11 de março de 2014

Jiro Taniguchi, L’homme qui dessine. Benoît Peeters (Casterman)

Este livro é constituído basicamente por uma longa, longa entrevista conduzida por Benoît Peeters ao autor de O homem que caminha, justificando-se assim o seu título lúdico. Uma vez que Peeters não é nem um jornalista nem tampouco um mero divulgador ou “especialista” da banda desenhada, mas antes um dos decisivos investigadores teóricos e históricos no circuito francófono, e igualmente um importante autor literário e de banda desenhada, e apesar do formato pergunta-resposta perfeitamente distribuídos entre os dois intervenientes (com a mediação da tradutora), na verdade o que emerge da leitura de todo este texto é uma conversa entre duas pessoas profundamente envolvidas, cada qual, não apenas no papel de agente dos seus territórios respectivos, mas igualmente no de admirador do outro. Assim, ainda que haja toda uma série de aspectos ou categorias expectáveis a serem cobertas, surge também, aqui e ali, ou como um baixo contínuo, um ambiente de mútua descoberta e construção. (Mais) 

7 de março de 2014

Dois livros entre escritores e quadrinistas brasileiros (Companhia das Letras).

Ainda que seja possível que esta seja uma visão de um forasteiro, não nos livramos da ideia de que o Brasil tem um mercado cada vez mais robusto e sofisticado de banda desenhada, não apenas pela oferta de traduções, e a sustentabilidade do seu mercado de longa vida de material comercial de banca (gibis infantis ou comics norte-americanos), mas pela (aparente?) cada vez maior diversidade de formatos, géneros, humores, estilos, e até mesmo ontologias da banda desenhada, com um destaque particular para com a produção nacional, também ela robustecida pelo confronto com um panorama internacional complexo. O panorama é muito diferente de há uns vinte anos, existindo mais agentes editoriais, consolidados, com experiência e orçamento para uma lata distribuição e exposição dos seus títulos, que apostam nos quadrinhos nacionais. Os dois livros sobre os quais estas breves notas incidem são contributos para essa situação, pertencendo a uma prestigiada editora de literatura de primeira linha. Além de que eles abrem uma complexa via dessa diversificação e alteração interna, no que diz respeito à própria banda desenhada. Não se trata aqui de tentar “sacudir” algum do prestígio da editora para os títulos de banda desenhada por ela editados, mas sim de procurar que essa banda desenhada vá ao encontro de critérios literários, estéticos e ontológicos que costumam ser o cerne do trabalho editorial dessa plataforma. A diferença é de monta, e repete experiências relativamente modernas (Pantheon e Seuil, por exemplo). (Mais)

1 de março de 2014

Nu-Men. Fabrice Neaud (Quadrantes Soleil).

Quando damos início à possibilidade de analisar um livro, ela nasce desde logo orientada por uma qualquer perspectiva. Se num primeiríssimo momento não passa de uma impressão (ou uma “opinião”, passageira pela sua natureza própria, e não enquanto saliente pela percepção mas apta a ser moldada de alguma forma como a impressão), a decisão imediata de a fazer passar um determinado crivo vai transformar essa ideia ora numa leitura mais decidida, ora numa noção que vem alterar uma visão anterior, etc. Por hipótese, e olhando para um livro como este, que questões nascem logo? Tratando-se de uma série de álbuns, cujos dois primeiros volumes estão já disponíveis - o primeiro volume intitulando-se Guerre urbaine e o segundo Quanticafrique -, poderíamos lê-lo à luz da sua integração no mercado comercial de banda desenhada francês: uma série, aparentemente clássica, com um número standard de páginas e seguindo a materialidade mais usual destes objectos para sua nomenclatura e entrada nas estantes (algo discutido bastas vezes, e recentemente através do seu “assalto” com 978). Mas também se poderia procurá-lo explicar, digamos assim, na economia de género, a ficção científica, até mesmo hard, com laivos de teorias da conspiração, ou de trama policial, mas também com as inevitáveis invenções/projecções sociais que não são senão comentário sobre a cultura já em curso. Uma outra hipótese é a de considerar o seu autor, ou o seu percurso, e aí pode residir uma surpresa significativa. Fabrice Neaud, autor de um dos mais monumentais projectos da banda desenhada autobiográfica contemporânea produzidos até hoje, o Journal, uma obra que obriga a  questões difíceis, “desviando-se” para uma história, para todos os efeitos, normalizada. (Mais) 

