15 de dezembro de 2015

Quero a minha cabeça! António Jorge Gonçalves (Pato Lógico)

Este é o segundo livro do autor nas mesmas circunstâncias que Barriga da baleia, isto é, um livro a solo, dirigido ao público infantil, e numa mesma preocupação ou geminação material com os livros criados na Pato Lógico. Não se estabelecendo de forma alguma com Barriga da baleia para criar uma “série”, partilhará porém alguns princípios comuns com aquele outro projecto, começando pela protagonista, uma menina pequena que se isola da família para mergulhar numa viagem solitária e algo melancólica de, a um só tempo, procura de si mesma e de regresso à vida familiar com uma nova perspectiva. (Mais) 

12 de dezembro de 2015

Blog bd - Sous l'eau-Sous la terre/O professor Astrogato nas fronteiras do espaço. Dominic Walliman e Ben Newman/Aleksandra Mizielinska e Daniel Mizielinski (Rue du Monde/Mini Orfeu)

Estes dois imensos livros fazem remontar os seus princípios à famosa noção de Cícero, na busca de discursos de perfeição em que a tarefa da instrução se articule da forma mais entrelaçada com os movimentos do deleite. Isto é, estimulando o entendimento cognitivo sobre uma área qualquer de conhecimentos, procura-se ao mesmo tempo que haja um decisivo estímulo dos sentidos e de inclinar os afectos. (Mais) 

11 de dezembro de 2015

Amores de família. Carla Maia de Almeida e Marta Monteiro (Caminho)

Na vida diária, na linguagem quotidiana, muitas palavras são empregues de modo despreocupado, sem que o peso da sua etimologia ou do seu uso particular e informado por uma perspectiva específica tenha aí papel. Mas noutros contextos, elas distinguem-se, por meio de subtilezas ou concretudes teóricas, cujo objectivo não é tanto alterar a natureza do seu emprego diário, mas antes ajudar a pensar, em contexto especial, de modo mais cuidado. A área difusa a que se tem dado o nome de “Teoria dos Afectos” , um campo interdisciplinar que nasce da psicanálise mas se entrosa por outros territórios, distingue sentimentos, emoções e afectos. Estes últimos são como que reacções corporais pré-cognitivas, isto é, pré-pessoais, e são depois estudadas como categorias específicas. Os sentimentos estão associados, como que bordados, na tessitura do pessoal, do biográfico. As emoções, por sua vez, são sociais, aprendidas, construídas ou tecidas, nunca na solidão. (Mais)

10 de dezembro de 2015

O Dicionário do menino Andersen. Gonçalo M. Tavares e Madalena Matoso (Planeta Tangerina)

Nem sempre os dicionários têm simplesmente de funcionar como um espelho do estado da língua. Alguns actuam como prontuários e tomam mesmo decisões novas que depois ganham a força da lei. Esses podem por vezes “mijar fora do penico”. O Dicionário dito da Academia, por exemplo, define bengala como um “Objecto de madeira ou cana, em forma de haste terminada por um punho, que serve para apoiar a mão quando se anda”, deixando de lado todas e quaisquer bengalas feitas de outros materiais (que passam a ter de procurar outro nome), e centralizando a sua função na mão e não na marcha e todo o corpo (como que desviando todo o peso). Depois existem os dicionários especializados, das gírias, que nos ensinam a diferença entre um batoque e um bidé, os especializados profissionais, que nos identificam as alhetas e o molinete, e os etimológicos, que nos recuperam a palavra célico. (Mais).

Worse Things Happen at Sea/ Beyond the Surface. Kellie Strøm/Nicolas André (Nobrow Press)

Nem por acaso, havíamos falado de dois volumes “em biombo” que dois títulos da colecção Leporello da NoBrow nos chegaram às mãos. Um dos livros “colecciona” ataques de criaturas monstruosas nos altos mares, mostrando desde criaturas mais ou menos generalistas, como dragões, narvais e lulas gigantes, a figuras possivelmente específicas, como Cila, a tartaruga Zaratan ou o pássaro Gandaberunda, e mostrando navios de vários momentos da história, de gregos a vikings, de barcos mercantis holandeses a hidroaviões franceses, de paddle steamers a juncos chineses. O outro sobe uma montanha, de faces coberta de neve, do sopé ao pico, e desce pelo interior da terra, escavando um buraco até ao momento em que se encontram as profundezas do oceano. (Mais) 

8 de dezembro de 2015

Partida/Outono. André Letria (Pato Lógico).


