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5 de janeiro de 2020

Blake & Mortimer: Le Dernier Pharaon. François Schuiten, Thomas Gunzig, Jaco Van Dormael e Laurent Durieux (Blake et Mortimer)


Confessemos que não somos alheios a todo um complexo de nostalgia, que muitas vezes suspende a razão, a aprendizagem e o desenvolvimento dos conhecimentos, e se prende tão-somente a memórias de um tempo diverso, protegido, de regressão infantil, no qual apenas os prazeres epidérmicos e imediatos contavam. A banda desenhada, sendo uma linguagem ou forma artística cuja presença era garantida desde um primeiro momento, teve um papel absoluta e naturalmente fundamental. Ora, dessas leituras primárias, existirão muitos textos que foram sendo abandonados, esquecidos ou apagados precisamente pela maturação cultural e intelectual, mas outros deixaram os seus fantasmas. E a série Blake & Mortimer faz parte do pequeno grupo de fantasmas que sobrevivem. (Mais) 

23 de agosto de 2017

Bruxas/Wytches. Scott Snyder e Jock (G. Floy)

A ideia de que toda uma sociedade sacrifique parte da sua felicidade momentânea e sempre imperfeita em nome de uma fortuna consequente, e por isso sempre “melhor”, não é de todo nova. Ainda que o famoso conto de Shirley Jackson, “The Lottery”, de 1946, se centre mais na ideia do bode expiatório, conta-se aí igualmente na ideia do preço, que se encontra no coração deste livro. Mas o bode expiatório convidaria à ideia de um pecado original e de uma forma de o expiar. Em Bruxas, explora-se antes a entrega total a um crime em nome de um ganho egoísta.

Como todo e qualquer bom projecto, e que permita com efeito leituras múltiplas a partir dos seus elementos (não basta dizer, contra a ideia popular, que qualquer obra de arte tem sentidos múltiplos, é preciso identificá-los e explicá-los), Bruxas pode ser lido, em vez de uma simples e empolgante novela em torno de uma família e o seu confronto com criaturas primais, como um livro sobre desejos, promessas e a capacidade dos seres humanos viverem com as suas fantasias mais negras. Mas também coloca o amor filial, a paternidade, a superação de obstáculos pessoais, na linha da frente. (Mais)

21 de agosto de 2017

Platinum End; vols 01 e 02. Tsugumi Ohba e Takeshi Obata (Devir)


De certa forma, podemos ler Platinum End como uma espécie de reverso de Death Note. Uma vez que um certo grau de maniqueísmo é uma assinatura dos autores, não nos admira que aqui haja uma transformação para o pólo “contrário” à famosa saga anterior. Em vez dos demónios ou deuses da morte, temos agora hierarquias de anjos em torno de (um) deus. Em vez da feiúra dos primeiros, temos a beleza etérea dos segundos (e que devem algo da sua forma física às personagens fantásticas do Cremaster de Matthew Barney). O seguimento mais ou menos próximo de vários sistemas de angeologia são muito secundários, tirando algumas referências básicas, já que a própria “moralidade” destas criaturas é tão matizada ou até indiferente como o era nos shinigami de Death Note: não são “más” nem “boas”, simplesmente têm papéis e tarefas a cumprir. E em vez de um jovem (Light Yagami) que ganha um artefacto de poderes sobrenaturais (um caderno escolar) interessado numa ideia de justiça que passa pela sua decisão pessoal em matar outras pessoas – ou seja, uma acção moralmente repreensível de acordo com os melhores princípios societais –, sublinhando um ego que vai crescendo, no caso de Platinum End seguimos outro jovem (Mirai Kakehashi) que ganha um artefacto de poderes sobrenaturais (as “asas” e as “espadas”), por ter sido seleccionado, mas que prefere a inacção do que interferir na vontade pessoal dos outros, mesmo que isso lhe custe a sua própria “vitória”. (Mais) 

