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2 de fevereiro de 2018

Gravidez. Júlia Barata (Tigre de Papel)

De tempos a tempos, vemos a abertura de novos territórios na banda desenhada em Portugal. Gravidez, não sendo propriamente uma novidade em termos genéricos ou estilísticos, é-o todavia no seio da nossa própria cena, que ainda continua, apesar da sua mais recente saúde, arreigada a abordagens relativamente convencionais e expectáveis. Este livro, para além de ser a primeira experiência de fôlego da artista e ilustradora portuguesa radicada na Argentina, é também a primeira incursão neste campo criativo pela livraria-editora Tigre de Papel, tornando-se portanto duplamente uma “nova voz”. (Mais) 

30 de outubro de 2017

Berlim. Cidade sem sombras. Tiago Baptista (Chili Com Carne)

Fruto da estada de Tiago Baptista na cidade de Berlim durante três meses de Inverno, numa residência artística, este livro reúne toda uma série de pequenas histórias que mais devem ser entendidas como impressões do que propriamente como narrativas. Não se pode dizer que haja aqui uma assunção de uma estrutura coerente ou subsumida à explicitação, como ocorre em travelogues à la Guy Deslile ou outros, por exemplo. Tampouco se poderá ler Berlim como se se tratasse de um registo diarístico, já que a maioria das peças dão a ideia de uma certa distância temporal, après le fait, sobre essa estada. Aliás, há muitos momentos em que a voz do autor torna patente a dúvida, o esquecimento, a falta de certeza. Isso não fragiliza o acto de memória do livro, bem pelo contrário torna-o um acto mais humano. (Mais) 

17 de agosto de 2017

A casa. Paco Roca (Levoir)

Graças aos esforços da Levoir, a entrada de vários títulos da banda desenhada espanhola contemporânea no mercado português é uma realidade. Ainda que não haja, aparentemente, uma política concertada e ritmada dessa mesma entrada, a colecção das Novelas Gráficas, que vai na sua terceira fornada (à qual voltaremos), e volumes soltos, como é este caso, assegura essa oferta (corroborada, pelo menos, pela Arte de Autor; mais, o mesmo se poderia dizer da banda desenhada brasileira, pelas mãos da Polvo, por exemplo, e de nenhuma outra editora, maior ou menor que estas). Seria, mais uma vez, discutível qual o espectro dessa mesma oferta dada a pluralidade de produção do nosso país vizinho, que neste caso não se pode chamar irmão dado o largo desconhecimento do público geral do que tem surgido em Espanha (e nem encetaremos a relação contrária), mas estamos em crer que o foco da Levoir é, em si mesmo, coerente: autores interessados em discursos contemporâneos, autorais, muits vezes de narrativas pessoais e quotidianas, e menos interessados em géneros clássicos ou mesmo espectaculares, e atreitos a formas narrativas convencionais e acessíveis a um público alargado, não necessariamente fãs de “bd de género”, mas de toda uma sorte de literatura (o que incluirá outras formas mediáticas). (Mais)

1 de julho de 2017

Vies de Marko Turunen. Marko Turunen, com Tea Tauriainen (Frémok)

Por várias ocasiões, falámos aqui dos territórios movediços e ambivalentes da autobiografia, a auto-ficção, a auto-fantasia, e outros descritivos que tanto assinalam como ofuscam o acto de recontar a sua própria vida sob uma forma qualquer artística, seja a literária, a cinematográfica, a teatral, as das artes visuais ou a da banda desenhada. Cada acto, na verdade, tem sempre os seus próprios contornos, pequenas redistribuições dos elementos expectáveis ou familiares, cada gesto as suas próprias contribuições únicas e aproveitamentos de semelhanças com outros textos. E, assim, ao pensarmos em constelações variadas que abarquem Miné Okubo, Justin Green, Aline Kominsky, Guido Buzzelli, David B., Emmanuel Guibert e as suas fontes, Ana Cortesão, Marco Mendes, Francisco Sousa Lobo, vamos encontrando uma mancha tão informe quanto expansiva quanto ainda complexa e numa mutação constante. Que pensar do último projecto do autor finlandês Marko Turunen? (Mais)

15 de maio de 2017

Martha & Alan. Emmanuel Guibert (L’Association).

