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8 de maio de 2020

«Para que serve?» Conversa com Madalena Matoso e José Maria Vieira Mendes (Planeta Tangerina)



Conversa com Madalena Matoso e José Maria Vieira Mendes, em torno do livro ilustrado para a infância, e todas as pessoas, "Para que serve?" (Planeta Tangerina 2020). Baseado numa conferência de Vieira Mendes no teatro Lu.ca, "Para que serve a cultura?" e fruto de uma densa colaboração com a ilustradora, arriscamo-nos a dizer que este é um livro muito filosófico e necessário para todos nós, pois coloca-nos uma questão, a qual, menos do que saber responder, temos de saber bem perguntar.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.

6 de maio de 2020

«Bestiário» #s 1 & 2.


Num momento em que a os editores, livrarias e todos os agentes associados à dita “indústria” do livro já lançam mãos de quaisquer bóias de salvamento das contínuas crises – económicas, de consumo, de confiança, educação, das plataformas digitais, alterações sociais e culturais, de sector, legislação e, mais recentemente, de saúde pública – é difícil encontrar uma solução que funcione como panaceia universal. Podemos estar no mesmo oceano de papel, mas as embarcações são bem distintas entre si, e as ondas levantam-se de maneira diferente, o marulhar afecta em variação. Uma opção, porém, se avizinha àqueles que ainda crêem no poderoso objecto que o livro é: fazê-los bem, fazê-los belos, fazê-los inteligentes. Entra a Bestiário. (Mais)

13 de dezembro de 2019

Encantados e arruinados ante os restos do banquete. José Feitor (Imprensa Canalha)


É hoje lançado o volume que reúne a trilogia de José Feitor de livros com imagens e textos que perfazem um contundente "Fia-te na Virgem e não corras" a toda a humanidade. São esses livros dois que foram publicados anteriormente e de que demos conta, a saber, Uma perna maior que a outra e Pimenta no cu dos outros para mim é refresco. e um inédito, intitulado Ainda que fosses capaz, não o farias (Notas esparsas e incoerentes sobre aquilo que tem corrido mal), . Juntos, ganham título-mor: Encantados e arruinados ante os restos do banquete. Muitos dos desenhos originais destes livros, serigrafias associadas e fontes estiveram expostas na Tinta nos Nervos, entre 19 de Setembro e 16 de Novembro: A Mercadoria é Medonha, vai vender que nem ginjas. Nessa altura, produziu-se um texto para a folha de sala, que poderá servir igualmente de resenha ao novo capítulo e à obra em geral. Aqui o recuperamos e publicamos para toda a gente. O lançamento é hoje, às 18h30, na livraria-galeria Tinta nos Nervos.

29 de setembro de 2019

O leite da via láctea. Manuel Zimbro (Sistema Solar)

Por ocasião da exposição história secreta da aviação e alguns meteoritos, na galeria Quadruma maior retrospectiva alguma vez feita da obra de desenho, pintura, esculturas e instalações de Manuel Zimbro (1944-2003), a editora Sistema Solar - continuação da “verdadeira” Assírio & Alvim após a sua absorção pela Porto, e que havia mantido uma relação íntima com o artista enquanto divulgadora dos seus trabalhos quer enquanto espaço expositivo quer enquanto plataforma editorial incontornável - publicou este volume. Le lait de la voie lactée é um fac-símile, “warts and all”, de um projecto de álbum de banda desenhada que o autor terá criado “no início dos anos 80, quando Manuel Zimbro habitava em Paris”, lemos numa nota no final.  (Mais)

25 de junho de 2018

L’Orso Borotalco e la Bambola Nuda Italiana. Maria João Worm (Quarto de Jade)


