20 de março de 2009

Sétimo Selo. Jorge Nesbitt (Ao Norte)

É bem possível que o julgamento derradeiro, acredite-se ou não nesta versão religiosa, o Apocalipse, não seja algo de gigantesco e universal mas sim distribuído, um por um, a cada homem e mulher no mundo. A todos nós caberá o seu quinhão e torrão, cova e medida, peso e balança; a cada um de nós cabe, como canta David Byrne, um “tiny apocalypse”. O sétimo selo, do livro de São João, anuncia o último passo. Dali para a frente vem apenas o fim do mundo, trombeta a trombeta soando os sete anjos, esboroando o antigo mundo para que o novo se levante. O filme de Bergman trata precisamente disso, pelo caminho do maior fim que a crença e a fé podem ter, a saber, a dúvida: mais do que um combate (através do jogo de xadrez) pela sua vida (“só mais uns minutos…”), o cavaleiro Block parece querer antes redescobrir a sua fé em Deus. Só surge um fim, porém. Independentemente da mestria em mover o bispo ou o roque e a amiga, é à Morte que pertence o preenchimento total do “mate” no jogo (mesmo etimologicamente, o persa mat significa “morte”), a última palavra. A cena final, magnífica, deslumbrante, do filme, a Dança Macabra de Block e o seu séquito, está fora do jogo de Nesbitt, pois este pretende sublinhar outra coisa, outra grandeza. A última palavra em Bergman é a do próprio realizador, em de Nesbitt (dispensando todos os outros elementos da diegese senão o diálogo entre o cavaleiro e a Morte) é a da Morte.
Bergman era um homem de fé, sem dúvida, mas uma fé que era mais particular, sofrida, íntima, que os rituais partilhados por pressão social. O Sétimo Selo explora esse tremor que abala o edifício, mas recupera-o ainda que através de algum cinismo. É como se se mostrasse que Deus e o Diabo existem, mas pouco se importem com o destino dos homens. Nesbitt sublinha o cinismo dessa posição, o lado mais assustador desse silêncio.
Se Bergman é indefinido, final e onticamente, Nesbitt decide-se pela dúvida suspensa, que esboroa, não uma dúvida que incite a uma acção. Dilucidar o trabalho de Nesbitt neste pequeno grande livro é interrogar-nos sobre esse aspecto de transformação profundo da matéria filosófica - mais do que da mera transposição visual, a dita “adaptação” - de Bergman. No fundo, quer Bergman quer Nesbitt (este porque seguindo a questão do primeiro) se perguntam pelo sentido judiciário do homem num mundo sem Deus, ou num mundo onde Deus exista mas não manifeste a sua presença continuamente e permita, naqueles que participam da fé, o surgimento da dúvida (a questão do livre arbítrio). Assim Block vê quer o seu futuro, mas também o passado (o propósito da sua campanha, missão, combate e vida) colocados em cheque… mas ainda não em mate. A escolha de Nesbitt, a suspensão que faz, é mais premente na irresolução do jogo. Há como que uma espécie de hesitação tensa, também presente nas características particulares do seu desenho.
Jorge Nesbitt é um daqueles autores que opera não acima ou abaixo do nível gráfico a que usualmente se chama de estilo, mas fora dele, para melhor poder se aproximar das suas várias execuções, procurando a óptima solução para o fim a que se propõe. A dúvida a que me refiro acima está presente na mão-cheia de desenhos que compõem este livrinho, terceiro da colecção que propõe interpretações em torno de filmes: desenhos em que está presente a hesitação da representação, marcas e manchas que mostram o vago, o indefinido, o perplexo. E a permuta, acima de tudo. Os rostos e as paisagens são permutáveis. Os rostos são permutáveis com outros rostos. É como se fossem essas as peças do xadrez eleito por Nesbitt para chegar àquele outro, do Cavaleiro e da Morte de Bergman (também apetece escrever “do cavaleiro, e da morte de Bergman”). Esparsa e miscelaneamente, temos sete imagens das falésias junto ao mar, a maior parte delas preenchidas de negras, sombrias silhuetas. Não é um sítio onde ocorra a acção, não é um espaço da narrativa, que coloque em relação os pontos de percepção (da personagem, do narrador, do leitor), é a condição mesma do diálogo entre os rostos presentes, é mesmo um rosto participando nesse diálogo.
Que outros rostos surgem? Dez imagens retratam a personagem Morte, seis das quais apresentando um grande plano do rosto, duas em perfil e duas transmutando o rosto em caveira. Nove do cavaleiro, ora em planos médios ora em planos aproximados mas nunca focando o rosto, e duas vezes centrando-se somente na cruz que leva ao peito. Duas imagens mostram o Cristo esculpido em madeira, igualmente em grande plano, fazendo com que o seu rosto sofrido ocupe o mesmo espaço daquele que é reservado para a representação do rosto da morte e aquele que deveria ser ocupado pelo do cavaleiro. Todas estas imagens concorrem à ideia de um mesmo espaço, à vez ocupado pelas personagens (em rigor, apenas a Morte e o cavaleiro Block) e pelas suas percepções ou ensejos (ora vistos como a fé em Cristo ou ora como meros símbolos desprovidos de vida, de “rosto”). A permutabilidade dá-se no rosto (e no verso) da página. As frases, parcas e encerradas na tarja negra das legendas, oscilam entre um e outro dos interlocutores, aumentando esse grau, mais do que de indeterminação, de troca possível, de conjunção das peças. A única excepção é a primeira página, que mostra um corvo, um anjo negro, uma sombra esvoaçando nos ares, sem texto em baixo. Introdução, primeira imagem, apresentação. Para um irremediável fim.
Nota: agradecimentos a Tiago Manuel, pela oferta do livro.

