31 de maio de 2023

Artigo em "Identity and History in Non-Anglophone Comics"

Serve este outro post para vos informar que tenho um novo texto académico publicado na antologia Identity and History in Non-Anglophone Comics, editada por Harriett E. H. Earle e Martin Lund, acabadinha de ser publicada pela Routledge.

Este projecto começou de uma forma bem distinta, em que a palavra "translation" era o principal termo operativo, não no seu sentido de transposição de linguagens, mas antes no seu sentido político de passagem de uma cartografia cultural para outra, e todas as operações que isso implica de distorção, aceitação, negociação, etc., e sobretudo a ausência dessa mesma tradução, que encurralam muitas produções - como a da banda desenhada portuguesa - a um espaço diminuto de circulação, mesmo que toque assuntos, intensidades ou experimentações formais que interessariam a leitores noutros palcos.

Assim sendo, este volume abre a oportunidade a discussões de banda desenhada polaca, grega, holandesa, checa, etc., que muitas vezes nem sequer tem direito a levantar voo suficiente para entrar no proverbial radar crítico. Fazendo parte de um ciclo de outros livros (Global Perspectives in Comics Studies), é um contributo decisivo ao alargamento da atenção à banda desenhada como um mundo diverso de produção.

Da minha parte, contribui com uma análise exclusivamente dedicada ao objecto mutante, heteróclito e politizado da revista Buraco # 4, de que demos conta aqui (há mais de dez anos!, o tempo não perdoa...). Intitulado "Dissent and Resistance in Contemporary Portuguese Comics: The Case of Buraco #4 and Porto’s Es.Col.A. Movement", aproxima aquele gesto colectivo e ancorado no tecido histórico do seu momento ao conceito de dissidence de Jacques Rancière.

Ficam os agradecimentos aqui aos editores e aos revisores do texto, que em muito melhoraram a prestação.

Prémio "Melhor BD Curta editada em Antologia" do Bandas Desenhadas


É com imenso prazer que recebemos a mensagem de que havíamos ganho o prémio de "Melhor BD Curta editada em Antologia", no concurso recorrente do site Bandas Desenhadas, para as obras de Inverno de 2022. 

Trata-se de uma curta de 14 páginas, publicadas na antologia Pentângulo # 4, que criámos no seio do trabalho na escola Ar.Co, com os então discentes Catarina César, Ana Dias e Simão Simões, numa experiência similar de co-criação e mistura de desenhos como se havia tentado no primeiro número dessa mesma revista. 

A bd é dada como inominada, mas trata-se de um erro imperdoável da parte deste autor, que não entregou o título a tempo, que é "Horrorscópio". Mas bem vistas as coisas, sem título fica muito melhor...

Obrigado aos artistas envolvidos!
Nota: o desenho mostrado é um dos estudos de cor feitos por Ana Dias.

19 de maio de 2023

3 Graus de Carequice - Episódio 71 - SENDAI


O ponto de partida deste programa é o trabalho que tem sido desenvolvido nos últimos tempos pela relativamente nova editora Sendai, especializada em banda desenhada japonesa, de um cariz mais alternativo, adulto, underground, ou outros adjectivos que a destacam de uma escolha mais usual (shonen, aventura, adolescente, etc.). Estamos num momento em que temos algumas editoras, especializadas (e.g., Devir, A Seita) ou não, com uma oferta variada, mas essa diversidade é multiplicada exponencialmente pela Sendai. A partir daí, podemos falar da presença da mangá, a aprendizagem da sua produção diversa, um pouco da história do seu acesso, e importância de estar atento a outros mercados, etc. Genki des!

13 de maio de 2023

Como flutuam as pedras - Pedro Moura & João Sequeira


Booktrailer para Como flutuam as pedras, um romance gráfico de Pedro Moura e João Sequeira, publicado pela A Seita/montesinos, com lançamento oficial previsto para o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, no primeiro fim-de-semana de Junho (e na semana seguinte, no MaiaBD 2023). Neste mesmo certame, encontrarão a exposição dos originais deste projecto, e outros materiais, assim como os autores, em sessões de apresentação, conversa e autógrafos. Como flutuam as pedras é uma viagem de Constança a um local misterioso (uma cidade, uma ilha, um outro local?), para um encontro que pode significar um reencontro ainda maior, entre a comunidade humana. Este booktrailer foi tornado possível graças ao trabalho de animação, e consequente montagem, da arte original de João Sequeira feito por Tomás Casanova Pereira. O som foi criado por Carlos Neves, Cristiana Serra, Diogo Silva, Guilherme Lameira, Miguel Valentim, José Bragança e Gonçalo Vidigal (compositor e intérprete da música original), todos alunos de Design de Som, com o Professor João Cordeiro, do Instituto Politécnico de Portalegre. Fica aqui o sentido agradecimento a todos, por esta trabalho magnífico. Design da capa provisório, por Playground.

