Mitimota e Bruma não são a mesma coisa. Ambas são a reunião, num só volume, de um conjunto de pequenas bandas desenhadas curtas, particularmente heteróclitas entre si, publicadas pela autora Amanda Baeza ao longo de anos em variadíssimas publicações, em países, línguas, formatos, estilos e circunstâncias diferentes. Sim. E não é impossível encontrar, de um título para o outro, pequenos temas recorrentes, trejeitos ou facetas comuns, uma maneira de encarar o acto de criar banda desenhada livre, sempre livre.
A autora tem-se especializado, digamos assim, em histórias curtas, por vezes apenas um par de páginas, e não tanto em fôlegos mais longos, ainda que haja notícia de um projecto no forno com essas características há um tempo. Ainda teremos de esperar por essa nova lavra. (Mais)
Algumas destas histórias terão sido lidas pelos leitores
mais a tentos e que conseguem seguir as respirações da edição internacional
mais alterativa, ou até a pequenos projectos editoriais nacionais menos
convencionais, como o da antologia/livro A paz, o pão, habitação, saúde,
educação, apresentado pela Universidade do Minho e coordenado por Tiago
Manuel e Rui Ramos. Outros, poderão ter visto alguma da arte original deste
livro na exposição Flexágono, integrada no Fólio de 2025, comissariada por
mim.
É algo que se costuma dizer à boca cheia de que qualquer
obra tem sempre um qualquer grau de autobiografia da parte dos seus autores,
mas esses graus são muito variáveis, mais ou menos detectáveis, com ou sem
acesso à vida pessoal dos mesmos, sem misturarmos prioridades de intimidade e
distância crítica. O que importa é que a leitura desvenda essa presença
de traços da vida própria, não entrevistas ou confissões alheias. Há histórias
aqui que falam de amizade, através de alegorias não-humanas, e como a violência
externa pode reforçar esses laços, ou como basta a consciência da presença de amigos
para assegurar conseguir ancorar-se a existência. Ou demonstrações de amor e
paixão, rasgada por distâncias ou negações. Outras são cartas abertas a conflitos ou
revoluções, a respirar, se calhar não tanto de “nações” como de povos, de
conjuntos de pessoas, sofrendo crises ou crimes hediondos. Ou podem falar
simplesmente de um carreiro de formigas ou uma brincadeira de infância, mas que
revelam o verdadeiro valor da partilha. Da divisão enquanto aproximação.
Acima de tudo, há um permanente assunto, que tem a ver com o da identidade, sobre que ingredientes são necessários para a assegurar– de forma obrigatória sob o olho da legalidade, ou da inscrição cultural imposta pelos agentes auto-eleitos desse limite, ou mais livres na vida corrente. Conhecerão alguns leitores um assunto que foi discutido em torno da pessoa de Baeza, que podemos apresentar como “portuguesa-chilena”, onde esse hífen faz um trabalho policial tremendo, e que já argumentámos dever ser visto não tanto como sinal matemático de redução, mas sim de acrescimento, de âncora para algo mais.
Esse assunto torna-se quase diáfano na história “Nem de cá,
nem de lá” mas também em “1 + 1 = 0” (e, atenção, pouco importa aqui a
cronologia precisa das histórias, pois estes embates não serão seguramente
pontuais, mas sistémicos e contínuos). Diria, porém, que se essas histórias
são, respectivamente, um apontamento diarístico e acusatório de um trauma (e é
um trauma, pois é uma afirmação violenta dizerem-nos que não somos algo que
somos, só porque quem afirma não sermos pensa ser o juiz dessa mesma
identidade) e uma tentativa de compreensão dos mecanismos de recusa, é
precisamente “miti-mota” que parece ganhar distância e descobrir como explorar
o aspecto positivo desse processo de “metadização” da pessoa humana.
Uma pequena caixa de jóias, brilhantes e coloridas, várias e
nem sempre doces, mas que abre um ramalhete de possibilidades.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.




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