Esta autobiografia tecida por um outro é um projecto notável. Uma vez que havíamos dedicado algum tempo ao debate do que significa em termos culturais este gesto de Guibert, o de criar vários livros “d'aprés les souvenirs d'Alan Ingram Cope”, em que a voz está na primeira pessoa mas toda a sua estruturação e mediação é feita por um “terceiro” (uma das palavras associadas à ideia de “testemunha” em termos etimológicos), remetemos às notas sobre o último volume de La guerre d'Alan e L'enfance d'Alan para compreender o pasto de onde emerge este novo livro. Todavia, Martha & Alan é uma criatura bem distinta, por questões formais, textuais e estilísticas. (Mais) 

12 de maio de 2017

Les têtards. Pascal Matthey (L’employé du moi)

Ao olharmos agora para o conjunto de alguns dos seus livros, compreendemos que Pascal Matthey tem na autobiografia uma das suas preocupações centrais. Este pequeno volume vem na sequência de Le verre de lait, Pascal est enfoncé, do qual falámos largamente aqui, de Du shimmy dans la vision, e de outras pequenas peças espalhadas pelas mais diversas antologias. Conforme o que já havíamos discutido a propósito desse livro anterior, a equação entre autobiografia, auto-ficção, desvio autobiográfico, versão, etc. é algo elástica, e é tão necessária na sua categorização ou análise quanto supérflua na sua leitura. Depende, portanto, da escala de atenção. (Mais) 

24 de abril de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: It's No Longer I That Liveth, Francisco Sousa Lobo.

O último livro de Francisco Sousa Lobo inscreve-se de uma maneira intensa no seu projecto contínuo de auto-ficção. As afinidades com aquilo a que chamámos o "Poema Contínuo" de Baudoin é por demais assinalado na obra de Lobo, um pouco como, se bem que com instrumentos distintos, dos de Marco Mendes no seu Diário rasgado. Este último título traz para primeiro plano a relação complexa coma fé, a sexualidade e a difícil comunicação com os outros seres humanos, no cadinho mais tumultuoso da vida de uma pessoa na sociedade ocidental: a adolescência. Menos do que um Bildungsroman, It's No Longer That I Liveth é uma demolição da personalidade, uma mortificação, para nela tentar ver se existe alguma fagulha ainda sobrevivente... O texto maior sobre este livro foi escrito em inglês para The Comics Alternative, deixando aqui o link directo.

19 de março de 2017

Cadernos de Viagem. Anotações e experiências do Psiconauta. Laudo Ferreira (Devir Brasil)

Este livro é um gesto bem distinto no percurso do seu autor. Não se podendo assumir totalmente como um gesto autobiográfico, existem suficientes informações extratextuais – o prefácio de André Diniz, as notas de agradecimento do autor, a sua própria foto, etc. – que apontam para a sua construção enquanto bebendo dessa mesma experiência, lançando-a, portanto, naquilo que Serge Doubrovsky definiu como “autoficção”. Um jogo de tensões e espelhos que permite, a um só tempo, aproximar o que lemos de uma ideia, mesmo que vaga, de que corresponderão à experiência real do seu autor, mas ao mesmo tempo erguendo um intervalo suficientemente sólido para permitir alguma distância e segurança. Se a própria autobiografia não nos dá a nós direito de atravessar a linha que deve separar a arte do seu autor, a categoria da “autoficção” redobra esses esforço. (Mais) 

3 de fevereiro de 2017

A minha casa não tem dentro. António Jorge Gonçalves (Abysmo)

No final do volume, o autor explica como o título deste livro é retirado de uma “estiga”, que neste caso se refere a uma forma ritualística e lúdica de Luanda de criar narrativas trocadas com interlocutores, com direito a resposta. Usualmente, e mesmo em Portugal, são jogos de insultos mútuos, com ataques e ripostas, uma espécie de rap battle, mas onde o objectivo é o divertimento de todos (às custas dos que se propõem a jogar). É portanto uma forma de exposição, franca, directa, bruta, e em grande medida é isso o que se passa neste livro. Mas é no início que está a nota que explica a razão de ser deste projecto. António Jorge Gonçalves teve um acidente gravíssimo médico que o colocou à beira da morte, ou mesmo para além dessa hipotética fronteira (ele escreve “morri e regressei à vida”). E este acto criativo é uma resposta. Se essa reposta é à aproximação dessa fronteira, à sua travessia, ou ao seu regresso, não sabemos. Sabemos é que deve ser lido. (Mais) 

18 de dezembro de 2016

Dez anos para o fim do mundo. Caeto (Companhia das Letras)