8 de maio de 2023

Estátuas vivas. Samuel Jarimba e Magda Pereira (Cadmus)

Fruto de uma encomenda da parte do festival Madeira Street Arts, cuja primeira edição foi dedicada à prática de “estátuas vivas” (pessoas imobilizadas durante um determinado período e incorporando elementos que as transformam em personagens teatrais), este pequeno livro de 23-25 pranchas de banda desenhada, mais material extra, é um ponto de encontro entre a banda desenhada enquanto estrutura comunicativa, passível de ser empregue em relações pedagógicas, de divulgação, de publicitação até, e palco próprio de transformações poéticas e expressivas. Samuel Jarimba, com o apoio de Magda Pereira na parte conceptual e da lavra das palavras, parte de uma situação real – um “retrato” do festival e dos seus intervenientes – para criar uma espécie de poema gráfico sobre a convergência de mundos narrativos paralelos, os quais espelham os intervenientes.

29 de abril de 2023

Anguesângue. Daniel Lima (Chili Com Carne)

Vou fazer três coisas durante esta apresentação.*

A primeira é irritante, que é falar da minha própria tarefa, mais do que do livro em si. Só aos poucos nos aproximaremos da sombra de Anguesângue. Não subiremos ao seu cume, pois estou preso nas lamas cá em baixo. Para isso, terão de ter paciência, talvez recompense.

A segunda é estranha, que é chamar o Daniel Lima de alpinista, e um alpinista ao avesso. Para isso, terão de calçar botas de montanha.

A terceira é chamar-vos a atenção de que Anguesângue pode ser antes, não um livro, mas um espelho, e um espelho que devolve algo que possivelmente preferíamos não ver devolvido. Para isso, serão temerários.

Isto não é uma parábola, mas desenharemos uma curva parabólica.

12 de abril de 2023

Mar Negro. Ana Pessoa e Bernardo Carvalho (Planeta Tangerina)

O novo livro e parceria entre Pessoa e Carvalho retoma alguns dos ingredientes básicos de Desvio, mas relança-os de um modo distinto. Também aqui temos uma história concentrada num período curto, o “fim do Verão”, que em si mesmo serve de sinal a uma transição temporal a vários títulos. Também temos, como protagonistas, naturalmente, adolescentes, na recta final e difícil da primeira idade adulta, cujo cruzamento os obriga a procurar, através de acções e de diálogo, o que existirá em comum que os aproxime de alguma maneira, e o que essa mesma aproximação dirá de forma a acentuar e consolidar as suas próprias individualidades.

29 de março de 2023

3 Graus de Carequice - Episódio 70 - ÓSCARES 2023


Quem não tem nada para falar, fala p'raí. Como se não tivesse bastado a conversa ininteligível sobre o Tenet e depois a algaraviada sobre o Decisão de Partir, eis que nos pomos a esmiufrar todos os Óscares deste ano e mais um par de botas. A ocasião era falar de The Whale e de Ice Merchants, mas perdemo-nos na estrada da Bobadela. Bem-hajam, por ouvirem.

28 de fevereiro de 2023

3 Graus de Carequice - Episódio 69 - PET PEEVES


E pronto. Chegámos ao fim. Ao fim da macacad... da carequice. Sem tema, sem energia, lá nos reduzimos a três marretas a queixarem-se de uma série de maleitas. É a idade. Começámos por falar de "mitos", mas são queixas, e depois lá me lembrei que o Domingos Isabelinho já lhes chamava "pet peeves". Ora, arejemos as nossas.

2 de fevereiro de 2023

3 Graus de Carequice - Episódio 68 - DECISÃO DE PARTIR


Este episódio, mais moroso mas igualmente mais interrompido e incompetente tecnicamente, é dedicado a um filme. "Decisão de partir", de Park Chan-Wook (2022). Mais uma vez, oportunidade para falarmos de cinema, narratividade, construções emotivas e os melhores momentos para se usarem luvas de malha de aço. Não passamos da cepa torta.