16 de março de 2009

Diários de Viagem. Desenhos do quotidiano. Eduardo Salavisa, ed. (Quimera)

Como vimos no caso de Drawing from life, neste campo em particular, a nomenclatura é um verdadeiro problema. Isto é, não se trata somente de uma questão levantada e que, após uma mais lenta, menos lenta e deliberada selecção e confronto de argumentos, necessários e suficientes, atinge uma sua solução, resposta, definição. Um verdadeiro problema abre-se a outros tantos. Eduardo Salavisa não procura com este livro trazer soluções, respostas e definições que terminem a discussão, mas sim colocar esse mesmo problema à nossa consideração, guiar-nos por alguns dos eventuais modos de resolução ou pelo menos de contributo regulado de pesquisa, e depois abandonar-nos à nossa sorte e capacidade em extrair destes exemplos uma ideia, por mais vaga que ela seja, coesamente forte dos Diários de Viagem, ou Diários Gráficos, ou Cadernos de Esboços, ou Cadernos de Campo, ou Cadernos de Procura Paciente (cf. Corbusier), ou Mini-Estúdios (na expressão de Rui Lacas). Ou até Livro de Artista, já fazendo cair um outro peso de e sobre estes objectos. Essa falta de fechamento revela uma sensibilidade maior ao intervalar, e não uma falta de rigor na construção de categorias.
Disse “este campo em particular”, mas essa é já uma afirmação estranha, pois verificamos que não é sequer fácil entender que campo será este, e se ele é de facto particular; parece estender metástases e abrir-se em rupturas e excepções e diferenciações em todos e quaisquer dos seus poros.
Diários de viagem é não apenas uma excelente antologia como uma publicação rigorosa e que procura um profundo respeito pelo objecto. Isto é, a própria dimensão desta publicação leva em conta o lado objectual dos diários. Apesar da pobre resolução da capa (um fac-símile de um diário real, presume-se), procura-se mimar essa dimensão não só de objecto único, nem de objecto a usar, mas objecto usado. A paginação no interior também dá conta dessas especificidades: quando duas páginas de um qualquer diário gráfico se estendem por duas páginas deste livro, a espinha é partilhada por ambos, levando assim a um ritmo de leitura e estrutura o mais acabada possível.
A ausência deste ou daquele outro artista nesta antologia não é um argumento crítico à mesma; é óbvio que qualquer escolha revela sempre de potencialidades, circunstâncias, amizades talvez, mas jamais poderemos perder de vista o facto de que uma escolha revela uma perspectiva que se adivinha acertada e que a escolha efectiva cumpre melhor ou pior essa mesma perspectiva prometida. A questão aqui é plenamente respondida. Haverá preferências de cada um de nós, mas elas revelarão mais das nossas inclinações, conhecimentos, do que de um verdadeiro ajuizamento dos trabalhos, já que o “erro” – facto repetido por muitos autores – é uma classe de ideias que não tem cabimento num diário; ele pura e simplesmente não existe, sendo o diário antes o local máximo do processo, seja este estocástico, tentativo, diletante, distraído, ou até mesmo totalmente aleatório (o que é difícil de aceitar: nenhum gesto é aleatório, emerge sempre de nós).
Mais, e de novo em contraste com Drawing from life, Eduardo Salavisa, enquanto editor, não procura estabelecer quaisquer categorias, classes, hierarquias, e atravessamos estes 35 autores contemporâneos numa estranha e diversa fluidez, atravessando várias idades, empregos, atitudes, proficuidades, aproximações, belezas... “Quotidiano” retorna assim ao seu sentido etimológico, de interrogativo, e cujas respostas são tão diversas como cada secção de artista, cada página dos diários, cada nova leitura nossa dessas mesmas páginas...
Essas questões desdobram-se nos aspectos de transitoriedade versus reprodução enquanto “obra”, devaneio momentâneo versus expressão autoral, circunstancialismo versus uma natureza perene da arte, e confrontam vários modos de entender a plenitude, o desenho, a construção da marca, as fronteiras entre a escrita e o desenho, aqui mais diluídas, ali mais nítidas ainda que se complementando entre si.
As questões continuam a desdobrar-se nos site e blog de Salavisa, de onde se poderá partir para os blogs e sites de quase todos os convidados do livro (onde se apresentam essas plataformas). Ou talvez seja este livro uma cristalização, em papel, das questões ali abordadas. A dimensão pedagógica não é de todo descurada, mas nunca transformada em dogma ou princípios de matéria fechada. Veja-se o excelente texto de introdução, a bibliografia generosa, a colação de experiências-chave de Delacroix, Khalo, Hopper, Le Corbusier, Picasso e Hugo Pratt (o único sem imagens, imaginamos que por razões dos detentores dos seus direitos) como ponto de partida ao pensamento que engloba (não “encerra”) estes Diários.
Para quem teve a oportunidade de folhear, com tempo e prazer, cadernos de artistas, ou vasculhar as frases soltas de blocos de notas de escritores, ou simplesmente espiar um caderninho de um amigo, sabemos que existe sempre um prazer estranho, misto de descoberta que podemos anunciar e segredo que desejamos guardar, a cada nova página virada. Tenho as minhas próprias experiências, que prefiro manter in pectore, mas noto que os gestos de divulgação de Jennifer New e de Eduardo Salavisa nascem desse mesmo prazer, aliados à possibilidade de revelar, mesmo que brevemente, esses prazeres únicos através destas colecções. O livro de Salavisa é mais livre, pelas razões apontadas e, por isso, mais livre torna a nossa leitura e fruição. Manuel João Ramos, por exemplo, tem as suas magníficas Histórias Etíopes editadas (Assírio & Alvim), mas as poucas páginas neste volume parecem dar-nos de facto um olhar mais solto, imediato, dos blocos de construção da sua obra. É aí que reside a fortaleza de Diários de Viagem. Dar-nos a ver publicamente um segredo, mantendo-o como segredo. Notas sobre imagens escolhidas: seria impossível e contraproducente mostrar imagens de todas as pessoas indicadas por Salavisa (ficam de fora, com pena, Francisco Vidal, António Jorge Gonçalves, Pedro Mamede, Simonetta Capecchi, Manuel San Payo), fica aqui uma menor e rápida selecção. Uma de Salavisa, por dar as notas de cor naquilo que, imaginamos nós, tem mais vida; uma paisagem de João Catarino, por ter perdido as fronteiras dos objectos, e as cores invadirem em manchas aquele território que deveria estar fronteirado pelas linhas; as paisagens de metro de Mina Anguelova, por trazer cores líquidas e mal-comportadas em contracorrente ao cansaço das figuras.

