16 de maio de 2012
Futuro Primitivo. AAVV (Chili Com Carne)
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Pedro Moura
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15 de maio de 2012
Dois títulos da BD Cul (Requins Marteaux)
Não é propósito deste post discutir - nem teríamos capacidade para tal - se a pornografia pode ser vista em algumas, ou todas, circunstâncias como arte. Nem nos interessará, para já, as suas implicações sociais, culturais e políticas. Mas não haverá dúvidas de que todas as formas de arte (a pintura, o desenho, a fotografia, o cinema e até a música) podem ser empregues enquanto meios, veículos, para obras cujos conteúdos são pornográficos, isto é, com elementos que produzem uma interacção muito particular nos seus leitores, que poderá ir desde um afluxo sanguíneo a zonas particulares, aceleração dos ciclos cardíacos e de respiração, secura nuns lados do corpo e humidade noutras. Evitemos a armadilha do “erótico” nestes casos… Falamos de hardcore, 1º escalão, foco centralizado e planos aproximados.
A banda desenhada não é alheia à pornografia, como saberão os leitores das Tijuana Bibles, e de tantos nomes modernos. A interactividade permitida pela leitura desses livros é bem notável. A Requin Marteaux abriu uma nova colecção de banda desenhada pornográfica - com vários graus de permissividade e satisfação -, intitulada com o trocadilho BD Cul, utilizando aspectos paratextuais quer reminiscentes de livrinhos de banda desenhada barata, humorística e pornográfica (quando não ambas ao mesmo tempo) quer de livros pornográficos (de fotos ou texto). O seu formato de bolso, possível de ler com uma mão apenas, quer para o leitor masculino quer para o feminino (se bem que os temas nos pareçam ser mais dirigidos a um público masculino), apenas o confirma.
Estes livros, portanto, devido aos “sinais exteriores de interactividade” que podem proporcionar, não devem ser lidos em público com peças de roupa leves…
A personagem de um urso antropomórfico adolescente, que recordará uma longa tradição da banda desenhada infanto-juvenil europeia e norte-americana, garridamente colorida, faz parte do instrumentário gráfico habitual deste autor. Os seus livros, alguns dos quais dirigidos a um público mais jovem, por vezes mesmo infantil, confirmam o seu território, mas já havia surgido nas páginas da Ferraille Illustré uma “versão”, digamos assim, da mesma veia mas desviada para conteúdos adultos. Navarro, quer nessa atitude quer mesmo no aspecto visual, recorda-nos Mattioli, sobretudo pelo seu Squeak the Mouse (as secções triple-x, não as gore). Ainda que repitamos a ideia de que não existirá forma livre de conteúdo nem conteúdo que não seja transmitido por uma forma, e a sua divisão seja apenas um exercício analítico de abstracção, é quando nos confrontamos com um “hábito” - de encontrarmos certas “formas” empregues em certos “conteúdos” - transformado que percebemos como poderá funcionar a ironia, o desvio, a paródia, etc. E Navarro, quando cria pequenos contos pornográficos com estas suas criaturas, trilha um caminho que nada tem a ver com os mais costumeiros “porno”. Há uma dimensão de humor, que tampouco é algo descurado na história da pornografia, desde Everready Horton a Garganta Funda.
Não há muito a dizer das estruturas de banda desenhada, uma vez que cada conto pequeno é relativamente linear, simples e directo. A exploração que estas literais bandes dessinées desejam é a da colorida e desabrida mente - e acção - do jovem Teddy. E, eventualmente, o retorno dos seus leitores, típicos cultores de uma ironia pós-moderna, consciente da história da banda desenhada, dos seus instrumentos, géneros, modos de distribuição, etc., a um momento no seu passado, correspondendo ele ou não a uma realidade.
Não estamos seguros se este livro, muito diferente em forma e espírito do de Navarro, foi publicado antes ou depois de La Famille, mas é certo que a sua produção é contemporânea pois partilham ambos a mesma “anedota” de partida: uma adolescente, Magalie, com “protuberâncias mamilares deveras excitantes” (citamos Zappa) é impedida pelo pai de fazer uma operação médica de redução. Isso prende-se a uma crença primitivista do pai, que coloca a sua família num cenário idílico e rural, com apenas alguns rudimentos permitidos pela tecnologia (o tractor é a única excepção). A capa e o título remetem a um aparente melodrama na paisagem da Casa na Pradaria…
Magalie, porém, acaba por adoecer e é examinada por um médico. E depois por um especialista. E outro, e outro. Cada um deles, porém, abusa sexualmente da moça, que é ingénua ao ponto de não se aperceber que o que fazem não são exames médicos… A exploração pornográfica de todo o livro, na sua esmagadora maioria, são as cenas em que Magalie é violentada pelos médicos. Estamos em crer que, pela maneira como o autor coloca essas imagens disponíveis ao leitor - que é sempre cúmplice nos crimes perpetrados no livro, uma vez que é no seio dessa violência que encontrará (eventualmente) a fonte do seu próprio prazer -, elas pretendem pôr em causa o suporto “mecanicismo” da pornografia: as imagens são muitas vezes isoladas em vinhetas de página inteira, com um ligeiro tratamento de distribuição das gradações de cinzento, dos brancos e negros, diferente do habitual, sem qualquer tipo de texto. Isola-se assim o crime.
