11 de setembro de 2013

Les métiers secrets de la bande dessinée. Jean-Luc Coudray e Emmanuel Reuzé (La boîte à bulles) (Comic Books, intervalo)

Apenas como pequena pausa antes de retomar o final destas duas semanas sob o signo dos comic books, façamos um desvio significativo, mas que ao mesmo tempo iluminará, com humor, as pistas gerais desse território. Trata-se este de um pequenino livro lúdico sobre algumas das profissões esquecidas ou ocultas na produção da banda desenhada. Se o livro é francês, a verdade é que na capa se adivinha desde logo um piscar de olhos à indústria norte-americana e, portanto, a um desejo de ser um retrato transversal desses bastidores.
Como se sabe, há usualmente uma crítica (ou, pelo contrário, uma reificação absoluta) da indústria mainstream norte-americana devido ao seu sistema taylorista, isto é, à grande divisão de trabalho que existe na banda desenhada, na qual se repartem os passos da autoria, da responsabilidade, ou da execução, entre o criador, o argumentista, o desenhador, o artista das arte-finais (ou “traçador”), o colorista, o legendador, mas também o editor, ou outros colaboradores. A verdade é que na banda desenhada franco-belga ou japonesa, também existe algum grau de distribuição de funções, mas como existem formas de trabalho diferentes, de “estúdio”, as mais das vezes os nomes desses mesmos colaboradores diluem-se
na assinatura do “Mestre”. Nunca vimos os nomes de Jacobs, De Moor, ou de Van Melkebe nas capas de Tintin, não sabemos os nomes dos assistentes de Tezuka ou de Maurício de Sousa que os ajudaram a erguer os seus “impérios”, nem sempre o nome das coloristas de Moebius ou de Bilal surgiram de forma visível, nem sempre sabemos se os artistas que admiramos deixam pormenores para serem preenchidos por discípulos… Essa história social, aos poucos, vai sendo feita, e sobretudo nos Estados Unidos, precisamente pela “clareza” ou “nitidez” dessas relações profissionais, o que deve dar que pensar face ao ainda continuado mito do “autor completo” que medra por um certo círculo de apreciação desta arte nascida no cadinho da imprensa, da literatura de massas e da cultura popular.
Bom, a verdade é que mesmo através de desvios “falsos”, senão mesmo espatafúrdios, criam-se linhas de força de um pensamento possível. O livro apresenta-se como uma listagem, organizada, de 28 profissões, numa espécie de enciclopédia imaginária (não estando longe de um trabalho com afinidades com José Carlos Fernandes) mostrada por um desenho de Reuzé, cujo estilo é algo gestual e nervoso neste livro, e não estilizado e seguro como de costume, mas eficaz e próprio ao género, e textos descritivos de Coudray, cuja herança de Jarry se nota na sua adaptação de Ubu à banda desenhada, textos estes tão explicativos como providos de comentário irónico e lateral.
Algumas das profissões são extremamente importantes, desde o desenhador de esboços, que providencia todo um mercado e festivais de banda desenhada com desenhos meio-cozidos, com ar inacabados e que dão acesso mágico ao “processo” dos autores, ou então ao “colocador de balões”, que sabe exactamente onde colocar os diálogos na composição das vinhetas, ou o indispensável “pintor de margens brancas”, pois que seria da banda desenhada se não existissem esses traços brancos entre imagens? E que dizer do actor, que personifica todas as famosas personagens que nos habituámos a seguir? Mesmo no seio de tanto absurdo e humor desabrido, que recordará toda uma tradição francesa, mas não só (pensamos em Goscinny e Gotlib, mas Kurtzman está na fonte), estas pequenas anedotas dão algo que pensar a sério em relação aos lados “industriais” da banda desenhada. Pensadores de ideias, testadores de gags, críticos, os duplos dos super-heróis, quer perdem a vida para a óptima posição heróica, os criadores de onomatopeias, o leitor ideal - que é pago para ler, não opinar nem fazer  nada mais, mas ler, apenas ler, idealmente… - são apenas algumas das outras profissões, que a editora, e bem, apelida de “zoologia”, o que não deixa de conter a sua própria lógica.
Criado para festejar os dez anos desta pequena plataforma editorial, o preço do livro é particularmente surpreendente, não dando desculpas a não adquirir este “guia” fundamental sobre o métier.

Nota final: agradecimentos a Filipe Leal de Faria, pela oferta do livro.

10 de setembro de 2013

Outras editoras (Comic Books, parte 6)

Para além das grandes duas editoras de banda desenhada mainstream norte-americana, a Marvel e a DC, especializadas em super-heróis e quase apostadas em preencher todo o mercado ao ponto de terem treinado muitas pessoas, leitoras afuniladas ou não-leitoras, a tomarem a nuvem por Juno, isto é, o meio ou arte da banda desenhada por um só género, existem toda uma série de editoras menores a tentarem ocupar espaço no mesmo mercado. Como dissemos em posts anteriores, nesta equação não se encontrarão aquelas que se têm especializado ou trabalhado para o mercado livreiro, que se tem desenvolvido desde o final dos anos 1990, sejam elas exclusivas ao meio ou associadas a uma tradição literária, sejam elas grandes e mais ou menos consolidadas ou pequenas e em permanente perigo: a Pantheon, a Fantagraphics, a Drawn & Quarterly, a PictureBox, etc. Estamos sempre a falar de comic books, revistas mais ou menos mensais, de uma vintena de páginas, que têm distribuição no chamado “mercado directo”. (Mais) 

9 de setembro de 2013

Image (Comic Books, parte 5)

Falarmos da Image hoje nada tem a ver com falar da imagem que a Image projectou no seu início, o que permite - e não nos excusamos desse uso - de utilizar a expressão “à la Image” para se falar de trabalhos de qualidade duvidosa, usualmente povoado por composições espalhafatosas, figurações de anatomia risível e explosiva, trabalho de cor berrante, e uma construção narrativa praticamente mentecapta, sem quaisquer noções de ritmo, desenvolvimento de personagem, carga emocional, etc. e que serviria apenas as fantasias mais basilares de uma adolescência confinada (ou à sua protelação pela idade adulta, mais problemática). De facto, as transformações internas da editora foram variadas, mas podemos dizer que desde a entrada de Eric Stephenson como publisher (isto é, o equivalente a gerente ou director editorial) que as coisas se reforçaram na senda da diversidade e da qualidade, sobretudo com os novos títulos tentados, desde o convite a Brandon Graham para continuar Prophet, ao surgimento de Saga e Orc Stain, etc.
Se bem que a nossa compreensão do lado empresarial seja deficitária, julgamos poder descrever a Image contemporânea como um grupo editorial que reúne várias editoras independentes ou estúdios de produção (Shadowline, Top Cow, Image, Joe’s Comics) numa só plataforma, coordenando todos os esforços, desde os criativos e de direitos autorais aos da distribuição e marketing. Isso permite que a Image esteja nos lugares de topo do seu mercado, com outras editoras como a Dark Horse, naquela segunda linha possível de conquistar (já que a primeira é eternamente dividida pela Marvel e a DC). Por outro lado, essa relativa independência e o modo como as marcas, personagens e relação com os autores são geridas no interior da companhia torna o trabalho mais feliz para os criadores. Do ponto de vista do leitor, não haverá diferenças substanciais no género, no humor, nas estratégias narrativas (afinal, que diferença substancial existirá entre America‘s Got Powers e uma qualquer saga dos Vingadores/Avengers?), mas do ponto e vista da produção, e sobretudo no que diz respeito aos autores, é algo de muito distinto, já que a Marvel e a DC são corporações no interior das quais os escritores e artistas trabalham para produzir histórias que não lhes pertencem com personagens que são marcas registadas ou IPs/propriedades intelectuais [a relação “work for hire”], na Image produzem obras sobre as quais deterão todos os direitos [relação “creator ownership”].

Em retrospectiva, não pensaríamos há dez anos que se encontraria na Image uma diversidade destas, e muito menos que alguns dos títulos seriam interessantes, estimulantes ou mesmo excelentes. Ainda que não nos possamos distender demasiado sobre cada um deles - apesar de dois ou três merecerem uma análise mais cuidada -, deixaremos aqui algumas notas sobre os títulos seguidos com interesse, sem ordem particular, e com a rápida menção que outros foram abandonados (como os dois títulos de Joe Casey The Bounce e Sex, por serem, francamente, muito), e outros não iniciados, como os de Matt Fraction. Com a excepção de Infinite Vacation, lido em volume, tudo o resto foi seguido em comic book. 
Prophet. Brandon Graham. Tendo já falado desta série, não nos alongaremos, e simplesmente acrescentaremos que o seu escopo, em termos de espaços e personagens, se alargou, ainda que tenha se revestido ao mesmo tempo de um “arco narrativo” mais claro, em torno da grande guerra inter-imperial que enquadra todos os acontecimentos. A estranha ciência, a mistura de explorações pela biologia alienígena, as formas de comunicação e relação, as tecnologias e os assuntos mais mundanos deste(s) mundo(s) distante(s) continuam a ser os elementos que tornam esta série uma das mais interessantes que nos foi dada a  conhecer no género da ficção científica, que se afasta de todas as mais usuais normalizações ou inscrições na nossa sociedade.
