
Sfar é formado em filosofia, e isso nota-se numa série de detalhes de algumas das suas obras, mas algumas delas estão mais cheias que outras. E há quase como que um eco de cada um dos seus livros nos restantes. É impossível não querer fazer uma imediata comparação entre o "gato do Rabi" e o "cão de Hércules", e tudo o que daí pode advir: a visão do mundo hebraica versus a grega, a displicência e superioridade de um gato versus a servilidade e justificação permanente do cão face ao amor irracional que sente pelo dono, mas também os aspectos que aproximam ambas as personagens, especialmente um certo "deixar andar". Apesar de eu falar de "grande aventura", não estamos perante nem os relatos heróicos de uma certa banda desenhada nostálgica, nem as viagens aventurosas da família Donald de um Barks, ou a pequena epopeia de um Bone (J. Smith)... Afinal Sócrates, o cão, pouco faz senão acompanhar e ver o que Hércules faz, comentar com o leitor e com outras personagens que atravessam o caminho - sobretudo as mulheres, num curioso diálogo entre dois dos "underdogs" da sociedade helénica. Não se esqueçam que a palavra grega para "cão" deu origem a uma palavra que também remete a uma atitude filosófica, os Cínicos (Diógenes é o mais famoso), e estaremos talez próximo do programa destas histórias que não só recontam os mitos e certos príncipios, como os recriam e mais!, os fazem viver de novo pois ainda nos ajudam a viver mais vida. 
10 de abril de 2005
Socrate Le demi-Chien. Joann Sfar & Christophe Blain (Poisson Pilote). Voltar à Grande Aventura 1.
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Pedro Moura
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5:13 p.m.
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Etiquetas: França-Bélgica
In the Shadows of No Towers. Art Spiegelman: (ainda): O Retorno da Memória.

Duas regras do jogo: Art Spiegelman (AS) não pensou In the Shadows of No Towers (SNT) enquanto livro, mas sim como um trabalho contínuo num formato muito particular, reminiscente da banda desenhada norte-americana das primeiras décadas do século XX, conhecido por "Sunday pages" (isto é, a total utilização de uma página de um jornal aos Domingos, a cores, por um artista de bd), no qual ele elabora 10 pranchas. Em segundo lugar, é preciso entender que trabalha no interior de um intervalo, cujos termos são, por um lado, a obsessão por uma imagem particular que lhe sobrou do directo testemunho do evento a que se chamaria "11 de Setembro": a torre sul, das Gémeas de Manhattan, incandescente, segundos antes de ruir; por outro, uma mão-cheia de "Sunday pages" particulares de várias séries clássicas que, no entender do autor, foram quase premonitórias do que viria a acontecer, e as quais são citadas através da inclusão das personagens "amalgamadas" noutras, mais próximas do autor (quando não amalgamadas nele próprio). (Mais)
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Pedro Moura
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2:25 p.m.
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Etiquetas: Autobiografia, EUA
Short. Histoires courtes en bande dessinée #1. AAVV (Actes Sud Bd)

Uma vez que tem um número 1, presumo que continuará. Parece feito ao estilo americano, com material inédito e édito, francófono (Michaël Sterckeman, a colaboração fabulosa de Gilles Tévessin e Romain Multier) ou doutras paragens: Israel (Rutu Modan e o escritor Etgar Keret, já conhecidos dos leitores das edições Actus Tragicus), Itália (com um dossier sobre Igort), Estados Unidos, Suécia e Japão (com um interessante trabalho de Imiri Sakabashira, colaborador da incontornável mas impossível de apanhar Garo, e seguramente filho de Tsuge Yoshiharu, com recorrência a drogas psicotrópicas). A Actes Sud lançou-se na banda desenhada com outros volumes também, e esta antologia muito diversificada revela os seus propósitos em publicar uma nova prosa, também presente no resto do catálogo. Histórias sóbrias, estruturadas, inteligentes, mas sempre com o ingrediente x da melhor literatura alternativa. 
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2:21 p.m.
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Etiquetas: Antologias
Chris Ware Monographics. Daniel Raeburn (Laurence King)

Editor de uma das mais interessantes revistas independentes dedicadas à bd norte-americana , a Imp, e que lembra trabalhos de fanzinistas e carolas dedicados à causa, Daniel Raeburn assina os esparsos textos que surgem neste volume de uma colecção que pretende fazer um retrato geral de alguns artistas gráficos. O livro dedicado a Chipp Kidd é quase o mesmo - fora o conteúdo. Para quem tem tudo do Ware e mesmo o Imp a ele dedicado, não há nada de novo em termos de fundo, e para os que querem descobrir, é um pouco um catálogo à vol doiseau: ainda assim é um belo volume para os maníacos e coleccionadores. 
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2:17 p.m.
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Etiquetas: EUA
Le Golem. Dino Battaglia (ed. fr. Mosquito)