18 de agosto de 2017

Monstress. Marjorie Liu e Sana Takeda (Saída de Emergência)

Monstress é uma bateria ou amálgama de géneros que, não tendo, possivelmente, um elemento propriamente original, produz uma combinação equilibrada e curiosa. Steampunk, fantasia épica e negra, histórias de monstros, Bildungsroman, ficção científica, ficção feminista, são os tijolos que montam a sua estrutura, sendo a argamassa uma pesquisa sobre a individualidade perante a cruel e abjecta injustiça da escravatura e do racismo provocadas pela guerra. Mas ao mesmo tempo espraia-se uma história centrada na senda de uma protagonista em torno de respostas sobre a sua família, que poderá ter consequências para o seu mundo em geral. (Mais)

14 de agosto de 2017

Miracleman. A Idade de Ouro. Neil Gaiman e Mark Buckingham (G. Floy)

Antes de mais, queríamos esclarecer a declaração de intenções, uma vez que, tendo sido os tradutores deste volume, somos parte interessada no projecto.

Dito isto, e na continuidade de alguns projectos da editora, que nos tem disponibilizado alguns dos melhores títulos do mainstream norte-americano contemporâneo (Saga, Fatale, Southern Bastards), e depois de uma edição com todo o run de Alan Moore (a que corresponderiam 3 livros), eis que se publica um volume com todo [v. comentários] o material criado e publicado na época por Neil Gaiman e Mark Buckingham, herdeiros imediatos do anterior autor, e seus múltiplos colaboradores artísticos. Como é consabido, o Miracleman, nas mãos de Moore et al., transformar-se-ia no principal cadinho e laboratório de cruzamentos de muitas das noções daquele autor britânico que tanto seriam influentes no seu próprio trabalho no território dos super-heróis como depois em todo este género, e a que se viria a dar muitos nomes, desde “desconstrutivismo”, a “pós-moderno”, até mesmo “maturidade” ou “revisionismo”. Não é que algum desses termos esteja errado, mas tampouco serão completos. Seja como for, é inegável que se encontrariam aí muitos dos elementos que depois se tornariam inevitáveis na esmagadora maioria da produção deste género. (Mais)

30 de maio de 2017

Jardim de Inverno. Renaud Dillies e Grazia La Padula (Kingpin)

Não deixa de ser “natural” que a Kingpin tenha encontrado neste projecto a continuação de uma linha editorial que procura expandir. Não havendo dúvida de que o critério eleitor nessa integração tenha sido a prestação gráfica da autora italiana, acreditamos que terá a ver com certas afinidades estilísticas com Tony Sandoval, cujo recente Nocturno também foi publicado há recente pela mesma casa, e cuja colaboração também trouxe a lume Les echos invisibles (que imaginamos ser desejado pela editora). O que une La Padula e Sandoval é múltiplo: uma linha de contorno semi-livre e gestual, uma figuração entre o anatómico e o cute-grotesco dos cabeçudos do século XVIII, que já havíamos debatido a propósito de Phoenix, e uma aplicação de cores suaves mas exactas. La Padula, todavia, parece herdar outras características ligeiramente diferentes. Ainda que haja igualmente uma preocupação pelo acrescentar de pormenores nos cenários cheios, parece-nos ser mais devedora de um Nicolas de Crécy, ainda que sem atingir a mesma intensidade, verve e alucinação. Mas os cenários urbanos, abertos, imensos, distorcidos de acordo com boas práticas visuais, fazem-nos lembrar as vinhetas cheias de Le Bibendum celeste ou Journal d’un fantôme. É possível que tal comparação seja desequilibrada, em detrimento para com Padula, mas há um mesmo esforço, desejo e prestação. (Mais)

22 de maio de 2017

Aurora. Felipe Folgosi et al. (Instituto dos Quadradinhos)