Quase toda a história humana é pautada pelo fascínio da animação, no sentido da condição de algo estar vivo, mover-se, actuar, talvez mesmo pensar e comunicar. É talvez esse sentimento que nos tenha feito criar deuses, desenhar nas paredes, esculpir formas. É esse sentimento que, ao longo da cultura humana, nos fez criar histórias em que os objectos ganhavam poderes extraordinários, guardavam resquícios das almas dos seus antigos possuidores, enclausuravam seres vivos ou ganhavam eles mesmos uma espécie qualquer de vida. Um fascínio que mistura idolatria a receios, terrores a desejos, algo que pode tanto oscilar entre o sonho de Pigmalião e Geppetto, como o horror do Mickey em Fantasia ou dos pais do Pequeno Otik/Otesánek, de Svankmajer. Com o advento do cinema, de facto, rapidamente os criadores puseram à prova esse fascínio e são os brinquedos uma classe de objectos preferencial dessa “vida”, sobretudo graças à técnica da animação de volumes: desde o perdido The Humpty Dumpty Circus, de Blackton e Smith (de 1898) ao sobrevivente Dreams of Toyland de Arthur Melbourne Cooper, que data de 1908, mas a cuja tradição temática pertencerá igualmente a série contemporânea da Doutora Brinquedos, o já clássico Toy Story e igualmente o assassino Chucky. (Mais)

23 de março de 2018

Duplo Vê/O Tautólogo. Mattia Denisse (dois dias)


Por esta altura, começa a construir-se um edifício feito de elementos singulares, e a que se poderá vir a dar o nome de “obra gráfica”, de Mattia Denisse, designação que tanto terá a felicidade de agrupar essa sua produção por um traço material, permitindo uma visão de conjunto e uma consideração das constantes, como poderá incorrer em distrações relativas a especificidades de cada um desses mesmos elementos. (Mais) 

15 de março de 2018

Livro das imagens. Sei Miguel (O Homem do Saco/Marmita de Gigante)


É por vezes difícil, se não impossível, lermos, vermos, interpretarmos e pronunciar um juízo de valor sobre uma determinada obra nova sem recorrermos a elementos que lhe são extrínsecos. As mais das vezes, isso prende-se a questões de biografia, círculo social ou outra actividade profissional, pública ou artística que o autor ou autora exerçam e que parecem fazer pressão sobre aquelas que se nos apresentam no momento. É isso o que sucede quando se procuram “traços” de arquitectura em desenhistas que têm formação de arquitecto (e tão distintos como Richard Câmara, Francisco Sousa Lobo, Pedro Burgos, Ana Cortesão, André Pereira), ou se pretendem compreender como actividades musicais podem informar a prática da banda desenhada (Carlos Zíngaro, Ilan Manouach, Brian Chippendale, André Coelho). Quase sempre esse exercício é supérfluo e inválido, uma vez que providencia mais com elementos de cegueira e limitação do que um caminho para cumprir uma melhor leitura crítica. (Mais)

24 de janeiro de 2018

Desenhos efémeros. António Jorge Gonçalves (Orfeu Negro)

Serve o present post para indicar que já está disponível o volume Desenhos efémeros, de António Jorge Gonçalves. Trata-se de um tomo considerável, com mais de 300 páginas, que reúne material fotográfico e documental das experiências em levar o acto de desenhar para os palcos preconizado pelo artista. Seja sob a forma de uma banda desenhada “explodida”, com a cenografia, figurinos, cenários, etc. de O que diz Molero, em 1994, sejam os primeiros “diálogos” de improviso com músicos a solo ou aos variadíssimos projectos de espectáculos de desenho ao vivo que tem vindo a desenvolver nos últimos anos, nos mais variados contextos, e em âmbitos distintos em termos de público, género, grau de interacção com os espaços, e as relações interartes implicadas, temos aqui um passeio cronológico dessa dimensão do seu trabalho.



O volume é sobretudo imagético, e é fruto de um aturado trabalho de arquivo, pesquisa e, necessariamente, uma espécie de longo gesto de agregação das colaborações de Gonçalves, vistas não apenas como momentos de aprendizagem, encontro, experimentação, interrogação, desenvolvimento do próprio artista e da sua lavra, como dos estímulos mútuos que permitiu tanto aos seus interlocutores criativos como aos públicos. Como modo de reforçar os conceitos que subjazem estes actos e ajudando à consolidação da história, o autor convidou várias pessoas para escreverem sobre esta dimensão, sobretudo junto a colaboradores de longa data. É assim que se arrola a presença de Rui Eduardo Paes, Carlos Pimenta e, claro, Nuno Artur Silva, com quem Gonçalves criou a série Filipe Seems, trazendo uma nova exigência à banda desenhada contemporânea portuguesa. Além dos ensaios desses três colaboradores, conta-se ainda com uma entrevista com Anabela Mota Ribeiro, deslidando o percurso e os desdobramentos sucessivos da linha, associando esses espectáculos à banda desenhada e ilustração, aos famosos desenhos no metro, a outras vertentes. Conta-se ainda com um breve texto deste vosso criado, numa tentativa breve de pensar as implicações específicas do desenho em performance, intitulado “Da efemeridade da retina”.