Faz parte da estrutura de fundo das edições francesas Mosquito - que lhes deve soar tão estranho como Mosquite nos soaria a nós - a reedição de vários autores italianos da escola dos anos 70, a saber: Sergio Toppi, Micheluzzi e Dino Battaglia. Alguns destes autores são conhecidos em traduções portuguesas, espalhadas em edições variadas, usualmente de adaptações de clássicos literários ou versões em bd da História Universal. Este é um dos últimos a ser editado, mas é interessante que o seja num tempo em que muitos autores contemporâneos retomam estes temas do fantástico e da literatura dita gótica, pelo que é sempre bom rever as soluções de mestres de antanho... Se bem que as adaptações sejam sempre um pouco redutoras, ao pé da letra, chãs e até mesmo problemáticas em termos de interpretação - discutível, eu sei - e usualmente eu não ser nada nostálgico ou conservador, cotejando esta edição a trabalhos mais recentes (por exemplo, os do Breccia filho), sinto que o que se faz hoje, em termos de desenho é chuva sobre o oceano... 
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2:16 p.m.
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Best of American Splendor. Harvey Pekar e amigos (Ballantine Books)

Para quem não acompanhou a tempo ou a par e passo a edição da publicação homónima, esta antologia é perfeita, parece-me, como introdução... Trabalhos dos mais amigos e longos colaboradores, dos quais se destaca Frank Stack, mas apresentando também trabalhos de artistas mais recentes e mais famosos, como Sacco, Dean Haspiel e uma prancha de Jim Woodring (do onírico Frank). Tirando a capa, não apresenta qualquer das colaborações com Crumb, que já tinham sido alvos de uma edição separada. Mas se o título se arroga de The Best of, levanta a questão se o é mesmo. 
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Pedro Moura
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2:15 p.m.
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Etiquetas: EUA
Cendre. Tonino Guerra e Lorenzo Mattotti. (Estuaire)

Não é banda desenhada, mas um livro ilustrado. É uma pequena novela do mais-que-profícuo T. Guerra (três títulos traduzidos na Assírio & Alvim), colaborador de Antonioni e Fellini, Tarkovski e até Vicente Jorge Silva. Curtos episódios que quase servem de textos poéticos separados, sobre um mundo pós-apocalíptico, no qual os homens procuram soluções que lhes permitam pequenos prazeres. Quanto a Mattotti, parece ter reduzido o seu trabalho a meras glosas prosaicas do que se descreve nas palavras. No entanto, é um belo livro para os cultores do objecto. 
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2:14 p.m.
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Etiquetas: Itália
New Frontier. AAVV (DC Comics)

Como é que me atrevo? Bom, porque uma vez que também por cá existem Novas Fronteiras (título de um discurso de J. F. Kennedy), esta é uma série deveras interessante para os aficionados de super-heróis, mas que cresceram e possuem massa cinzenta e outros hábitos culturais, com especial destaque ao cruzamento de referências. Se bem que pode ser incluindo na já extensa lista de filhos de Watchmen, em termos de reescrita do Universo da DC e sua integração num tempo histórico real, ainda assim merece a nossa atenção, parece-me, pelas soluções apresentadas, pelas sucessivas homenagens a grandes nomes que contribuíram para a sua edificação, e outros pequenos detalhes que se assemelham às recompensas de quem folheia os álbuns Onde está o Wally? 
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Etiquetas: EUA
Le Photographe, 2 volumes até à data. Guibert, Lefèvre, Lemercier (Dupuis)

A série de álbuns Le Photographe, colaboração estreita entre um fotógrafo, Didier Lefèvre, e um autor de banda desenhada, Emmanuel Guibert, reconta as viagens do fotógrafo acompanhando uma missão dos Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão, nos anos 80. Curiosa alternância: cada prancha (página) apresenta tanto vinhetas desenhadas como fotogramas, fotografias, provas de contacto, algumas mesmo riscadas, como na escolha prévia à publicação. Num diálogo singular entre fotografia e desenho, surgem toda uma série de questões, no que diz respeito à complementaridade ou oposição das duas linguagens, sobretudo no seu uso diegético, a sua percepção solitária e combinada, os seus propósitos, se uma está ou não em função da outra, que funções distintas assumem, que hierarquias se estabelecem, etc. Nalgumas pranchas parecerá mais simples o diálogo que estabelecem, noutras mais complexo, mas é preciso ver com muito mais atenção do que se fosse apenas uma em uso... Passível que é fazer uma narrativa com apenas um dos meios (fotografia ou desenho, isto é, foto-novela ou banda desenhada), que se passará ao misturá-los? Tornar-se-á a linguagem mais complexa ainda? E estaremos perante uma simples mistura? Ou algo bem mais múltiplo? Bom, a resposta será o leitor que a construirá aos poucos e com a leitura deste álbum que, para mal ou para bem, é diverso.
(aguardem mais desenvolvimentos, após encontro com Guibert, por ocasião do Salão Lisboa de 2005)
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23 de novembro de 2004
UM FANZINE É...
Um fanzine é, acima de tudo, um espaço de liberdade. Um espaço no qual os intervenientes têm toda a liberdade de expressão possível. Isso porque o fanzine, assim como outros meios de expressão existentes (nada vive sozinho), vive à margem dos vários campos de poder, sejam estes económicos, políticos, e outros, inclusive os das hegemonias culturais, insistentes em hierarquias de gostos e ou processos de criação. Isto não quer dizer que este ou aquele autor, ao criar um fanzine, não esteja a responder aos campos da criação cultural - ao fazer um trabalho de género, que procure se referenciar em trabalhos de outras pessoas, que procure chegar a um público mais alargado ou mais elitista - ou ao económico - como "trampolim" de chegar a publicações mais comerciais, ou tentando competir com elas - ou ao político - sobretudo no que diz respeito às publicações "de intervenção" ou com grande expressividade social. (Mais)
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