Drawing from Life. The Journal as Art. Jennifer New (Princeton Architectural Press)

Algures, talvez numa das suas longas entrevistas, George Steiner disse que os clássicos se devem ler de lápis na mão. Para sublinhar, pescar, pressionar a nossa atenção nova e prementemente sobre um aspecto, transformar a nossa impressão mental em impressão propriamente dita. Há pessoas que levam essa lição ainda mais longe, empregando o lápis (ou quaisquer outros instrumentos riscadores) para sublinhar todas as impressões que os assaltam antes que em vaga memória se moldem, todas as breves ideias que se os assolam antes que para sempre se esfumem, todas as breves vontades que os assaltam antes que na indiferença se dissipem. Munidos de lápis, sublinha-se a vida.
Esses traços podem sobreviver, de algum modo, em papéis soltos, notas, margens de livros, nachlass, corpos volantes que não deixam de ter o seu brilho particular (Leonardo, Pessoa, Walser), e que poderão mesmo vir a constituir uma “obra maior” (o Passagenwerk de Benjamin, por exemplo). Mas há um fascínio particular, uma magia especial conseguida pelo facto de alguém deixar um caderno inteiro, folha marcada atrás folha marcada dessas acções de sublinhamento momentâneo transformado em património. Cadernos, diários, blocos. Há uma ideia qualquer de completude que nasce do uso de um livrinho encadernado, esteja este todo rabiscado ou só por metade, seja ele portador de garatujas ou de pequenas obras-mestras. É óbvio que a ideia de “património” talvez se reforce se o autor desse caderninho tiver deixado um outro património (mais “acabado”) algures, que informe estoutro, mas não é impensável que alguém deixe em herança apenas esses breves instantes congelados em papel onde nenhuma outra “obra” exista.
O presente livro, tal qual o de Salavisa (de que falamos aqui), reúne exemplos de diários/livros/cadernos/blocos destes de várias pessoas, possam estas ser vistas como artistas ou não. Ao contrário do volume editado por Eduardo Salavisa, Drawing from life. The Journal as Art, de Jennifer New, tem a pretensão de apresentar uma imagem organizada deste tipo de produções. Após um brevíssimo texto de introdução, em que explora as razões que a levaram a ela mesmo, New, criar “diários” seus, procura identificar o que preside este seu trabalho de colação e apresentação, estabelecendo desde logo quatro categorias que entende como pertinentes na taxonomia dos mesmos, cada um sob um signo, não de um género (como exemplo “livros de artista, diários de viagem, e livros de campo de cientistas”), mas de um foco de interesse e de acção. Essas categorias estão dispostas num círculo que lhes permitem misturar-se... São elas a “observação”, a “reflexão”, a “exploração” e a “criação”. Estas categorias podem ser entendidas ora como passos sucessivos de uma mesma pulsão, ora como estratégias diferentes do tal sublinhar a que aludi ao início. Cada uma destas categorias é ilustrada com vários exemplos, e nem todas passam pelo desenho (a fotografia é a matéria de expressão dos diários – bem diferentes daquilo que poderíamos esperar – de Renato Umal e de Tucker Shaw), algumas sendo pequenas procuras da memória do pulso enquanto este desenha (como as ilustrações médicas em esboço de Andrew Swift, ou as colecções de rostos a cada dia pelo psiquiatra Martin Wilner), ou passos necessários para que desemboquem numa obra (os apontamentos de David Byrne, aqui ao lado, talvez escrevendo as letras de futuras canções, a evolução a par e passo das telas de Mike Roberts, de quem mostramos acima uma página)... Apesar da autora dizer que se trata de um círculo, ela trata cada uma das categorias, ou secções, de forma separada, procurando estabelecer uma razão de fundo que têm a ver com cada uma destas acções separadas. A observação tem a ver com um apreender e um prender aquilo que nos atravessa o olhar – animais num aquário, plantas num passeio, o nosso rosto de cada dia, os rostos dos outros todos os dias, os mapas das vilas à nossa volta, o tempo meteorológico ao longo de meses, a observação cuidada de uma estação geológica – ou um olhar interno – diários de sonhos. A reflexão é um passo adiante, em que as observações sucessivas – de rostos, de pratos, de temas gráficos, de