7 de agosto de 2015

Ruppert et Mulot. Un cadeau/Le royaume (L'Association)

Desde os seus primeirospassos, integrando aspectos que tinham a ver com a performance e a integração das intervenções verbais ou interacção com os leitores/espectadores, que a dupla Ruppert e Mulot trouxeram novas realidades para o campo social, pragmático, editorial e estético para a banda desenhada. Existindo muitos autores de grande qualidade e até mesmo capazes de criar “obras-primas” do ponto de vista literário, visual, estrutural, holístico, são poucos aqueles que têm trazido novos protocolos de leituras, estruturação ou relação física. Chris Ware é um desses nomes, Ruppert e Mulot são outros. (Mais) 
Estes dois projectos são bem distintos entre si em termos objectuais, mas cada um a seu modo vem trazer novos modos de pensar a distribuição da sequência das imagens enquanto princípio organizativo, ou pior, essencial, da banda desenhada. Não estamos aqui perante a diluição ou a destruição da sequência, é verdade – como muitos casos que fomos debatendo neste espaço de quando em vez -, mas ainda assim há algo em Un cadeau e Le royaume que deveria forçar o leitor a ponderar o que realmente significa a ideia de “potencialidade da banda desenhada”, “originalidade” ou outras palavras quejandas, tantas vezes empregue um pouco de modo impressionista, opinativo e, quase sempre, desmerecido.


Un cadeau é um livro cuja forma é indubitavelmente um projecto original e complexo, e que transforma por completo o acto físico da leitura. O livro tem um número de páginas determinado, 32, mas elas estão todas coladas umas às outras. A única forma de “folhear” o livro é ir abrindo ou escavando cada página pelos picotados que estão preparados. Cada página “abre-se” de uma forma diferente, com picotados oblíquos, ou rectos, ou abrindo-se uma lingueta a meio, ou um triângulo lateral, páginas que se abrem em cruz, e assim sucessivamente. As páginas em si distribuem-se por momentos ou vinhetas relativamente usuais numa banda desenhada: os diálogos entre os dois amigos na morgue, momentos de silêncio ou somente interrompidos pelas onomatopeias da intervenção no cadáver, grandes planos sobre pormenores, e, no final, a imagem derradeira que constitui igualmente o objecto da procura inusitada. O “presente” prometido no título do livro.

A história em si resume-se tão-somente a uma anedota muito simples, até pateta. Mas a acção que estamos a testemunhar, para todos os efeitos, no interior da diegese, é uma dissecação de um corpo humano. Assim sendo, a acção de despicotar e ler cada página atravessa também toda uma série de camadas, e imita o avanço numa linha abstractamente vertical pelo corpo que é explorado pelo técnico forense. Desta forma, há um perfeito encaixe – em francês dir-se-ia “se lover” - nas acções da diegese e o comportamento físico do leitor. No final da história, descobrimos o tal objecto, e é como se devolvesse o olhar, não apenas do protagonista, mas do próprio leitor como se estivesse no interior da história. Ao olharmos o livro “aberto”, todos os fragmentos das páginas despicotadas elevam-se (para o fechar é necessário um esforço cuidadoso igualmente) e parecem uma couve-flor. Um presente desembrulhado no fundo do qual se encontra a recompensa. Livro, escultura, pop-up, há algo que mistura as regras do manuseamento deste objecto fazendo-o participar em mais do que uma realidade possível, dessas categorias.

Este é um livro cuja leitura ou descoberta só é feita uma vez, na sua verdadeira e paulatina e esforçada caminhada. Qualquer acto que se lhe siga, no mesmo exemplar, é já desbravado, impedindo essa completude. (Mais, tendo “folheado” e “fechado” este livro duas vezes, tememos que qualquer repetição do acto vá perigando cada vez mais a integridade, já titubeante, das páginas). A análise estruturalista, ou a narratologia clássica, criava a noção de uma negociação entre um autor implicado e um público implicado em torno de um texto específico, actual. Un cadeau parece incentivar ou feito à medida das novas abordagens cognitivistas, ou uma nova narratologia, em que se estabelece uma relação entre o(s) autor(es) reais e um leitor particular para se construir um texto implícito. Cada cópia é, então, um presente de Ruppert e Mulot para os seus leitores precisos, e o texto “objectivo” apenas surgirá nessa mesma performance de leitura.