Os desenhos são feitos a linhas e manchas, a que nos habituámos já, quase numa forma de estruturar rapidamente a leitura. A própria composição utiliza um ritmo quase contínuo de duas vinhetas horizontais, se bem que possam ocorrer subdivisões e vinhetas ocupando toda uma página, ora quebrando os movimentos ora dramatizando um momento. O formato desta colecção não é alheio a essas escolhas, mas uma comparação com La Famille mostrará que Vivés não segue fórmulas, mas procura alicerçar os melhores instrumentos conforme o projecto em si. Essas velocidades a que aludimos não deixam de estar presentes no livro de Navarro, e apesar de existir essa mesma tradição na Europa, não nos deixamos de interrogar até que ponto a influência da mangá terá aqui algum papel.
Estes dois volumes, de contraposições leves, são ainda assim livros a manipular com cuidado.
Nota: agradecimentos a Richard Câmara, pelo empréstimo do livro de Vivès.
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Pedro Moura
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14 de maio de 2012
Mystery Park. André Ruivo (Chili Com Carne/The Inspector Cheese Adventures)
Numa descrição sumária, poderemos dizer que esta é somente uma colecção de desenhos soltos. Todavia, isso não é suficiente para captar a intensidade que eles geram. O acompanhamento do blog do autor faz-nos entender que este livro acaba por criar algum grau de coerência ou procura de consistência no interior de uma maior diversidade de métodos de trabalho. Afinal, este livro apenas apresenta desenhos a linha preta, mas encontramos noutros locais desenhos utilizando marcadores, lápis de cor, ou até ferramentas digitais, já para não falar das questões de figuração, havendo episódios de abstracções geométricas que põem totalmente de lado as alucinações figurativas usuais. Mas os títulos das “secções” fazem com que nos inteiremos da vontade de criar séries, e os princípios organizadores que isso implica.
Podemos imaginar que partilhamos com o autor/narrador/graphiateur um mesmo intervalo de observação num parque, vendo estas personagens a passar-nos à frente dos olhos, e ao captá-las no desenho, transformando-as com os instrumentos gráficos, estarmos a inscrevê-las num outro jardin clos, o do caderno, e assim criar-se uma qualquer narrativa cheia de perguntas: quem são, que fazem, onde vão, como se relacionam?
Mas as respostas a todas essas perguntas têm a mesma resposta: desenho.
Nota: agradecimentos ao autor, pela oferta da publicação.
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Pedro Moura
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13 de maio de 2012
Urban Sketchers em Lisboa - desenhando a cidade (Quimera)
Este volume contém comunicações de alguns autores, e um ensaio mais alongado de Ruth Rosengarten, o qual, como se espera da autora, teoriza e integra a experiência dos diários gráficos numa prática mais alargada das artes plásticas mas igualmente das disciplinas da observação e do pensamento (como escreve mais à frente Manuel Sampayo, não sem razão, “não se vê até se desenhar”, pg. 95). A digestão deste ensaio de contornos filosóficos é complexa e não poderemos jamais fazer-lhe justiça neste espaço, obrigando ele a uma dedicação exclusiva. “Desenhar directamente a partir de um ponto imerso no fluxo da vida”, escreve a ensaísta (pg. 24). Não poderá essa frase ser vista como um mote desta prática, em que o fluxo é mais capital que o ponto?
Se bem que o gesto inaugurado em Diários de Viagem tenha desde logo mostrado como uma multiplicidade de estilos e aproximações a esta disciplina mutável e expandida podia sempre mostrar também uma espécie de respiração conjunta, a repetição dessa ideia em relação a este livro ganha contornos muito especiais pelo facto da circunferência de acção e intervenientes aumentar substancialmente. E o que vemos, no balanço final desse conjunto, não será tanto um conjunto de desenhos - ou somente - mas um conjunto de pessoas. Como escreve António Jorge Gonçalves, referindo-se sobretudo ao seu projecto alargado Subway Life (e não somente ao que foi publicado), “Olhando agora para esses mais de 3000 desenhos que fiz, sabem quem é que eu reconheço? Reconheço-me a mim” (11).
São algumas das perguntas colocadas por todo este volume. E Lisboa parece ter matéria basta para responder a tudo, como Molly Bloom, com um “sim”.
O diário gráfico em Braga. Eduardo Salavisa (Fundação Bracara Augusta)Aproveitamos também esta ocasião para apontar um outro título de Salavisa, a solo. Este pequeno volume integra-se numa colecção de livros dedicados à cidade de Braga, repescando textos clássicos das letras portuguesas, históricos e modernos, ou relatos feitos por autores estrangeiros, ou coleccionando aspectos variados da vida da cidade, por ocasião do seu bimilénio, comemorado em 2000. O convite a Eduardo Salavisa nasce de uma primeira abordagem do autor - que não dispensa desenhar em todas as ocasiões que lhe forem tornadas possíveis e imediatamente partilha os frutos desse trabalho no seu blog - e depois já repetindo a visita e a tarefa com o intuito deste caderno. É notável a forma como as costumeiras capas desta colecção - que apresenta um rectângulo central com o título e o nome do autor num campo uniformemente colorido, rodeados de uma tarja com um padrão floreado no mesmo tom (algo reminiscentes da belíssima Insel Verlag) - encontram-se aqui subsumidas ao projecto editorial do próprio Salavisa, havendo uma sobrecapa que é um fac-símile da capa do caderno em que o próprio autor terá feito os seus desenhos de Braga. Temos aqui, então, uma outra instância de entrosamento das pesquisas de cada projecto.
