29 de dezembro de 2015

Dispositivo de Circulação de Imagem. Fernando Lindote (auto-edição)

Este rápido post (mas quem queremos enganar?) vem na esteira da leitura e diálogo com Pedro Franz, a propósito do seu último trabalho e dissertação de Mestrado. No envio desses mesmos materiais, o artista teve a gentileza de agregar ainda outras publicações, como o último número do jornal Suplemento, e o primeiro de Altamira. Mas a grande surpresa foi o envio de três pequens publicações do artista Fernando Lindote. Para todos os efeitos, estes três cadernos são trabalhos de uma banda desenhada “explodida” por dentro, não-narrativa, não-sequencial, onde por vezes mesmo a figuração entra em crise, mas nem por isso abdica de estudar a potencialidade das séries formais ou conceptuais, e as variações/mutações internas. (Mais) 

28 de dezembro de 2015

Incidente em Tunguska. Pedro Franz (auto-edição)

Gostaríamos que ficasse claro que a leitura deste projecto de Pedro Franz é feita dentro de uma constelação que se coordenou num espaço de tempo comum: Dispossession, de Simon Grennan, e Unflattened, de Nick Sousanis. Se leremos cada um desses títulos, e este agora, de forma autónoma, eles unem-se na medida em que são todos trabalhos que são criados num ambiente e esforço articulado com, ao mesmo tempo, uma pesquisa mais académica da parte dos autores. Muitas vezes, acredita-se na ideia – repetida até à exaustão até perder o seu valor explicativo e passar a ser uma fórmula esvaziada de sentido – de que “uns criam” e “outros criticam”, em que os primeiros fugiriam como o diabo da cruz de discursos segundos, reflectores, académicos, de pensamento, e os segundos seriam vistos como estando desligados de uma suposta intuição ou capacidade criativas. Nada poderia estar mais longe da verdade. O que existe é um espectro extremamente alargado de criação e seu relacionamento com um pensamento “ao quadrado”: há aqueles autores que poderão não exercer qualquer tipo de discurso secundário sobre os seus trabalhos, e aqueles que apenas retrabalhando conceitos mais intelectuais são capazes de mergulhar na matéria do trabalho criativo. Porém, não se pode pensar em qualquer tipo de hierarquia, pois os que “não reflectem” sob a forma de discurso poderão criar obras que elas mesmas são profundas reflexões sobre o próprio acto criativo, ao passo que os que botam discurso podem falhar nas abordagens mais primárias a esse exercício. (Mais) 

26 de dezembro de 2015

The Fall of the House of West. Paul Pope, JT Petty, David Rubin (First Second)

Numa abordagem extremamente concentrada, como digestão de leituras maiores, serve o presente post para dar conta da recepção do segundo volume da prequela da saga de Battling Boy, de Pope e companheiros. Este segundo volume continua a acompanhar a demanda de Aurora West pela sorte da sua mãe, levando-a a oposições ao seu pai, o herói Haggard West, e a fortuna de Arcopolis, lentamente tombando nas mãos dos pesadelos. (Mais)

24 de dezembro de 2015

O poema morre. David Soares e Sónia Oliveira (Kingpin Books)

Imaginemos um Sísifo ao contrário. Não alguém que tenha sido condenado a ter de colocar uma pedra rolante no cume de uma montanha, e veja o seu hercúleo esforço descontado pelo regresso da pedra ao ponto de partida, lá em baixo, mas antes alguém que encontra sempre a pedra no alto e a faz rolar encosta abaixo. Por vontade, e até prazer. Mas ao mesmo tempo sem que esteja totalmente consciente dos gestos que o fizeram empurrar essa pedra, por isso mantém uma certa candura (jamais inocência, porém!) ao ver a queda e a subida. Como se tudo ocorresse fora da sua vontade. Não: é ele o centro das acções. (Mais)

23 de dezembro de 2015

Roturas e ligamentos. Rita Taborda Duarte e André da Loba (Abysmo)

André da Loba não concorda com Rita Taborda Duarte. “Concorda” deriva do latim concors, concordis, isto é, “coração” (cor)” + juntos” (com-). O coração de Loba não está junto ao coração de Duarte. Por essa razão, talvez, este Rotura e ligamentos, que poderia ser descrito apressada e sumariamente como “volume de poesia ilustrada”, são na verdade dois volumes, um de poesia de Taborda Duarte, outro de desenhos de da Loba, encadernados de maneira a perfazerem um só volume, um corpo geminado, siamês. Caberá ao leitor ou leitora manipular o livro de maneira a que, lendo os poemas e vendo os desenhos, acerte o ritmo de cada um desses corações e, com os ritmos resultantes, chegue a resultados harmónicos, díspares, contrastantes, complementares, dissonantes, coincidentes. Há aqui um Tristão e uma Isolda, como veremos, resta saber se há noite que os una. (Mais) 

22 de dezembro de 2015

Os acrobatas. Marcos Trindade (Mmmnnnrrrg)

Este pequeno livrinho em acordeão é a marca de surgimento do primeiro heterónimo português do autor Tiago Manuel. Num formatinho pequeno, faria recordar uma espécie daqueles foles de postais que se vendiam há uns anos, junto a monumentos ou paragens pitorescas, ofertando várias perspectivas ou facetas do que o título apresentasse. Os acrobatas, se for lido assim, oferece então várias faces de uma realidade hodierna da nossa sociedade, a de uma classe de pessoas que ocupa a paisagem social e a tingem com uma cor difícil de lavar. (Mais) 

20 de dezembro de 2015

Jim Del Mónaco: O cemitério dos elefantes. Tozé Simões e Luís Louro (ASA).