Fisicamente falando, Le royaume parece (ou é mesmo) um objecto convencional: um jornal que, aberto, tem um formato A1. Cada spread apresenta-se sub-dividido em composições. À primeira vista, convencionais, explorando toda a espécie de combinações entre o regular e o semi-regular, na tipologia de Chavanne. À medida que lemos, entendemos que estamos a acompanhar várias histórias, ou pelo menos situações narrativas distintas e que não parecem partilhar pontos em comum: uma família numa viagem de carro, um grupo de bailarinos a tentar levar a cabo uma nova coreografia, um homem a construir um muro, um mecânico especializado em achatar carros e outros objectos, pessoas que atravessam uma escadaria. Mas cada sequência pode estar distribuída de modos diferentes na página, e as direcções, protocolos e eixos de leitura são totalmente estocásticos e livres. Esta distribuição, aliada a outros aspectos da(s) “narrativa(s)” fazem pensar que os autores estudaram talvez, ou também formas de composição típicas de jornais ilustrados ou de banda desenhada, em que num mesmo plano poderiam estar presentes mais do uma história, sob a forma de tira ou trecho, e passatempos gráficos, etc., explorando essas relações em potencialidades narrativas não-normativas. De resto, estas estratégias são tão variadas que permitiria ler Le royaume à luz de quase toda a história das narrativas gráficas e das escolhas de composição, desde Töpffer com as suas rápidas sucessões e iterações aos diagramas de Ware, passando pelos jogos da Oubapo, as pliages de Al Jafee, brinquedos de papel da mais variada proveniência, e outras experiências ainda mais radicais de formalismo e técnicas de impressão.

Além disso, apercebemo-nos rapidamente de que todas e quaisquer dessas personagens vêm a conhecer um fim qualquer, as mais das vezes violentos e absurdos. Porém, ainda a vida parece continuar para essas personagens, mesmo depois de irem contra um camião, ou serem cortados ao meio por um autocarro, ou serem atacado por pardais. Essa fluidez, sem interrupção, é ecoada pelo convite à leitura fluida de todas essas linhas direccionais das vinhetas, que ora descem verticalmente, ora operam curvas e ziguezagues ao longo da página, ora outras relações mais complexas ainda.

Mas desde a capa, e depois à medida que viramos as páginas, entendemos que as “almas” (será isso?) estão numa espécie de limbo, que parece o espaço sideral, fazendo-se acompanhar de objectos. Aliás, a discussão das almas é precisamente sobre o que constituirá um “objecto”, e que o torna elegível de ser levado para o “outro lado”. De todos esses objectos, a lua-orgia ou o asteróide de heroína são talvez aqueles que redefinem a ideia de “felicidade post-mortem”. O spread central do jornal é impresso duas vezes, para permitir ao leitor, sem que destrua as páginas (quase que se poderia dizer “ao contrário de Un cadeau”, se bem que nesse caso a “destruição” é condição sine qua non para a própria participação-leitura desse objecto), fabrique uma espécie de cone que, colocado na cabeça, permite ver o vórtice de passagem virtual entre um lado e o outro. A última página também convida a que se proceda a uma técnica bem complicada de dobragens, para aceder ainda a um outro plano espacial. Ou seja, também Le royaume permite uma forma de participação (similar, mas não equivalente, àqueles brinquedos que Chris Ware providencia nos seus livros de maneira a expandir o universo diegético da sua obra) que tridimensionaliza a narrativa, e a eleva a outros mecanismos textuais. Aliado a algumas das acções das personagens – jogar golfe sem taco nem bola de golfe, mas antes uma espada e uma bola de futebol, criar dodecaedros gigantes para depois explorar formas de trabalho e percepção reminiscentes dos estereogramas e do pantógrafo, - confunde toda a ideia de processos de trabalho gráfico (e de outras disciplinas).

Os diálogos e situações procuram criar momentos de verdadeira meta-textualidade, como as considerações sobre a alma, as ditas “experiências de morte iminente”, e até mesmo a leitura de jornais. Tudo isto vai contribuindo para as camadas e complexidades do objecto, que se vai revelando cada vez mais complexo. Adicionalmente, há espaços outros que são atravessados – escadarias, o local confuso onde se entrevistam as pessoas, outro onde se ditam as reencarnações – que remetem a outras formas de interpretar o limbo, citando-se mesmo a inscrição famosa cunhada por Dante das portas do Inferno várias vezes para reforçar essa ideia. Os momentos dramáticos da morte encontram-se sempre fora da visualização directa, isto é, têm lugar no espaço entre as vinhetas, mas não interrompem o fluxo aparentemente normal do comportamento (gestural, verbal, de atitudes, da situação em si) das almas, mostrando então uma “passagem” suave e sem complexidade dramática. A visitação de tantos processos de morte e de relações com ela tornam, e aquelas experiências transdisciplinares, tornam Le royaume – mas ainda assim convidando a que se estenda essa leitura a Un cadeau e, talvez, outras obras da dupla francesa - numa irónica tipologia dessa existência, como se estivéssemos perante um catálogo, à la Bouvard e Pécuchet, do que é possível ir fazendo.

Nota final: agradecimentos a Paulo Seabra, pela filmagem do livro e primeira edição do vídeo, e pela expressão “couve-flor”; a Frederico Duarte, pela oferta de Le royaume; a Gert Meesters, pela boleia a Haarlem.  

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