Se a imagem de uma praça, uma esplanada, ou uma rua movimentada leva a que Salavisa capture esquissos de pequenos fantasmas feitos de uma meia-dúzia de linhas, “xs” que marcam o lugar de quem passou, também a captura dos monumentos de pedra dispensam as linhas seguras do retrato, dito “fiel”, e preferem imitar antes os movimentos dos olhos e dos dedos que afagam as formas. A imagem das cornijas das janelas do barroco Palácio do Raio, por exemplo, mostram um engalfinhar de linhas que é, paradoxalmente, preciso em relação ao próprio espírito barroco e à técnica de apreensão do autor.
No entanto, sem querer nem desprestigiar os desenhos de Eduardo Salavisa em relação a um corpus histórico (ou contemporâneo) nem querendo tornar patética uma suposta superioridade da “liberdade de criação e interpretação” das obras contemporâneas a esse mesmo corpus, essa velocidade moderna aqui presente é a sua via específica. Com esses desenhos, Salavisa mostra o seu modo de percepcionar, de reagir, de reencontrar, para nós, o fluxo da vida.
Nota: agradecimentos a Eduardo Salavisa, pela oferta de ambos os livros.
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Pedro Moura
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2:01 p.m.
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12 de maio de 2012
Maurice Sendak. 1928-2012.
Uivemos.
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Pedro Moura
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8:39 a.m.
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11 de maio de 2012
Olympe de Gouges. Catel e Bocquet (Casterman)
Os autores evitam fórmulas simples de construção desta biografia, sobretudo no que diz respeito à posição, e acção, política assumida por Olympe. Não vemos nenhuma “cena primal” ou “chocante” que a tenha alertado para esta ou aquela realidade, a qual passaria a ser sua missão corrigir. Em vez de uma abordagem psicologizante, tão-somente nos é dado ver a sua educação, o quadro social em que vive, as pessoas com quem vai contactando, as circunstâncias nas quais se vai encontrado e que tanto a vão moldando como a ajudam a moldar o que pode da sua vida, assim como as discussões, descobertas e desvios que lhe são garantidos pela educação, pela leitura, pela escrita, e pelas - exploradas no livro - três vias de exposição do pensamento na esfera pública: as discussões de salão (a cena mais “famosa”, digamos assim, é um diálogo entre Condorcet e Benjamin Franklin sobre a escravatura), a escrita panfletária, mais ou menos anónima e muito respondida, e o teatro, que é outra das paixões e conquistas seguidas pela protagonista.
A estratégia dos autores para ir dispensando pequeníssimas informações sobre o quotidiano, os negócios, as ruas, o ambiente e a vida intelectual torna-a num tecido contínuo - a rivalidade entre o “austero Rousseau” e o “epicurista Voltaire” (pg. 53), por exemplo, matiza a era, com Olympe nutrindo um pequeno ódio pelo autor de Candide devido às posições em relação a Jean-Jacques Lefranc, Marquês de Pompignac, que é apontado na obra como seu suposto pai (apesar de jamais o ter assumido publicamente), outra das informações que nutre a vida da protagonista. De resto, a “moderação moral” de Olympe, que a leva mesmo a tentar interceder pela vida de Luís XVI, é, toda ela, rousseauniana, levando à letra as lições da Nova Heloísa em toda a sua vida.
A focalização quase sempre segue a própria Olympe, mas há momentos em que alguma atenção é dada à perspectiva e emoções de outras personagens. Alguns capítulos são curtíssimos e/ou apresentam-se como uma colecção de pranchas singularizadas num pequeno diálogo ou evento, e apenas a sua colação fará emergir o sentido maior, nalguns casos mesmo fazendo-se uma espécie de mini-história (como no caso do nascimento e morte da bebé Julie, ou a escrita, estreia e sucesso da sua peça teatral Le Couvent, ou les vœux forcés). Todavia, como já havíamos debatido anteriormente, o aspecto axial é mesmo a importância desta figura na emergência de um pensamento contrário à situação do seu tempo no que dizia respeito às liberdades das mulheres (quase todas subsumidas às vontades ora dos pais ora dos maridos) e à questão da escravatura, que Olympe tomava a partir da sua perspectiva humanista. Este prisma é crucial. No diálogo entre Condorcet e Franklin que é aqui retratado, não será por acaso que um dos pais-fundadores dos Estados Unidos seja algo cínico quando diz que a sua luta abolicionista seja conduzida “por um ângulo económico…/ Quantos escravos houver que trabalhem sem pagamento, são cidadãos que não gastam o seu pagamento”. Isto dito em 1777, anos depois de ter liberto os seus próprios escravos. É claro que não se procura aqui um simples confronto entre duas posições ou justificações, já que a cena com Franklin se resume a duas páginas, e as relações de Olympe com esta matéria se desdobram em diálogos, relações humanas, as suas primeiras peças teatrais, etc.