 Infinite Vacation. Nick Spencer and Christian Ward. A banda desenhada norte-americana de ficção científica encontrasse num momento, do que nos é dado a ver, muito sofisticado, e este título, uma série curta já terminada, juntamente com Prophet, Saga (na Image) Mind MGMT e The Massive (na Dark Horse), é um grande contributo nesse sentido. Se Prophet é mais devedor de títulos também de acção e aventura, ou guerra, Saga com a fantasia, Mind MGTM do policial, etc., Infinite Vacation bebe da comédia romântica. A premissa desta história é que, através de um mero app em qualquer dos aparelhos electrónicos usados nos nossos dias, podemos aceder a qualquer um dos nossos eus “paralelos” ao longo de todos (infinitos) universos, e, pagando, podemos assumir as opções deles. Ou seja, a física quântica permite viajar através de realidades paralelas, e isso é um produto comercialmente viável. A trama coloca o protagonista da primeira realidade (a “nossa” ou “basilar”, se quiserem) no centro das atenções – é um escolhido, especial, o costume. Mas apesar dessa intriga clássica, povoada por toda uma série de elementos relativamente expectáveis no género (um tipo de cultura que já estava presente em Forgetless, de que falámos e em que Jorge Coelho participou) é curioso ver as convolutas exposições sobre as possibilidades quânticas ao serviço de um serviço idêntico àquele do Facebook ou de um novo telemóvel, e cujo resultado é um romance transdimensional que ainda assim mantém a aparência de “quotidiano”. Nalguns aspectos, tem linhas de força parentes daquelas exploradas na série televisiva Black Mirror. Os desenhos de Ward, sendo de contornos líquidos, composições livres e cores fecundas, parece estar a trabalhar com materiais maleáveis e em constante movimento, sendo perfeito para esta história de passagens, transformações e colapsos de estados da matéria. 
Change. Ales Kot et al. Esta mini-série quase passava despercebida, e uma breve descrção também não fará jus às suas forças. A um tempo homenagem a Lovecraft (sim, mais uma), e exercício metatextual sobre o acto da criação se virar contra o criador, onde as fronteiras entre a criação e a realidade se anulam, Change é uma espécie de banda desenhada em stream of consciouness que exigirá uma leitura aturada, confiante e dedicada, senão contínuas releituras. Ou então, bem pelo contrário, exigirá que seja fruído como quem escorrega pelas suas páginas, quase como se o sentido viesse coalescer mais tarde, já depois de poisarmos as páginas. Seguimos um número de personagens quase típicas da cidade de Los Angeles, em busca de impedirem o apocalipse de ter lugar, mas nem todas essas personagens têm contacto directo entre si, ou não é aparente que o tenham. A cultura do rap e do cinema, nas suas faces dos bastidores da produção, elementos do crime e de cultos satânicos, são colocadas nesta plataforma e sacudidos, de maneira a que nenhuma dessas partes saia incólume do embate com as outras. É muito curioso que nas capas dos comics, o nome do escritor, do desenhador (Morgan Jeske), do colorista (Sloane Leong) e do legendador (Ed Brisson) estejam sempre presentes, como se se quisesse sublinhar que as funções de todos eles não é meramente intrínseca à cultura/forma de produção taylorista desta banda desenhada norte-americana, mas os acentuasse enquanto autores em termos idênticos. E, de facto, há uma diversidade em termos de composição, dinâmica, cromatismo, uso ou não de texto dialogado, narrado e onomatopeias que incutem nas linhas flexíveis de Jeske, que cria como que corpos líquidos e mutantes, uma fluidez muito apropriada ao texto também mutante de Kot, um autor seguramente a seguir, que, das duas uma: ou foi um fluke momentâneo e terá deixado este estranho título numa pilha de muitas obras singulares e quase esquecidas, ou estará genuinamente interessado em compreender como empregar poesia num veículo aparentemente convencional, com resultados inesperados.
Orc Stain. James Stokoe. Uma possível sinopse ocultaria a razão de maior interesse deste título, já que superficialmente estamos perante apenas uma relativa variação de outras narrativas de high fantasy, envolvendo exércitos indomáveis de um tirano orc, magia e aventuras guerreiras, e um orc especial que será o salvador de todos. Mas a energia nasce não apenas da velocidade e impacto da escrita (que recorda trabalhos mais maduros de títulos europeus/à europeu do género, como a Métal Hurlant/Heavy Metal), como da forma como as imagens são construídas. Stokoe é um desses autores contemporâneos, à la Brandon Graham, Michael DeForge, etc., que não apenas é devedor de toda uma série de escolas díspares - mangá, super-heróis, ilustração, art comics, arte psicadélica, etc. - como é capaz de criar uma amálgama de tudo isso muito coerente (já que faz tudo ele próprio, e com uma diversidade salutar). Capaz de criar mundos fictícios com duas ou três páginas bem pensadas, a sua atitude punk não lhe permite que isso seja levado demasiado a sério, estando povoado por pequenas piadas, desvios sarcásticos ou simplesmente pontos de fuga temáticos que fazem o leitor oscilar nas suas certezas. Já num trabalho relacionado com Godzilla, Stokoe mostrava a sua capacidade em preencher vinhetas de forma musculada e eletrificante, à la Geoff Darrow mas mais livre, mas neste título em quer toda a matéria narrativa é da sua responsabilidade - mesmo que não se trate de uma obra-prima do género - permite-lhe muito mais espaço de liberdade. 
The Bulletproof Coffin. David Hine e Shaky Kane. Estas notas devem tomar em conta a existência da série original e aquela mais recente, subtitulada Disinterred. A primeira era um exercício de nostalgia por toda uma série de referências associadas à cultura dos comic books norte-americanos dos anos 1950-1960 (supostamente a infância dos autores) onde não apenas as personagens de banda desenhada e filme de série Z estão presentes, mas toda a catadupa de produtos vendidos nos anúncios. A personagem principal encontra uma espécie de tesouro em cada sótão dos seus “clientes” (o seu trabalho é esvaziar casas de mortos sem herdeiros, e com isso constrói uma espécie de mausoléu nostálgico, mas o qual lhe dará acesso a um universo sórdido em que as ideias loucas dessa cultura têm lugar real. Os interstícios entre o real e o fictício são demolidos, naturalmente. Disinterred poderia ser visto como uma continuação, mas é na verdade uma fuga numa direcção totalmente diferente. Trata-se de uma estrutura muito mais fragmentada, como cada número independente entre si, mesmo no que diz respeito a estratégias narrativas, e que exploram contornos semi-experimentais no que diz respeito à causalidade narrativa, e a uma forma exacerbada de explorar essas tais referências. Como alguma da crítica às séries notaram, Hine e Kane fazem uma espécie de bricolage, e caberá aos vários leitores a destrinça de quais pistas estão presentes, e em que medida é que elas são ou não úteis para as imagens gerais subsequentes. Já o uso de palavras como “psicadélico”, “subversivo” e referências a Burroughs parecem-nos algo óbvias, mas apenas a título superficial. Há, parece-nos, um balanço muito estranho - quer dizer, há balanço, mas é a sua própria existência que produz a estranheza - entre o abjecto, misturando géneros como horror, fantasia, ficção científica da EC, bebop fiction, etc., e o humor leve de uma comic strip de grande circulação. O estilo de Kane é algo reminiscente do Kirby tardio, mas sem o mesmo tipo de solidez e dinâmica, antes devedor daquela tendência dos anos 1980 de Mark Newgarden e Mark Beyer, logo perfeito para esta alucinação electrificante.  
Fatale. Ed Brubaker e Sean Phillips. Uma equação que mistura hard boiled e horror lovecraftiano, o primeiro género o qual já a dupla dominara com as sequentes séries Sleeper, Criminal e Incognito, este novo título desenvolve-se em vários momentos cronológicos, mas que contribuem para um mesmo quadro de referências, muito coeso, e ainda que misture muitos chavões (Nazis, ritos chtulianos, e os elementos habituais do noir, etc.) funciona como um caldo elegante. Brubaker está aqui numa plataforma alargada, entre o policial, que domina, e todas aquelas suas referências preferenciais, já tentadas noutros trabalhos. Não sendo tão sério como o seu excelente The Fall, esta série é um bom corolário aos seus últimos anos. O trabalho de Dave Stewart como colorista acaba por, tal como noutros dos seus trabalhos (Hellboy, Daytripper) trazer muita da ambientação perfeita a toda a intriga, acentuando o estilo a um só tempo suave e sólido de Philips.
Invincible. Robert Kirkman, Cory Walker e Ryan Ottley. Discutivelmente, um dos títulos de maior longevidade, vitalidade e sucesso comercial (dentro dos modos mitigados como isso sucede nesta indústria a um tempo febril e volátil), Invincible tentou contribuir para a era da recuperação sadia do género dos super-heróis (como Astro City, acima de tudo). Os primeiros números pareciam uma homenagem à era de ouro de Lee e Kirby no Homem-Aranha, já que existe aqui também a coincidência deste novo super-herói ser um adolescente que acompanhamos na aprendizagem das suas novas capacidades, e a forma como isso o afecta a ele, às suas relações e à sua posição no e com o mundo. No fundo, muito light-hearted. Rapidamente o tom mudou, para algo de mais grave e violento, muitas vezes gore, e a montanha russa não tem parado. Aliás, o que mais caracteriza esta série, parece-nos, é o constante “plot twisting”, que bebe sem qualquer vergonha de décadas e décadas de ideias feitas, clichés e elementos clássicos deste género. Invincible leva muito a sério aquela expressão do “esperar o inesperado”, e ler o título é quase um estudo da história do género. Com a ressalva, positiva, de que Kirkman emprega um grupo muito diversificado de personagens, o que lhe permite também um leque diversificado no que diz respeito às personalidades, sexualidades, níveis de agência e posicionamentos políticos dessas personagens (o mesmo ocorre em The Walking Dead), sem sinais de estereótipos, mas explorando ambiguidades. No entanto, não só nos perguntamos se não será um mecanismo que apenas funcionará bem junto a leitores muito familiarizados com essas mesmas ideias, e até que ponto é que a saga aguenta essas transformações e reveses constantes. Enquanto dose mensal descartável e leve, é excelente; enquanto plataforma para repensar o género, é menos conseguido. Mas toda a escrita de Kirkman (autor de Walking Dead, de que falaremos noutra ocasião, e partner na Image, o que prova o peso das suas criações na economia da editora), as ideias, as inúmeras personagens, e a arte colorida e descomprometida (primeiro de Walker, co-criador, agora de Ottley), é suficientemente fluida para permitir essa navegação rápida. 