impressões obsessivas – se aglomeram num corpo de ideias e inclinações mais expressivos. A exploração tem a ver com uma pequena distância em relação ao olhar – é retratar os espaços e pessoas das nossas viagens mas procurando entendê-los através do apontamento, da exactidão da impressão, da colação de dados antropológicos procurando ver que desenho final emergirá dela, da captura de ideias que flutuam rapidamente, sejam elas letras de canções, fórmulas matemáticas, desenhos, lições, pedaços de papel arrancados um pouco por todo o lado. E finalmente a criação, em que o diário gráfico se abre enquanto plataforma de partida para objectos ditos “acabados”, mas o livro possa servir de retrato do processo onde a obra é o objecto final – arquitectura ou jardinagem, pintura ou fotografia, cinema ou tapeçaria...

ABC3D, Marion Bataille & Food Play, Saxton Freymann e Joost Elffers (Neal Porter Book/Roaring Press & Chronicle Books)

Nenhum destes livros é, em rigor, de banda desenhada, nem de ilustração, nem de uma qualquer área contígua àquela que, usualmente, paira enquanto fantasma neste espaço. Ainda assim, pelas suas virtudes de objecto livresco, de imagens que obrigam a uma leitura, a um sucessivo folhamento aliado ao prazer de humorada descoberta, trago-o aqui à consideração. Aliás, quer um quer outro possuem aquilo a que se chama o “efeito Pringles” (no meu caso pessoal, é mis o “efeito frutos secos”): só se fica satisfeito quando se chega ao fundo do frasco ou do pires, cada nova página virada apenas despertando o desejo imediato de degustar a próxima e cada uma aumentando o prazer geral. Enfim, um prazer de acumulação, egoísta, sôfrego, mas não por isso menos prazenteiro.
Aliam-se toda uma série de sentidos com estes livros: o visual e o táctil são os mais óbvios, naturalmente, mas eles só serão cumpridos se o eixo da sua leitura estiver em movimento. Isto é mais claro com o livro pop-up, que nos obriga a abaná-lo, movê-lo, espreitar mal se abre uma nova página, assegurando-nos de que vemos o outro lado, que tocamos, ao de leve, nas estruturas que se nos oferecem... De variadíssimos modos, as prateleiras onde ambos os livros se devem encontrar partilharão espaço com as obras de Robert Sabuda, de Jan Svenkmajer, de David A. Carter, de Katsumi Komagata. O sentido do gosto estão presentes no segundo livro, como se verá, ainda que seja desencadeado pela imaginação. Os restantes estão mais diluídos, mas queremos acreditar que são uma possibilidade.
O ABC3D, de Marion Bataille é um dos livros de letras mais maravilhosos que conheço. Tanto servirá para ensinar a ideia do movimento das letras aos mais pequenos (a ideia de caligrafia, de escrita viva, multímoda) como os adultos descobrirão modos de se divertirem e aprenderem e até pensarem ou jogarem com ele. O próprio título é um achado, e a capa demonstra uma outra dimensão desse trocadilho.
Quanto a Food Play, da dupla Saxton Freymann e Joost Elffers, é um volume que reúne trabalhos anteriormente editados, quer narrativos (One lonely sea horse) quer da mesma tipologia deste: fotografias de vegetais e frutos esculpidos em forma de criaturas imediatamente reconhecíveis, e que tanto nos obrigam a pensar nelas, como nas origens formais do que lhes deu origem, como o espaço de encontro entre ambas... Um poodle-couve-flor, uma girafa-banana, dois amantes-morango beijando-se...
A Isabel Carvalho, ao ver este livro, confrontou-me com outros dois livros publicados em Portugal (traduções): um intitulado ABC do Tomatinho, escrito por Michel Rio e fotografado por Therese Zadora (da Porto Editora, 1988), e outro um livro de cozinha (não me lembro do título) para crianças em que cada receita apresentava o prato esculpido sob a forma de um qualquer animal ou rosto: pepinos-crocodilho, bolos-cara-de-palhaço, etc. Food Play não é nem narrativo nem para cozinhar, mas certamente que levará os seus leitores a descascar batatas e laranjas de um modo mais pausado.
Digitalizar algumas das imagens de ABC3D não faria jus às suas dimensões, por isso optei (por de pouca qualidade que seja) por um vídeo, e aproveitei a boleia para o outro. Espero que sirva. Há muitos outros vídeos no youtube com o livro de Marion Bataille, bem melhor filmados, por isso aproveitem.