De resto, esta é de facto uma questão complexíssima que não poderia ser justificada por uma biografia de uma só pessoa, mesmo que por vezes os factos da rivalidade política que ditam a sorte destas personalidades se vejam baseadas, senão subsumidas, a porfias de carácter artístico e literário. Seja como for, procura-se entender a rede maior das relações na polis, pois afinal de contas, mesmo a ideia do abolicionismo depreende uma posição de poder jurídico de quem o pode fazer, e não da vontade do ser humano escravizado - que muitas vezes não o é, mas mera mercadoria, propriedade, investimento. Quanto à democratização do papel social da mulher - feita depois da conquista do voto para os actores e os judeus (recordando o que se disse no início, da conquista sempre a passos curtos pelo interior de diferenças)- , a escolha da frase de Olympe de Gouges, retirada da sua Declaração, na contra-capa é avisada: “A mulher nasce livre e vive, no direito, igual ao homem. A mulher tem o direito de subir ao cadafalso; ela deve ter igualmente o direito de subir à Tribuna” (artigos 1 e 10). A escolha é avisada por vários motivos, não só por ser a sua herança no pensamento feminista, democrático e humanista, mas - marcado pela presença do desenho de uma guilhotina - por ter marcado também o seu fim, no período tirânico, assassino e mesmo demente de Robespierre (que Olympe conhece e imediatamente forja antagonismos inevitáveis), surgido da apaixonante Revolução Francesa. Os últimos capítulos, na verdade, mostram muitos dos paradoxos e resvalamentos advindos desse processo, dos factos políticos até ao uso da própria língua. As tricas e as alianças particularistas que levavam a sucessivas atomizações dos “partidos” e “clubes” (Olympe era Girondina) minaram o bom porto da Revolução e ditaram, em parte, a sorte desta mulher, que se oferecia a escaramuças polemistas sem pejo. Algures no livro, Olympe sabe que é vista como “uma agitadora intempestiva e deslocada”. Infelizmente, nalguns círculos actuais, ainda hoje seria vista assim. Mas mesmo quando o perigo assume cada vez mais um aspecto seguro, e um amigo lhe diz que o seu “estatuto de mulher não [a] protegerá ad vitam aeternam”, ela responde, imediata, segura, e enclausurando - precisamente pelo perigo que essas palavras acarretam - a sua lição: “Então isso significará que finalmente me entendem e as minhas palavras fazem esquecer o meu sexo!”.
Nota: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.
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Pedro Moura
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8:05 a.m.
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10 de maio de 2012
Les Lumières de la France, 1 - La Comtesse Éponyme. Joann Sfar (Dargaud)
Os interesses de Sfar têm sido mais ou menos conduzidos, a um só tempo, por linhas de força e temáticas coerentes mas procurando contextualizações diversas, que compõem de uma maneira mais variegada esse mesmo projecto. Falamos, por exemplo, de uma certa pesquisa da herança judaica na cultura francesa, o papel que a cultura francesa tem na construção da Europa multicultural contemporânea e a forma como o pensamento filosófico (que compreenderá a religião, a política, o social) pode ser exercido quer através dos discursos intelectuais quer através das acções efectivas dos cidadãos. E tudo isso expresso por formas muito características da banda desenhada de Sfar.
No que diz respeito à metodologia gráfica de Sfar, este livro continua a seguir a sua abordagem “caligráfica”, como temos repetido, mas desta feita nota-se o abandono das pranchas regulares 2 x 3, por uma abordagem bem mais flutuante, que faz uso dessa fórmula, mas por vezes procura outras variações, como a de três vinhetas a todo o longo da página sobrepostas, criando como que pequenos nódulos ou “estrofes” temáticas: uma vez que o livro parece vir a ser estruturado em torno de um trio (e trata-se de uma trilogia, julgamos), temos momentos dedicados aos pensamentos íntimos e solitários dessas três personagens.
No entanto, enquanto este triângulo não se consolida, a matéria desta série é abertamente a história da escravatura na França iluminista. Aquela prática económica dita do “triângulo” consistia no tráfico de escravos, sobretudo negros africanos, angariados pelos negreiros situados nos vários portos africanos (colónias das metrópoles europeias - e se o livro de Sfar se centrará na realidade associada a França, a Portugal não faltam exemplos), para as Américas, pagando não apenas com dinheiro, mas igualmente têxteis manufacturados, álcool e até armas, e depois recebendo das Américas produtos agrícolas tais como açúcar, algodão, tabaco, e por aí fora, cujo lucro na Europa seria substancial. Mas a esse “triângulo” também se poderia chamar de “círculo”, não só vicioso como vergonhoso historicamente - e pouco adianta dizer que “foi a história” ou “era o espírito do tempo”, ou querer comparar com toda a história da escravatura desde a Antiguidade clássica ou mesmo com os casos reais e que não têm outro nome, que ainda hoje ocorrem em certos países e certas indústrias (os curtumes na Índia, por exemplo, ou no Brasil). No entanto, esta personagem parece ter alguns laivos de consciência quando descobre uma jovem criança, escrava, que conseguiu escapar ao trânsito entre continentes e chegar a França. Na ideia do proprietário, que se entrega a alguns exercícios filosóficos, tem de se procurar um equilíbrio, e chega mesmo a ponderar se não seria mais equitativo também entrar no negócio dos escravos brancos com os Turcos, ou procurar uma “escravatura de rosto humano”, o que não deixa de ser uma contradição de termos. Aliás, o diálogo que vai tendo com o seu funcionário, o qual mete as mãos na massa e compreende toda a máquina económica envolvida, é palco de uma espécie de triste comédia, em que o simples pragmatismo do embarcador (julgamos ser essa a sua função) acaba por ser mais realista, apesar de horrível, do que o idealismo absoluto utópico do proprietário do negócio, o qual, mais tarde, ainda exacerba esse paradoxo: por um lado, acredita piamente que não precisa de abdicar do seu negócio (e fortuna) - essa ideia é da mulher e é vista como “uma ideia feminina” -, podendo antes combater as condições da escravatura através das “letras filosóficas”, por outro, pinta-se de preto com graxa e fica fechado uma noite num baú (com os títulos da companhia!) para melhor “conhecer” os escravos, “parecer-se” com eles…