19 de setembro de 2017

Colaboração com Mattia Denisse. Marginália da Mesa J de "Duplo Vê".

Não deixando de ser uma extensão do trabalho tentado neste espaço, o nosso contributo para as "marginália" do projecto artístico de Mattia Denisse, Duplo Vê, que muito rapidamente se poderá descrever como uma instalação/espaço de várias linhas narrativas criadas por séries de desenhos, que se cruzam e contaminam mutuamente, está disponível no site do artista. Já havendo discutido alguns projectos de Denisse no passado, tendo sido o último o Compêndio de geometria clitoridiana, existem aqui toda uma série de elementos tipificados de uma exponenciação, com efeito, geométrica, da "narrativa gráfica". A sua "leitura" exige uma dedicação aturada, e por vezes uma compreensão precisa de assuntos que nos escapam, é certo, mas há nele intensidades que nos asseguram estar ali presente uma noção que perseguimos noutros objectos.

Poderão consultar directamente aqui.

17 de maio de 2017

20/MAIO: 17h: "Da Iconofagia", encontro com Hervé Di Rosa, na NLF.

Car@s amig@s, no próximo Sábado, dia 20 de Maio, na Nouvelle Librairie Française, em Lisboa, decorrerá uma conversa entre o artista Hervé Di Rosa, figura fundamental de um certo "regresso à figuração" nos anos 1980 em França, e cultor da mais diversa produção de imagens, e este vosso criado. 
Estará patente uma pequena mas importante mostra bibliográfica e gráfica do autor, e a conversa rondará sobretudo as fronteiras diluídas pela sua arte entre territórios que muitos ainda forçam a estar separados.
Apareçam.



31 de março de 2017

Comic Strip. Gerhard Richter (Walther König)

Apesar deste não ser um espaço de novidades, gostamos, dentro da medida do possível, de ir seguindo o ritmo das publicações mais recentes, alimentando uma atenção particular para com as novas tendências das linguagens que nos interessam. Este livro foi publicado em 2014, mas tendo-nos escapado entretanto, e graças à chamada de atenção de Domingos Isabelinho, esta é uma daquelas oportunidades em que o “atraso” se justifica mais que o silêncio. Até porque a importância e valor deste livro vem contribuir para os temas e questões que mais têm alimentado o nosso trabalho pessoal, pesquisas académicas e preocupações docentes: a linha diáfana entre os ditos “mundo da arte” e a “banda desenhada”, e a maneira como as respirações de um a outra são bem mais complexas do que usualmente se retrata e, mesmo ao contrário da vontade e opinião dos guardiões das fronteiras estéticas, a transmissão e influência é bem mais dual e completa do que se costuma mostrar. (Mais)

13 de março de 2017

Unfinished Mandarin. Gonçalo Pena (Mousse)

Segundo volume de recolha de desenhos avulsos de Gonçalo Pena, seguem-se aqui as mesmas aporias do anterior, em que a aparente ausência de um princípio organizativo ou classificativo dos desenhos obrigará os leitores a criarem eles mesmos as formas de associação interna. Pela sua existência somente, todavia, o volume convida desde logo à consideração da indisciplina do desenho como passível de ser repensada enquanto modo de estabelecer um modo prático do pensamento. Franqueando talvez de forma perigosa algumas questões da filosofia da arte, com as quais seguramente Pena se digladia, é possível que estejamos a incorrer numa interpretação vulgar de Hegel, ao crer na arte como ideia demonstrável, mesmo que apenas enquanto aparência. Nesse caso então, o “mandarim inacabado”, rosto pincelado com uma dezena de traços, à la René Gruau, aponta de imediato às ideias apresentadas ao longo destas centenas de páginas, todas elas sempre com uma sombra de ilusão: “inacabado” porquê, afinal? Isto permitir-nos-ia encetar uma discussão sobre a incompletude como forma moderna do desenho (sob os auspícios de um estudo sobre os "interrupted sketches" de Joeph Pennell), mas ficaremos por uma abordagem mais superficial. (Mais)