Antes de entrarmos na leitura propriamente dita do livro temos de fazer um pequeno desvio teórico, já que não se pode ler este volume no vazio. 

A técnica de leitura crítica mais comum na ciência literária durante o século XX é o que se chama “close reading”, isto é, para seguir uma das suas definições, uma “observação cuidada, a leitura sustentada e concentrada de um texto” (Matthew Jockers), procurando compreender os mecanismos do seu funcionamento, construção de sentido, estilo, etc. Esta foi uma técnica empregue desde os anos 1930, com o surgimento do chamado Novo Criticismo, mas atravessaria várias instâncias e transformações à medida que foi informado pela desconstrução, os estudos culturais, o feminismo, os estudos pós-culturais, etc., cada qual expandindo a forma de atenção e a sensibilidade de como um texto respondia à textura social e cultural em que se integrava (em sistemas concêntricos sucessivos: cultura local, regional, nacional, linguística, artística, europeia, global, etc.). Estas questões, é preciso dizê-lo desde já, não são de todo impertinentes em relação à banda desenhada, uma vez que enquanto disciplina artística e texto, ela faz parte da esfera pública. Para mais, a ciência literária é uma das áreas que mais tem influenciado a crítica de banda desenhada, aspecto que nós assumimos pessoalmente, sendo essa precisamente a nossa formação (não perdendo porém a ideia de que sendo uma disciplina específica, e visual, tem instrumentos distintos da literatura). (Mais) 

19 de dezembro de 2015

Três livros de jogos ópticos: apagar para ver.

Uma parte importante da história da ilustração para a infância, ou da literatura ilustrada para a infância, é constituída por exemplos de livros-jogo. Objectos que, cumprindo todas as condições materiais e conceptuais do livro, providenciam uma dimensão interactiva, no sentido mais imediato do termo, que lhe altera a forma, desdobra sentidos semi-ocultos, o coloca num qualquer movimento. Os três livros que trazemos aqui à colação são unidos por um mesmo princípio muito geral: o de empregar filtros de celofane colorido de modo a revelar (mas curiosamente, ao “contrário”, como veremos) as imagens ocultas. (Mais)

18 de dezembro de 2015

Com 3 Novelos (O mundo dá muitas voltas). Henriqueta Cristina e Yara Kono (Planeta Tangerina)

A produção de livros ilustrados, sobretudo aqueles que se dirigem em especial, mas não exclusivamente, a um público infantil, em Portugal, tem conhecido nos últimos anos, como se sabe, uma curva ascendente no que diz respeito à sua qualidade global. Há uma cultura visual que se tem tornado cada vez mais premente, uma dedicação ao burilar do texto atenta às várias dimensões sociais complexas da contemporaneidade, alianças mais cuidada entre texto e imagem ou à articulação das imagens na sua possibilidade de leitura, a materialidade dos próprios livros, a coordenação de políticas editoriais e de colecções mais coerentes, assim como a fundação de uma cultura no seu pleno sentido. Se as condições de trabalho, profissionais e financeiras, se alteraram, imaginamos que com dificuldades ainda sentidas, em termos de recepção crítica e da fundação de uma “comunidade imaginária” apreciadora é garantida. E os balanços podem ser positivos, se seguirmos as atentas palavras e ideias críticas de Andreia Brites, no seu artigo “O perigo do eterno retorno”, na revista Blimunda (no. 32, de Janeiro deste ano). (Mais) 

16 de dezembro de 2015

Bending Steel. Aldo J. Regalado (University Press of Mississippi)

Para Regalado, os super-heróis são “seres da imaginação”. Nesse sentido, eles não possuem em si mesmos princípios ideológicos ou culturais absolutos, mas são antes figuras que são empregues em vários usos e contextos. Este autor não olha para estas personagens como figuras salvíficas, à la Grant Morrison, uma vez que entende de modo sério as limitações intrínsecas às criações da cultura em relação ao poder sistémico, como ele diz. Sendo a modernidade entendida como uns grilhões de aço, porém, essas figuras são metáforas “com criatividade, inteligência, sensibilidade, inclusividade e dedicação suficiente” para as dobrar (228). Mas para entender os instrumentos com que o farão, e o modo como têm respondido ao curso da história, é preciso percorrer os passos para trás e ter uma visão de conjunto. (Mais)