25 de janeiro de 2016

Chantier Interdit au Public. Claire Braud e Nicolas Jounin (Casterman)

Este é o primeiro volume de uma nova colecção intitulada Sociorama, que parece vir a ser dedicada a projectos de banda desenhada que procurem adaptar, basear-se ou dialogar com trabalhos académicos em torno de questões sociais, sejam relatórios, inquéritos ou mesmo dissertações. Pelo que entendemos, os “temas” na calha rondam a indústria de cinema pornográfico, as profissões afectas aos voos comerciais e as práticas dos “sedutores de rua”. A colecção é dirigida por Lisa Mandel, uma autora que tem aliado a banda desenhada humorística a temas socialmente relevantes, tocando sempre as raias da realidade francesa contemporânea, e Yasmine Bouagga, uma investigadora do prestigiado CNRS. Este livro, apesar do seu público, escancara na verdade os portões de um estaleiro de construção civil e da realidade social que acalenta, mas oculta. (Mais) 

Chantier Interdit au Public passa-se no interior do cercado de um estaleiro, mas igualmente nos corredores do vaivém das empresas de trabalho temporário, no pântano da ilegalidade de muito imigrante em França, nas tensões familiares e pessoais de quem tenta conquistar o pão de cada dia, a dignidade do trabalho e uma possibilidade de ser visto enquanto cidadão. E, ao mesmo tempo, os obstáculos, as hierarquias, os reinos preexistentes. O livro é construído pela responsabilidade da artista Claire Braud; é ela quem constrói as personagens que pautam o ritmo e a narrativa que se apresenta, por um lado, o jovem adulto Hassan Zidane, que acaba de garantir os seus primeiros passos como serralheiro no estaleiro, e que serve de guia para o próprio leitor-ignorante destas realidades, graças às suas perguntas, aprendizagem e receios, e por outro, o mais experienciado Sékou, que quase vislumbraria o grande coroamento dos seus sacrifícios anos atrás de anos em França como “sans-papiers”…

Mas a fonte da matéria-prima de Chantier encontra-se numa obra de N. Jounin, jovem sociólogo, e a qual corresponde à sua tese de doutoramento. Publicada em 2008, tinha o mesmo título, criava um território de debate à escala humana por tecer uma abordagem interdisciplinar de cariz etnográfico. Não é apenas a análise de dados objectivos, digamos assim, providenciados pelas instituições e empresas que compõe o tecido estudado, mas igualmente um inquérito singular junto à população imediatamente afectada, inclusive, ou até sobretudo, todos os trabalhadores, a esmagadora maioria dos quais, se não todos, estrangeiros, muitas vezes sem documentos legais, que preenchem a parte dos “obreiros” não-especializados, e que podem ser substituíveis com a maior das facilidades. Mas mais importante, são garante de uma mão-de-obra barata, sem preocupações de seguranças e regalias, e descartáveis (uma coisa implica a outra, uma mão lava a outra).

Esta acção, a de transformar estudos sociológicos (ou mesmo de outras disciplinas académicas) em projectos de banda desenhada, não é nova, mas há sempre pequenos contornos diferentes. Por exemplo, o livro Riche. Porquoi pas toi?, um estudo sobre como vivem os mais ricos, o 1%, e como mantêm e gerem as suas fortunas, baseado no trabalho de Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot, e criado por Marion Montaigne, tinha contornos bem mais humorísticos, se bem que as suas lições fossem fortes e inteligente. Mas o caminho era o da derisão, pois como reza a sabedoria popular, mais vale rir… Chantier cria um tecido, pelo contrário, mais narrativo, centrado em personagens que, se fictícias, ocupam, poder-se-ia dizer, um lugar ou mesmo função de absoluto realismo. E que serve de modelo, talvez, destas experiência usualmente afastada da atenção mediática.


O que descobrimos nas equipas de trabalhadores à volta de Zidane e Sékou, é que existe uma verdadeira hierarquia entre as posições profissionais – desde aqueles que simplesmente acartam baldes e limpam o estaleiro, os manouevriers, até aos chefes – e expectativas distribuídas por nacionalidades e cores de pele. Os “piores”, os que se encontram na linha mais baixa dessa escala, claro, são os “mamadous”, os negros, mas mesmo aí haverá uma distinção entre os de origem africana e de outras paragens, os muçulmanos e os cristãos, etc. É revelador, por exemplo, o momento em que a mulher que trabalha na agência de emprego (agência deliciosamente chamada “Pauvre comme Job”, tal como outra é “Hugo Bosse”) tece considerações sobre as expectativas da ética de trabalho de um peruano, um turco, um magrebino, uma pessoa do Mali... “Não sendo racista, hã, mas há raças que não aceito”. Até seria divertido, se não fosse uma dura realidade de “empregabilidade” (e que temos em Sékou uma ilustração).

Não sendo o racismo o coração desta análise, ele é um dos que mais forte bate na raiz dos problemas. Para citar o título da tese de Jounin, esta é uma história entre “a descriminação e a precariedade”. Há então sobretudo dois eixos cruzados nesta análise. Por um lado, o eixo da relação profissional-contratual com os projectos, existindo diferenças substanciais entre os contratados e aqueles chamados para trabalho temporário, entre aqueles contratos directamente pela empresa de construção civil e os contratados por empresas externas, temporárias, etc. Por outro, é o eixo da origem étnica. O mecanismo narrativo, porém, o que pretende, mas também desde logo previsto no trabalho de Jounin, é demonstrar que, para além da “economia objectiva”, existem as vidas que por ela é atravessada e, quantas vezes, atropelada.

O livro oscila em toda uma panóplia de abordagens visuais. O desenho de Braud é basicamente “rabiscado” numa linha nervosa, e por vezes abandona-se, nas partes mais histriónicas, representando em hipérbole algumas das crises ou fúrias dos envolvidos, a metáforas e transformações físicas das personagens, descartando-se totalmente de ideias realistas (um dos capatazes, possivelmente português e irascível, tem tamanhas orelhas e nariz que se transforma num elefante; outros parecem dragões; Zidane vê os seus companheiros “esmagados” como zombies, etc.). Se grande parte do livro se apresenta com grelhas de algumas poucas vinhetas, permitindo acções claras e textos corridos, numa fase do livro há uma maior divisão das pranchas, que torna tudo mais apertado, com grande necessidade de urgência – tratar-se-á de notar, a dado passo, que nem toda a informação desejada caberia no formato/tamanho previsto? Mas há igualmente momentos em que a autora se permite apresentar splash pages ou grandes planos dos rostos, construindo assim uma maior densidade na caracterização, lá está, humana e não-comutável, destas personagens em particular, sobretudo Sékou/Souleymane, o protagonista da segunda parte, e herói picaresco da narrativa, e o jovem Hassan Zidane, que ocupa a primeira parte da diegese, e serve de pólo de aprendizagem, verdadeiro avatar do próprio leitor.

Mas a autora – baseando-se, quem sabe, em intervenções na obra original? - dá também espaço a alguns dos outros intervenientes para falarem: os intermediários da agência de emprego, os capatazes, os donos da obra, etc. Dessa forma, a situação social ganha nova facetas, torna-se mais complexa, explica as dinâmicas e as distribuições de poder: sempre para demonstrar como aqueles que ficam fora do círculo dos privilégios estão condenados a lá ficar. É a felicidade do capitalismo.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro. 

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