É provável que estejamos a observar um novo fôlego nas relações entre a banda desenhada brasileira e portuguesa nos tempos correntes. Se durante algumas décadas essa relação passava tão somente pela distribuição comercial de publicações made in Brasil (de produções locais ou norte-americanas, sobretudo), neste momento as acções desdobram-se em exposições, autores publicados em Portugal ou títulos brasileiros com uma recepção particular por cá. Não se poderá falar ainda de um equilíbrio mútuo, mas essas relações estão com efeito fortalecidas. Aurora parece ser mais um dos elementos que contribui para esse cruzamento, dada a forma como a editora tem procurado estabelecer contacto com agentes nacionais, inclusive este mesmo espaço. (Mais) 

3 de maio de 2017

Heavy Metal, l'autre Métal Hurlant. Nicolas Labarre (Presses Universitaires de Bordeaux) & entrevista no The Comics Alternative.

Por ocasião da leitura deste livro, entrevistámos o seu autor, na nossa colaboração com The Comics Alternative. A entrevista está disponível aqui. Uma vez que nesse outro texto tecemos outras considerações e a própria entrevista sublinha aspectos do livro de Labarre, ficam aqui apenas alguns outros apontamentos complementares. O foco deste livro são os primeiros anos da revista norte-americana Heavy Metal (HM), no quadro da sua relação directa com a influente publicação francesa Métal Hurlant (MH). Com efeito, a HM nasceu como um projecto editorial afecto à plataforma que publicava a National Lampoon, até certo ponto uma herdeira mas igualmente desvio da Mad magazine, e que tinha como objectivo a divulgação desse material europeu nos Estados Unidos. Todavia, até hoje a HM é vista como uma versão deslavada, necessariamente inferior, da Métal Hurlant: menos experimental, menos influente, mais atreita a géneros de pouca intensidade criativa (ficção científica e high fantasy “clássicas”) e um claríssimo propósito machista, com as suas capas de pinups. Não é que essa imagem seja totalmente injusta, mas o grande objectivo de Labarre neste volume é corrigir a exatidão histórica das relações entre as revistas e uma mediascape mais alargada e, de certa forma, matizar o juízo sobre a revista americana, a qual criou “uma forma inédita nos Estados Unidos de negociar a articulação entre o underground e a banda desenhada de grande público” (207). (Mais)

29 de março de 2017

Parker, vols. 2 e 3. Richard Stark e Darwyn Cooke (Devir)

Uma vez que já havíamos falado alargadamente da estrutura literária e da forma dialogante entre a adaptação em banda desenhada de Cooke e os romances de Stark, passaremos à leitura imediata dos livros em si. Ficando ainda a nota de homenagem ao artista, cuja morte foi uma surpresa triste há tempo recente.

Cada um dos volumes de Parker lê-se com efeito como uma novela centrando-se nos “trabalhos” a que o criminoso se entrega. É curioso como apesar de o acompanharmos e termos mesmo direito de ir compreendendo alguns dos mecanismos psicológicos que o movem, e o tipo de “ética”, se assim se pode dizer, que pautam o seu profissionalismo, há sempre um limite curto desse mesmo conhecimento. Parker é ainda um homem misterioso, silencioso, que não se deixa endrominar por explicações fáceis. Todavia, essa distância com o leitor é também aquilo que impede uma qualquer empatia ou simpatia total por uma personagem que não esconde de forma alguma ser um sociopata (mesmo que isso seja fruto das alterações mais violentas operadas por Cooke, e não as novelas originais, mais de 20, datadas da década de 1960-1970): machista, violento, ladrão, assassino, etc.. Mesmo os pequenos laivos de “amizade máscula” que ele demonstra para com os seus colegas não será suficiente para o redimir face a uma moralidade humana societal. Mas as novelas policiais, já o havíamos dito, não são habitadas por flores que se cheirem… e há criações tão famosas com criminosos como personagens principais quanto com heróis e justiceiros. (Mais)

23 de janeiro de 2017

Groenland Vertigo. Hervé Tanquerelle (Casterman)

