Os interesses e campo de experiência de Hugo Almeida, a.k.a. “Mao”, continuam a incidir numa densa e intrincada rede de cruzamento das consequências das possibilidades que a técnica tem trazido de forma cada vez mais dramática nas determinações biológicas. Isto é, não tanto simplesmente a intervenção externa sobre o biológico da parte da técnica via a soteriologia (através de ferramentas, fármacos, cirurgia, prostética), mas algo que reconfigura a própria ontologia da vida.
À primeira vista (que na verdade nunca o é, pois o autor não
está interessado em ilusões simples), o livro parece ter uma intriga de fc. Só
que a travessia pelas páginas coloca-nos num mundo laboratorial e de ciências “duras”
que conseguem manipular o ADN como os poetas DADA brincaram com o alfabeto.
Estão aqui presentes os ecos de campos contemporâneos como os da engenharia
epigenética, a edição CRISPR, o uso do sistema de IA AlphaFold, e outras nano-
e macro-coisas de que nem sei a missa a metade. Mao “disfarça” tudo isto com
uma pequena intriga tirada de um thriller de ficção científica, como se
tivéssemos chegado a meio de um filme. Um laboratório que parece querer
contornar certas regras deixa que um polvo, geneticamente alterado, escape para
o mundo natural e isso poderá vir a ter consequências desastrosas. Fanfiction
de uma “lab leak theory”, portanto, as coisas são relativamente simples e
céleres em termos de acções. Todavia, a força de Mao está em todas as camadas que
actuam, a um só tempo, como textuais e metatextuais – as pop-up Windows, o
acesso a emails e mensagens que temos, os chats.

