Um volume importante na produção nacional, Cheap Nature é uma chamada de atenção para toda uma inscrição social da realidade que nos rodeia, não apenas a vida diária de um Portugal estratificado, mas de várias unidades encaixadas umas nas outras: cidades, países, economias, sistemas sociais, compreensões do tempo, vivências com ou na natureza, acessibilidade à riqueza material ou outra. O livro tem como autor Xavier Almeida, que o assina na capa, mas o guião parece ter sido co-criado com quem assina como Pato Bravo, isto é, o músico B Fachada, isto é, Bernardo Cruz Fachada, também editor da Péssima. Formas de trabalho não-lineares, não-autoritárias, abertas a diálogos, que vivem presentes na tessitura do que aqui se apresenta. (Mais)
Ainda há pouco falámos sobre a possibilidade de banda
desenhada ensaística. Este volume pode quase chamar-se “de tese”. Não sendo
necessariamente a adaptação de um trabalho académico e/ou científico à banda
desenhada (como ocorreu com a coleção Sociorama, da Casterman, de há uns anos),
ainda assim há aqui um ponto de partida intelectual, o livro-charneira de Jason
W. Moore, Anthropocene or Capitalocene?, de 2016, se bem que o livro vai
empregando toda uma série de citações de uma biblioteca de referência (citada
no fim), disciplinarmente alargada.
Um dos capítulos do livro de Moore é, precisamente, “The Rise of Cheap Nature”, no qual o autor apresenta um trabalho que mistura a sociologia e o ambiente para inquirir sobre as formas como o capitalismo se aproveita de recursos “gratuitos”, ou melhor, não-pagos ou de baixo preço (certos tipos de trabalho, certas formas de energia, alimentos e materiais), para alimentar a sua incessante fome de proveitos e como essa situação, por sua vez, faz aproximar perigosamente de esgotamentos não apenas dos recursos como das economias. A hecatombe espera-nos. De resto, o autor providenciou os autores com um posfácio em que lê o livro de banda desenhada à óptica dos seus próprios estudos.
Assim, o livro é composto por episódios, que podem ser lidos
como contos individuais, focando-se numa personagem numa sua particular
situação: um respigador de alumínio e metal, que junta material para um
sucateiro; um dia na vida de um CEO milionário ou de uma anarquista de Setúbal;
uma monja a tratar de roupa e aparentemente ansiosa por receber notícias e uma
artista francesa insistindo em arte “impopular”; um pássaro no campo e uma ratazana
na cidade (mas leiam para perceber a problemática de assinalar estas divisões
espaciais e existenciais). Há poucos diálogos no interior de cada uma destas
cenas, ou apenas quase de circunstância, sendo mais significativa a “faixa da
narração”, composta com as tais citações de fontes eruditas, que actuam não
tanto como comentário, mas sombra conceptual.
Essas histórias parecem isoladas entre si, apenas algumas cruzando-se, de maneiras enviesadas, não necessariamente subtis, mas com chamadas directas, para dar a entender a implicação de todo o tecido económico, mas não social. Isto é, não há imediatamente relações claras entre as personagens, mas há consequências dos seus papéis entre si. Cada episódio passa-se numa espécie de dimensão de calma, tranquila, fora as pequenas acções do momento. E não há qualquer crescendo para um clímax final. No entanto, se procurarem as pistas possíveis – a presença de certas empresas, alguma parte da “espionagem” mútua entre personagens, ou outros exercícios mais livres de leitores com bom grau de paranoia – talvez consigam descortinar um romance mais tenso. De certo modo, recorda-me Vale dos Vencidos, de Smith Vargas, nesta afinidade com romances pós-modernos, de visão alargada social, menos enovelada em intrigas pessoais, se bem que Cheap Nature explora ainda mais géneros: crime, humor, slice of life, etc.
Cheap Nature é, ainda assim e literalmente,
anti-climático. Um episódio curto, fora da ordem, mostra-nos a origem da Serra
da Arrábida, com as suas formações rochosas únicas, começando com a tremenda e
tumultuosa origem do planeta, a sua emergência das águas para terminar como
pedreira da Secil. Porque o extrativismo, o consumo desenfreado de recursos e produtos,
e a geral indiferença humana é mesmo isso.
Um quase encolher de ombros e cegueira entre as comunidades possíveis. Benedict
Anderson cunhou o conceito das “comunidades imaginadas”, mas este estado actual
aponta mais a de comunidades indiferentes.
O desenho de Xavier Almeida tem aqui um registo mais calmo, em que parece haver um maior controlo do pincel, das linhas e até mesmo da composição, revelando maior diversidade de estratégias expressivas. O que, de resto, se justifica num livro de cerca de 250 páginas. Há mesmo alguns laivos de mangá, sobretudo em páginas silenciosas e atenciosas aos ritmos internos da natureza, ainda intocados pela aceleração humana e capitalista.
O que nos espera? Este livro parece tanto não tomar
posicições como permitir que seja lido de modos distintos: por um lado, a
hecatombe já citada, do voraz consumo e destruição do espaço natural e, com
isso, humano; por outro, aqui e a li, uma certa resistência animal, vegetal e
mineral, totalmente indiferente aaos homens e mulheres na Terra. Como ler? Com liberdade,
talvez.
Nota final: agradecimentos aos autores, pela oferta do livro.





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