O regresso de Tintin. Correndo o risco de nos repetirmos, uma das expressões mais curiosas de escutar em relação à exposição e regular “consumo” da banda desenhada é aquela empregue por leitores adultos de que “cresceram com” determinado título ou género ou autor ou personagem. Depreende-se de que o crescimento é aquele dos interlocutores, em termos físicos, psicológicos, emocionais, uma vez que essa realidade a que se retorna, da banda desenhada, espera-se que se mantenha a mesma, com algum nível de conforto e de confirmação da nostalgia.  Não nos abstemos, como afirmámos a propósito de O testamento de William S., de nos integrarmos pessoalmente em experiências dessa natureza, que ignoram os avisos da lógica mental para acederem de imediato aos centros nevrálgicos da nostalgia e das respostas automáticas de prazeres infantis. Todavia, é o esforço e exigência da educação e da verdadeira maturidade que nos deve fazer procurar por outros domínios da banda desenhada, que com efeito cresceram com os tempos, e dessa forma ora trazem modo mais complexos de narrativas, ora aumentam os graus de referencialidade e integração cultural, ora se estruturam com formas visuais e compositivas mais consentâneas com uma sofisticação próxima da de outras áreas artísticas, e por aí fora. (Mais)

8 de janeiro de 2017

O testamento de William S. Yves Sente e André Juillard (Asa)

Quando falámos de Sous le soleil du minuit, aventámos a toda essa prática contemporânea no interior do contexto específico da banda desenhada europeia, pautada sobretudo pela criação de “autor”, ou pelo menos de “personagens de um autor”), a que a crítica Jessie Bi havia chamado de profaçon, que a autora, especularmente, descreve recorrendo a outro conceito por ela assinado, a de uma plagionomia legítima. Quer dizer, de uma forma simples, a maneira como o “mercado”, de forma legítima, autoriza que uma obra, um estilo, uma voz, procure ser continuada por outros autores que não o original. Para nos atermos à história da arte ocidental, uma vez que outras estruturas civilizacionais e culturais poderão seguir outros passos bem distintos, e até ao longo da história práticas houve que sustentavam a “imitação do mestre”, aquilo que seria considerado um mero plágio, imitação, derivação, pálida sombra, etc. de um ponto originário na literatura, cinema, ou artes visuais, na banda desenhada é vista como uma “nova vida” para as “queridas personagens”. Nem sequer estamos a falar de pastiches, que são exercícios legítimos e sempre de uma distanciação crítica em relação ao original, provocando sempre uma noção de comparação automática. Mas de uma verdadeira “continuidade”, em que, apesar de tudo, se particulariza a “biografia ficcional” das personagens como se fosse verdadeira. (Mais)

11 de novembro de 2016

Miracleman/Watchmen. Alan Moore et al. (Levoir/G. Floy)

A publicação destes dois livros no mesmo ano, por dois projectos diferentes (mas que sabemos estarem aliados por agentes comuns), vem repor uma das muitas falhas da banda desenhada disponível em Portugal em língua portuguesa na norma europeia. As relações de ambos os títulos partem da circunstância de ambas partilharem o mesmo escritor, Alan Moore, e de fazerem parte de um projecto que ele não tem abandonado, pois mais que o pareça nas suas afirmações explícitas: a da reinscrição do género dos super-heróis numa nova relação com a referencialidade real para, a partir disso, interrogar o género mas também a fantasia, a efectividade das utopias, a realidade política que nos assiste, etc. E à distância de mais de trinta anos, não pode haver dúvidas de que houve de facto uma transformação radical desse género provocado pelo trabalho do escritor inglês. (Mais) 

5 de outubro de 2016

Colecção Sandman. Neil Gaiman et al. (Levoir)

