25 de junho de 2005

Fujisan. Akira Sasô (Kodansha/Casterman)


Discuta-se o que bem se desejar de como classificar elevações, e qual a altitude a partir da qual se diferencia um monte de uma montanha, a verdade é que tudo reside nos jogos de linguagem de cada cultura. Qualquer elevação majestosa, no complexo cultural China-Coreia-Japão, leva o nome de “san” (山), que pode ou não ser traduzido por “montanha” em português. O Fuji (um vulcão, na verdade) não é excepção, e a sua evolução enquanto símbolo é complexa e muitas vezes mal-interpretada de fora. Seja como for, é uma das formas dos japoneses expressarem a sua “singularidade”, “superioridade”, etc. Cada um com o seu chauvinismo. O que nos importa é que esse sentimento nacionalista e de orgulho em relação ao Fuji levou a uma multiplicidade de expressões, poéticas e visuais sobretudo. A própria forma de escrever o seu nome é por vezes alvo de interpretações, permitindo-se escrever vários ideogramas chineses (ou kanji, para os japoneses) que darão leituras tão diversas como “não-dois” (incomparável), “não-morte” (imortal), “cavalheiro próspero”, de acordo com estudiosos de Katsushika Hokusai (1760-1849), talvez o mais famoso artista de gravuras japonês entre nós.
Falo de Hokusai propositadamente, pois é ele o autor das sobejamente conhecidas 36 vistas do monte Fuji (na verdade, 46), longas gravuras coloridas que representam várias paisagens que sempre incluem o Fuji, sob vários climas, relacionando-o com várias actividades, etc. Hokusai não foi o primeiro a entregar-se a esses exercícios, nem o último, mas talvez seja – ainda de acordo com muitos críticos especializados – como o mais conseguido, sobretudo com a sua obra mais tardia, em três volumes, e a preto-e-branco, 100 vistas do monte Fuji (na verdade, 102), que assinara com o nome de Gakyorojin Manji, ou “o velho louco pelo desenho”. Esta é uma obra incomparável e magnífica, onde a inventabilidade e os jogos de composição estão no centro das representações do Fuji, e porque a sua própria organização, ainda que não seja banda desenhada propriamente dita – e Hokusai tinha uma série de trabalhos intitulados Manga, ainda que numa acepção ligeiramente diferente -, permite que utilizemos os instrumentos de análise de banda desenhada para o “ler” (um pouco as mesmas questões levantadas pelos romances-em-colagem de Max Ernst, ou o recente livro de José Carlos Fernandes).
Poderá parecer um abuso, sempre que se fala de qualquer livro ou obra que tenha o Fuji como ponto central, voltar a Hokusai, mas o que me despoletou essa associação, já incipiente em toda a aproximação ao livro de Akira Sasô, é a prancha que abre o 5º capítulo, mostrando o reflexo do Fuji na água de pouca profundidade, com uma criança fazendo um monte de areia parecido com o vulcão, e ainda círculos concêntricos de água. Parece ser directamente decalcado das muitas surpreendentes e finas soluções de Hokusai em “100 vistas...”.
Este é um volume que reúne 6 histórias, de personagens movendo-se num espaço sempre em relação ao Fuji, quer por proximidade, contacto directo quer sob a sua influência (há alguns aspectos míticos e religiosos levantados por este livro). Não posso deixar de indicar uma certa desilusão com a arte de Sasô. Faz-se no final do livro uma comparação com Matsumoto, mas eu não poderia estar mais de desacordo. Ao passo que Matsumoto é um verdadeiro autor, no sentido em que deseja inscrever o seu gesto pessoal em toda a obra, Sasô é um daqueles artistas relativamente típicos que recorre a cenários (ou tramas) pré-fabricados: existem publicações com milhares de imagens feitas de quartos, locais de trabalho, fábricas, ruas, transportes, máquinas, etc., nas quais basta desenhar as personagens por cima. Vejam-se, por exemplo, as vinhetas em que a modista Rinko Kinoshita trabalha no seu atelier. Quase lembrariam típicas bandas desenhadas institucionais, de instruções industriais e fabris, mas ao passo que uma autora como Françoise Mouly faz uso dessa arte pobre (não povera, pobre mesmo) para um fim inusitado (penso numa prancha na Raw), Sasô surge-me como simplesmente pouco inventivo. Às suas personagens, seja como for, falta-lhes contorno, carácter, força. Parecem meras funções narrativas, reduzidas ao seu mínimo. Porém, revela muito o facto de um dos símbolos de orgulho nacional estar aqui associado a histórias que rodeiam sempre a morte nos seus aspectos menos redentores: o suicídio, os abortos sucessivos, as fugas por endividamento ou crimes. Talvez seja abusivo extrapolar o livro como um retrato da situação contemporânea, mas é como se Akira Sasô desejasse, através de ficções que se associam mas torcem uma tradição de elogio, apontar um dedo acusatório a problemas reais e graves do Japão dos nossos dias. Posted by Hello

5 comentários:

andré lemos disse...

Linda capa! O interior acompanha tal beleza? Respeito pelo monte Fuji apenas, ou arte quadriculada para nosso deleite também?

andré lemos disse...

É pena...hmmm.

Flashfinger disse...

Como vemos por estes comentários do meu amigo André Lemos, a sabedoria popular confirma-se, "não julgues um livro pela capa" e "quem vê caras não vê corações"... Ou, para poder fazer uma citação literário-intelectual, de Bocage, "Caga o cu mais alvo merda pura". Infelizmente, é o caso.

andré lemos disse...

E o Bocage quando falava, não gaguejava, não é? Ainda estou à espera da crítica ao Jimbo in Purgatory!

andré lemos disse...

Desculpa lá, agora é que vi que já tinhas feito a crítica ao Jimbo.
Agora ainda quero mais vê-lo de perto.