3 de fevereiro de 2017

A minha casa não tem dentro. António Jorge Gonçalves (Abysmo)

No final do volume, o autor explica como o título deste livro é retirado de uma “estiga”, que neste caso se refere a uma forma ritualística e lúdica de Luanda de criar narrativas trocadas com interlocutores, com direito a resposta. Usualmente, e mesmo em Portugal, são jogos de insultos mútuos, com ataques e ripostas, uma espécie de rap battle, mas onde o objectivo é o divertimento de todos (às custas dos que se propõem a jogar). É portanto uma forma de exposição, franca, directa, bruta, e em grande medida é isso o que se passa neste livro. Mas é no início que está a nota que explica a razão de ser deste projecto. António Jorge Gonçalves teve um acidente gravíssimo médico que o colocou à beira da morte, ou mesmo para além dessa hipotética fronteira (ele escreve “morri e regressei à vida”). E este acto criativo é uma resposta. Se essa reposta é à aproximação dessa fronteira, à sua travessia, ou ao seu regresso, não sabemos. Sabemos é que deve ser lido. (Mais) 

20 de janeiro de 2017

Colaboração no du9. My Ogre Book, Shadow Theater, Midnight, de Marcel Broodthaers.

Como tem sido hábito, transmito aqui a indicação de que está disponível um artigo, na du9.org, sobre uma belíssima edição da Siglio que reúne três obras distintas de Marcel Broodthaers em tradução inglesa: dois livros de poesia e uma colecção de imagens, matérias transformadas num novo projecto que sendo antigo, nunca existira nesta forma. 

Broodthaers é uma referência fulcral da cultura belga moderna, e as suas pesquisas multímodas, acima de todas aquelas que auscultam as fronteiras porosas entre as imagens e a literatura, deveriam ser (e são-no) um modelo para aqueles que trilham o mesmo caminho.

A questão central que nos ocupa é menos a crítica da poesia ou dos projectos artísticos do artista, o que nos escaparia, do que este novo "agenciamento" proporcionado por um novo objecto-livro, que reapresenta um novo fôlego e vida a essas mesmas produções.

Como sempre, a tradução para francês esteve a cargo de Benoît Crucifix, a quem queremos deixar os mais vivos agradecimentos. Merci bien pour ta patience et ton amitié! 0

Link directo, aqui.

20 de julho de 2015

But I Just Found Out that my house is in flames. André Catarino (Célula & Membrana, etc.)

Podemos entender cada uma da categorias ou descrições de livros – fanzines, álbuns de banda desenhada, livros de artista, livros ilustrados, etc. - como “modelos”, como indica Pascal Lefèvre. Isto permite duas operações a um só tempo. Por um lado, o emprego de uma (ou outra) dessas expressões cria de imediato um horizonte de expectativas, um intervalo de pré-determinações, de modos de aproximação e de protocolos de leitura, que convida a um uso do objecto em si. Por outro, já no interior desse mesmo uso, ou leitura, o confronto com todos os aspectos que se apresentam como desviantes e, por isso, particularmente significativos. Se bem que criar uma associação quase mecânica entre o número de desvios à sua potência interpeladora, ou até mesmo inovadora”, seja um perigoso fetichismo, sobretudo se sub-argumentado, adivinha-se que qualquer escolho à sua fruição “natural” ou “normativa” aponte para a necessidade de um esforço maior de interpretação. Isso ocorre precisamente com este objecto. (Mais) 

14 de junho de 2015

Vários títulos. João Sebastian (Papeleiro Doido)

O problema começa de imediato na nomenclatura utilizada: ao empregarmos “títulos”, estamos a querer confundir cada um destes objectos, projectos, coisas, textos, com uma natureza mais confinada à literatura textual, aquela cuja presença, valorização e força se encontram precisamente no texto verbal, independentemente da forma material com que se veste, autónoma da distribuição espacial pela qual se veicula. Thomas A. Bredehoft, em The visible text, fala de “transparência”, no sentido em que o acto de leitura da literatura é, na esmagadora maioria das vezes, uma estrutura medial que nos conduz a uma produção particular de linguagem. Daí que possamos falar do texto “A” do escritor x, independentemente das edições desse mesmo texto (apesar de, em certos casos, as edições textuais em si serem determinantes para certas qualidades e dimensões textuais). (Mais) 