Estes dois livros fazem parte de uma série, ou colecção, que Letria tem explorado na sua editora. Chamada Desconcertina, até à data os seus títulos partilham os mesmos princípios formais mas, mais importante, um mesmo espírito, que eleva estes livros de meros objectos de entretenimento infantil a instrumentos ideais para pensar. (Mais)

7 de dezembro de 2015

Private Eye. Brian K. Vaughan e Marcos Martín (Panel Syndicate/Image)

Em termos de género (literário), a descrição desta banda desenhada é bastante simples e, por essa mesma razão, não se está a ser redutor (a menos que partamos da ideia, não totalmente errada, de que a própria categorização é redutora, e levanta problemas em si mesma). Private Eye é uma novela (aqui, no preciso sentido da palavra, de concisão narrativa e concentração actancial) de ambiente de ficção científica de intriga policial. Até à data, surgiram dois volumes (digitais) perfazendo uma história. (Mais) 

5 de dezembro de 2015

Pacote da Big Planet/Retrofit Comics.

Se bem que a grande revolução da banda desenhada alternativa dos anos 1990 já tenha tido o seu momento de maior glória, não apenas no que diz respeito à própria produção, mas circulação, distribuição, apreciação crítica, mas de certa forma também no que diz respeito à criação dos textos em si, isso não significa que não existam momentos de quando em vez de maiores picos de novos agentes.  É provavelmente a distância e a idade que faz com que os entusiasmos se transformem em relação a novos títulos, autores e estilos, porque as coisas são vistas numa perspectiva mais alargada do que se se estivesse “inscrito” no momento (como se passou precisamente na década de 1990 para nós). Mesmo assim, é saudável tentar compreender algumas coisas mesmo que de uma forma necessariamente aproximativa e geral. É o que se passa com os livros produzidos pelas lojas Big Planet em parceria com a pequena editora Retrofit. (Mais) 

4 de dezembro de 2015

Las Meninas. Santiago García e Javier Olivares (Astiberri)

Poderíamos começar este texto da mesma forma que o anterior, já que também Javier Olivares foi alvo da nossa atenção há quase uma década, e que são apenas circunstâncias algo superficiais que nos colocam de novo frente a um seu trabalho. Por outro lado, este volume estabelece algumas linhas de relação com o de Auladell, menos por características comuns de pertença social do que pela forma como ambos entram em diálogo com a pintura ocidental. Auladell numa óptica de re-utilização dramática, Olivares e García numa de pesquisa. (Mais) 

3 de dezembro de 2015

El paraíso perdido de John Milton. Pablo Auladell (Sexto Piso)

Como é natural, acompanhar todos e quaisquer livros produzidos nos últimos anos de vários quadrantes geográficos e estilísticos não é possível, mesmo que haja razões para, ao nos interessarmos por um determinado autor, ser desejável acompanhar de maneira sustentada o seu percurso. Há quase dez anos, faláramos de La Torre Blanca, de Pablo Auladell. E apesar de nos cruzarmos aqui e ali com o seu trabalho de ilustrador e de autor de bandas desenhadas, foi preciso atravessar um deserto para ter a oportunidade de desembocar num projecto de grande fôlego. Este volume com mais de 300 páginas é uma adaptação livre do famoso poema de John Milton. Tendo começado num momento que se veria interrompido, e fruto de transformações internas, esta é a sua forma final. Desta feita então, Auladell empresta as suas figuras quasi-andróginas, pequenos títeres de grafite, para dar corpo a uma encenação que ronda a vontade e autonomia, o amor e a entrega, a glória e a solidão, a distribuição de poder e o sonho, ou até mesmo a mais profunda natureza humana, levada a cabo por seres que, em princípio, estariam longe das suas paixões. (Mais)