A parte de leão do livro, porém, é dedicada à personalidade da condessa (até pelos "complementos" no fim do livro, pranchas ou episódios adicionais, estudos de personagem, etc.), que se abandona a sonhos acordados, affairs sexuais com um dos ajudantes de cozinha, e à escrita de diários lascivos e fantasiosos, os quais poderão tornar-se matéria fictícia da herança libertina da França da época. Parte da fantasia da condessa é imaginar - ou será real no interior da ficção do livro? - um minúsculo mosqueteiro, que lhe serve de duende para todo o serviço. Os leitores de Sfar reconhecerão nessa brevíssima descrição a menção de uma personagem de alguns dos seus títulos anteriores, permitindo assim a ideia de um retorno à prática do autor de construir um pequeno universo fechado de referências e personagens, que já não explorava há muito. Além disso, a vida da criança, até agora sem nome - apesar de ser chamada de “bom selvagem” pelo proprietário, leitor de Diderot e embebido nesse ideal eurocêntrico - é também explorada, se bem que mais esquematicamente e, apesar de ser uma espécie de parêntesis abrindo o volume, à margem da expressão das demais personagens: a narração é feita pela criança, mas sob a forma de legendas, não de balões de fala, o que pode ser interpretado de duas maneiras: ou a de que não tem direito ao mesmo tipo de “voz” das outras personagens (apenas a conquista brevemente no fecho), ou a de que se tratará de uma procura por uma diferenciação da sua experiência, uma vez que diz respeito ao “passado”, à “memória”. Veremos com o desenvolvimento da série.
Sfar cita toda uma série de livros que lhe serviram de fonte e de inspiração, para criar um enquadramento cultural que tanto se pautava pela mais burilada das poesias e dos discursos profundos como pela consciência de que certos direitos básicos não eram existentes. São três grandes grupos que apresenta: textos académicos, textos clássios contemporâneos da época retratada, e ficções nossas contemporâneas que abordam a mesma era, inclusive uma obra maior da banda desenhada dos anos 1980, Os Passageiros do Vento, de François Bourgeon, que aborda as mesmas questões num estilo bem diverso do de Sfar. Recordemo-nos que é nesta época que se vêem surgir dois documentos fundamentais para a emergência de uma mentalidade que poria fim a toda uma série de tiranias vistas como eternas e “inevitáveis” (para empregar uma palavra muito em voga pelos políticos hodiernos), a Bill of Rights de Jefferson e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, associada à Revolução Francesa. A leitura da recente banda desenhada biográfica Olympe de Gouges, sobre a autora da Declaração dos direitos da mulher e da cidadã (dois anos depois do documento francês citado) e anti-esclavagista, pela dupla Catel e Bocquet, é um excelente bloco da mesma matéria para ser lido em conjunto com este(s) volume(s) de Sfar. De certa forma, no seio da banda desenhada, constituem contra-narrativas numa tradição que tem uma pesada “herança colonialista” (para citar o estudo de Mark McKinney sobre a banda desenhada francesa), e que ainda hoje surte os seus efeitos, como vimos a propósito de Tintin. Logo, são gestos necessários. Até certo ponto, em Portugal, a questão da escravatura sempre foi desvalorizada mesmo pela historiografia, senão mesmo escamoteada através de vários mitos, como aquele do “bom colonialismo”. E a cultura popular - em que a banda desenhada se pode parcialmente integrar - raramente aborda esta questão, apesar de termos uma história rica em exemplos (bastará pensar na população descendente de africanos no século XVIII em Lisboa, o Marquês de Pombal, a Madeira). Aqui fica um exemplo.
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Pedro Moura
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9 de maio de 2012
Hokusai. Shotaro Ishinomori (Sensei)
Shotaro Ishinomori, ou Shinomori, como é também conhecido, é um dos nomes maiores da banda desenhada no Japão, sobretudo da shonen e de género (de ficção científica, de acção, de heróis, com o que mais próximo há de super-heróis no Japão, e que iria desembocar nos Power Rangers, por exemplo), tendo começado a trabalhar nos meados dos anos 1950, e criado títulos tão famosos e influentes como Kamen Rider, ou Cyborg 009, entre outros títulos, os quais, alvo das costumeiras adaptações pelas séries de animação, lhe também granjearam a sua própria fama & fortuna. Além do mais, sempre presente em algumas das revistas mais famosas, como a Big Comic (onde foi também publicada Golgo 13, de Takao Saito, por exemplo), foi fundando alguns géneros novos, experimentando técnicas e estilos diversos, procurando novos públicos. Mas a sua tarefa também foi hercúlea no que diz respeito à associação de autores, defesas legais e até o combate contra a censura ou regulação (um pouco à la Comics Code) e leis desproporcionais em relação à produção de banda desenhada.