27 de fevereiro de 2014

La bédé-réalité. Julie Delporte (Colosse)

Este pequenino livro é a adaptação da tese de mestrado da autora, em História da Arte e Estudos Cinematográficos, sendo Delporte igualmente artista de banda desenhada, tendo publicado uma espécie de diário “solto” no seu blog, Le Dernier kilomètre, e, mais recentemente, pela Koyama, no ano de 2013, um colorido e livre Journal

Querendo apenas fazer uma breve apresentação do volume e contestar uma sua metodologia, seremos relativamente breves. O advento de toda uma série de ferramentas e plataformas digitais implicaram, desde logo (e como em qualquer momento de novo advento tecnológico, da escrita à imprensa, passando pelo rádio e cinema), um processo de remediação. A autora emprega este conceito de modo directo, a partir de uma famosa obra de J. D. Bolter e R. Grusin, Remediation: Understanding New Media, no qual os autores formulam esse novo conceito, ou uma nova maneira de entender um conceito herdado de McLuhan como “a lógica formal através da qual novas tecnologias mediáticas refabricam formas mediáticas anteriores”. Isso permite uma análise de qualquer nova tecnologia a partir da perspectiva de entender como é que ela negoceia uma qualquer forma anterior. No caso presente, esse é desde logo um problema de partida. A autora não é suficientemente flexível na consideração das categorias que indica e pretende analisar, criando, por um lado, considerações de géneros literários (a “autobiografia”), e por outro, de suportes tecnológicos (“álbum”, “graphic novel”, “blog”, etc.). Ainda que a autora compreenda que não segue uma ideia desincorporada de “conteúdos” e “formas”, ainda assim ela acaba por abrir espaço a alguns mal-entendidos nesse sentido. (Mais) 

25 de fevereiro de 2014

Dois títulos. Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso/Bernardo Carvalho (Planeta Tangerina)

A magnífica e regular produção de livros desta editora impede-nos de fazer uma leitura igualmente regular a atenciosa dos seus livros. Na verdade, a excelência material dos volumes, a plena liberdade criativa a que a pequena constelação de autores se entrega, a variedade de instrumentos narrativos, imagéticos, técnicos que perseguem, e acima de tudo, a verdadeira exploração profunda de uma liberdade humana e de temas torna esta uma plataforma não apenas digna de ser lida pelo mais vasto público possível, sobretudo o primeiríssimo, o infantil (dentro daquela noção da “dieta correcta de leitura” de que já havíamos falado), como por qualquer disciplina que se preze atenta à cultura visual, às relações texto-imagem, à própria ideia de ilustração, literatura infantil, etc. (Mais) 

23 de fevereiro de 2014

Iron: Or, the War After. Shane-Michael Vidaurri (Archaia)

Na cada vez mais diversa economia de géneros contemporânea, sobretudo na banda desenhada norte-americana, é por vezes uma acção complexa compreender até que medida um qualquer gesto aparentemente consensual e vulgar pode esconder desenvolvimentos inusitados e surpreendentes, ou até que ponto é que algo que visualmente possa parecer sofisticado na verdade apenas pressupõe um efeito superficial de um gesto mais banal. Estamos em crer que Iron: Or, The War After pertencerá ao segundo grupo.

O livro lança-nos de imediato no interior de uma confluência de géneros, por um lado um género narrativo, o da histórias de guerra, espionagem e traição, e os preços “humanos” a pagar nesse conflito, por outro um de género-estilo, uma vez que temos animais antropomorfizados no centro das acções. Mas se não cremos na equação separável de uma forma e de um conteúdo, este é um daqueles casos em que a conjunção não funciona, a um grau tal que mostra a distância entre uma e outro. (Mais) 

21 de fevereiro de 2014

Zoom. Istvan Banyai (Kalandraka).

