24 de novembro de 2019

Tequila shots. Claudio Yuge e Juan Burgos (Comic Heart)


Em muitos aspectos, este pequeno livro é, a um só tempo, um acto de nostalgia e de expiação para poder lançar um passo futuro. Através das várias informações (com algum excesso, talvez) veiculadas extratextualmente na publicação, as origens deste projecto remontam ao final dos anos 1990 quando os seus autores conviviam, na partilha da vida de estudantes universitários. Aliás, a própria história tematiza essa experiência, talvez mesmo enquanto exercício de auto-ficção, e integra em si mesma o mecanismo da sua origem. (Mais)

Por essa razão, os leitores, portugueses ou brasileiros, ou outros, de uma certa geração, entenderão a cultura slacker aqui presente, as referências culturais, musicais e até de comportamento, que poderão ainda assim ser também partilhadas por qualquer geração que tenha passado por essa fase confusa da primeira idade adulta. O livro centra-se em absoluto na equação dos dois protagonistas, os amigos Toni e Eduardo. E se bem que joguem no seu palco toda uma série de informações sociais – a dificuldade do emprego, a habitação, as relações fugazes –, isso existe enquanto massa secundária, e menos explorada, já que o foco está de facto na teia que une os dois amigos, enquanto amigos, e as frições, feridas e curas que lhes são subjacentes. A intriga é, portanto, linear mas não menos segura por isso. Outros aspectos são tipicamente wishful thinking de fanboys (mesmo que seja “verdade”, não é credível a transformação de uma colecção de comic books em monetização possível para a renda), mas é por isso que se falou em expiação: uma caterse de desejos e sonhos tardo-adolescentes necessários para poder avançar para uma outra fase das vidas.

O livro, criado por dois autores brasileiros, tem notoriamente um trabalho editorial (num livro aparentemente revisitado pelos autores até esta forma final), uma vez que a norma seguida é a do português europeu, mas que retira alguma da imaginada, em retrospectiva, brasileiridade, descontraída, musical e flutuante. Procura-se uma imediaticidade dos diálogos, mas é notória a estranheza dessa distância.

O desenho de Juan Burgos é claramente influenciado pelo traço de Steve Dillon, seguindo as assinaturas gráficas na estruturação dos rostos das personagens do autor britânico. Todavia, Burgos tem um sentido de texturização e de composição do espaço bem mais apurado e detalhado, desviando esse “estilo” para um território mais sólido (mas que também, por isso mesmo, recorda autores da geração a que se reporta a história, como os primórdios de Eric Shanower e Jason Lutes). Não conhecendo Londrina, a cidade em que se desvela este ode à amizade masculina, é ela própria palco sólido para a sua estruturação.
Nota final: agradecimentos ao artista, por alguns esclarecimentos e a boa conversa.

2 comentários:

tfnunes disse...

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