Depois do grande gesto autobiográfico de Memória de Elefante, é possível que Caeto se sentisse tentado a dar continuidade a essa mesma pesquisa, e expressão de si, a um grau mais afastado do âmago da primeira aventura. Se ali havia uma concentração maior na figura do pai, da morte deste e a relação conturbada ao longo de anos, Dez anos para o fim do mundo espraia-se em várias direcções, tentando que elas se tornem agregadas num gesto comum. Neste livro, então, Caeto revisita a sua infância e adolescência, as mudanças de casa, de escolas e de ambiente económico, as eleições de 1990 e as implicações que isso tinha na sua paisagem social, as primeiras experiências sexuais, com drogas e de criação de quadrinhos, e depois o seu casamento, a lua-de-mel, o nascimento do primeiro filho, a mudança de casa e a separação da mulher, assim como a fabricação do próprio Memória.
Exposto desta forma, parecerá talvez que haja uma arrumação cronológica, mas isso não é verdade. Todos estes episódios visitam-se de forma desordenada, com saltos prolépticos e analépticos, criando antes uma trama temática ou pelo menos de questões recorrentes que e vão alimentando entre si. Como se a preocupação em construir uma imagem de si não pudesse organizar-se de forma linear, mas antes seguisse as respirações livres das marés da memória. Em muitos aspectos, Dez anos tem um tom elegíaco, mesmo quando os episódios são de uma felicidade extrema. Uma vez que o autor atravessou várias sessões de terapia para combater uma depressão, advinda pelo confronto emocional e intelectual que estava a nutrir pela criação de Memória de Elefante, obrigando-o a rever momentos dolorosos do passado e da relação com o pai, essas sessões acabam por funcionar como uma espécie de, não tanto “moldura narrativa”, mas pelo menos de uma estrutura que subjaz à junção destes troços. É até o seu fim, dessas sessões, que acaba por funcionar como uma espécie de pré-fecho do volume. (Mais) 

Apocalipse Nau. Eloar Guazzelli (Editora Nós)

Este volume de Guazzelli é marcado pela sombra das asas da morte. Na verdade, são três mortes que aqui se agregam como fantasma, sendo uma delas colectiva e outra “familiar”. Cada uma dessas mortes relaciona-se com o autor de forma autobiográfica, em vários graus de inscrição social, círculos concêntricos e complexos de identidade que muito dificilmente se destrinçam entre si e também difíceis são de tornar hierárquicos. Sem a ordem pela qual são apresentados, a primeira morte é a dos artistas e companheiros da redacção do Charlie Hebdo, que serve de espoletador ao gesto do autor brasileiro para esta mesma obra. É esse o tema central, temático, que faz arrolar várias dimensões políticas contemporâneas que se encontram antes e depois do ataque, e nas áreas contíguas, como as de liberdade de expressão e pensamento, de circulação de informação, de canais de divulgação e discussão dos temas ditos públicos, etc. Outra das mortes é de Marco Archer, o cidadão brasileiro que foi condenado à morte na Indonésia também em Janeiro de 2015 por tráfico de droga. E a última a do pai de Guazzelli, que morrera anos antes, mas cujo impacto chegaria mais tarde, com a da mãe. Temos portanto uma morte de cartoonistas, de um brasileiro, e de um pai, remetendo, já na esfera da pessoa de Guazzelli, da sua condição de artista de quadrinhos, brasileiro, filho e homem. (Mais)

26 de novembro de 2016

O meu Nelson Mandela e outros contos. Anton Kannenmeyer (Mmmnnnrrrg)

Depois do “sucesso” de Papá em África, não apenas em termos comerciais para a editora como para a sua recepção-discussão no nosso país (o ruído e os mal-entendidos são sempre fogo em caruma), o selo “para gente bruta” resolveu publicar mais uma pequena colecção de algum material do autor sul-africano. Provindo da sua parte, isto é, de “Joe Dog”, na revista Bitterkomix, este caderno surge por ocasião da presença de Anton Kannemeyer em Portugal na sua exposição integrada no Festival da Amadora. Desta forma, este pequeno volume serve de complemento à histórias do livro anterior, e onde aquele era uma espécie de radiografia a um imaginário interno e cultural partilhado, que tantas vezes reflecte igualmente fantasmas dos seus leitores, estoutro é mais focado na experiência própria do autor, como se houvesse a possibilidade de mostrar um balanço da sua vida como fruto das consequências da educação. (Mais) 

