8 de janeiro de 2016

The Care of Birds. Francisco Sousa Lobo (Chili Com Carne)

Em Os irmãos Karamazov, Dostoievsky escreve “Um homem que mente a si mesmo e que escuta a sua própria mentira chegará a um ponto em que não distinguirá a verdade nele mesmo ou à sua volta, e perderá então o respeito por si mesmo e pelos outros. Sem respeito não poderá mais amar, e para se ocupar e se distrair, sem amor, abandona-se nas paixões e em grosseiros prazeres, afundando-se na condição animal dos seus vícios, efeito da mentira incessante aos outros homens e a si mesmo” [péssima tradução nossa, sem desculpas, via edição em inglês]. (Mais)

A primeira parte desta longa citação funciona na perfeição sobre a fortuna e perfil de Peter Hickey, o protagonista de The Care of Birds, último livro de Francisco Sousa Lobo e primeiro produto do concurso “Toma lá 500 paus e faz uma bd”, concurso verdadeiramente efectivo da Chili Com Carne. Sentimos que existe uma sombra constituída pela mentira que ocupa a sua vida e existência, sombra perene, diluindo as certezas dos factos e das experiências, ou mesmo dos desejos ou receios (possivelmente um sentimento que os amalgame aos dois) que alimentam e se alimentam da sua vida.

A segunda parte já é mais dúbia, uma vez que Hickey não deixa de sentir amor, dúplice, ou até tríplice, como veremos, e isso impede-o de se abandonar em “paixões e em grosseiros prazeres”, como Francisco Koppens, seu hipotético irmão espectral, versão, faceta, ponto irmanado por se despedir do autor Francisco Sousa Lobo (se perseguimos a ideia de que todas as suas personagens são títeres que servem de reflexos ligeira ou drasticamente distorcidos; todavia, a interpretação autobiográfica é perigosa e reprovável, e a biografista anátema).

Esse amor parece então dividir-se entre os pássaros, matéria de observação e conhecimento, as crianças, matéria de observação e abismo, e Deus, ponto que observa e fonte de temor. Se se fala no livro de modo explícito numa triangulação entre os pássaros, Deus e o homem, é ela a metáfora semi-oculta de toda a paixão dramática no interior do palco deste livro. Sousa Lobo não cria uma narrativa que esteja aberta e se relacione com “o mundo”, a “História”. Se existem traços concretos, eles apagam-se, subsumidos pelo pesado mecanismo desta personagem na sua cruz específica. O círculo de The Care of Birds, se se estende aqui e ali, é puramente concêntrico, centrípeto, arrastando tudo – em paranóia, em auréola? – para o coração de Hickey, e a sua mundividência feita de vazios, de espaços não-preenchidos. Corroborado pelo trabalho particularmente despojado do autor neste título, quase minimalista, na mais próxima acepção de um Donald Judd, onde a melancolia se espraia na contenção visual. Muitas vinhetas estão desprovidas de cenários, isolando a todas as instâncias as personagens, ou focando-se num qualquer objecto ou canto abandonado a si mesmo. Isto não significa que não existam estruturas rítmicas, ecos e reflexos visuais-estruturais (uma re-leitura atenta entre páginas revelará ecos, inversões, para além dos motivos recorrentes do autor) que tornam este livro num curioso encontro entre o figurativo e o quase-abstracto (na esteira de um Yuchi Yokoyama, por exemplo).

Apesar de ter mais de 100 páginas, o relato deste protagonista – contado na primeira pessoa, mas com poucas legendas narrativas, e sobretudo pela acção e diálogo com outras personagens - compõe-se sobretudo de silêncios, não-ditos e dúvidas. Muitas são as sequências sem palavras, os balões lacónicos, ou as vinhetas que interrompem diálogos com planos aproximadíssimos dos rostos das personagens, como se se pretendesse que confessassem aquilo que calam. As dúvidas presentes, todavia, são distribuídas entre o protagonista e os leitores.

Peter Hickey é um homem, de uns quarenta anos. É um observador de pássaros exímio, capaz de os reconhecer não somente pelas formas, pequenas e em movimento súbito, ou as pequenas marcas, mas distinguindo a curva do voo, um comportamento subtil, o distinto canto. Parecer ser também notável imitador dos seus cantos, assobiando – dimensão que temos de suspender ou imaginar nesta arte -, e seu desenhador – cuja matéria, surgindo, representada, pela “mão”, no “interior da narrativa”, do meganarrador, faz parte da mesma que compõe o próprio relato, logo deve ser “ilusoriamente” perfeita. Mas a paixão, se a há, em Hickey, e que o livro escava, não é essa. A actividade da observação dos pássaros é antes como um baixo-contínuo para formar um contexto, um chão e uma metáfora que sustente o resto. A paixão são os estranhos sentimentos que assaltam Hickey, que parecem ser a amizade que ele nutre por crianças, uma comunicação que deseja manter com elas, cândida, inocente, mas ao mesmo tempo tormentosa nalguns dos seus aspectos. De fora, e algumas das personagens assumem-no, isto seria descritível como “pedofilia”, e uma leitura apressada atiraria o livro de Sousa Lobo para o campo dos “temas correntes”, o que não poderia estar mais errado.

Hickey é católico. O adjectivo que deverá seguir-se a essa pertença não é “devoto”, “praticante”, “pio”, ou outra que não “temente”. Tal como Koppens, Hickey tem assinalado para si um vaso de comunicação com o divino. No seu caso, são os pássaros, que consegue entender (e nós por e com ele), e que traduzem uma ideia do que Deus terá para lhe transmitir, mesmo que seja sob a forma de insultos brutais. Essa comunicação, com efeito, serve para criar o receio, o peso, a culpa.

Hickey está, a um só tempo, ciente de uma linha que não deve atravessar (recordando aos leitores a necessidade de compreender, legal e psicologicamente, a diferença entre um “pedófilo” – uma perturbação mental – e um “abusador sexual de menores” – um crime -; e que é subtilmente levantado num dos diálogos) e perseguido por uma ideia de “pecado”. Ora, é relativamente a este, uma realidade e experiência da vida do protagonista, que as dúvidas dos leitores se instalam. Testemunhamos encontros, tentações, conversas e memórias de episódios passados, “fora de cena” do intervalo cronológico do livro, assaz concentrado (ainda que incerto). Contudo, da parca intriga que se despede de The Care of Birds, as questões que surgem, se respondidas, são sempre ambíguas.

The Care of Birds é, sem qualquer dúvida, um livro maior. Um livro que se desprende de toda e qualquer amarra de género e dos mecanismos (narrativos, visuais, estruturais) habituais da banda desenhada, portuguesa ou outra. Um título que não tem qualquer ambição de chegar a “todo o público”, nem sequer de serenar ou emocionar aquele ao qual chegará. A poeticidade de Francisco Sousa Lobo é sofrida, exigente, abole quaisquer consensos possíveis. Sem efeitos de pirotecnia emocional, lê-lo é uma armadilha se se toca a raia dos seus perigos. Difícil, profundo, angustiante, de uma lentidão que não significa tranquilidade, desprovido de quaisquer adornos e de efeitos, The Care of Birds é um jogo de tensões entre o melodrama de um Dostoievsky e a paralisia de um Kafka. 

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