No entanto, Shinomori, apesar de ter começado como quase um epígono de Tezuka e depois ter procurado trabalhos de maior “maturidade”, não chegou a inflectir por obras realistas como os autores gekigá, dedicando-se antes a alguns títulos didácticos, como aquele dedicado à economia nacional, alvo de tradução em inglês e francês (Japan, Inc./Les secrets de l‘économie japonaise en bandes dessinées) ou à história do Japão. Mas ele é uma referência maior no seu país, muito profícuo e variado. Hokusai não é uma mera biografia passível de uso escolar, mas tampouco é uma pesquisa profunda da época ou do homem, parece-nos. No entanto, é possível que seja algo ainda mais complexo.
De acordo com Thierry Groensteen (L’Univers des Mangas) e Frederik L. Schodt, Shinomori terá sido um dos primeiros autores a fazer uso regular e expressivo da dupla prancha na banda desenhada moderna. No interior deste mesmo livro, o autor demonstra como é Hokusai o inventor da dupla página na tradição dos livros de prosa ilustrados no Japão. Mais: o nome do mangaka é Ishinomori, mas durante algum tempo ele mudou de nome, utilizando o de Shinomori (e outros, se não estamos em erro, se bem que não pudéssemos confirmar com exactidão). Isso em si nada tem de especial, tratando-se de um nom de plume (sendo quase de rigueur nos autores europeus). Mas a alteração do nome, no Japão, mesmo que para efeitos de assinatura de uma obra, implica ao mesmo tempo uma vontade de influir um novo ritmo, direcção ou filosofia à vida e obra. Hokusai, como é sabido, também foi mudando de nome e direcção ao longo de toda a sua vida: nasceu como Tokitarô, mudaria depois de nome para Tetsuzô, como estudante do retratista Shunshô passaria a assinar como Katsukawa Shunrô, e já depois de se chamar Hokusai e ser tornar um artista muito solicitado e admirado, adoptaria os nomes de Iitsu, e o famoso “Velho louco por desenho”. Além disso, os próprios episódios que são escolhidos neste livro - as relações com os colaboradores, os mentores, professores e discípulos, os editores, os clientes, os “leitores”, etc. -, fazem imaginar que há uma procura pela acentuação de todas as experiências da vida profissional de Hokusai que mais próximas estariam da carreira de um mangaka moderno. São algumas dessas ideias que nos fazem pensar que é como se Shinomori se “enluvasse” (procuramos aqui o efeito da palavra francesa) ao trajecto do próprio Hokusai.
A narrativa em si, que voga como as ondas do mar de Kanagawa, ao saber dos encontros de Hokusai e das suas memórias ou relatos do passado, prima por uma manipulação dos factos que se conhecem da sua vida, algumas anedotas apócrifas e mesmo hagiográficas, e possivelmente uma parte substancial de suposições e projecções. Por exemplo, um contraste com o filme Hokusai Manga, de Kaneto Shindô (1981, e tristemente traduzido para inglês como Edo Porn) será suficiente para encontrar discrepâncias em algumas informações, acontecimentos e relações. Os pais de Hokusai são desconhecidos, mas neste livro aponta-se a uma intricada novela de amor, traição e política, fazendo do pintor um descendente de um samurai “maldito”. Não conhecendo a data original deste projecto, nem tampouco as implicações destas escolhas na sociedade e na história do Japão, só poderemos imaginar que o objectivo de Shinomori é não tanto o de criar uma biografia completa e precisa, mas antes a exploração da vida do artista, do seu espírito e, por conseguinte, do que pode ser aproveitado enquanto “lição” e “modelo” para o próprio criador moderno de mangá, e para os leitores. Acima de tudo, o que está sempre na linha da frente deste livro é o modo como Hokusai se vai reinventando a si mesmo, não só alterando o seu nome - e, logo, o seu posicionamento social, na hierarquia das escolas artísticas e até no mercado - mas na sua vontade indómita de se relançar na aprendizagem. Algo que parece ter pautado a vida de Shinomori também.Compreende-se, todavia, a mistificação do papel e obra de Hokusai. Não apenas pela camada ficcional que vai aliando as várias anedotas biográficas que repetidamente se citam sobre a vida do artista, mas sobretudo por explorar as origens das suas obsessões, assim como pela exposição da relações de causa-consequência que o autor desta mangá acentua, e sobretudo, sendo isso também alvo da mistificação da própria mangá, a ligação quase directa entre a obra de Hokusai e a banda desenhada moderna japonesa. De facto, parte do nacionalismo japonês tenta enfatizar, com a máxima das forças, a ininterrupta continuidade entre as várias tradições de pintura narrativa, ilustração de mitos e de textos literários, e outras tradições imagéticas desse país (giga, emakimono, ehon, kibyoshi) e o advento desta forma moderna da banda desenhada. Quase sempre o papel da directa e sentida influência do Ocidente é secundarizada, apesar do período em que as ponchi-e alteraram de facto modos de produção, de estética e temática, e o papel de Kitazawa Rakuten não poderia ter-se firmado como se firmou sem a sua reformulação de estratégias dos trabalhos ocidentais que estudara.
