1 de setembro de 2015

Jan’s Atomic Heart and Other Stories e Tiger Lung. Simon Roy et al. (Dark Horse/Image).


Nos anos 1970 e 1980, antologias como a Métal Hurlant apresentavam uma linha muito particular de ficção científica nas suas páginas que procuravam agregar os princípios temáticos desse género – especulação científica, questões filosóficas sobre o desenvolvimento tecnológico e o seu impacto na civilização humana, propostas de novas realidades – com forças narrativas de outros géneros – características da epopeia, da aventura romântica, do western, e até mesmo da mais recente cultura psicadélica e “espiritual”. O historial desse desenvolvimento é complexo e alongado, e há outras plataformas mais competentes para o fazer, mas recordemos tão-somente que a banda desenhada não foi alheia a essa possibilidade, com, por exemplo, a saga de Valérian (escrita por Christin, neste aspecto mais importante do que o desenho de Méziéres), que influenciaria parcialmente Star Wars, Os náufragos do Tempo, de Forest e Gillon, O vagabundo dos Limbos, de Godard e Ribera, e a de John Difool, que procuraria misturar ainda mais as linhas “psicadélicas” e New Age. (Mais) 

Mas para além das histórias mais longas e que se tornariam mais famosas, publicavam-se igualmente toda uma série de histórias curtas que, de uma maneira ou outra, também marcariam essa época e experimentação. Estamos a falar de autores como Voss, Alias, Nicollet, Sérgio Macedo, Imbert e Glauckler, mas também os mais famosos Moebius, Bilal, Druillet, Corben, Jano, os irmãos Schuiten, Claude Renard, entre outros. Algumas delas teriam mesmo espaço na publicação periódica portuguesa Jornal da Bd, mas também, claro está, a Mundo de Aventuras (onde, por exemplo, saiu, a nosso ver, a melhor história da dupla Louro-Simões, uma curta envolvendo aliens e Hitler), já para não falar de outros títulos.

Não se tratam, portanto, de histórias de “hard science fiction” tais como as 2001 Nights de Yukinobu Hoshino ou Planètes de Makoto Yukimura, ou mesmo alguns dos títulos de Warren Ellis (Ocean, Orbiter, Global Frequency). Uma das características deste outro género, e a obra de Hoshino é particularmente densa nesse aspecto, é que todos os passos tecnologicamente determinados de forma decisiva são explicados num quadro verosímil, plausível ou aceitável, ao passo que esta outra abordagem é ligeiramente mais drástica e rápida: não torna a “explicação” num escolho à decisão do que se pretende demonstrar, e avança-se para o reinado da fantasia. Logo, não faria sentido perguntar aqui, nos livros de Simon Roy, porque é que as várias criaturas alienígenas conseguem articular uma linguagem fonética, quanto mais falarem inglês (ou espanhol), ou como se conseguiu “traduzir” as sinapses neuronais para um suporte artificial, e por aí fora. 

Já havíamos falado dessa reminiscência do género a propósito de Prophet, de Brandon Graham e colaboradores, entre os quais o próprio Roy, que nos traz agora aqui à colação  dois volumes, criados por ele a solo ou com apoio de companheiros. Jan’s Atomic Heart recorda-nos por demais precisamente essas mesmas histórias. O que, afinal de contas, nem sequer é uma ideia particularmente desviante ou inesperada, já que a história “Good Business”, de sete páginas, foi publicada precisamente na Heavy Metal. As restantes seis são inéditas (criadas em contexto escolar, de desafios como o do “24 hour comic”, etc.) mas encaixar-se-iam na perfeição num contexto similar. Além disso, a sua participação na antologia Island (Image), com Graham e outros, confirma a tendência. 

Estas histórias aliam-se entre si não apenas por uma questão autoral (todas a solo), mas por se concentrarem numa temática similar: a da ficção científica, cruze-se ou não este género com noções tais como a utopia, o absurdo, a ficção militar, o pós-apocalíptico, etc. Em larga medida, estes enquadramentos são apenas uma desculpa para o autor se entregar ao vultoso prazer de desenhar toda aquela sorte de frentes tão tipicamente obsessivas nos autores e leitores do género: mecha, criaturas biologicamente criativas e complexas, armamento, transportes, novos modos tecnológicos, novas relações entre os humanos entre si, ou com alienígenas ou com maquinaria. O que é curioso é que, em vez de ser aplicado numa saga épica, sideral, senão cósmica, como Prophet, a atenção prende-se particularmente com aspectos quotidianos e quase banais da vida das personagens: relações amorosas, como receber o seguro de um acidente, que fazer quando se divide espaço com quem não se gosta numa missão, como nos relacionarmos com os locais numa ocupação, etc. Temos aqui histórias com enquadramentos mais realistas, como “The Cosmonauts” até dramas quase-policiais, como a história que dá título à colecção, passando mesmo por pequenas fábulas quase-moralistas (“Homeward Bound”). “Bar Fight”, mais anedótica, dá o mote para a capa – que contém personagens de todas as histórias – e remete os leitores informados para Mos Eisley.