Jupiter’s Legacy. Mark Millar e Frank Quitely. Mesmo quando existem muitos indícios de que um determinado autor não é capaz de cumprir o que promete (e Millar deve ser o autor com os maiores índices de self-hype do planeta), a verdade é que se cria uma espécie de pressão para acompanhar as suas criações. Além do mais, a presença de Frank Quitely, que a nosso ver consegue produzir um equilíbrio interessante entre personagens de ar másculo (inclusive as femininas) sob o efeito e esteróides e uma estilização clara (ao contrário de, por exemplo, Simon Bisley) poderá significar uma mais-valia. Até agora apenas saíram dois números espaçados, e não parece haver uma mesma estratégia de “world-building” como verificada em títulos anteriores (de que Nemesis foi o melhor projecto, parece-nos). Jupiter’s Legacy é mais uma variação nos temas “o que aconteceria se existissem super-heróis no nosso mundo?” e “como é que as novas gerações de super-seres reagiriam com os seus pais?”, logo, é mais um herdeiro de Watchmen. Porém, tirando algumas ligações curiosas à cultura popular e política actual, mas de uma eficiência infantil, as personagens ainda não estão totalmente formadas, para além das sua premissa básica, se algumas vez o estiverem (afinal, já passou metade). As páginas sobre as “origens” eram curiosas, mas culturalmente falhas, e o salto para a contemporaneidade é demasiado abrupto para sequer se formar algum tipo de compreensão ou interesse emotivo pelas personagens. Quiçá a sua leitura completa poderá revelar um interesse maior. Duvidamos, mas o vício é duro. 
Mara. Brian Wood e Ming Doyle. Ao contrário de Millar, Wood não tenta criar narrativas grandiosas e que abarquem explicações cabais para os universos diegéticos que apresenta. Mas inscrevendo-se no mesmo tipo de premissas - como seria um universo em que houvesse pessoas com super-poderes e que consequências haveria para a sociedade? -, acaba por, nas suas mais elegantes e simples respostas, revelar uma maior inteligência social, cultural e até artística do que o escritor britânico. A trama de Mara tem lugar num futuro relativamente distante, onde o desporto-rei parece  ser o voleibol feminino, cujo culto ganha contornos fortíssimos em termos nacionalistas e económicos. A grande estrela, Mara Prince, sem grandes explicações, começa a desenvolver capacidades extraordinárias, e isso não apenas vira o seu mundo pessoal de cabeça para baixo, como todo o mundo. Questões sobre as relações entre patrocinadores, interesses militares, tecnológicos e sociais são explorados, mas acima de tudo como é que um indivíduo responde face aos obstáculos que lhe criam, até um ponto insuportável? Estando apenas a um número de terminar, poderá haver uma resolução surpreendente, e há ecos de Miracleman nestas páginas. A opção de ter uma personagem feminina é também muito significativa, sobretudo na economia geral deste género. E Mara, apesar de ser uma personagem solitária, revela um tratamento emocional e intelectual muito bem feito da parte dos autores, isto é, não apenas na sua dimensão narrativa, mas também visual, nos traços de extrema elegância, quase próximos de uma certa tendência da ilustração contemporânea de moda, com laivos de esboços expressivos e românticos (mas consolidados pelo trabalho, também ele muito elegante e rico, não necessariamente naturalista, de cor por Jordie Bellaire) de Ming Doyle. 
Multiple Warheads. Brandon Graham. O projecto originário de Graham com estas personagens - Sexica, uma traficante de órgãos, e Nikoli, um mecânico com orelhas e rabo de  lobo (mas não é nem lobisomem nem furry) - começara num livro one-shot ainda pela Oni Press em 2007. Mas desde a entrada de Graham para a Image, com vários projectos, de King City a Prophet, que ele os tem feito transitar. Publicou então a mini-série que dá continuidade às aventuras - a palavra é o mais certeira possível - destas personagens, cujo sub-título Alphabet to Infinity é claro no seu sentido de road trip. Muitas das dimensões que apontámos em relação a King City estão aqui presentes, claro, sobretudo nos instrumentos gráficos, plásticos e expressivos do autor, se bem que haja uma maior presença de facetas risqué, dado o erotismo entre os protagonistas (mas sem escorregar para a pornografia, mesmo divertida e bem-disposta, que o autor cultivou nos seus trabalhos “alimentares”). Graham continua a abandonar as suas personagens, e ao seu próprio gesto criativo, num puro e contínuo prazer de encontros felizes com o acaso, em torno de trocadilhos, ideias visuais e trouvailles que fazem este “universo” cantar a cada página, mesmo que coloque em causa uma expectativa mais normalizada por intrigas, resoluções, ou narrativas “naturais”, ainda que as remeta/prometa para uma próxima série. É uma espécie de máquina de triturar formas sempre em avanço, recordando a ontologia presente na animação de um Ivan Maximov, por exemplo, e que importa degustar a cada página, não no seu cômputo arrumado e final. 
Happy. Grant Morrison e Darick Robertson. A expectativa de encontrar Morrison num título independente abria a possibilidade de encontrarmos aqui uma narrativa totalmente livre de caminhos por entre os géneros, ou pelo menos aquela típica verborreia de conceitos colidindo a que o autor nos habituou. A ideia de partida parecia genuinamente inclinada a isso: um antigo polícia chamado Nick Sax, que agora se dedica a limpar o sebo a seja quem for por dinheiro, prometia arrastar a narrativa pelo nariz num bas fond de crime, e quando dá de caras com um pequeno cavalo cartoonesco alado chamado Happy - e que nunca percebemos e é alucinação, efeito de um tumor, sprite fantástico - , que o quer forçar a encontrar e derrotar um serial killer vestido de Pai Natal, parece atingir esse patamar de estranheza. Mas a verdade é que os elementos não cantam em coro. Se o tema da “imaginação é poder” de Flex Mentallo, Joe the Barbarian, e outros trabalhos de Morrison está aqui patente, isso é demasiado nítido, de uma tal forma que passa de programa narrativo a “mensagem” óbvia. Além do mais, parece que Morrison quer imitar a brutalidade de um Garth Ennis (por isso, o convite ou possibilidade de trabalhar com Robertson, perfeito para a solidez dessas cenas, acentua essa busca), mas sem genuinamente se abandonar à sua orgia, como o seu colega consegue. Final feliz obrigatório, ausência de espelhamento da realidade, algumas cenas algo gratuitas, mas o regresso a Morrison é, como a Millar, um vício. 
Ten Grand. J. Michael Straczynsky e Ben Templesmith. Nalguns aspectos, isto recorda de imediato o one-shot Dream Police, do mesmo escritor. Mas onde nessa história o policial cruzava-se literalmente com o onírico, aqui encontramos os elementos típicos da novela de crime com a fantasia negra e o sobrenatural – mortos, demónios, encantamentos, redenção, etc. Não numa exploração desse cruzamento como a bem-humorada R.I.P.D., mas com contornos de seriedade, fortalecida pelos desenhos riscados de Templesmith, veterano de um novo horror, e as suas manipulações digitais de cores glaucas e ocres e apontamentos de luz. Os ingredientes necessários estão todos nos sítios, as pequenas pérolas de honra e moralidade no centro da abjecção são expectáveis mas justos, os factores entre o cool e o brutal equilibrados, a promessa de uma intriga maior do que se pensa ofertada. Se bem que alguns elogios a comparem a Hellblazer, será na ausência da análise cuidada e engajada de Delano nos primeiros números da sociedade em que se inseria, e mais isolada na sua bolha de fantasia (mais próxima do run de Ennis, que chamámos de “ópera”), mas ainda assim cria-se um perfeito ambiente para uma circunferência competente de escrita, eventualmente de culto. 