13 de março de 2009

Quatro exposições relacionadas com a banda desenhada (?).


O que têm Louise Bourgeois, Philip Guston, Pat Oliphant e alguns artistas de etnias nativas americanas em comum?
Talvez nada, a não ser uma certa circunstância de encontros. Mas possivelmente todos contribuem para a contínua expansão do nosso campo de atenção, ainda que delimitado por um corpo de desejo.
A viagem aos Estados Unidos permitiu ver quatro exposições, que suscitaram pequenas notas, no blog em inglês da exposição Impera et Divide.
Para Louise Bourgeois, aqui.
Para Philip Guston, aqui.
Para Pat Oliphant, aqui.
Para os artistas nativos americanos, aqui.

3 de março de 2009

Divide et Impera. AAVV (Montesinos)

Serve o presente post para dar notícia, em primeiríssima mão, do primeiro livro oficial da Montesinos, o meu próprio selo editorial, intitulado Divide et Impera.
Como se torna claro, trata-se de uma publicação-companheira às exposições em Charlottesville, Virgínia, de 2009, a Impera et Divide e àquela tida antes em 2007, no 18º FIBDA, Divide et Impera. É uma publicação em inglês, com um ensaio leve, sucinto, intitulado The Surf and the Face of the Comics to Come, em torno das questões que são suscitadas pelos trabalhos dos autores aqui reunidos, com excertos de trabalhos maiores, histórias curtas ou várias peças soltas agregadas nas suas “secções”: Frédéric Coché, Warren Craghead III, Aerim Lee, André Lemos,, Ilan Manouach, Andrei Molotiu e Fábio Zimbres. O seu lançamento está marcado para o fim da tarde de 6 de Março, na Second Street Gallery, onde terá lugar a exposição mencionada.
Este livro só se tornou possível pelo apoio dos próprios artistas, a quem agradeço em primeiro lugar, com especial destaque ao trabalho de ilustração de Warren Craghead, que fez a capa e as ilustrações espalhadas pela publicação (em baixo poderão ver ainda a ilustração original, com pequenos erros, mas sem o logo). Quero agradecer ainda à Cláudia Dias, da Playground, pelo incansável, bem disposto e mal pago trabalho de design. A Montesinos contará com a sua ajuda sempre, esperamos. À Rocha Artes Gráficas, do Porto, cuja paciência e resiliência face à minha incompetência atroz foi um antídoto magnífico. Ao Pedro Nora, pelas indicações, dicas e ajudas ao telefone. A muitos outros amigos também, pelo apoio demonstrado. A Direcção-Geral de Artes e a Fundação Calouste Gulbenkian, através do Acordo Bipartido, apoiou este projecto financeiramente.
O livro existe, sendo a edição ligeiramente limitada. Neste momento ainda não posso dar notícias mais concretas sobre a sua acessibilidade geral, mas deixem aqui os vossos comentários ou questões, que serão atempadamente respondidas.
Nota: se digo que este é o “primeiro livro oficial”, deve-se ao facto de já em 2002 ter saído o fanzine Uma porta serve para entrar como para sair, ilustrado por Koh, Eun-Kang, publicado em Seul, Coreia do Sul, ainda disponível por tuta e meia.
Até breve.