Independentemente dessa mistificação, são muitos os pormenores desta obra em que se aprendem subtilezas sobre o pensamento de Shinomori (e, eventualmente, do próprio Hokusai) sobre a sua própria arte. Um desses momentos é quando Hokusai, na companhia do escritor de literatura (muito) popular Takizawa Bakin, se preparam para o fabrico de um novo projecto: de acordo com o artista, as imagens teriam uma importância ainda mais forte do que o texto no trânsito do sentido, e ele diz “quando a obra estiver terminada, ela encontrará sempre o seu leitor!” (301). É um voto de desejo que todo o criador deseja, e de certa forma um ensejo justo: trabalhar no interior da sua própria vontade, na exigência que emerge do próprio criador ou criadora no momento do cumprimento da obra, e na segurança que existirá um público acertado. Todavia, e reforçando a nossa perspectiva, não podemos deixar de encontrar nessas palavras como que uma recriação retrospectiva de um mito: o da fundação de um tipo de livro por Hokusai, que desembocaria na mangá moderna. As discussões entre estas personagens - que atinge um histrionismo cómico nalguns passos - são muito reveladoras. Bakin insiste que “o desenho deve servir o texto”, contrastando com a opinião de Hokusai que “sem desenhos, ninguém leria o texto”. Este é um tema muito complexo e que mereceria um estudo adequado. Não bastaria dizer que o nome de Hokusai é mais famoso do que o de Bakin, pois isso só é verdadeiro em relação ao mundo ocidental, e pela falta de traduções (e interesse, fora de um saber especializado?). Importaria antes fazer a comparação com casos ocidentais, e pensar em relações tais como Verne/Neuville-Riou, Dickens/Phiz, Karr et al./Grandville, Énault/Doré, por exemplo… Quando é que o texto se tornou mais famoso que os desenhos, e quando o contrário? Quais as razões sociais e económicas desse desequilíbrio? O facto dessas serem questões abordadas em Hokusai não são inocentes em relação às preocupações do seu autor, seguramente.
Shotaro Ishinomori, pelo menos neste livro, emprega um estilo “clássico” da banda desenhada japonesa: as figuras são redondas e fechadas, procurando cada personagem um número de atributos visíveis que as torna distintas, mesmo na presença de um Hokusai que é representado desde o nascimento à sua provecta idade. Utilizam-se silhuetas aqui e ali, assim como o contraste entre personagens simplificadas e os cenários ultra-detalhados e texturados realisticamente (padrões da madeira, dos tatami, dos tecidos). São muitos os momentos em que os efeitos de humor gráfico são procurados através dos chibi, ou de gestos histriónicos, ou de emanata convencionais. Construções dramáticas através do isolamento das personagens em fundos brancos ou negros, onde se sobrepõem igualmente as suas memórias ou medos, são correntes. Oscila-se entre momentos cómicos e outros de uma emotividade mais vincada, quer utilizando grandes planos de conjunto quer dramáticos planos aproximados dos rostos. Duplas páginas, pranchas duplas separáveis mas atravessadas por uma vinheta de lado a lado, sequências mudas e establishing shots fazem com que o leitor tenha um momento de introdução ao ambiente em questão. E, como não poderia deixar de ser, a integração de alguns dos desenhos de Hokusai (em versões simplificadas) traz à superfície do próprio livro a matéria pela qual o grande artista é conhecido - em alguns momentos até próximas da materialidade da tinta sobre papel, como na cena famosa da gigantesca pintura de Bodhidharma que Hokusai fez no templo de Gokokuji (cena também fulcral no filme citado acima); não se fazendo qualquer comentário em torno de cada um dessas imagens (salvo num ou outro episódio), elas são o próprio comentário em relação ao episódio em que se integram, corolário, consequência ou motivo de compreensão.
A arte de Ishinomori, tendo contribuído sobremaneira para a consolidação de um estilo e metodologias gráficas que são hoje vistas como “clássicas” ou mesmo “normalizadas” na banda desenhada japonesa, poderá ser diluída na oferta gigantesca da mesmidade dessa produção comercial, mas a atenção para com pequenos pormenores de composição das pranchas, o próprio tratamento das personagens, a rede de relações estabelecida, a forma como a estrutura narrativa vai criando um círculo preciso em torno da vida de Hokusai, será recompensada. Como explica o próprio Hokusai aos seus pouco inteligentes discípulos quando se encontra em viagem em torno do Fuji, para o seu famoso ciclo de estampas, desenhá-lo não é repetir sempre a mesma forma, mas descobrir como, “dando um passo ao lado, ele surge com uma outra forma completamente diferente!” ou “aspecto” (410). E acrescenta, “eu não desenho o Fuji./ Mas o homem! // É o tempo o que desenho.//(…) Quando fazemos [uma paisagem] passar pelo olhar das pessoas…/é como se não pertencesse mais ao mundo e se tornasse eterna…/Pinto o tempo que deixa a sua marca em cada instante deste mundo.” (411). De certa forma como as parábolas de Cristo, os discípulos não o entendem (mesmo com repetições), mas essa é uma estratégia para que o ouvinte ou leitor da história se sinta acima deles mesmos, e vá ao encontro da lição do mestre de forma imediata. Noutro momento, associando á representação da “grande onda”, famosíssima, Hokusai diz querer-lhe pintar “todos os rostos”… Shinomori procura ir ofertando ao seu próprio leitor todos os “aspectos” possíveis sobre Hokusai, todos os seus “rostos” (mesmo que haja escolhas judiciosas e omissões), feitos apenas de fragmentos e instantes, mas esperando que possa assim emergir uma vida, a qual, tendo passado, se pode tornar eterna.É isso o que significa criar uma marca (grafia) a partir de uma vida (bio).
