4 de agosto de 2016

A vida oculta de Fernando Pessoa. André F. Morgado e Aleandre Leoni (Bicho Carpinteiro)

Ainda há pouco havíamos emergido de uma obra de longo fôlego que pretendia, de uma forma ou outra, devolver, pela e na banda desenhada, a vida e obra de Fernando Pessoa, na sua mais complexa estratificação, sem abdicar, no entanto dessa mesma complexa rede de travessias. Enfrentar a vida de um homem já é tarefa árdua, quanto mais a de tentar ainda responder, de alguma forma, com uma (só) forma, com distância, a sua obra literária. Sobretudo se ela própria é variegada e complexa. Há outros métodos, todavia, aparentados com o corte de Alexandre do nó górdio. A vida oculta de Fernando Pessoa é, de certo modo, o uso de uma célere e certeira lâmina nessa matéria vasta. (Mais) 

1 de agosto de 2016

Sous le soleil de minuit. Juan Diáz Canales e Rubén Pellejero (Casterman)

Vivemos num momento em que a grande diferença entre a banda desenhada “franco-belga” ou “europeia” e a “norte-americana”, na suas ferramentas de produção, se têm diluído. É óbvio que essa diferença é falsa, porque essencialista e generalista, mas que servia para alimentar uma forma de entender a produção mundial de banda desenhada por blocos descontínuos e estanques. Olhávamos para personagens como o Homem-Aranha ou o Super-homem como passíveis de serem reutilizados por vários autores contratados pelas companhias de quem são propriedades, e confundíamos personagens como Tintin, Astérix e Lucky Luke com os seus autores. Porém, as novas realidades de produção comercial descobriram que a multiplicação de personagens nas mãos de novos autores, a sua possibilidade de transformação em cifras exploráveis em variações prismáticas tem uma valência muito grande, comercial, acima de tudo, mas igualmente de imaginário, já que grande parte dos leitores de “bedê” prefere a titilação contínua da nostalgia e da mesmidade do que serem confrontados com novos haustos. Seria necessário novamente entrar na análise de vários projectos para compreender a diferença entre eles (o Spirou de Bravo não é o de Yann e Schwartz não é o Lucky Luke de Bonhomme não é as personagens da MSP nas mãos de tantos autores não é o Blake & Mortimer dos vários convidados), mas poderíamos dizer que este Corto Maltese é idêntico à Brasa: parece que é mas não é. Pode conter cevada, chicória e centeio, mas apenas no ritual do leitor-consumidor é que se poderá imitar o mesmo efeito real do café. (Mais)

30 de julho de 2016

Banda desenhada e ficção científica, uma introdução.

Nota inicial: Alguns textos nascem de circunstâncias tão específicas que não ganham o mesmo contorno de perenidade do que quando lavrados com o intuito de serem publicados. Todavia, acreditando que poderá (esperemos) algum mérito num ou outro apontamento, tal como já ocorreu no passado, colocaremos aqui o texto lido por ocasião da mesa-redonda organizada para a última edição do Sci-Fi Lx, anunciado anteriormente

Fizéramos isto no caso do texto lido na SHOT 50, igualmente em torno da ficção científica, e aproveitando algumas noções pensadas para um texto anterior na Vértice, "A banda desenhada como Gedankexperiement, o exemplo de Grant Morrison." Mas o pretendido neste outro texto era tão-somente a criação de um substrato sobre o encontro entre a banda desenhada e a ficção científica, e lançar algumas linhas de reflexão que depois seriam discutidas pelos autores presentes, a saber, André Coelho, André Pereira, Carlos Pedro e Sofia Neto, o que foi feito com entusiasmo e desenvoltura intelectual. A versão do texto que apresentamos são apenas as notas mais estruturadas e não correspondem nem à totalidade nem à ordem do que foi dito. (Mais) 

Colaboração na Revista Três Três # 6.

Serve o presente post para indicar que no último número, o 6º, da revista Três Três, de um colectivo das Caldas da Rainha, saiu uma curta banda desenhada de Nuno Fragata que conta com as palavras deste vosso criado. "Odor" é uma experiência curiosa em que tudo foi lavrado pelo artista-autor sem qualquer intervenção nossa (não se tratando, por isso, de um "argumento"), e depois criámos legendas que pudessem tecer uma faixa textual em torno da história.

A revista é temática, trabalhando em torno de um mote, sendo o deste número "marginal". Encontrarão ensaios e poesia, exercícios de artes visuais e outros objectos textuais mais difíceis de descrever. Com uma carga política aqui e ali mais vincada, é algo estranho ter na capa uma cena clássica de bdsm que pode ser interpretada problematicamente.  A descobrir e tomar decisões por vós mesmos. 

Página de Facebook do projecto aqui, e números consultáveis na issuu aqui.