Lazarus. Greg Rucka e Michael Lark. Esta é outras das séries iniciadas há pouco tempo, como Ten Grand, por isso existem ainda elementos apena adivinhados. Mais uma vez deparamo-nos com uma exploração pela ficção científica de contornos sociais ou mesmo de crítica à actual política económica do mundo ocidental. Num futuro não particularmente distante, a propriedade da riqueza do mundo está literalmente nas mãos de um número muito reduzido de Famílias, e a esmagadora maioria da população humana é tratada como “Desperdício” (Waste). Os “Lazarus” são uma espécie de super-agentes protectores dessas Famílias, que podem sempre ressuscitar das mortes (daí o nome) e Forever é a protagonista da série, lançada num complot (claro), o qual se adivinha pôr em crise toda a sociedade em questão (claro), sendo ela o centro das atenções (claro). Rucka e Lark permitem-se a exploração de toda uma série de elementos pré-fabricados (as relações entre famílias parecem ser decalcadas da série A Game of Thrones), mas queremos acreditar que a longo prazo este título terá alguma relevância. Tendo em conta o seu trabalho no excelente Whiteout, e em Queen & Country, Batwoman, e Stumptown (que não lemos), Rucka demonstra gostar de trabalhar com protagonistas femininas, e essas personagens surgem sempre como mulheres autónomas, capazes, e cujas fragilidades nascem das circunstâncias das suas biografias (e não de uma suposta “natureza”), mas onde se encerram igualmente os factores que erguerão a sua força. O trabalho de Lark continua sóbrio, e até sombrio, com composições frugais mas eficazes, apenas se permitindo pequenos desvios significativos, tudo muito correcto e sem surpresas de maior. 
Saga. Brian K. Vaughan e Fiona Staples. Terminamos com aquela que possivelmente pode ser vista como a melhor série neste momento na Image de ficção científica, ou na banda desenhada mainstream norte-americana, ou outros contornos que quiserem. Tal como em relação a Prophet, esta série mereceria um post próprio, mas eventualmente esperaremos pelo seu término, como no caso de Scalped ou Y: The Last Man, também de Vaughan, para compreender toda a sua cristalização final. Saga é explícito no seu título, e centra-se na relação, à la Romeu e Julieta, entre dois protagonistas que partindo de cada lado de uma guerra interstelar, se apaixonam e abandonam os seus papéis antagonistas: Alana, de Landfall, e Marko, de Wreath, um satélite de Landfall. Uma guerra assola o universo há anos, mas fora dos planetas, o que faz com que os mais diversos povos e criaturas se encontrem de alguma forma de um dos lados das barricadas. Alana e Marko acabam por se juntar e têm uma filha, que ainda é bebé mas é a narradora da história (fazendo-nos crer de que tudo isto nos é contado em retrospectiva, mas poderá haver, e com Vaughan ao leme, haverá certamente, uma reviravolta inesperada). Para além da referência à maior história de amor de Shakespeare, é repetida por críticos também o modelo Star Wars, no sentido em que se une ficção científica, fantasia e magia, aventura e toques de comédia. Criando uma rede bem mais estimulante do que os Skywalker, por haver uma distribuição mais contemporânea de agência entre as personagens, algumas surpreendentes em termos de fantasia mas todas curiosas e inteligentemente criadas, e um grande escopo de ambiguidade moral e política sobre todas elas, Saga poderá vir a tornar-se indubitavelmente não só num título de grande sucesso junto a um público extremamente diversificado como um título de culto. Mais leve e menos preachy que Ex Machina, são tantos os elementos divertidos (a leitura de um romance rosa como se fosse o evangelho, dezenas de referências à nossa cultura de “lixo” contemporâneo num contexto de f.c., uma excelente compreensão - autobiográfica? - do que significa ter um bebé para cuidar e o tipo de tensões que isso gera em família; ah, e testículos de gigante), que se atravessam todas as facetas possíveis. A arte de Staples é belíssima, no interior da sua abordagem convencional: uma figuração impecável, composição justa, cores digitais competentes e com pormenores inteligentes, a sua “limpeza” permite que Saga se conduza numa leitura espontânea e desembaraçada.
Nota final: agradecimentos a G., por dar a conhecer Black Mirror, S.S. por insistir sobre Invincible, e P.B. pelos empréstimos. Imagens empregues colhidas da internet ou ficheiros digitais.

6 de setembro de 2013

Before Watchmen. AAVV (Comic Books, parte 4).

Antes de tecer algumas breves considerações sobre os títulos que compõem a série, permitam-nos um longo enquadramento. Como se sabe, esta série atravessou alguma celeuma ou “controvérsia”. Tomar uma posição “contra” ou “a favor” da existência de Before Watchmen, todavia, é um pouco estranho. Estes textos existem, estão disponíveis, não os ler não os elimina. Já a ideia de “boicote” pode ser mais pertinente, mas ainda assim cai numa série de contradições ou paradoxos, não sendo a reificação (o corrector automático propõe “deificação”, e não está longe da verdade) da obra “original” a menor.
Não pode haver dúvidas de que Watchmen foi um título decisivo. Ainda que a divisão da história da banda desenhada em “eras” (golden/dourada, silver/prateada, e por aí fora, chegando mesmo à retrospectiva era “de platina”) demonstre um certo provincianismo, uma vez que apenas faz sentido em relação ao género & formato específico dos comic books de super-heróis norte-americanos, a sua publicação estruturaria todo um feixe de forças que  garantiu à banda desenhada como um todo, primeiro nos E.U.A. e depois internacionalmente, uma exposição que não havia tido até à data. Publicado em 12 números e depois coleccionado num volume em 1987, seria, juntamente com outro projecto do mesmo território, o The Dark Knight Returns de Frank Miller, e outro objecto totalmente distinto, Maus, de Art Spiegelman, a tríade que (re)colocaria a banda desenhada no concerto cultural. Na verdade, cada um desses objectos tem características distintas, e um papel determinado, e não se pode pensar que houve uma transformação automática. A palavra “graphic novel” foi ganhando cada vez mais cachet cultural, mas se por um lado essa conquista na praia intelectual, literária e académica apenas seria garantida com o surgimento de títulos tais como Persepolis e Fun Home, por exemplo, portanto já mais tardiamente, no caso da banda desenhada mainstream essa palavra serviria para duas coisas: uma nova forma de “reempacotar” a banda desenhada e, consequentemente (mas apenas nos anos 1990 isso seria assegurado), um acesso permanente à história de décadas do género. Se Maus conquistou peso cultural, os títulos de Miller e de Moore e Gibbons permitiram às grandes editoras Marvel e DC (praticamente sozinhas no mercado então) começarem a apostar em colecções de comics em volumes de capa brochada, os trade paperbacks, e a manterem esses mesmos materiais sempre acessíveis.
Alan Moore era já considerado um nome importante e um valor novo na indústria norte-americana quando iniciou Watchmen. Apesar de não ser o primeiro autor britânico a “emigrar” (o trabalho, não ele-mesmo) para esse campo, a verdade é que seria ele o cabecilha da chamada “Invasão Britânica”, isto é, a “importação” de talento literário e artístico do Reino Unido para os Estados Unidos. Moore começaria essa onda com o seu mítico run de Swamp Thing (se bem que já tinha no currículo trabalhos “revisionistas” de super-heróis como Captain Britain e Marvelman/Miracleman), o que levaria a três consequências importantes: primo, contribuiria para o advento da Vertigo, uma editora subsidiária da DC que apostava em trabalhos mais “maduros”, explorando géneros como o terror, a fantasia e o fantástico, com misturas suficientes com géneros mais normalizados (super-heróis, western, ficção científica, etc.) e virados para leitores de perfis mais adultos e específicos; subsequentemente, secondo, isso abriria as portas a autores como Neil Gaiman, Jamie Delano e Grant Morrison, numa primeira fase, e a Garth Ennis, Warren Ellis e Mark Millar, mais tarde; este foco em escritores (apesar dos artistas Gibbons, Brian Bolland, Alan Davis, Chris Weston, etc.) levaria finalmente a, tertio, a emergência do culto dos escritores, transformando a economia de maior atenção dos fãs para com os artistas para estas novas super-estrelas, pace Stan Lee. 
Sem entrar em pormenores que podem ser verificados noutras fontes melhores (Moore desistindo de trabalhar com a DC, abdicando de muitos dos direitos de autor para os artistas, esperando que lhe fossem devolvidos os direitos após o livro estar fora de circulação – relembremos que não costumava existirem “livros”, e muito menos reedições -, mas a DC mantendo-o precisamente para manter a “galinha dos ovos de ouro”, as suas duras críticas em relação à adaptação cinematográfica, etc.), o que interessa é que para os fãs, acólitos ou defensores de Moore – e não deixamos de pertencer a esse número, sem vergonha – este projecto surgia como crime de lesa-majestade, misturando-se também nesse sentimento uma ideia qualquer elevada de “autoria” e “autonomia estética” que, no fim de contas, não tem lugar nesta indústria. Ou melhor, tem, mas numa capacidade totalmente distinta da de outros territórios, e que deve ser compreendida como tal.
Nada do que sucedeu pode redimir a DC Comics, enquanto corporação, da forma como trata os seus artistas, como explora vampiricamente toda e qualquer das suas propriedades – mas, no fim de contas, não nos podemos esquecer que são suas propriedades – e como re-aproveita os interesses de um público volátil e sistematicamente em busca de novas “unidades de prazer”. Este caso, juntamente com toda a tinta que correu em torno da relação da DC com Siegel e Shuster, da Marvel com Kirby, o caso “Miracleman” e o caso “Angela” (envolvendo Moore, Gaiman, McFarlane, etc., e que por sua vez remonta ao caso legal que opôs o Super-Homem ao Capitão Marvel nos anos 1940-1950), e miríades de outros em torno dos direitos de autor na indústria norte-americana, encontra aqui mais um caso complexo e iluminador. E seguramente que fará um contraste curioso com o futuro projecto de Neil Gaiman, intitulado Sandman: Overture, em que é o próprio Gaiman a controlar a “prequela” da saga da sua personagem mais famosa.