1 de março de 2009

A Comics Studies Reader. Jeet Heer e Kent Worcester, eds. (University Press of Mississippi)

Este volume é a segunda antologia destes dois editores, depois de Arguing Comics, que reúne textos de várias proveniências incidindo sobre a banda desenhada enquanto território digno da discussão intelectual e académica; aliás, como o próprio título indica, a perspectiva editorial deste volume é mais restrita em relação ao anterior, focando exclusivamente – ou quase – em perspectivas que advêm de um ambiente académico (isto é, textos integrados numa qualquer disciplina com a sua própria história teórica e prática). (Mais)

28 de fevereiro de 2009

Mutant Hanako. Makoto Aida (Le Lézard Noir)

Those crazy japanese. 1 de 3. Introdução: Mais do que uma mera generalização na fronteira do racismo e da incompreensão, a frase feita “those crazy japanese”, repetida inúmeras vezes nos mais diversos contextos (experimentem no Google para o confirmar), aponta para um reconhecimento, também ele generalizado, de que a cultura japonesa tem toda uma série de características, algumas históricas e outras mais recentes, que os torna ligeiramente afastados da esmagadora dos princípios que pautam a fabricação cultural, a moralidade, as formas de trabalhar a contemporaneidade de outras sociedades a um mesmo nível de comparação civilizacional, tecnológica ou política. As razões dessa especificidade, que a distancia a um grau considerável da vizinha e mais conservadora Coreia do Sul ou da milenar e ainda feudal China, são incrivelmente complexas, e é a especialistas e teses de doutoramento que competirá o seu escrutínio exacto. Quanto a mim, prefiro seguir as lições de Ian Buruma (por exemplo, Inventing Japan ou A Japanese Mirror) e encontrar pelo menos uma forma de entender essas características, que tanto nos podem encantar com a exploração da cultura pela convergência multímoda de Mizoguchi ou os pequenos dramas familiares de Ozu, como nos podem sobressaltar ou enfastiar ao sermos expostos a toda a cultura hentai, ero-guro, cosplay, aos filmes de bukkake, aos concursos de televisão, etc. & tal.
Os três pequenos livros de que darei breve relação aqui mostram algumas das facetas dessa estranha imagem que nos é dada “para fora”, se bem que esse “fora” deva ser relativizado. Não é apenas o Ocidente, mas o restante mundo, tendo em conta que o mesmo fascínio pela cultura contemporânea e popular japonesa é exercida sobre países como a Tailândia e a Coreia do Sul, ambos havendo sofrido uma ocupação japonesa na Segunda Grande Guerra que não deixou muitas saudades às gerações mais velhas (e que leva à incompreensão face ao fascínio dos mais jovens). Por outro lado, mesmo no seio do Japão, estas manifestações culturais estão à margem do que é mais visível, naturalmente; ainda que seja um grosso fluxo, é lateral, e não corre sob as pontes principais.
Presumo que Le Lézard Noir seja uma pequena editora francesa com contactos privilegiados com o Japão, aliás, com uma cena muito particular da banda desenhada japonesa, pelo que se depreende do seu catálogo, particularmente devotado à edição da obra do campeão e mestre do ero-guro (isto é, o cruzamento do erotismo com o horror mais visceral), Suehiro Maruo, e autores menos famosos, mas não por isso menos de entranhas à mostra, literal e figurativamente, como Daisuke Ichiba, ou Romain Slocombe, autor francês de banda desenhada associado à Humanoïdes Associés e à Futuropolis desde fins da década 70 e inícios da de 80, e que se têm dedicado também à fotografia, com modos de ver e dar a ver que estão muito próximos do imaginário japonês dos fetiches extremos (Nobuyoshi Araki poderia ser uma referência, mas Slocombe segue linhas mais duras, próximas de um underground ou mesmo da indústria do fetiche, que nada têm a ver com a busca de uma beleza relativamente consensual).
No seio do seu catálogo, existem estes dois livros que apresentam e discutem o trabalho artístico de Makoto Aida (nascido em 1965) e de Akino Kondoh (nascida em 1980). Ambos são artistas que se expressam pelas mais diversas linguagens, algumas delas transdisciplinares, desde a pintura à instalação, do objecto-de-arte ao vídeo, mas o que nos importa mais, e à editora, é que também o fazem através da banda desenhada. Isto é, a banda desenhada não aparece como pecadilho da juventude, nem complemento, mas como uma outra dimensão do trabalho dos artistas.