20 de novembro de 2016

Rendez-vous em Phoenix. Tony Sandoval (Kingpin Books)

A travessia de fronteiras, em alguns casos, não é vista como possível em termos de liberdade total, mas é ela que poderá determinar a possibilidade de conquistar uma vontade que, sem o seu alcance, é esmagada na inércia. Os Estados Unidos são vistos ainda, não sem razão, como um campo mais aberto e preparado para sonhos que parecem inalcançáveis noutros contextos, sobretudo se disserem respeito a vontades que vão bem para além da mera sobrevivência e começam a ocupar áreas de criatividade artística, como a banda desenhada. Ora, pelo menos em parte, era esse o fito que o artista Sandoval tinha em querer emigrar para os Estados Unidos: a de que seria aí que o seu sonho em se tornar autor de banda desenhada profissional se poderia cumprir. Este livro inicia-se num momento em que está à espera do momento ideal para atravessar a fronteira e tentar então nesse outro país a sua sorte. (Mais) 

6 de outubro de 2016

Colecção Novela Gráfica II. AAVV (Levoir)

Nota de intenções: tendo traduzido dois volumes desta colecção, assim como escrito o prólogo de dois outros, temos uma associação profissional a esta colecção.
Tendo terminado esta colecção, e não tendo tido oportunidade antes de falar sobre ela, esperamos que ainda sejam pertinentes estes comentários, uma vez que a colecção continuará disponível quer através da rede do Público quer, mais tarde, no mercado livreiro. As ideias apresentadas a propósito da primeira colecção são ainda válidas para esta segunda. Compreendendo-se que o mundo editorial em Portugal, no que diz respeito à banda desenhada, ainda não se encontra num estado óptimo, sobretudo no que diz respeito à sua recepção e circulação, a aposta em apresentar de rompão toda uma série de títulos é uma estratégia válida. De certa forma, é mesmo uma maneira de revalidar alguma da sua história, aumentar exponencialmente os títulos disponíveis de entre os “clássicos”, os “desconhecidos” e os “contemporâneos”, e, de resto, trazer algum grau de diversidade à sua maneira. Não sendo possível esquecermos os gestos, tão diferentes mas sustentados e programáticos, de editoras como a Polvo, a Chili Com Carne e a Kingpin Books, selos mais pequenos mas também buscando coerências várias, como a El Pep, o Clube do Inferno, a Libri Impressi, os projectos comerciais sólidos da Devir, da Goody e da G.Floy, os gestos mais ou menos isolados de editoras generalistas com apostas na banda desenhada nacional e internacional (Bertrand, Parceria A. M. Pereira, Tinta da China, Teorema, Gradiva, etc.), a paisagem é suficientemente variada para albergar e acomodar os propósitos destes projectos da Levoir. (Mais)

19 de agosto de 2016

Les enfants de Sitting Bull. Baudoin (Bayou)

Como em quase toda a sua obra, como se se tratasse do seu baixo contínuo, quando Baudoin explora a memória nos seus livros não a faz com o intuito da sua exposição, mas sim no de a transformar numa forma de inquirição não apenas do passado mas da própria individuação de quem a possui. Em que medida é que a memória não nos pertence somente, mas nos faz? Que responsabilidades éticas temos nós de nos lembrarmos de uma certa forma? Que permite a recordação para repensar a história, seja ela pessoal ou familiar, histórica ou colectiva, cultural ou política? Colocando a pergunta de uma forma mais simplista e associada ao título do livro, modo pouco oblíquo de Baudoin sublinhar uma das questões principais do livro mas que não surge como matéria central: quem são os filhos de Sitting Bull? (Mais) 

11 de junho de 2016

Le piano oriental. Zeina Abirached (Casterman)

Este livro coloca na linha da frente várias relações bicéfalas entre objectos ou realidades que parecem distintas, mas cujo entrosamento faz aceder a uma força maior, ou até mesmo a uma nova natureza. O bilinguismo. A relação entre a música ocidental e a “oriental”. O próprio instrumento do piano. A banda desenhada. E a história pessoal e familiar da autora. 