Um aspecto histórico importante é que Watchmen foi criado de uma maneira que sublinhava abertamente uma determinada “política de autores”, no interior do que era possível na indústria. Toda a série foi impressa em melhor papel, com uma capa cuidada e um design (então) arrojado e pouco convencional, não havia anúncios a interromper a narrativa, existia todo um material adicional feito pelos autores - os artigos e entrevistas apócrifos, etc. -, mas fundamental para a compreensão do mundo diegético interno do título, etc. Ora o projecto actual está no centro de estratégias bem diferentes, acima de tudo, comerciais. Todavia, é necessário também ter em conta que o próprio projecto Watchmen não deixa de estar no seguimento dessas políticas, não estando totalmente desligado delas: afinal de contas, e como é por demais sabido, houve um momento em que Moore pensou vir a utilizar as personagens que a DC havia adquirido da Charlton, e foi por decisão editorial - para que as pudessem ainda usar, o que seria impossível depois de Watchmen - que o autor criou versões “prismáticas” dessas personagens, que podia usar como aprouvesse. Além do mais, depois da saída, Moore continuaria a explorar de várias formas a sua própria nostalgia pelos super-heróis, e até mesmo num ambiente ante-Watchmen: basta ler as páginas do “seu” Supreme e de Tom Strong, sobretudo. E o que é The League of Extraordinary Gentlemen, senão um riff sobre personagens “clássicas” de que Moore se apropria para criar novas histórias, e até mesmo novas configurações mentais/culturais? No entanto – como se apercebem, qualquer discussão em torno destas questões leva a uma incessante espiral de qualificações, correcções e excursos -, o trabalho de Moore e Gibbons (ou de Moore em termos gerais) revela uma prática de controlo e entrega autoral que não só era de facto inédita ao tempo de Moore (no interior do género, mas suspeitamos que na arte em geral), como raramente seria superada ou igualada. E Before Watchmen encaixa-se mais directamente nas práticas correntes, comuns da indústria. 
Existem investigadores que, estudando as formas específicas como este género se reinventa a si mesmo, entre os quais aqueles que, ao contrário de Geoff Klock e outros, acham que a desconstrução e revisionismo é da própria natureza do género (pense-se nos originais Superman e Batman, rapidamente “desaparecidos” na continuidade), encontra em toda esta espécie de estratégias – spin-offs, Elseworlds, prequelas, variações noutros universos ou companhias (e Watchmen é-o, logo à partida) – uma forma de “re-escrita”, que expande e reelabora narrativas previamente existentes (até Maus poderia ser visto dessa forma, tendo nascido como uma história de três páginas, em Funny Aminals). Mas convenhamos que existem graus (ou será naturezas?) diferentes entre variações internas e autorais (veja-se tudo o que é relativo ao Sandman), e encontros felizes de plataformas comerciais e criações autorais (p. ex., DC: New Frontier, de Darwyn Cooke, ou Superman: Red Son, de Mark Millar et al.), espirais descontroladas de premissas editoriais e/ou crasso comercialismo (muitos dos títulos ridículos de Elseworlds, sobretudo com o Batman – veja-se Batman: Holy Terror, de Brennert e Breyfogle), a projectos autorais falhos (Holy Terror, Batman!, de Miller, que acabou por se transformar). Ou até paródias do crasso comercialismo: recordam-se de “Watchmen Babies in V for Vacation” em The Simpsons? E de Saturday Morning Watchmen? Desse espectro virtual, surge a pergunta, em que ponto se encontrará Before Watchmen? Ou então: Before Watchmen acrescenta alguma coisa ao mythos de Watchmen? O primeiro problema de Before Watchmen é aquele que, de resto, assola quase toda a indústria da banda desenhada mainstream de super-heróis actual (ou desde sempre, diriam os “de fora”, os incrédulos do género). A falta de novos conceitos e ideias. Mas o mesmo talvez poderia ser dito do cinema e de certas linhas da música pop rock: tudo apenas requenta e re-emprata receitas anteriores. Na excelente série televisiva The Trip, com Steve Coogan e Rob Brydon, este segundo diz o seguinte: “Já tudo foi feito. A única coisa que podemos fazer é algo que já alguém fez antes, mas fazê-lo melhor, ou diferentemente”. Infelizmente, parece que a esmagadora maioria dos autores no interior das companhias (isto é, daquelas estruturas que não garantem direitos de autor individuais, mas antes produção de material para a própria companhia) prefere simplesmente fazer o mesmo com uma mínima diferença, variações de “cor” e “timbre” somente: zombies Marvel, Vingadores Negros, Elseworlds em catadupa, reboot atrás de reboot… Numa discussão sobre a afirmação de Dan DiDio sobre a vontade dos leitores quererem “mais Watchmen”, Orion Kidder escreve, na comics scholars list, que é típico que a perspectiva corporativa se centre mais no ordenhar superficial de uma ideia do que a construção de “um argumento sólido, significado político, profundeza de carácter das personagens, e boa arte”. Só que às vezes há falhas comerciais.  Apesar de não podermos discutir com conhecimento total e estarmos limitados pela nossa inépcia em lidar com esses dados, é que nem sequer esta se trata de uma indústria que venda muito. Os comic books são caros individualmente, e não têm lucro suficiente para cobrir as despesas (por exemplo, falar de “um milhão de cópias vendidas” é, para qualquer coisa nos E.U.A., risível, bastando comparar com as vendas de romances populares). Tem mesmo de existir os tpb, as estatuetas, os brinquedos, os filmes…

Durante muito tempo, nas proximidades da estreia da versão cinematográfica, a DC anunciava alguns dos seus títulos, desde comic books individuais a séries, e de muitas qualidades, com uma tarja apontando qualquer coisa como “o que se segue a Watchmen?” Havia a ideia de que esse título havia atingido um patamar de que nenhum outro se aproximava, e dessa forma, com essa publicidade, tentava-se criar essa “apetência” por coisas novas, por assim dizer. O passo seguinte era, portanto, óbvio. Em Fevereiro de 2012 foi anunciada a máxi-série, constituída de vários títulos individuais (quase 40 comic books), que serviria de “prequela”. Esta última palavra significa uma narrativa analéptica em relação à diegese central de Watchmen (a qual já tinha vários momentos de uma cronologia alargada), destilando as origens ou aventuras prévias das várias personagens, “preenchendo” os momentos que não conhecíamos ou apenas se haviam mencionado de raspão, esperando que se adensasse mais as suas personalidades ou estruturas narrativas.
Pense-se no caso paradigmático de Batman. A história original da sua origem (em Detective Comics no. 33) representa a morte dos pais de Bruce em apenas quatro vinhetas, e a sua jura de vingança no quarto, à luz de uma vela, assim como a entrada fortuita de um morcego na sua sala pela janela aberta, já em adulto. Ao longo dos tempos (sete décadas!), estes acontecimentos foram sendo desdobrados, aumentados, até descobrirmos que o pai de Wayne há se havia mascarado de morcego antes, que o pequeno Bruce caíra numa caverna em criança, que o assassino dos pais era Joe Chill, depois que não havia sido um roubo fortuito mas um assassinato planeado, que Bruce se havia chateado com o pai antes deste ser morto, etc. Até chegarmos às memoráveis cenas de obsessão do velho Wayne em The Dark Knight Returns, com o colar de pérolas desfazendo-se em “câmara lenta”. Se muitos outros autores depois de Miller tentaram ainda aumentar mais essa imagem, ela ficou cristalizada para sempre (ou quase, dado o New 52). Mas aí é que entra a ideia de multiplicidade e compossibilidade dos leitores: aos poucos, são eles que vão coalescendo todos os contributos díspares numa qualquer ideia coesa, mesmo que absorva variações incompatíveis. Está nas mãos dos autores saberem contribuir com adições significativas que consigam conquistar o seu espaço.
Ora este projecto quer fazer isso de uma forma tão aberta, tão clara, mas tão programada, e ao mesmo tempo “a medo” face à grandiosidade (falsa ou verdadeira, pouco importa agora) do livro original, que não nos parece conseguir fazê-lo. Existindo “factos” incompatíveis de série para série, opções diferentes para uma mesma “realidade” em Watchmen, todas elas seriam compossíveis para os leitores, não se anulam mutuamente, já que este género permite essa convivência (e o Dr. Manhattan explicaria as razões quânticas disso).
Todavia, um dos aspectos curiosos deste tipo de projectos editoriais, que mesclam princípios da “continuidade”, dos “eventos” e de narrativa multifacetada, é que pode ser lida de vários modos. O primeiro era acompanhar cada comic book à medida que ia sendo publicado, levando a que se intercalassem os episódios/números das múltiplas séries (inclusive a do pirata Crimson Corsair, que é contada em episódios de duas páginas em cada um dos comic books), a maioria delas oscilando entre 4 e 6 números, o que poderia levar à noção de que as informações de cada episódio iam contribuindo para uma estrutura narrativa coesa entre todos. É claro que no fim de contas todos os contributos pretendem chegar ao mesmo fim: desembocarem numa história maior dos Watchmen, mas em que a ordem de leitura é significativa (nalguns casos, as pistas são explícitas, já para não mencionar a saga, ordenada, do pirata), isto é, cria uma cronologia, não necessariamente linear. Uma história ilumina um aspecto de outra, mas como dissemos sem que todas as peças se encaixem na perfeição, nem sendo isso desejado, pois o que se prende sublinhar é a existência de “verdades” (como é exposto explicitamente no Minutemen de Cooke). Outro modo é esperar - já estão disponíveis, diga-se de passagem - que cada série seja reunida num volume, se torne como que uma “graphic novel” autónoma, e possa ser lida ora solitária ora coordenadamente no todo.