**No caso de Makoto Aida, este artista prefere chamar as coisas pelos nomes, por isso diz “arte” em relação à sua pintura, etc., e “mangá” em relação à banda desenhada. Mas não fará parte do mesmo movimento, gesto, respiração? É visível que as técnicas e abordagem diferem de um território a outro, mas essa é mais uma questão da estratégia particular de Aida do que uma obrigatoriedade intrínseca das linguagens empregues. Se derem uma vista neste vídeo, uma pequena reportagem (em japonês) sobre Makoto Aida, encontrarão alguns dos seus trabalhos discutidos no presente livro, além de o ver a ele em acção. Todavia, não é clara a razão dessa distinção líquida da parte do autor, já que se aprende que este livro fazia parte de uma exposição intitulada War Picture Returns, de 1996, que consistia numa série de pinturas em biombos, imagens que de uma forma ou outra recordavam os conflitos nos quais o Japão esteve envolvido. Pode-se considerar que esta edição francesa é nova, uma vez que é a primeira edição a cores e em forma de livro.
Quer este livro quer o de Kondoh têm duas capas, entrando-se pela capa à ocidental, que mostra uma pequena selecção do trabalho mais propriamente artístico dos autores, discutindo-se o seu contexto, forças, etc., ou pela capa à Japão, acedendo-se à história de banda desenhada. O trabalho de Aida mistura toda uma série de referências, desde as mais comerciais e chãs às mais históricas e políticas, resultando numa mescla que nem sempre é fácil de entender, por mais “pop” que nos pareça. O autor do estudo chega mesmo a citar a filosofia por detrás do tristemente famigerado movimento Aum Shinrikyo, que chegou a utilizar a banda desenhada como veículo de publicidade das suas ideias, território do qual muitos dos temas mais clássicos eram integrados nos princípios religiosos (o que não é muito diferente da Cientologia, por exemplo, ou, se pensarmos bem, de nenhum religião). É óbvio que o objectivo de Aida não é um mero efeito de choque, nem o de doutrinação, mas o de, através de uma junção inesperada ou mesmo violentamente crua, sublinhar os exageros que haviam sido perpetrados por aqueles que exerciam o poder de não o fazer.
E é aí que surge Mutant Hanako, a história de banda desenhada. O desenho rude, bera, de qualidade amadora e sem qualquer filtro de regras, é de Aida, mas a história foi criada por um especialista de mangá fantástica sobre as notas do autor. Trata-se, muito simplesmente, da história de uma jovem de doze anos, Hanako, que é eleita pelo Imperador para salvar o Japão das terríveis agressões dos americanos... Esta é uma obra revisionista, como é óbvio, mas o revisionismo e o exagero é de tal ordem que todo o ridículo está sempre presente ao longo da história, e esse ridículo é repartido em igual medida a todos. O Imperador aparece como uma criatura quase angélica, um homem normal apenas preocupado com os seus súbditos, o General MacArthur surge como um terrível demónio verde, de cornos, irascível e cruel, e com uma apetência particular por rapariguinhas impúberes (como Hanako), e o presidente Roosevelt ainda está vivo (Truman é um “fantoche”, diz ele) mas é um pénis mutante enorme (sim, a imagem que vêem aqui é uma espécie de dragão de várias cabeças de pénis, e é Roosevelt na sua forma verdadeira e mais poderosa)... Poderíamos continuar com detalhes, todos eles mais espatafúrdios, incongruentes, ilógicos, brutais do que os anteriores – como o combate entre Hanako e MacArthur em que cada um utiliza alimentos dos respectivos países, os “venenosos” dos Americanos (Coca-Cola, bifes cheios de colesterol) e os “saudáveis” dos Japoneses (o benfazejo chá verde, a soja fermentada) – e, por isso mesmo, deliciosamente divertidos. Suehiro Maruo já havia apresentado uma fantasia em que MacArthur tinha sido derrotado, e decapitado pelos vencedores japoneses, mas se Maruo pretendia sublinhar os aspectos mais negros e virulentos do nacionalismo japonês (tão ridículo e perigoso como quaisquer nacionalismos), Aida pretende antes ridicularizá-los até à exaustão, mergulhando-o na hipérbole dos temas da cultura popular (monstros mutantes, super-poderes, desastres nucleares, milagres espirituais).
(continua aqui)