29 de maio de 2015

Em terra de cus, quem tem rei é cego. Miguel Carneiro e convidados (Oficina Arara)

O trabalho de Miguel Carneiro tem sofrido inflexões sucessivas no traço desde os seus primeiros tempos de produção de banda desenhada e ilustração. Se o autor iniciara a sua “carreira” em pintura, e desde logo em territórios em que o controlo absoluto de certas técnicas se aliava a um humor corrosivo que pregava rasteiras na percepção e no posicionamento do espectador, as primeiras histórias publicadas pelo pequeno colectivo A Mula (co-fundado com Marco Mendes, mas contando sempre com uma mão-cheia de colaboradores recorrentes) remetiam não apenas a um imaginário semi-popular como a um desenho de aparente natureza tosca, como se se tratassem de um encontro, pouco fortuito de resto, entre aqueles desenhos de cartoons e gags dos anos 1950 em revistinhas cómicas e o rabisco de casa de banho. Urgente, tremido, directo, franco, servia que nem uma luva aos breves chistes, cobertos de trocadilhos, dislates, traduções selvagens e filosofia de pacotilha, ou lições de vida profunda interrompidas por flatulências, matéria perfeita para a eterna galeria de personagens que se foram mantendo: o Sr. Pinhão, o cego cantor, o dinossáurio que corria, o homem com cabeça de galinha, a zebra, a catatua (ou seria arara?), as mulheres agravadas, e por aí fora... (Mais)

20 de novembro de 2014

Compêndio de geometria clitoridiana. Mattia Denisse (Galeria Bessa Pereira)

A angariação deste pequeno objecto, que parece revestir-se de uma natureza descartável, para esta constelação mínima de livros-de-artista, poderá, à luz das anteriores publicações, soar deslocado, um desvio demasiado grande para uma força agregadora, um salto demasiado abusivo de um gesto concentrado. Poderá, mas a natureza fluida que queremos ajuizar nestes mesmos objectos terá de permitir que, mesmo na existência de uma imensa torrente central, cujas margens pareçam perenes e unidireccionais, haverá sempre espaço para afluentes, lagoas, reentrâncias, desvios, baías, pântanos, mangais, com toda a espécie de vegetação e vida animal, por vezes demasiado movente para que se a consiga catalogar. Ou pior, tanto movente que no momento da sua catalogação, já se mutou em formas novas.

É precisamente isso o que nos parece ocorrer sempre que nos deparamos com os gestos de Mattia Denisse. (Mais) 

19 de novembro de 2014

Monkey Trip. Gonçalo Pena (Mousse Publishing)

Na continuidade do artigo anterior, e após a sua introdução geral, passemos à consideração desta “colecção de desenhos” de Gonçalo Pena, pequena galeria portável. Traduzindo de forma “selvagem” (à lá revista K) a expressão de “viagem macaca”, poder-se-ia dizer de facto que este volume é tão-somente uma colecção de desenhos de Pena. Conhecido sobretudo por uma prestação de telas imensas a um gosto antigo mas onde se investigam novas possibilidades de recruzamentos simbólicos, e por um inaudito fanzine-acto nas Caldas da Rainha (o “Cona da Mão”), Pena é um artista cujos instrumentos o colocam sempre na senda de ingredientes mais ou menos classicizantes: a figura humana, o desenho a traço, as promessas narrativas que dele pode advir, as noções de “ciclos” (temáticos, matéricos, composicionais). (Mais) 

18 de novembro de 2014

3 livros de artista. 1: The Cabinet of Dr. Alice. Alice Geirinhas (Stolen Books)

Introdução.
Queremos aqui agregar num único olhar três objectos distintos. Esta operação de colocar lado a lado estas três publicações não deixa de exercer um certo abuso, uma vez que elimina certos pormenores singulares de cada um destes projectos para os conjugar de acordo com um qualquer princípio que julgamos ser-lhes comum, um princípio que poderia ter o nome fluido de “livro de artista”. Se bem que cada um mereça uma leitura individualizada, e uma ponderação dos seus instrumentos e elementos que os singularize, e não crie a ilusão de familiaridade, estamos em crer que a sua consideração conjunta poderá sublinhar questões pertinentes partilhadas por todos. (Mais)