Para efeitos de simplicidade, e até do nosso próprio acompanhamento, falaremos de cada título separadamente, sem ordem particular.
The Curse of the Crimson Corsair. Len Wein e John Higgins. Comecemos pelo fim. Ou pela “parte de trás”. No universo diegético de Watchmen, uma vez que pessoas com poderes extraordinários existiam mesmo, não fazia sentido, segundo a lógica de Moore, que o género mais amado de banda desenhada mainstream fosse de super-heróis. Os autores inventaram então uma série de comic books, que o leitor vai tendo acesso em níveis secundários e/ou mesclados com o primário, intitulada The Black Freighter, autorada por um tal de Max Shea, e que não deixava de ser uma sentida homenagem a uma tradição que não medrou, a da EC Comics, antes do Comic Code (sobretudo Piracy). Se esse comic book hipodiegético se ligava à história principal através de modos muito subtis, começando pela sua própria leitura por um rapaz que morrerá na catástrofe final em Nova Iorque, Crimson Corsair parece um relativamente desinspirado exercício de pastiche: entram zombies, o Holandês Voador, objectos mágicos do mar alto (mais sob a sombra de Piratas das Caraíbas do que qualquer outra coisa). Se os desenhos de Higgins são algo reminiscentes daquela materialidade pulposa e rugosa de um Reed Crandall ou Wally Wood, ou mesmo semi-caricatural de Jack Davis, mas sem o mesmo panache, ou mestria, a história é demasiado linear, pobre e desagregada do resto do universo narrativo. Este é o aspecto menos conseguido: sendo na série original uma história “ficcional” que criava sentidos alegóricos ou especulares sobre os acontecimentos “reais”, aqui é apenas mais um aproveitamento genérico. Tendo surgido duas páginas à vez no final de todos os números individuais das séries, já era aborrecida (recordando os ritmos de algumas tiras de continuidade clássicas de jornal), mas a sua leitura seguida no volume coleccionado não a salva dessa desagregação interna. Before Watchmen: Minutemen. Darwyn Cooke. De certa forma, esta é a série que enquadra todas as outras, ou as ancora num ponto de partida, remetendo, seja como for, à série original e a Under the Hood, as memórias que Hollis Mason escreve. Mason é um antigo membro dos Minutemen e pertence à primeira geração de super-heróis (na verdade, ninguém é “super”, mas são justiceiros ou vigilantes mascarados), a qual observa o mundo a ser transformado por eles mesmos mas vendo-se ultrapassados com a chegada dos novos heróis (os Watchmen, cujo nome não é oficial). Uma vez que em Watchmen esta equipa mais antiga não havia sido totalmente desenvolvida, servindo apenas de contexto histórico de onde emerge a nova geração, Cooke toma o caminho mais esperado: a exploração de cada uma dessas mesmas personagens. No entanto, a razão pela qual esta nos parece ser uma das melhores série de todas do projecto global é explicado pelo protagonista nas primeiras páginas, e que parece remeter para o trabalho do próprio autor. Diz Mason, ao escrever o epílogo do seu livro, que “não sou Tolstoi” e que “temos de ser nós próprios”: depois de existirem toda uma série de pistas visuais para os trabalhos de Moore nessas duas primeiras páginas (From Hell, Swamp Thing, e claro está, Watchmen), Cooke quer demonstrar que não quer nem ser Moore nem adivinhar a sua mente de relojoeiro, mas contribuir com a sua maneira. E fá-lo, sem grandes voos, ainda que haja a subtileza do projecto literário de Mason poder ser lido como o de Cooke (e os restantes autores) face à “verdade” de Watchmen. No seu estilo cartoonesco, quase infanto-juvenil, Cooke traz quase de uma maneira literal a “leveza” de Calvino, que alguém recordou num comentário neste blog: a ideia de multiplicidade, de mobilidade, uma agilidade do espírito pelas coisas do mundo, mutantes e cambiantes. Isso é corroborado, em termos visuais e composicionais, pelas opções de Cooke que, servindo de homenagem à estrutura cristal de Watchmen não deixa de surgir como sua, variada, dinâmica, e cuja cor de Phil Noto apenas acentua de modo muito inteligente em cada “trecho” específico. Não obstante o humor, o ambiente retro e as inúmeras referências à tradição em que se integra, Cooke consegue depois instilar os lados negros que arruínam essa suposta “inocência” (precisamente um dos temas centrais da obra original).
Fica, porém, a questão se há aqui algo de específico a esta equipa. Isto é, não poderia Cooke ter escrito esta aventura para uma outra configuração de super-heróis, da Sociedade da Justiça da América ou os primeiros Vingadores ao Clube Recreativo dos Defensores de Vilar Formoso? Com a excepção da ideia da “verdade” para com o público das suas acções, não podemos dizer que o contributo narrativo ponha em causa ou subleve a outro nível estas personagens, em relação ao seu ur-texto. Não obstante, traz a um só tempo a ingenuidade e alegria da primeira geração de super-heróis e uma gravidade da realidade que Moore e Gibbons queriam insuflar a todo este universo genérico. E o tratamento emotivo de Hollis Mason é o mais conseguido, nesta narrativa legível, crível e coerente.
Before Watchmen: Comedian. Brian Azzarello e J.G. Jones. Azzarello, como sempre, cria um contexto significativo para depois o desenvolver de modo imperfeito. Seguindo a carreira militar e política de Edward Blake, em que a relação muito íntima com a família Kennedy assume um papel preponderante, Azzarello quer mostrar o papel do Comediante em toda uma série de acontecimentos históricos, desde os tumultos raciais nos anos 1960 ao combate no Vietname à oposição hippie deste conflito, passando por combates de boxe de Classius Clay e pelos inevitáveis bastidores da política. De certa forma, é como se o autor quisesse enxertar esta personagem que mescla o Capitão América e o Joker no plot de JFK, com mais uns quantos dedos de teorias da conspiração (mesmo que haja cada vez mais pormenores sobre a sua realidade, e Alan Moore contribuiu para isso com o seu Brought to Light, outra obra que iluminaria as escolhas de Azzarello). No entanto, rapidamente o dedo “gratuito” do escritor se faz notar, envolvendo-o no suposto assassinato de Marilyn Monroe (a mando de Jackie!), explorando as psicoses, induzidas por drogas ou não, do Comediante, e os seus excessos. Finalmente, a revelação de ser ele o assassino de Bobby Kennedy, de forma a proteger os segredos que o haviam formado como patriota pronto a ter de fazer o necessário, é o corolário do suposto “desequilíbrio” da personagem. Goste-se ou não da personagem original, nada aqui a torna mais humana, e apenas a torna mais um desses títeres niilistas do escritor. Jones é também um enigma. Longe da firmeza e solidez de Wanted ou mesmo Wonder Woman: The Hiketeia, a figuração é inconsistente e falha, a composição tenta variações banais e a cor, apesar de ser Alex Sinclair, é pouco notável. Before Watchmen: Rorschach. Brian Azzarello e Lee Bermejo. Supostamente, esta é a personagem que mais interessou os fãs de Watchmen, é mesmo a mais amada das criações de Moore nesse universo, e não apenas por ser a voz “organizadora” de toda a diegese e o inesperado “herói” da fábula moral e politicamente ambígua de Watchmen. O Dr. Manhattan é demasiado afastado da experiência humana, o Comediante está demasiado afecto ao status quo político, os restantes são apenas variações menores de clichés. Rorschach entabula em si mesmo, exacerbando-os, os elementos que provêm das duas personagens da Charlton em que se baseia, o Questão e Mr. A (ambas de Steve Ditko, e não nos referimos aos aspectos físicos e de roupagens, mas aos princípios ideológicos neo-Randianos), e Batman (a compulsão pela missão, sem a fortuna e os gadgets; esses estão na mão de Nite Owl). Ora, esperar-se-ia que o estudo de personagem a que uma série desta se permitiria assumisse o perigo desse gosto, que se levantasse o proverbial “espelho” ao leitor desse fascínio.
Infelizmente, nada disso tem lugar. O primeiro número coloca a personagem de imediato entre Cila e Caríbdis, isto é, uma gangue de traficantes de droga e um serial killer, mas nem um é Cila nem os outros são Caríbdis: afinal, a série apenas pare uma narrativa banal de crime (hediondo, claro, mas é Azzarello, afinal de contas), resolvida pelo protagonista ora de forma linear, física, e que não se aproxima sequer da eficiência e brutalidade da história original (em relação ao gangue), ora “por força das circunstâncias”, sem desenvolvimento e causalidade (em relação ao assassino). Uma vez que sabemos que ele não está em perigo jamais, de que vale ter um texto que exerce violência sobre o herói? A mimese do estilo de Rorschach - as frases curtas, as legendas em forma de folhas de diário, etc. - é completa, como não podia deixar de ser, mas por isso mesmo é um exercício quase de pastiche, e de quando em vez notam-se “falhas”, digamos assim, de personalidade. Coisas que não diria, coisas que não faria daquela maneira, achamos nós. 
