5 de agosto de 2014

Binnenskamers. Tim Enthoven (Bries/De Harmonie)

A Bries tem produzido toda uma série de livros de extremo interesse em termos visuais, nos últimos anos, sobretudo no que diz respeito, claro, a autores locais (belgas de expressão flamenga e holandeses, sobretudo). O novo livro de Dominique Goblet, numa colaboração com Kai Pfeiffer, também será lançado em co-produção com a Frémok no mês de Setembro, mas a força desta editora reside nesses talentos menos circulados no território francófono. No entanto, muitos desses autores, como Dieter Van der Ougstraete e Wide Vercnocke, parecem inclinar-se mais para prestações puramente visuais do que propriamente devedoras ou mesmo reformuladoras das estrutura e narratividade mais típicas da banda desenhada. Ainda que o holandês Tim Enthoven seja também um autor proveniente da área das “artes visuais” - termo paradoxalmente jogado contra a banda desenhada -, a sua relação com esta arte é mais profunda, íntegra, íntima e, francamente, inovadora. (Mais) 

Criar operações destas, quase de rotina, de eleger um campo contra um outro, quase nunca, se alguma vez, funciona na sua totalidade. Mas não deixa de ser curioso que, de certo modo, ainda que haja cada mais experiências livres em termos de visualidade no mundo da banda desenhada, que isso também possa significar um seu detrimento noutras das suas dimensões. Não falamos aqui tanto numa pretensa “diminuição” da narrativa, de um programado fito de “contar histórias”, ou sequer de cumprir algum papel de “relevância”, mas tão-somente a ideia de ter alguma estrutura conceptual e de exploração formal que possa corroborar a força visual que se pretende criar. Caso contrário, tratar-se-á de uma matéria amorfa e algo vácua. Bela, possivelmente, mas sem impacto. Ora, não é esse o caso de Binnenskamers.

Comecemos com uma possível “sinopse”. Concentramo-nos na vida quotidiana do seu protagonista, jamais nomeado, que vive encarcerado no seu pequeno quarto alugado, partilhando a cozinha, o chuveiro e a casa de banho com outras pessoas. No entanto, a sua rotina, altamente estruturada, fruto de aturadas pesquisas e tentativas até se transformar num mecanismo homeostático, leva-o precisamente a evitar cruzar-se com outras pessoas. Nem no interior do reduzido apartamento, nem mesmo na rua, em que visita sempre o mesmo minúsculo restaurante de massa asiática takeaway, jamais encontrará alguém conhecido. Numa primeira fase, a matéria verbal surge sob a forma de legendas de um narrador na primeira pessoa, mas de certa forma desarticulado de um corpo real, dos eventos diários, ou então apenas presentes numa espécie de descrição objectiva desapaixonada. No entanto, num ou outro momento, vemos os atropelos que podem ocorrer nessa rotina (uma chamada de telemóvel que o obriga a se relacionar com o mundo, um pequeno acidente doméstico que o leva a ter de introduzir uma nova acção, etc.), obrigando a personagem principal ora a libertar-se da sua atitude anti-social, ora a assumi-la de uma forma mais ou menos consciente, logo, com alguma distância em relação a ela.

Ainda que de forma muito, muito superficial, Binnenskamers parece quase uma versão europeia de alguma da banda desenhada japonesa conhecida por “quatro tatami e meio”, que se centra na vida de estudantes (ou losers) que apenas podem pagar um quarto com essas reduzidas dimensões (existe uma série de animação de algum sucesso, The Tatami Galaxy, que explora com humor e absurdo o mesmo tipo de emoções de anti-sociabilidade e queda num universo interior). Mas na verdade, a intriga, se é que podemos propriamente falar de uma, dá-se quando esse suposto sistema regular e de funcionamento pleno é interrompido por um amigo que se quer encontrar com o protagonista. Aos poucos, esse amigo, Paul, invade-lhe os pensamentos, depois os sonhos, de maneira a que o atrasa na sua rotina, criando um dominó de causa-consequência. Um encontro com Paul, a história que este conta sobre as suas visitas a prostitutas, o encontro fortuito com uma série de colegas da escola de artes, uma conversa quase-de-sedução com uma colega, a emergência de uma obsessão sexual, e depois a mistura de todas as linhas de fuga até ao momento final, uma resolução dessa tensão sexual e até mesmo uma coda em que, talvez, possamos imaginar o protagonista a integrar-se nas mais “normalizadas” interacções sociais.