28 de julho de 2016

Iconolatry. André Coelho (Universal Tongue)

A propósito do fanzine Deathgrind, de Zé Burnay, citáramos uma entrevista a Fernando Ribeiro, em que o vocalista dos Moonspell havia descrito muita da imagética associada ao heavy metal em geral como sendo uma “fantasia dos fracos”. Esse outro autor transformava muita dessa iconografia em elementos passíveis de transformações narrativas, usando e abusando de géneros para criar scherzos de alta octanagem e dinâmica narrativa. Até certo ponto, existem largas linhas de afinidades com esta publicação, mas o trabalho de André Coelho trilha de outras maneiras. (Mais)

26 de julho de 2016

O fabuloso quadrinho brasileiro de 2015 (Narval)

Esta antologia parece pretender tornar-se um gesto anual, uma paragem única e concentrada que reunirá material de várias fontes, criando uma imagem agregada mas variada da produção nacional, no Brasil, de banda desenhada. Não pretende esgotar o assunto, nem trilhar um caminho único, mas providenciar um público mais generalizado com instrumentos para poder aceder a alguma produção que, mesmo no Brasil, poderá eventualmente escapar à atenção mediática mais usual, presa que estará à exposição a objectos desde logo familiares. Tendo já neste espaço tecido ideias sobre a natureza das antologias, o seu gesto de “florilégio” e de “embaixada”, duas metáforas que funcionam na perfeição aqui, entremos de chofre no seu trabalho. (Mais) 

23 de julho de 2016

Tudo isto é fado! Nuno Saraiva (Sol/EGEAC/Museu do Fado)

É bem possível que, anos no futuro, olhemos para trás e vejamos o papel de Nuno Saraiva como que ocupando um papel fundamental numa certa imagem de Lisboa. Uma das grandes desvantagens de existir apenas uma certa atenção crítica ou massificada para com banda desenhada existente em livros é colocar na sombra outro tipo de produções, como por exemplo a banda desenhada em jornal, a qual, não sendo de facto mais uma das colunas vertebrais desta disciplina artística, como o foi entre os séculos XIX e XX, não deixa de ter aqui e ali alguma presença. E no caso de Saraiva, uma presença de uma importância extrema. Afinal de contas, a sua produção tem atravessado décadas quase ininterruptas de uma média de duas páginas publicadas por semana em vários semanários, do Independente ao Expresso, e inclusive o Sol, de onde saem estas páginas reunidas em volume. E se algumas séries primitivas associadas aos jornais foram sendo reunidas em livro (Filosofia de Ponta, Arnaldo o pós-cataléptico, A Guarda Abília), muitas outras nunca encontraram esse poiso físico mais definitivo, e quase seguramente mais por responsabilidade do próprio autor, mais preocupado com a produção do passo seguinte, do que esse balanço e congelamento da forma através da colecção livresca (restava o blog Na terra como no céu). (Mais) 

21 de julho de 2016

The New Mutants. Ramzi Fawaz (New York University Press)

Tendo como sub-título Superheroes and the Radical Imagination of American Comics, compreender-se-á de imediato o objecto de estudo deste volume académico, assim como a matéria que é desalojada para lhe prestar atenção crítica. Basicamente, este é um estudo das figuras dos superheróis no contexto histórico e cultural norte-americano, criando um filtro que permite ver essas personagens como capazes de reconfigurar imaginativa mas igualmente politicamente (isto é, com efeitos na pólis) vários tipos de inscrição cultural. Desta feita, o autor contribui de uma forma sustentada e feliz para com a consideração da banda desenhada como, acima de tudo, para citar uma das cartas enviadas às editoras que o investigador utiliza, “espaço legítimo para pôr em prática ideais” (195). (Mais) 

17 de julho de 2016

Tex: Patagónia. Mauro Boselli e Pasquale Frisenda (Polvo)

A personagem concebida por Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini em 1948 tem uma vida longa, diversa e explorada das mais diversas formas, não apenas em banda desenhada (se bem que é apenas nessa linguagem que atinge alguma qualidade) e não nos atreveremos sequer a encetar uma tentativa de a reduzir a uma apresentação sumária, sempre dada a falhas. De resto, a sua recepção em Portugal tem sido particularmente feliz, pelo menos em termos de respostas activas da parte dos seus fãs mais activos, pela existência não apenas do Clube Tex como pela criação de uma revista própria, acessível aos sócios. Acrescenta a que essa recepção seja surpreendente pelo facto das edições dessa personagem serem sobretudo as brasileiras (cuja recepção é de tal importância que existem mesmo estudos sobre isso, como é exemplo O mocinho do Brasil, de Gonçalo Junior, editora Laços: 2009), mas também italianas, espanholas e, quiçá, as outras línguas em que esta personagem é publicada, no paradoxal papel de personagem muita amada mas não sendo famosa fora desse mesmo círculo. Havendo fãs e conhecedores sólidos dessa série, com espaços próprios, não podemos sequer integrar Patagónia na sua contínua história, mas considerá-lo como um texto singular. 

16 de julho de 2016

Songs. João Fazenda (auto-edição)

Songs é um pequeno livro que reúne dezassete histórias curtas em prosa, acompanhadas por um desenho, cuja relação com esse texto não é de todo a de uma ilustração tout court, mas procurando complementaridades visuais que não estavam previstas. E havendo ainda alguns desenhos extra, com cenas aparentemente sem relação quer com as outras cenas visuais quer com a matéria dos contos. (Mais)