Tiger Lung é quase diametralmente oposto. Em primeiro lugar, pois em vez do futuro, olha para o passado longínquo. Tiger Lung é um nome de um xamã do Paleolítico Superior, e as histórias aqui reunidas espraiam-se num mundo geograficamente mais contido, mas não por isso menos “fechado” em termos de género ou de experiências fantásticas. Por isso a relação entre géneros é idêntica, já que o apoio na realidade é apenas a catapulta para uma fantasia mais eficaz. Roy, que aqui conta com o apoio de Jason Wordie na escrita de uma história, e nas cores de duas delas (inclusive a co-autorada), terá cumprido alguma investigação, mas sem tornar essa mesma pesquisa numa espécie de obsessão que pesasse em demasia o possível desenvolvimento, leveza, ou concentração da(s) história(s). Há uma preocupação por inscrevê-lo, ao protagonista, no conhecimento actual desse período histórico em termos de rituais para com os comportamentos sociais e elos familiares, hábitos de caça, estadia, recolha de alimentos, organização de actividades, movimento, de tratamento dos mortos, equipamento e até mesmo o que poderia passar por “artístico”.

Aliás, os autores criam uma espécie de mapa do território coberto pelas personagens destas histórias, para que entendamos as relações crono-tópicas dessas mesmas aventuras. Mas o mais importante encontra-se na dimensão fantástica das duas histórias inéditas. Ao ler-se “Beneath the Ice” na sua versão serializada – esta havia saído na antologia Dark Horse Presents, que até certo ponto cumpre o papel da Heavy Metal na sua época de ouro, mas com resultados muito flutuantes - , e até em contraste com todas as outras histórias da antologia onde o elemento maravilhoso fazia parte da textura narrativa, uma das grandes diferenças residia na ideia de que as histórias de Tiger Lung seriam “realistas”. Mesmo nos momentos em que o xamã-à-experiência se encontra na parte mais profunda da caverna, e luta contra o pai-zombie, e observa as almas dos deuses, poder-se-ia acreditar que se trataria de uma alucinação informada pela sua dieta, cultura própria e, quem sabe, substâncias especiais. É mesmo essa a “teoria xamânica” avançada por David Lewis-Williams para a origem e desenvolvimento da arte parietal (cf. The Mind in the Cave, a qual não parece ser uma fonte dos autores, e é posta em causa por outras observações e posições). Mas as duas outras histórias, “The Hyena’s Daugther” e “Song for the Dead”, confirmam a dimensão fantasiosa: os deuses, as criaturas transmorfas, a magia, existe de facto, e não é apenas uma projecção das crenças. Por outro lado, colocar as coisas deste modo é algo patético, uma vez que, se de facto alimentam essa crença, nessa mundivisão elas passam-se nesse mesmo mundo, não é? “Song for the Dead” é na realidade, uma belíssima história, e pungente, de um sentimento, emoção e dor que os seres humanos partilhariam desde sempre.

Tiger Lung reúne então essas três histórias, que a um só tempo se estendem, confundem e complicam mutuamente neste universo referencial. O mapa inicial do livro indica ainda uma série de outras histórias, pelo que fica a promessa de que virão a ser debuxada e apresentadas no futuro.

Seja aplicado a ficção científica ou seja na ficção pré-histórica, para além destas características de fantasia e concentração num “herói” relativamente solitário face ao mundo em seu torno, o estilo do desenho de Roy tem uma qualidade muito urgente, nervosa, pregueada, em que as linhas parecem excessivas nos contornos, e aparentam uma qualidade próxima do primeiro esboço a lápis que se lança no papel. Isso talvez explique a rapidez do seu trabalho. Jan's Atomic Heart é totalmente pintado a aguadas cinzentas, ao passo que Tiger Lung tem história cromaticamente ricas, com uma paleta limitada ou novamente em aguadas. Se essas características fazem ganhar novas dimensões, esta tal urgência e vivacidade do desenho de Roy não se perde. Já em termos de composição, é o segundo livro que, aqui e ali apresenta soluções um pouco mais arrojadas e adequadas à questão “psicadélica” aventada. Simon Roy pertence a uma nova geração de autores que são irmanáveis por este estilo “nervoso”, como James Stokoe (cujo Wonton Soup se inscreve naquela “retro psico-scifi”) ou Farel Dalrymple, e parece ser uma força na natureza pelo nível de produção.

Aproveitaríamos a ocasião para somente mencionar um outro livro, The Field (Image) escrito por Ed Brisson. Espécie de episódio da Quinta Dimensão, mais simples no tratamento, mais parece uma história curta estendida apenas no que diz respeito à acção. Não sendo um livro significativo sequer na sua área genérica particular, ainda assim poderá ser vista como uma experiência de solidez de Roy na sua capacidade célere de trabalho. Isto não quer dizer que seja desprovido de interesse em si mesmo, enquanto variação dos paradoxos das viagens no tempo, da temática de Groundhog Day (referido), dos Time Twisters de Alan Moore et al., mas o centro da atenção está mais no conflito em si do que na exploração das suas consequências.

Nota final: imagens de ficheiros digitais.  

1 comentário:

Blogger disse...

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