O protagonista vai reafirmando que é estudante numa escola de artes visuais e, de forma oblíqua, vai falando de alguns dos seus projectos. No entanto, nunca nos é dado qualquer tipo de acesso a esse mesmo trabalho: nem desenhos, nem planos, apontamentos, nada, nem um traço documental. Na verdade, Tim Enthoven tem uma carreira de artista plástico, e o seu posterior projecto publicado, The Tiny Tim, é uma espécie de portfolio ou catálogo raisonné da sua obra até à data. Será possível ler Binnenskamers como um projecto autobiográfico? Apenas velado? Uma inflexão dos seus projectos artísticos? Um cruzamento entre eles e a banda desenhada ou um uso desta como “câmara de ressonância” dos seus trabalhos? Talvez mesmo uma mistura disso tudo...

Esta outra publicação, The Tiny Tim, é um pequena encadernação que reúne trabalhos advindos de instalações, pinturas em larga escala, projectos escultóricos, desenhos de juventude, etc., datados de 1994 a 2003. Independentemente da materialidade original de cada uma das peças, a sua presença e/ou transformação em Tiny Tim passa a ter uma valência de “obra em papel”, passível, conforme o foco, de integrar as categorias de livro de artista, projectos de desenho ou mesmo o território alargado da banda desenhada contemporânea. Se bem que a qualidade narrativa, mesmo fantasmática, de algumas das peças não seja de forma alguma assegurada, e se noutros casos apenas o será pela convivência de um qualquer módulo textual (sobretudo contextual, explicativo), a sua equiparação com essa extensão diegética em Binnenskamers não é totalmente impossível. E há também pistas autobiográficas – ou de uma ficção total que cria a ilusão de ecos autobiográficos – que poderiam ser perseguidas... Além disso, o texto ou ensaio de Jan van Tienen aponta para uma série de pistas, falando-se de uma exposição literária”, algo que espelha o nosso desejo por histórias, um paradoxo, entre outras coisas.



A própria criação visual do mundo do protagonista não mima as estratégias habituais. Também se poderia dizer que Enthoven tem um interesse particular para com formas arquitectónicas (à la Chris Ware), mas menos numa concepção de edificação do que de dissolução. Os espaços em que o protagonista se move são absolutamente confinados ao mínimo, e mesmo numa sua travessia (quarto-corredor-chuveiro), não observamos tanto os percursos ligados em contínuo como os elementos isolados entre si. Não deixa de ser uma metáfora para as relações igualmente isoladas que vamos observando da sua vida. Existem algumas composições visuais no seu conjunto, as duplas páginas, que repetem padrões com pequenas diferenças, de um gesto ou de palavras, reduzindo as impressões do rapaz a meros padrões repetitivos. E quando, na fase final, há uma invasão da organicidade da mulher, e a sua possível influência sexual (ainda fantasmática), há também uma introdução de cor radical (um rosa pálido), a transformação do seu corpo na própria superfície em que emerge a fantasia, e depois uma gradual destruição das categorias espaciais e actanciais de todos os envolvidos.

O desenho de Enthoven é, quer nos projectos artísticos quer nos comerciais (ele é um ilustrador de algum sucesso e destaque internacional), pormenorizado em termos de texturas e padrões. Além disso, as figuras optam muitas vezes por uma espécie de poses dramáticas, recordando a dança ou a performance. No caso do livro, porém, ele opta por uma paciente e controlada representação com contornos negros e grossos, com as figuras usualmente muito pequenas e quase sem expressão, quase próximos de esquemas industriais de informação. Apenas na gradual penetração do mundo sensual – primeiro pela história de Paul, depois com a figura feminina, no contacto real e na fantasia alucinada – é que as figuras vão ganhando outra escala, outra cor, e outro registo representacional, que permite transmitir mais emoções e diferenciações no traço.