Nota de intenções: estando envolvido na tradução de vários volumes desta colecção, existe uma relação profissional entre nós e a editora.
Quando a edição de Sandman, pela Devir, se viu interrompida por problemas de cariz legal e internacional, que não era imputável à editora, tecemos algumas considerações gerais sobre a série. A elas remetemos, pois apesar da distância de dez anos, algumas dessas notas são ainda pertinentes. É verdade que a leitura desta série, no início dos anos 1990, se fez numa paisagem mediática e de produção de banda desenhada profundamente distinta daquela que é possível nos nossos dias, já para não falar da própria recepção pessoal, que tem de ser diferente por razões tão várias quanto óbvias. (Mais)

17 de agosto de 2016

Tempestade sobre Galveston. Pasquale Ruju e Massimo Rotundo (Polvo)

Em mais do que uma dimensão, Tempestade em Galveston é uma mais tipificada aventura de western do que Patagónia, de que faláramos antes. Se ambas estarão subsumias a uma economia de produção bem mais vasta, a saber, os livros maiores da casa Bonelli e, ainda mais, toda o historial de Tex Willer, é inevitável que façamos aqui uma leitura bem mais limitada entre estes dois textos, o que provavelmente incorrerá numa injustiça interpretativa, assim como uma capacidade limitada da apreciação de elementos específicos à obra assinada por Rujo e Rotundo. Seja como for, pensamos que essa via é não só inevitável como necessária no interior do nosso contexto, e haver uma vontade da parte da Polvo em, ao abrir-se esta oferta particular, fazer chegar estes livros a um público que não o especializado texiano. Basta ponderar na diferença abissal entre o tratamento original, mais inclinado para assinalar a presença e continuidade da personagem-marca registada, do que este caso, em que é o título específico, individualizado, que ganha proeminência. (Mais) 

1 de agosto de 2016

Sous le soleil de minuit. Juan Diáz Canales e Rubén Pellejero (Casterman)

Vivemos num momento em que a grande diferença entre a banda desenhada “franco-belga” ou “europeia” e a “norte-americana”, na suas ferramentas de produção, se têm diluído. É óbvio que essa diferença é falsa, porque essencialista e generalista, mas que servia para alimentar uma forma de entender a produção mundial de banda desenhada por blocos descontínuos e estanques. Olhávamos para personagens como o Homem-Aranha ou o Super-homem como passíveis de serem reutilizados por vários autores contratados pelas companhias de quem são propriedades, e confundíamos personagens como Tintin, Astérix e Lucky Luke com os seus autores. Porém, as novas realidades de produção comercial descobriram que a multiplicação de personagens nas mãos de novos autores, a sua possibilidade de transformação em cifras exploráveis em variações prismáticas tem uma valência muito grande, comercial, acima de tudo, mas igualmente de imaginário, já que grande parte dos leitores de “bedê” prefere a titilação contínua da nostalgia e da mesmidade do que serem confrontados com novos haustos. Seria necessário novamente entrar na análise de vários projectos para compreender a diferença entre eles (o Spirou de Bravo não é o de Yann e Schwartz não é o Lucky Luke de Bonhomme não é as personagens da MSP nas mãos de tantos autores não é o Blake & Mortimer dos vários convidados), mas poderíamos dizer que este Corto Maltese é idêntico à Brasa: parece que é mas não é. Pode conter cevada, chicória e centeio, mas apenas no ritual do leitor-consumidor é que se poderá imitar o mesmo efeito real do café. (Mais)

21 de julho de 2016

The New Mutants. Ramzi Fawaz (New York University Press)

Tendo como sub-título Superheroes and the Radical Imagination of American Comics, compreender-se-á de imediato o objecto de estudo deste volume académico, assim como a matéria que é desalojada para lhe prestar atenção crítica. Basicamente, este é um estudo das figuras dos superheróis no contexto histórico e cultural norte-americano, criando um filtro que permite ver essas personagens como capazes de reconfigurar imaginativa mas igualmente politicamente (isto é, com efeitos na pólis) vários tipos de inscrição cultural. Desta feita, o autor contribui de uma forma sustentada e feliz para com a consideração da banda desenhada como, acima de tudo, para citar uma das cartas enviadas às editoras que o investigador utiliza, “espaço legítimo para pôr em prática ideais” (195). (Mais) 