Eiko de Akino Kondoh (Le Lèzard Noir)

Those crazy japanese. 2 de 3. (continua daqui) O livro de Kondoh segue o mesmo esquema do de Aida. Em primeiro lugar, faz-se uma apresentação da sua produção artística, que conta com pintura, animação e objectos que nos recordarão os de Lygia Clark, pela sua dimensão táctil, utilitária, despertadora de sentidos e memórias do seu utilizador. Aliás, o ensaio que abre o livro insiste na ideia de que o trabalho de Kondoh permite o despertar de memórias (sobretudo da infância) junto aos seus espectadores ou leitores, o que é corroborado pelo menos por uma das histórias incluídas na segunda parte, ou no “outro lado” do livro. Eiko é um título genérico para uma colecção de sete histórias curtas produzidas entre 1998 e 2002, mas todas elas gravitam em torno de um grupo de características comuns: raparigas em idade escolar, quase sempre com os famosos uniformes “de marinheiro” típicos das escolas públicas no Japão, explorando as suas memórias e sensações dessa fina linha que separa a vigília do sonho.

Pois para além da memória, um outro tema se me avizinha recorrente, senão mesmo estruturante, na obra de Kondoh, e que está muito próximo da estratégia gráfica de David B., por exemplo: a indistinção, no plano de composição, na presença gráfica, daquilo que chamamos de “realidade” e aquelas sensações de que nos apercebemos partirem do “sonho”, ou mesmo da “fantasia”. Não é que o que vejamos representado seja algo que esteja a ocorrer mesmo na realidade diegética, visível ou experienciável pelas restantes personagens, mas essas mesmas sensações oníricas ganham direitos de representação idênticos aos demais objectos. O que permite jogos de padrões, simetrias, e ilusões magníficos, e em que o preto-e-branco e o esculpir das pranchas da autora apoiam de um modo cabal.
Essas características temáticas e formais, em que por exemplo a presença de insectos como as joaninhas ou a borboletas são constantes, e o princípio da metamorfose aplicado ao valor intrínseco da criação de imagens (e não à concorrência do princípio de realidade previsto mesmo nas histórias maravilhosas), está presente nos filmes de animação de Kondoh, acessíveis no Youtube (abençoado seja!), como por exemplo The Evening Travelling, Ladybug Requiem (infelizmente sem a música original, mas tentem escutar ao mesmo tempo “There’s a River in the Valley” dos Thee Silver Mt. Zion, que funciona na perfeição) e outro de que não posso traduzir o título, ainda que entenda pertencer à série de filmes sobre joaninhas.
A loucura de Akino Kondoh não é tão severa como a de Aida (v. acima), e muito menos do que a de Nemoto (abaixo), mas não deixa de revelar uma dimensão negra, fantasmática, uma espécie de terror não dito, não formado, ainda por chegar (e finalmente aterrorizar), que se encontra imediatamente abaixo da superfície da vida das jovens raparigas de quem testemunhamos pequenos episódios. Há tanto de Maruo como de Isabel Carvalho nesta aproximação. A imagem de rodar uma pedra e descobrir um grupo de insectos borbulhando por baixo é citada várias vezes ao longo das histórias, e do ensaio, de Eiko, e essa talvez seja a ideia de promessa ainda não cumprida delas mesmo: um objecto sob o qual sabemos estar uma vida minúscula, cheia de verve, mas que nos causa uma estranha impressão, que não desejamos tocar, uma aversão irracional, com a qual preferimos não ser confrontados, mas ainda assim somos por ela mesmo levados a virar a pedra, só para ter a certeza... É por meio dessas sensações embrulhadas umas nas outras que se encontra o sinal pelo qual operam estas histórias de Kondoh.
(continua aqui)

Monster Men, Bureiko Lullaby. Takeshi Nemoto (PictureBox)

Those crazy japanese. 3 de 3. (continua daqui) Já me havia cruzado com o trabalho de Nemoto, que publicou na Dernier Cri um livro, Rubber Dog, de ilustrações escandalosas e alucinadas. Monster Men reúne quatro trabalhos de banda desenhada publicados na Garo dos anos 90, sendo o mais marcante e mais longo The World According to Takeo, que dá conta da história de um espermatozóide que ganhou vida própria graças a ter sido exposto a uma explosão nuclear, quando o seu “pai” se masturbava no convés do barco de pesca. A novela que se desenrola segue todos os trâmites do mais deslambido dos melodramas, emotivo até à medula como é apanágio desse género de histórias, seja na Venezuela seja no Japão: um pai criminoso e louco, a impossibilidade de fazer amigos na escola, a ainda maior impossibilidade de amar, a desgraça familiar e social, a dificuldade em vingar no mundo dos negócios, a necessidade de cair numa vida miserável, prostituída, e um açucaradíssimo final que passa pela redenção do amor. O facto do protagonista se tratar de um espermatozóide e existirem cenas da mais abjecta sexualidade e escatologia desviam todos esses elementos de género para um outro território, que nos forçam, a um só tempo, a nos rirmos e sentirmo-nos enojados.
Na contracapa deste livro, diz-se que Nemoto “é muitas vezes comparado a R[obert] Crumb”, o que este volume “tentará mostrar exactamente como” se cumpre; no entanto, se a ideia geral de não existirem vacas sagradas que não sejam demolidas ou atacadas, até mesmo gratuitamente – o melhor ataque às vacas sagradas, diga-se de passagem, pois ataques ideologicamente fortes a este ou aquele princípio não são tão producentes e eficientes, diga-se de passagem -, é cumprida por Nemoto tal como o é por Crumb, o aspecto carnal, indómito, subcutâneo atinge patamares muito mais potentes em Nemoto do que em Crumb, o que, aliado à abordagem gráfica bruta do autor japonês (ao contrário do virtuosismo do norte-americano), exacerba os seus efeitos. De novo, tão nefastos como hilariantes.
Destes três autores, é Nemoto aquele que mais preenche a ideia da “loucura japonesa”, que advém de uma quase total ausência do conceito de pecado, de culpa, ou talvez da distinção claríssima que existe entre a realidade do dia-a-dia e a expressão dos mais indizíveis desejos e pulsões internos, uma espécie de purga total pela ficção e a arte, por mais “basura” que esta seja. Afinal, era essa a função da tragédia clássica grega. Talvez Monster Men, Bureiko Lullaby seja uma espécie de filtro de limpeza do que mais asqueroso levamos no nosso interior, em vez de nos pautarmos pela hipocrisia da nossa cidade. Talvez seja essa a mais funda força do que é produzido pelos “crazy japanese”. Talvez haja aí alguma lição a tirar.