22 de fevereiro de 2026

Astérix en Lusitanie. Fabcaro e Didier Conrad (Hachette).

Ou, A insuportável ausência de espírito.

Sempre me pautei por um princípio, o qual, apenas mais tarde na minha tarefa enquanto crítico, aprendi estar expresso de forma clara por Jorge Luís Borges. “No hay poeta, por más mediocre que sea, que no haya escrito el mejor verso de la literatura, pero también el más desdichado”. Isto leva-me a ler sempre as obras todas de forma positiva, de mente aberta, buscando incessantemente por esse “melhor verso” e, a partir dele, poder estruturar uma leitura. Por vezes, na falha desse encontro, prefiro o silêncio, do que algo apenas construído sobre o desprezo. Todavia, há momentos em que isso é absolutamente necessário, numa espécie de procura por uma justiça, de reequilíbrio, e não deixar que apenas uma recepção febril e débil, ela também medíocre, prepondere num contexto. Mas a leitura deste livro, adiada por desconfiança e penosa na sua concretização, provou que era de facto difícil descortinar uma pedra branca que fosse numa corrente de desgraças. (mais)

20 de fevereiro de 2026

Duas raparigas nuas. Luz (Asa)

Num tempo em que a esmagadora maioria das editoras com algum poder financeiro, que apostam na tradução e publicação de títulos estrangeiros, fazem apostas algo débeis no que diz respeito à atenção para com obras e autores que criam algum tipo de novos haustos no campo da banda desenhada, e se vê sobretudo uma continuidade em tendências absolutamente esgotadas, com mais de 50 anos (em média), ou então em géneros de uma planura genérica desinspirada, a mera possibilidade de surgir algo relativamente distinto torna-se um relampejo. 

Luz é um autor que despertou para o mundo da banda desenhada de uma forma mais sustentada após o seu terrível testemunho dos atentados mortíferos ao Charlie Hebdo. Quando foi lançado Catharsis, demos conta desse livro, acreditando tratar-se de algo distinto, não apenas na carreira do autor, mas na própria linguagem que acreditamos ser livre e aberta da banda desenhada. Desde então, Luz tem criado outros títulos, uns mais interessantes que os outros (noutro local, discutimos Vernon Subutex, adaptação magnífica da obra literária homónima de Virginie Despentes). (mais)

4 de fevereiro de 2026

Lerbd - Living Will. André Oliveira, Joana Afonso, Pedro Serpa (Polvo)


Falámos deste livro quando foi lançado o primeiro fascículo ou comic book, numa auto-edição em inglês. Também demos conta depois no 3º volume, a propósito do seu lançamento, mas nessa primeira abordagem apontávamos desde logo a forma rara com que tínhamos nas mãos uma série com um protagonista idoso tratado como um ser humano completo, e não como uma mera caricatura da velhice, ou enclausurado numa figura cuja maior acção estaria enterrada no passado. Ao longo da série, algumas dessas expectivas alteraram-se, em relação à trama narrativa, mas não ao seu propósito. Agora que os materiais foram recolhidos num só volume, aumentado, e em português, é bem possível que muitos leitores o abordem como um novo texto. E assim pode ser lido, claro. (Mais)