Zeina Abirached é sobretudo conhecida pelos seus livros autobiográficos publicados na Cambourakis, destacando-se Mourir partir revenir. Le jeu des hirondelles (que será lançado em português brevemente integrada na nova colecção Novelas Gráficas da Levoir) e Je me souviens. Beyrouth, tendo tido nós oportunidade de citar o trabalho dela em várias ocasiões, ainda que jamais falado dos livros directamente. Nascida no Líbano, e de expressão francófona, a autora tem procurado, como Edmond Baudoin, Marjane Satrapi, Étienne Davodeau, Marco Mendes, Francisco Sousa Lobo, topedro, entre outros autores, a ir lavrando a cada novo livro uma pequena pedra de um muro tão coeso como de construção livre. Le piano oriental, apesar de à primeira vista não o parecer, não apenas dá continuidade a essa construção como lhe aumenta o escopo. (Mais)

2 de setembro de 2015

Pyongyang. Guy Deslile (Biblioteca de Alice)

Tal como ocorre com muitas outras situações da condição humana, ter uma experiência qualquer não significa necessariamente que ela seja tida com intensidade para se tornar singular e muito menos que ela tenha suficiente poder para ser transformada numa forma de arte transmissível e que explore a disciplina de expressão de forma vivaz. A parentalidade, a maturidade, a doença, o trauma, e até o banal, não têm interesse artístico em si mesmos. Tampouco uma viagem. Acreditar nisso é não compreender a diferença entre a vida e a arte. É apenas na capacidade do artista em transformar essa mesma experiência (todas elas, qualquer delas, única, irredutível, magnífica) num “texto” que reside a possibilidade de tecer um discurso artístico. (Mais) 

19 de agosto de 2015

O árabe do futuro. Riad Sattouf (Teorema)

O projecto autobiográfico de Riad Sattouf tem sido construído de um modo pouco consistente, no sentido em não ter arvorado nenhuma linha programática que se fosse construindo de forma nítida. Contudo, isso apenas reflecte também a forma viva como a vida é levada. Não há regra nenhuma para se construir a autobiografia, podendo ser perseguida de forma poética e fragmentária à Marco Mendes e Baudoin, desdobrando-se as várias facetas à la Francisco Sousa Lobo, procurando caminhos auto-ficcionais à la Justin Green, ou então indo ao sabor dos dias. Sattouf tem alguns interesses secundários que têm informado este seu projecto, nomeadamente as comunidades árabes e franco-árabes na França contemporânea (ele próprio é filho de mãe francesa e de pai sírio) e ainda a experiência da adolescência com todas as suas tensões com o mundo. O corolário destes dois interesses, fora do projecto autobiográfico, já havia sido aqui abordado, com La vie secréte des jeunes/Les beaux gosses. (Mais)

14 de agosto de 2015

Colaboração no Arte Photographica: Photobooth. A Biography, de Meags Fitzgerald.

Numa nova perna em território alheio, entregámos a leitura crítica a este projecto de uma jovem autora norte-americana ao blog Arte Photographica, de Sérgio Gomes, um espaço onde a fotografia é a privilegiada tal como a banda desenhada o é neste cantinho.

Um livro que complica a questão da auto- e da biografia industrial de forma decisiva. E que explora as relações possíveis entre a tecnologia e a cultura, a memória pessoal, colectiva e maquínica. Que ele um objecto e o transforma numa espécie de espelho psicológico. E, claro, que também pensa a relação entre as formas da banda desenhada e da (ou de uma forma da) fotografia. 

Para além da recensão, fazemos ainda uma pequena entrevista à autora, imitando a fórmula daquele outro espaço.

Ficam os agradecimentos a Sérgio Gomes, por abrir a porta e deixar-nos ali pernoitar, e à autora Meags Fitzgerald, pela simpatia.

Acedam ao texto aqui.

31 de julho de 2015

Showa. A History of Japan (4 vols., 1926-1989). Shigeru Mizuki (Drawn & Quarterly)

Esta nova série de livros do autor faz já parte de um corpo de trabalho mais alargado. Trata-se de um projecto de longa duração que entrosa a autobiografia com interrogações de cariz político sobre a história da Japão, nomeadamente uma crítica acerba e musculada de um posicionamento insustentável de uma certa superioridade e excepcionalidade do povo japonês face às suas relações históricas com outros povos, desculpando o seu imperalismo e nacionalismo, violento, e cujas consequências ainda se fazem hoje sentir nas suas relações bilateriais com as antigas colónias ou países agredidos, como a Coreia, a China ou a Tailândia. A desresponsabilização do Japão em relação a esses crimes (até certo ponto, similar à desculpabilização que Portugal ou os portugueses fazem às suas antigas colónias), muitas vezes expressas pela sua classe política e alguns sectores da cultura popular, faz com que a missão de Mizuki seja urgente. (Mais)