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Pedro Moura
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9:03 a.m.
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8 de maio de 2012
Forming, vol. 1. Jesse Moynihan (NoBrow Press)
Jesse Moynihan havia já demonstrado um interesse vívido por este tipo de matéria narrativa na sua obra anterior, The Backwards Folding Mirror, bebendo livremente de várias fontes ou ecos reconhecíveis para criar as suas pequenas sagas. No entanto, Forming, de que este volume aparenta ser o primeiro tomo, é mais directo no uso das suas fontes. E estas são múltiplas. Moynihan emprega personagens, figuras, elementos, símbolos, episódios retirados um pouco de todo o lado, vasculhando mitos com origens gregas clássicas, persas, judaicas, cabalísticas, zoroástricas, célticas, ou até mais recentes, mágicas, com a presença do rei maléfico dos gnomos, Ghob (tristemente tornado célebre entre nós), ou ficcionais, como na citação da “energia vril”, de Bulwer-Lytton. E, quase um must, os reptilianos… Mas algumas passagens já haviam sido tentadas: por exemplo, a união secreta entre Noah e Gaia em Forming poderá parecer estranha, mas em muitos sistemas sincréticos ou de religião comparada, a mulher do Noé bíblico, que não é nomeada na Bíblia, é vista como sendo Gaia, equivalendo Urano a Noé; o hebraico Japeth é comparado ao titã Jápeto, ou Iapetus, que é o nome empregue neste livro.
Esta saga, que foi sendo (e é) publicada em curtos episódios de duas pranchas cada no site do autor, encontra agora esta edição luxuosa pelas mãos dos editores de uma bela colecção de novos autores, de um território que mescla ilustração e banda desenhada, character design e experiências contemporâneas no packaging de livros, e uma certa abertura de espaços expressivos em que públicos usualmente separáveis se podem encontrar. Aparentemente, parece ser uma história do nosso universo, empregando então elementos dessas mitologias citadas, para tecer um só fio, sincrético, que exponha as transformações assistidas na Terra. A história apresenta vários eixos temporais diferentes, que se vão cruzando entre si, contribuindo para uma novela complexa (e que mima os dramas à escala humana de muitas destas mitologias, sobretudo a helénica, mas também a hebraica).
Havendo já citado fontes cabalísticas, destacando-as da família maior do Judaísmo, aponta-se também a possibilidade de que o autor não tenha seguido apenas fontes ortodoxas, mas igualmente apócrifas, lendárias (textos agádicos), comentários (midrásticos) ou derivações, quiçá mesmo fruto de especulações fictíciais autorais anteriores (na banda desenhada, o emprego da religião para fundar novos mitos não é de todo inédita, e seria impossível determinar quantas vezes terá estado na origem de projectos mais ou menos famosos, mas citemos apenas Super-Homem, The Invisibles e Testament). O caldeirão tremendo que tudo isto representa torna esta saga numa procura, divertida, por um sentido único e coerente entre todas estas correntes, ao mesmo tempo que funda um novo mito, no seu mais básico sentido etimológico de “narrativa”.
Como se compreende, é como se fosse possível fazer um batido tutti-frutti com a banda desenhada e servir fresco. O prazer de leitura de Forming é um prazer adolescente, de ver todas estas coisas como se fosse a primeira vez, mas naquela fase em que se revela algo que nos muda para sempre a percepção das coisas e temos a claríssima sensação de termos crescido um pouco mais. Nada há aqui de pesado, de soturno, de majestático. Bem pelo contrário, é de uma leveza (cf. Italo Calvino) bem-vinda e, ao mesmo tempo, tão difícil de atingir. Até se poderia falar de uma abordagem outsider (há quem compare a primeira prancha a imagens conhecidas de Hank Fletcher, e o autor diz que é possível que estivesse no fundo da sua memória), mas o propósito de Forming é nítido, conduzido e controlado.
Portanto, o mito que Moynihan cria nada deve a uma abordagem crente dos textos, fés, crenças, e sistemas originais, nem numa adaptação das suas histórias (fosse esta literal, próxima ou livre), mas tampouco a uma ideia de ter encontrado uma explicação séria para a natureza humana (como Testament parece querer ser entendido). É precisamente um mergulho na cultura popular para ir fazendo esta alucinação de intertextualidade, mas sem se tornar num cliché estupidificante e pouco inteligente e de fácil absorção (que muitas vezes é o que surge e conquista os leitores). Os contornos políticos, raciais, sexuais, etc., e a ideia de liberdade do individuo, dão a esta história aparentemente simples em termos “morais” um peso no que diz respeito à representação bem superior a outras obras que parecem revestir-se de maior “seriedade”.
Há uma palavra em inglês perfeita para esta obra, e que deve ser entendida quer no seu sentido corriqueiro (“fixe”, “cool”, etc.) quer no seu sentido profundo (de “espanto sublime”): awesome.
Publicada por
Pedro Moura
à(s)
8:06 a.m.
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