Esta é uma daquelas instâncias em que a abdicação da narrativa não significa uma falha na possibilidade de construção de mundos ficcionais, ou de um texto capaz de criar elos empáticos muito fortes com os seus leitores. Sobretudo pela sua qualidade lúdica, de surpresa, jogos de expectativas, mas também pela sua qualidade gráfica muito vincada, Zoom é um livro eficaz no seu propósito de divertimento. (Mais) 

16 de fevereiro de 2014

How to Look. Ad Reinhardt (David Zwirner/Hatje Cantz)

Em 1990, o MoMA apresentou uma exposição comissariada por Kurt Varnadoe, um dos curadores de pintura do museu, e Adam Gopnik, jornalista e crítico de arte (e estudante de Varnadoe) da The New Yorker. Essa exposição visava explorar alguns dos modos de comunicação entre as “belas artes” e as suas supostas fontes populares ou idiolectos demóticos, desde os cartoons dos jornais aos graffiti. Essa exposição chamava-se High & Low, Modern Art and Popular Culture, deu origem a um livro monumental e ainda hoje precioso, mas ao mesmo tempo criou toda uma série de controvérsias, mal-entendidos e até mesmo um posicionamento demasiado polarizado (começando pela assunção da designação “high” e “low”), sendo atacada quer do lado dos conservadores da sublime estese quer pelos praticantes da viva diversidade das artes “baixas”. Um desses praticantes foi Art Spiegelman, que criou uma pequena peça, chamada “High Art Lowdown,” que servia de comentário, ou mesmo crítica (review) sob a forma de banda desenhada, publicada na revista Artforum(Mais) 

9 de fevereiro de 2014

Dois livros. André Diniz (Desiderata)

A capacidade de produção de André Diniz – assim como a sua possibilidade de edição – não podem deixar de ser fruto de admiração. Em vários domínios, de álbuns infanto-juvenis ilustrados, com mais ou menos propósitos pedagógicos ou de entretenimento, de livros de banda desenhada com temáticas ficcionadas ou exploratórias de um qualquer grau do real histórico do Brasil, em colaborações diversas ou na pesquisa própria do seu trabalho visual, Diniz procura diversificar os seus gestos criativos. Os dois livros que nos trazem ao presente texto são tão diversos entre si como comungam de um tema comum, ou assim nos parece.

Trabalhos a solo, ambos coloridos, com um mesmo formato, Homem de Neandertal e Z de Zelito parecem apenas ter essas características superficiais comuns, uma vez que o primeiro se trata de uma novela mais ou menos concentrada num pequeno grupo de personagens (uma tribo de Neandartais e os breves cruzamentos com outra tribo de Homo Sapiens) e a segunda, ancorada na história do Brasil moderno, espraia-se num retrato social mais complexo. O primeiro é “mudo”, e o segundo usa de basto diálogo e narração. O primeiro parte de uma matéria de grande especulação – a origem da arte, as relações entre as duas espécies de humanóide -, e a segunda tem uma forte inscrição na história.  (Mais) 

7 de fevereiro de 2014

A Kick in the Eye. AAVV (auto-edição)

Este projecto nasceu da vontade de Tim Gaze, de quem já havíamos falado a propósito do seu 100 Scenes, mas vem juntar um conjunto de outros autores, da poesia visual, narrativa experimental, escrita assémica ou outros territórios contíguos, criando-se uma pequena constelação que contribuiu para um “texto” colectivo e colaborativo. Esses autores são, para além de Gaze, Rosaire Appel, Tony Burhouse, Marco Giovenale, Gareth A Hopkins, Satu Kaikkonen, Gary J Shipley, Christopher Skinner, Lin Tarczynski, Orchid Tierney, Sergio Uzal e Nico Vassilakis (que deverão reconhecer como um dos editores de The Last Vispo Anthology). (Mais)