O texto, escrito caligraficamente, é por vezes difícil de ler (esquecendo o “problema” que será ler holandês), mas voga entre a conversa de circunstância, um registo quase-mecânico e banal, ou então diálogos que, vogando metáforas estranhas, entram num domínio de estranheza bem denso. Quando o protagonista e a personagem feminina entabulam conversa, esta anda em torno do gosto partilhado por ambos de fumarem charutos, e os pormenores trocados poderão, eventualmente, mas não da forma mais óbvia como se imaginará à partida, revestirem-se de sentidos de sedução. Pois há uma sedução a ocorrer entre ambos – quebrando a tal barreira anti-social do jovem homem -, mesmo que nenhum deles o pareça querer admitir à partida.

Poderemos ler o título do livro como “No quarto”, em termos literais, sendo binnen uma proposição. Isto dá-nos a ideia de interior, enclausuramento mesmo neste contexto. No entanto, a expressão no seu conjunto é usualmente empregue quando se quer dar conta de um assunto que se discute à porta fechada e não se pode revelar no “exterior”, como em reuniões políticas, administrativas ou outras. Nesse sentido então, o nível de secretismo aumenta e torna-se ainda mais vincado. Mas também ao mesmo tempo implica que haverá um qualquer nível mínimo de partilha, a existência de um mínimo grupo de interlocutores. E afinal, apesar da transparência desse quarto (transparência que afinal revela mais do que esconde, ou transformando o nosso olhar num acto inevitável de voyeurismo, e que chega a penetrar nas fantasias do protagonista – mas não, curiosamente, dos sonhos, apresentados apenas verbalmente contra o quarto a negro), apercebemo-nos de que os seus contornos e limites foram adoptados pelo homem em toda a sua vida. Aos poucos, vemo-los a dissolverem-se, mas mesmo no fim, talvez essa prisão seja já uma condição da sua existência. O livro de Enthoven acaba assim por ser mais uma espécie de investigação de um processo psicológico e imaginativo do que propriamente uma narrativa simples. Isto é, ele impede que o leitor simplesmente se veja reflectido numa trama narrativa, nos “eventos” que discorrem, nos episódios encaixados ao longo de uma cadeia de elos consequentes, mas obriga a que procuremos compreender a matéria mais subtil e matizada das emoções paradoxais que vivem a cada um dos nossos momentos de vida.

E a sua forma organizada e radicalmente nova das estruturas da linguagem da banda desenhada – possivelmente por não terem nada que ver com essas estratégias, mas por terem origem num ponto totalmente diferente, como a de uma entrega à prática do desenho livre, sem contaminações académicas, comerciais, processuais, funcionais, mas antes enquanto tradução de uma vontade conceptual – tornam Binnenskamers um livro possivelmente fundamental desta década.
Nota final: agradecimentos a Benoît Crucifix e Patrick Peeters, pela ajuda na compreensão do holandês. As imagens de melhor qualidade do livro foram colhidas do site do autor.

3 comentários:

topedro disse...

ao estilo habitual(contextualização, descrição e pistas de interpretação), que aqui não se furta a juízos de valor, uma útil divulgação deste autor (pena que não esteja incluído um link para o site do mesmo).
N:(mais uma picuinhice)o verbo "funcionar" deveria estar no singular..."Criar operações destas, quase de rotina, de eleger um campo contra um outro, quase nunca, se alguma vez, funcionam na sua totalidade."

Pedro Moura disse...

Olá,
Obrigado mais uma vez pela correcção, que já está feita. Quanto ao site, na verdade estava mesmo no fim, na nota final, mas coloquei também na primeira vez que surge o nome do autor.
Obrigado!
Pedro

Blogger disse...

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