17 de julho de 2016

Tex: Patagónia. Mauro Boselli e Pasquale Frisenda (Polvo)

A personagem concebida por Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini em 1948 tem uma vida longa, diversa e explorada das mais diversas formas, não apenas em banda desenhada (se bem que é apenas nessa linguagem que atinge alguma qualidade) e não nos atreveremos sequer a encetar uma tentativa de a reduzir a uma apresentação sumária, sempre dada a falhas. De resto, a sua recepção em Portugal tem sido particularmente feliz, pelo menos em termos de respostas activas da parte dos seus fãs mais activos, pela existência não apenas do Clube Tex como pela criação de uma revista própria, acessível aos sócios. Acrescenta a que essa recepção seja surpreendente pelo facto das edições dessa personagem serem sobretudo as brasileiras (cuja recepção é de tal importância que existem mesmo estudos sobre isso, como é exemplo O mocinho do Brasil, de Gonçalo Junior, editora Laços: 2009), mas também italianas, espanholas e, quiçá, as outras línguas em que esta personagem é publicada, no paradoxal papel de personagem muita amada mas não sendo famosa fora desse mesmo círculo. Havendo fãs e conhecedores sólidos dessa série, com espaços próprios, não podemos sequer integrar Patagónia na sua contínua história, mas considerá-lo como um texto singular. 

7 de julho de 2016

Hora de aventuras, vol. 1. Ryan North et al. (Devir)

O lançamento do primeiro volume desta série faz esperar por uma tendência de alguma saudável diversidade em relação à banda desenhada para um público mais infantil, que não passe nem pelos grandes impérios comerciais costumeiros (se bem que este seja igualmente um produto da indústria massificada de entretenimento e consumo, não tenhamos dúvidas), nem por uma subsunção a princípios pedagógicos moralizantes, criados por uma comissão de marketeers e pedagogos. Adventure Time, ou Hora de Aventuras, é apesar de tudo um projecto autoral, algo doidivanas e divertido. O que poderá, todavia, ser precisamente um dos factores que cria obstáculos junto aos progenitores do seu público-alvo. (Mais)

26 de junho de 2016

Superman: American Alien. Max Landis et al (DC Comics)


Em outras ocasiões tivemos oportunidade de revelar algum tipo de acompanhamento que fazíamos de séries mainstream de super-heróis em continuidade, o que ainda se mantém, ainda que de modo menos visível do que se pensaria pelos textos aqui publicados. Maior atenção, todavia, é dada a projectos que surgem como “one shots” feitos fora dessa mesma continuidade, que dessa forma se permitem explorar de modos mais interessantes as potencialidades das variações do género. Foi o que aconteceu, por exemplo, com títulos de Batman ou dos Vingadores. Apesar de termos iniciado igualmente uma abordagem de um outro projecto com o Super-homem, apenas agora surge a oportunidade de sermos mais específicos. (Mais) 

18 de junho de 2016

Terminus. Rochette e O. Bocquet (Casterman)

É bem possível que esta seja de facto a última paragem deste mecanismo. Um projecto que começou de uma forma algo atabalhoada e mudou de mãos de uma forma singular, em relação ao que costuma acontecer com outros projectos em colaboração ou de direitos nas mãos de companhias, não pode deixar de ter configurações mutantes à medida que avança, como já havíamos explorado quando da discussão dos volumes anteriores e da adaptação cinematográfica. Remetemos, aliás, para esse texto, para uma contextualização maior, focando aqui este volume somente. O problema é que essas mutações não servem para reforçar os temas ou aprofundar o tratamento das personagens, mas as de reescrever a própria natureza do projecto. E não necessariamente como melhoria. (Mais)