O que vê são duas vinhetas separadas. Um pequeno abismo em que as vozes – a legenda do pensamento e o balão de fala – estão divorciadas. Eis o sinal dos limites de Sacco. Eu não posso fazer nada. E mesmo quando dá um conselho, ele é vazio de uma verdadeira consequência. Como o poderia ser de outro modo? Sacco regressará ao seu país. Que pode ele fazer? Que pode fazer um jornalista, mesmo um autor de banda desenhada, por Ashraf e pelos outros palestinianos na faixa de Gaza, que vêem as suas casas demolidas, as suas vidas cercadas, a sua dignicade cerceada?
Oferecer um tijolo. Ei-lo.
Nota: ver Faire Le Mur, um herdeiro do trabalho pioneiro de Sacco, ainda que bem diverso.

Faire le Mur. Maximilien Le Roy (Casterman)

É bem possível, ampliando o que se indica no prefácio de Simone Bitton a este livro, que o nome de Mahmoud Abu Srour deveria estar contemplado na capa deste livro. Explicamos. Apesar deste livro ser escrito e desenhado por Maximilien Le Roy, na verdade a história é contada na primeira pessoa, e acompanhamos a vida de um jovem palestiniano, habitante da Cisjordânia [informação corrigida], que se chama Mahmoud Abu Srour, trabalha na mercearia da família, e que sonha com duas coisas: as jovens estrangeiras que ali trabalham e se relacionam com ele, por vezes amorosamente, e com uma carreira de artista, ilustrador, desenhador, banda desenhista... Tudo nos leva a crer que Mahmoud não é uma invenção, mas sim um jovem homem, real, tangível, com quem Le Roy rapidamente nutriu uma forte amizade e, juntos, construíram esta história: afinal, toda a sua matéria, inclusive algumas partes gráficas – os desenhos do próprio Mahmoud – são do palestiniano. O autor francês moldou tudo isso na forma deste livro, que nos é apresentado.
Não obstante, estando longe da sua confirmação (não fizémos entrevista, investigação directa, perguntas), poderemos eventualmente também estar perante um exercício de ficção, de auto-ficção ou de algum grau de alteração da verdade, por razões de justeza, justiça e protecção. Tal qual como Joe Sacco alterará parte das entrevistas e reportagens que faz para proteger as suas fontes de eventuais represálias, é bem possível que Mahmoud também seja uma confluência de outras pessoas. Ou não. Não temos modo de o saber com precisão.
Seja qual for a verdade, Faire le Mur coloca no seu centro a vida quotidiana e as aspirações deste jovem. O campo de Aida, na Cisjordânia, não é mais do que uma prisão, um apartheid a seu modo, e todos os seus habitantes têm as suas histórias, projecções, medos, raivas, aspirações e fantasias. O último livro de Sacco, Footnotes in Gaza, de que falamos aqui, dá voz directa a muitas dessas pessoas, ainda que essas múltiplas vozes sirvam para criar a umagem unida de um evento histórico circunscrito. Faire le Mur apenas segue um jovem, que pensa as coisas, que não quer guardar rancores, nem se vitimizar, nem pedir simpatia ou pena de ninguém. Mahmoud quer apenas viver a sua vida como pessoa digna e, por mais que caia, voltar-se-á a levantar para retomar o caminho (e são vários os momentos em que percebemos as suas quedas, sem que jamais sejam transformadas em momentos melodramáticos, de queixume fatídico).
O autor francês emprega várias matérias gráficas para dar a ver essa experiência: há uma linha mais contínua de desenhos num desenho nervoso, mas realistas, de contornos “riscados”, e numa escolha relativamente reduzida de cores – vários tons da azeitona que por ali cresce?; há uma outra, de abordagens mais esboçadas, quase de apontamentos infográficos, esquematizados, de coloração incompleta, que servem para a representação de episódios históricos, ou figuras icónicas culturalmente reonhecíveis, como momentos-chave da história local ou mundial (quantas vezes estas se confudem na luta pelos direitos do homem), personagens importantes (para bem ou para mal), ou até mesmo pela amalgamação de lutas e princípios; há ainda momentos de vinhetas em branco, apenas co contornos a preto, que servem para mostrar momentos anteriores, analepses, lembranças relatadas; existem pequenos momentos, ilhas de acalmia de fim de tarde, em que os desenhos ganham cores mais densas, sombrias, e se nota perfeitamente a textura do papel sobre o qual se desenhou, texturas meio-reveladas por deslizar o lápis ao de leve, quase exclusivamente para passeios pela natureza, em silêncio, contemplativos (mas a diferença é quase mínima da linha principal); e finalmente existem os desenhos de Mahmoud, de vivas cores expressivas, sobretudo vermelhos, a lápis de cor, com uma figuração estilizada e quase alucinada, sem concentração realista, onde irrompem olhos e braços e movimento, como se quisessem dizer muito mais daquilo que aparentam dizer.
Algures no prólogo, a autora fala de “generosidade” de Maximilien Le Roy. Bom, discordemos. Essa generosidade seria mais clara se o nome de Srour estivesse na capa, como co-autor, que de facto é. Não poderemos inverter os factores? A generosidade não será do jovem palestiniano, ao emprestar a voz ao autor francês? Não é tanto Le Roy que “dá a voz” a Srour, como ocorre no caso do jornalista-Sacco em relação aos entrevistados em Gaza, mas sim a do homem-Srour ofertando matéria de expressão ao autor-Le Roy para este seu livro. A direcção é convergente entre os dois, no fim da jornada.
O livro ainda é complementado por vários “anexos”. Em primeiro lugar, e no seguimento preciso da narrativa principal, um breve conjunto de fotografias pessoais da vida de Mahmoud, que lhe confirmam a existência e são reveladoras da felicidade da vida familiar – fotos antigas da mãe (?), dos pais (?), dele em criança (?), com o irmão (?). Segue-se uma pequena reportagem fotográfica de Maxence Emery sobre os aspectos de controlo social da parte do exécrito israelita sobre a vida em Gaza, inclusive acções de protesto e a sua própria prisão (para identificação). Uma entrevista-conversa ilustrada com Alain Gresh, importante autor de livros afectos à questão israelo-palestiniana, à relação entre o Islão e a nossa modernidade, e editor do Le Monde Diplomatique. E ainda uma pequena lista de livros aconselhados por le Roy, quer contemplando ensaios e livros históricos, como romances, entrevistas e bandas desenhadas: Sacco, Squarzoni, Spiegelman e Mazen Kerbaj, cujo Beyrouth saiu na L’Association. Tudo isso são elementos que contribuem para o mesmo fito político de Faire le Mur, evidentemente, sublinhando a justeza da realidade retratada, ou forçando a ideia de verdade da sua ficção.
Ao contrário da imagem com que encerramos o texto sobre o livro de Sacco, este livro, apesar do seu título, é na verdade uma pedrinha que se retira ao muro da vergonha, esperando que ele caia algum dia.
Nota: agradecimentos à editora, pelo envio do livro.

28 de maio de 2008

4 livros de Phillipe Squarzoni (Les Requins Marteaux)

No seguimento da colaboração com o Le Monde Diplomatique, indico um artigo sobre quatro livros de P. Squarzoni, que compõem uma espécie de bloco, publicado aqui.
Agradeço a quem o visite e leia.
Uma nota de agradecimento à Sandra Monteiro, pela disponibilidade mostrada, à Sara Figueiredo Costa e à Marta Lança pelas discussões, e ao Nuno (vergonha, mas não sei o último nome dele!) que insistiu para que eu os lesse e apreciasse.
Vale!