Os autores tentam criar uma história secundária, com uma mulher que demonstra algum respeito, e até afecto, por Walter Kovacs, mas não só surge como um elemento algo forçado - precisamente para criar  essa dimensão na narrativa - como o seu fim é previsível. Tal como ocorre no título dedicado ao Comediante, também Azzarello inscreve Rorschach num momento preciso da história de Nova Iorque, se bem que explore os seus cantos fictícios, com a inclusão, algo gratuita, de um cameo de Travis, a personagem de Taxi Driver. Essa presença em nada adianta a diegese, e apenas serve uma espécie de wet dream de cruzamento de referências, que se confirma pelos clichés que se seguem (black out de toda a cidade, tumultos nas ruas, batalha na pista de dança disco - não, não é gralha, deve ter  um gerador próprio - e é mesmo uma cena ridícula, um tigre metido à força, um combatente com poupa de Tintin…). A arte de Bermejo está como sempre ancorada nos seus corpos sólidos e anfractuosos, mas há algo de demasiado contemporâneo nas suas cores, sobretudo dos néons, que não se coaduna com a ambiência da história, de resto, bastante trivial.
Before Watchmen: Ozymandias. Len Wein e Jae Lee. Tendo sido Wein o editor original de Watchmen, logo, é ele quem assume uma parte significativa na escrita destas série: os one-shots de Crimson Corsair e Dollar Bill, e a série Ozymandias. Se é estranho que esta “homenagem” esteja nas mãos de tão poucos autores, seria de esperar que Wein pudesse trazer algo de verdadeiramente moldado para a equação. Ou não. Pois este título é o mais paradoxal e vazio de todos.
Como se disse acima, um dos propósitos da série era preencher os “vazios”. Esse é, supostamente, um dos princípios da “magia” ou da “arte invisível” da banda desenhada: o leitor preenche o espaço em branco. Como se discutiu a propósito do mythos de Batman. Mas o que acontece quando aquilo que parece faltar na elipse é tão óbvio que o seu preenchimento não só não adianta nada de novo nem inflecte a estrutura de significado original, como a torna mais frouxa? Imaginemos alguém que se vira para nós e convida: “Tu, eu, amanhã, praia”. Independentemente do mau gosto ou circunstância da frase, “traduzi-la” para “Gostava que tu e eu fôssemos amanhã à praia” retira-lhe todo o charme (ou pateguice) que tinha. Um dos problemas, a  nosso ver, era que onde Moore deixava criar elipses que poderiam ser preenchidas com mais ou menos detalhes, mais ou menos informados, pelos leitores, a narrativa de Wein quer preencher tudo, e, uma vez que o seu enquadramento cultural é algo pobre, e as coisas que se dizem sobre Alexandre Magno, a civilização clássica egípcia, as culturas orientais, etc., banais, acaba por se criar um tecido demasiado ténue como base da senda pela iluminação de Veidt. Batman, mais uma vez, está em termos estruturais aqui presente, claro, sobretudo na relação com a fortuna e com a busca de conhecimento e treino do corpo e mente, mas onde o pensamento de Wayne, nalgumas histórias, se aguça para uma edificação maior do que o mero combate ao crime, o modo como Veidt conquista todos os seus objectivos é tão desprovida de obstáculos que se torna uma maçada. Até a forma como “descobre” a sua farda heróica é esvaziada de impacto, como quase tudo o resto. Além do mais, a gestão do sexo é convencional (a relação homossexual disfarçada, a com Miranda acentuada), a dimensão emocional ausente (Jae Lee parece desenhar apenas uma expressão no rosto de Veidt: a de inexpressiva; bom, mas isto quase pode ser dito de todas as personagens de Lee) e até a personalidade do protagonista é unidimensional e aborrecida.
A estrutura, ritmo e focalização narrativas são algo confusas: Veidt está a ditar as suas memórias para uma autobiografia, antes da sua “missão” final. Criado como um Alexandre contemporâneo, Veidt é egocêntrico de um modo muito particular e faz todo o sentido, portanto, que a narrativa seja contada na primeira pessoa. Todavia, a forma como isso se estende enfraquece a economia geral. Essa estratégia, porém, permite aos autores poderem saltar convenientemente entre legendas de narração e balões de fala, mas de uma forma muito pouco elegante. Além do mais, se faz sentido que o texto descreva cenas, acaba por haver uma repetição desnecessária nas imagens das mesmas informações. E é cansativo seguir as informações dadas, todas as descrições e explicações, supérfluas, sobretudo numa intriga que repete estratégias, e é de uma banalidade quase exasperante (quase ou mais do que no caso de Rorschach), assim como aquelas que bebem dos episódios reais da história dos E.U.A. Onde outras séries tentam mostrar uma aventura isolada, Wein tenta mostrar a “missão” de Veidt a par e passo. Será essa a dimensão mais interessante de explorar nesta personagem? E se já sabemos que Veidt tinha ido do ponto 1 ao 8, precisaremos de saber todos os detalhes no meio, 2, 3, 4, etc.?
A arte de Jae Lee é de facto magnífica. Ainda que seja mais devedora à ilustração, e até do pin-up, do que à dinâmica fluida e célere da banda desenhada, e as soluções de composição sejam mais decorativas que qualquer outra coisa, o ambiente que consegue criar é ele mesmo prometedor e insuflador de um ar gótico, misterioso, fantasmático que se associa muito bem a esta personagem em particular, embebida que está no romantismo de Shelley e de nostalgias por utopias históricas.
O problema é que está desfasada da intriga. A primeira desculpa para Ozymandias se lançar na aventura de justiceiro mascarado, a da morte de Miranda e da droga, é algo patética e mais uma vez tenta-se colocar na narrativa da vingança, mas é pífio: Moloch, ou qualquer vendedor de drogas, não iria matar um potencial cliente à primeira dose. A segunda, e a escalada, em torno da aniquilação nuclear, é aquela prevista na obra original, e que teve uma relevância impactante em 1986. Mas a forma como Wein expõe e estrutura a “missão” esgota a subtileza de Moore. E é estranho que Wein, afinal o editor da série original, não tenha sido capaz de aprender com o “discípulo”. Não deixa portanto de ser curioso que as últimas palavras desta história sejam “loose end”, precisamente o que não existe em Watchmen.
Before Watchmen: Nite Owl. J. Michael Straczynski, Andy Kubert, Joe Kubert, Bill Sienkiewicz. Sendo Nite Owl uma concatenação de elementos díspares do Batman, Blue Beetle, Clark Kent e outras personagens (como o próprio Owl original deste universo diegético), as opções de Straczynski eram mais ou menos expectáveis, e que o escritor já treinara em muitos anteriores trabalhos (Supreme Power, Bullet Points, etc.): a variação “prismática” dos elementos flutuantes que compõem estas personagens. Esta é talvez a história que mais “desdobra” a história pessoal de Daniel Drieberg, introduzindo a relação conflituosa com o pai e a descoberta (e subsequente obsessão) sexual. Porém, mesmo esses elementos, que parecem até ser “invertidos” em relação àqueles de Bruce Wayne (em vez de ver o pai morto, é ele responsável pela sua morte; em vez de viver à margem de uma sexualidade – até à pouco tempo na DC – mergulha no seu tumulto; e é ele o aprendiz de Mason, em vez do mestre Batman para Robin), não tornam esta narrativa em algo memorável. Uma vez que em Watchmen Nite Owl e Rorschach foram uma dupla durante um momento, essa relação tem uma grande presença na mini-série, mas mesmo a um ponto de retirar a simetria de toda a série. E o sub-plot de um padre que mata prostitutas para angariar um poder místico é algo ridículo, no interior de todo o tecido da grande narrativa de Watchmen, como se se suspendesse o realismo em nome da fantasia total, algo desfasada do programa original. Quanto à dimensão visual, aqui está a prova de que a matemática nem sempre funciona na arte. Os lápis de Andy Kubert, solidificados pelas tintagens do veterano pai Joe Kubert e o ex-enfant terrible do mainstream Bill Sienkiewicz, apenas produzem uma superfície convencional, de legibilidade mínima, mas muitas vezes desequilibrada, senão mesmo feia, melodramática e patética. Before Watchmen: Silk Spectre. Darwyn Cooke e Amanda Connor. Tendo em consideração o nome dos outros artistas envolvidos neste projecto, e de que esta se trata da única personagem feminina de relevância em Watchmen (um dos problemas repetida e justamente apontados nas críticas à obra-prima de Moore e Gibbons), perguntamo-nos se a escolha de uma artista mulher, Connor, terá tido algum peso nessa decisão editorial. Mas porque não uma escritora (não estamos seguros se Gail Simone foi despedida da DC antes ou depois do projecto, ou se Devin Grayson estava ocupada)? E enquanto artista, mesmo com as cores de Paul Mounts, por comparação ao resto, é banal, banalíssima (até as composições psicadélicas são triviais). Além do mais, apesar de uma gigantesca concentração de todos os outros títulos em plots de acção e aventuras, é curioso que as de Silk Spectre, ou melhor, Laurie, se concentrem nas suas aventuras emocionais da adolescência e primeira idade adulta, apesar do que a circunda. Para a tornar mais apelativa ao seu público, Cooke inventa uma intriga passada na São Francisco no Verão do Amor, que envolve uma potente droga psicotrópica que controla as massas de hippies e os leva a consumirem toda uma série de produtos ligados à cultura e ao rock’n’roll da época (os Beatles participam, Frank Sinatra coordena), numa espécie de crítica algo deslocada, se não mesmo infantil (o vilão chama-se Gurustein), dessa mesma cultura. O uso de momentos, menos que episódios, com outras personagens, parece algo desequilibrado, e as tentativas de “explicar” pormenores ausentes de Watchmen são algo forçadas. Tais como são forçadas e sem o mesmo requinte de Moore a forma como os autores tentam repetir as referências intertextuais (as artes visuais, ilustrações genéricas, letras de canções e citações, etc.) de Watchmen. Entende-se a estrutura subjacente à escrita (e provável planificação) de Cooke, apesar da colaboração na escrita de Connor, e o tipo de humor, leveza, outra assinatura que se pretende - tal como em Minutemen - mas o resultado é de facto muito prosaico e incoerente ao longo dos quatro números. Before Watchmen: Dr. Manhattan. J. Michael Strazynski e Adam Hughes. O grande desafio aqui está em como ultrapassar, ou pelo menos navegar, os tremendos paradoxos de uma personagem cuja consciência tem acesso, permanentemente, a todos os momentos do tempo que o “compõem”. Em primeiro lugar está, claro, o mimar o mais fielmente possível os acontecimentos, a linguagem, estruturas temporais, e passagens visuais que Moore e Gibbons haviam inventado para esta personagem. Se pensarmos na história de Watchmen como uma circunferência, para fora da qual não há informações, sabemos que há um momento a partir do qual não sabemos mais nada desta(s) personagem(ns), quando o Dr. Manhattan parte para o resto do universo (ou “para fora do livro”) onde poderá vir a criar vida. Que opções se oferecem a Strazynski, então? Desviar-se. Dr. Manhattan “viaja” no tempo até antes da sua emergência a partir das moléculas de Jon Osterman, e exploramos uma existência divergente, ou “paralela”, ilustrando - continuamente, aliás - toda a teoria quântica dos mundos paralelos e transformando-o num verdadeiro, explícito, “observador quântico”. O autor assim pode passear novamente por todos os acontecimentos “reais” (históricos e fictícios) da diegese de Watchmen, num exercício de alternativas (à la Bullet Points), embebido de forma clara na “hard science fiction” que deu nome e fama ao escritor. Essa realidade paralela em que não existe Dr. Manhattan torna-se então a crise que o próprio Dr. Manhattan, seu observador exterior, tem de resolver, através da eliminação, levando a um novo paradoxo dele se criar a si mesmo. Um outro desvio está em, num momento decisivo, “dar a volta” à narrativa - literal e materialmente, já que as páginas estão de cabeça ara baixo -, passando a voz para Ozymandias, e descobrindo o embuste do seu lado. Sendo uma pesquisa interessante e inteligente, a história é porém pesada demais em termos de texto, algo seco porque narrado, com muitas metáforas repetidas ou algo expectáveis (bebendo largamente daquelas lançadas por Moore há um quarto de século), e tentando por vezes explicar o que havia sido deixado em aberto por Moore. Em termos gerais, a surpresa é mínima mesmo em relação à intriga complexa central, já que o dilema em si é transparentemente resolúvel graças às capacidades quânticas da personagem. No entanto, os autores arriscam em mostrar três páginas que se passariam após a saga de Watchmen, a suposta criação de Manhattan algures no espaço. Porém, não só estava tudo previsto nas frases de Moore, como parece algo devedora à cena de abertura do (inenarrável) filme Prometheus, como em termos estilísticos recorda o episódio “My Blue Heaven” do Swamp Thing de Moore et al.
A arte de Adam Hughes é muito particular e, de certa forma, perfeitamente adequada ao tom da história e à personagem, isto é, à sua “frieza”. Isto, apesar de Hughes ser muito mais conhecido pelo seu trabalho de pin-ups, muitos dos quais bastante eróticos e sugestivos. Figurações clássicas em termos de anatomia, modulados muito bem pelas cores matizadas e decisivas de Laura Martin, com detalhes suficientes para o seu naturalismo mas sem tornar as imagens carregadas, desenhos em que alguns dos contornos, especialmente os exteriores das personagens e de alguns objectos os isolam da restante composição visual, ou os acentua como se se tratasse de um vitral, um espectro de representação emocional restrito, talvez tornem, de todos estes projectos, o mais sólido, literalmente, em termos visuais.
Before Watchmen: Dollar Bill. Len Wein e Steve Rude. Em apenas um número, os autores desdobram a história de uma personagem cuja presença em Watchmen era mínima, senão mesmo reduzida a uma sua anedota, para criarem o contexto em que ela é formada (a “origem”), diluída em políticas económicas, ideológicas da indústria do entretenimento. Dollar Bill não é mais que um herói criado para ser a mascote de um banco, e a sua integração no grupo de justiceiros Minutemen é acidental, assim como acidental se revelarão todos os acontecimentos que pautam a sua vida “heróica”, inclusive a morte anunciada. A arte de Steve Rude traz uma certa leveza (acentuadíssima pela paleta brilhante de Whitmore) que parece destoar da gravitas esperada pela série em geral, e pelo texto original, mas que por isso mesmo acaba até por sublinhar, de forma dolorosa, alguns dos clichés, inclusive alguns politicamente repreensíveis, que existiam na época retratada. Mas Wein não é um autor que os burile de forma subtil e inteligente em que os possa empregar para os subverter: bem pelo contrário, num ambiente de humor, eles acabam por sair reforçados. Before Watchmen: Moloch. Straczynski e Eduardo Risso. Tal como nos casos de Dollar Bill e dos piratas, é algo supérfluo os autores virarem-se para esta personagem, apesar dela ter um papel fundamental como eixo do grande plano de Veidt na história original. E tal como no caso de Nite Owl, Straczynki contribui de modo óbvio – demasiado óbvio, com o flashback inicial? – para uma “backstory”, visitando-se uma infância e desenvolvimento da carreira criminosa e, depois (tendo dois números apenas, há duas “metades” nitidíssimas), a sua “queda” e controlo nas mãos de Veidt/Ozymandias, o qual, nesta série em particular, assume uma dimensão maléfica algo desfasada do restante, e que derrota a sua “boa intenção”.  Uma vez que a morte, também anunciada, de Moloch, em Watchmen, é apresentada de forma subtil e surpreendente (uma armadilha contra Rorschach), a forma como ela é conduzida nesta série é quase pornográfica, no sentido de excessivamente patente. Risso tem muitos fãs, mas uma olhada cursória nas suas páginas revelam demasiados atalhos para o tornar um artista interessante nesta prestação. Figuras isoladas, e em muitos momentos cartoonizadas de uma forma imprópria, em vinhetas monocromáticas flutuando em páginas vazias, ou onde as cores, digitais, em degradés paupérrimos, não ocultam a falta de esforço. Este desenhador é adepto de teatralidades e expressões melodramáticas, e a sua representação de Moloch retira-lhe toda aquela dignidade que Gibbons lhe conseguira incutir, tornando-se aqui um mero vilão de pacotilha em primeiro lugar e depois num peão sem personalidade. 
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Como balanço final, a série parece de facto ser um aproveitamento maximal das linhas de fuga comerciais e de trademarks proporcionadas por Watchmen, como se verifica particularmente na existência das totalmente supérfluas histórias sobre o Dollar Bill e o Crimson Corsair. Quase se imagina que, houvesse vontade e/ou possibilidade editorial de convidar Chris Ware ou Gabrielle Bell a participarem (à la Bizarro Comics ou Strange Tales), também se faria uma série sobre o vendedor de jornais e uma das empregadas do Gunga Diner.
É claro que a qualidade, ou falta dela, desta colecção não transforma de qualquer modo a do título original. Mesmo que não se conheça o texto original, ou ele exista apenas numa qualquer forma nostálgica, ele é independente das transformações subsequentes. Pense-se em Indiana Jones, Star Wars ou nos G.N.R. dos anos 1980… A “trampa” actual não apaga a (ilusão de) glória antiga. A questão mais importante é que o desdobramento, expansão ou inflexão das personalidades ou eventos de Watchmen é por demais brando. Before Watchmen criou novas histórias com estas personagens? Sim. Expandiram o mythos de Watchmen? Pouco. Acrescentaram algo à riqueza conceptual, política, cultura ou estrutural da obra original? Não. Se concordamos com muitas das opiniões que a colecção no seu total contribuiu com uma produção visual excelente da parte de alguns dos seus artistas (Lee, Hughes, Bermejo, Cooke e mesmo Rude) - mas porque não fizeram uma edição de comemoração com homenagens, histórias curtas, pin-ups, como se fazia nos anos 1990, ficando o caso arrumado? - , não podemos de forma alguma desuni-la do seu programa holístico, que não é sequer coerente entre si (claro que a pergunta seria: é necessário que o seja, ou há espaço para diversidade de tratamentos?). Por um lado, se é natural que muitos fãs se aborreçam quando autores “destroem” a continuidade passada – Grant Morrison revelando que a saga de Swamp Thing era um sonho, Geoff Johns “deitando fora” décadas de ideias usadas em Superman, Jeph Loeb agarrando nos The Ultimates brilhantes de Millar e colocando-os no moinho de carne à la Image-anos-90 - por outro, o suposto “respeito” que este grupo de autores parece ter demonstrado pelas histórias originais e tendo contribuído com pouco para a sua transformação ou subversão interna torna Before Watchmen num exercício relativamente ténue. Realmente, much ado about nothing.
Nota final: Agradecimentos a P.B., pela oportunidade em ler toda a série. Todas as imagens colhidas da internet ou ficheiros digitais. Em breve, retomaremos o tema, em torno da Image, Dark Horse e outras editoras.