
(Uma vez que se encontra nos escaparates a versão em língua inglesa desta obra, deixo aqui o artigo que escrevi há uns anos para o club otaku, sobre a versão original.)
Heavy Metal Son-O-Kong.
Se os fãs da série Dragon Ball ainda não sabem, já é tempo de o aprenderem...
Um dos clássicos da literatura chinesa, uma das obras seminais e centrais do cânone da literatura asiática é um enorme livro intitulado Viagem ao Oeste. Ainda que seja baseado numa colagem de vários mitos, contos folclóricos, novelas orais perdidas nas tradições, e q.b. de história, a sua recompilação por Wu Cheng-en – durante o século XVI, dinastia Ming – cedo se tornou incontornável na aprendizagem de qualquer das artes da palavra. Viagem ao Oeste, também conhecido no Ocidente por Macaco ou Rei Macaco, conta as aventuras do monge Xuanzang, e dos seus companheiros, numa viagem até à Índia em busca de escritos e da luz do Budismo. Os companheiros são um homem ex-monstro marinho, um porco que abandonara uma vida de crime, e um macaco... mas não um macaco qualquer, o rei-macaco...ou que se auto-proclama rei, para pesar e cólera de muitos, inclusive divindades. As peripécias são fabulosas, desde o roubo do pilar do oceano ao rei dos mares (um dragão), a descida aos Infernos, as lutas com os deuses, a oferta da nuvem voadora, etc. Uma leitura inesquecível que demonstrará que se a tradição do fantástico é relativamente recente no Ocidente, o mesmo não se passará no Oriente.
No Sudoeste Asiático esta personagem mítica é conhecida por Hanuman, e já aparece no épico Ramayana, na Índia do século III, a saga do deus Rama. Na Tailândia, por exemplo, é conhecida como Ramakyen. Se alguma vez visitarem Bangkok, e visitarem o turístico, mas obrigatório Grande Palácio, e o Wat Phra Keo, no seu interior, encontrarão nas paredes uma enorme representação desse épico em frescos, que datam do século XIX, mas sofreram várias remodelações e restauros. E em mais do que menos partes desses frescos verão sempre Hanuman, o rei-macaco, nas suas aventuras fabulosas.
Mas a história a que nos referimos em primeiro lugar é largamente conhecida sobretudo na China, na Coreia e no Japão, com o título de Sayûki. Serve isto para fazer entender que versões destas histórias ou do próprio Rei-Macaco sobejam... e como não poderia deixar de ser, das versões existentes, a banda desenhada faz jus da sua liberdade, inventabilidade e recursos. Até à data, a versão mais fabulosa, apesar de afastada do texto clássico, é de facto a série de Dragon Ball, iniciada por Akira Toriyama em 1985 e que explodiu em uma miríade de parafernália de merchandising pior que Gremlins alimentados debaixo d’água às 3 da manhã... Essa é a mais estranha. Ou não?
Eis que entra Terada Katsyua. Nascido a 7 de Dezembro de 1963, na cidade de Tamano, prefeitura de Okayama, Terada ganhou grande respeito sobretudo como ilustrador. O seu trabalho pode ser visto associado a universos de jogos, filmes e outras séries de banda desenhada (Terra, Blood: O Último Vampiro, etc.), recordando um pouco a relação da arte e dos produtos de que outro mestre ilustrador japonês, Yoshitaka Amano, partilha. Terada foi também o criador também de um design espectacular da personagem Hellboy de Mike Mignola (Dark Horse) e que levou à criação de uma estatueta (julgo que de vinil).
Apesar disto, ele define-se como um artista de rakugaki, isto é os desenhos que fazemos num bloco quando distraídos, esboçamos ou não pensamos muito conscientemente no desenho que nasce na página. O que em inglês se chamaria doodling e em português rabiscar. Terada Katsuya diz fazer rakugaki desde os 3 anos e define-se como aspirante a Rakugaking. Daí ter publicado muito recentemente um livro de 1000 páginas apenas de rabiscos! Mesmo assim, é preciso dizer que embora seja bem conhecido pela sua minuciosidade e capacidades de representação plástica pouco comuns no mundo do mangá, não é um autor prolífico de bd, tendo-se limitado a algumas histórias curtas, a preto-e-branco ou a cores espalhadas nas mais díspares publicações. Dos quatro livros publicados, três são de ilustração: Katsuya Zenbu (Kodansha: 1999), Terra’s Cover Girls (Wani Magazine: 2000) e Rakugaki (Mosh Books: 2002). Mas, em 1998, publicara o primeiro volume de Sayukiden: Daienou (Shueisha: 5ª ed., Dez 99), mais uma versão, como o título indica, da saga do rei-macaco.
O tipo de traço e o uso de cor e de computação gráfica distingue Terada facilmente, se estiverem a fazer um browsing numa livraria de mangá. A influência do tipo europeu é também visível e ele admite ter Moebius como uma força que o atrai plasticamente. De facto, e folheando o seu livro de ilustração Terra’s Cover Girls, outra publicação vem à memória, agora remotamente associada a Moebius: Metal Hurlant, ou na sua versão americana, Heavy Metal. Se se recordarem que a partir dos anos 80 esta(s) revista(s) passaram a ter mulheres despidas, em poses sensuais e com pouca roupa, se não contarmos depois com a inclusão de artilharia de uso pessoal pós-nuclear à sua volta cobrindo as partes pudibundas, entenderão o ambiente.
De facto, Sayukiden é uma versão heavy metal do rei-macaco. A variação de Terada leva-nos a um texto mais adulto, nos campos violento e sexual, assim como a liberdades do foro religioso que seriam impensáveis noutras versões.
A acção começa com um episódio conhecido: o protagonista encontra-se debaixo da Montanha dos cinco dedos, que Buda lhe pôs em cima para lhe acalmar a ira em relação às hostes do céu... Mas as imagens não correspondem a versões mais célebres... as splash pages mostram aves-vampiro, onomatopeias de terror, e um rei-macaco de olhos atravessados por espigões. Um flashback faz-nos retornar a um deserto onde uma mulher bela, de seios abastados e proeminentes parece pedir-lhe ajuda... mas o grande guerreiro dos monos arranca a cabeça à pobre mulher com o costumeiro pilar. Revela-se afinal uma criatura monstruosa...e partir daí, violência a toda a hora, monstros de cabeças decapitadas, encontros com mulheres de corpos que se explodem numa sexualidade frontal, uma cativa que tem poderes desmesurados sempre despertados pelo prazer físico, onomatopeias exageradas e integradas na imagem. Aliás, é esta mulher presa que parece substituir o venerável e santo monge Xuanzang.
A cena mais sensacional é quando os deuses recorrem a Buda lui-même para pôr um fim a um combate estrondoso (no qual Son-O-Kong se multiplica em vários si-próprios); contudo, o nosso anti-herói espeta-lhe com o pilar no olho, e aumenta-o (ao pilar, entenda-se) arrancando metade da cabeça do Despertado. O deus supremo engole-o depois e consegue domá-lo através de conversa, magia, sexo... mas por pouco tempo, aprisionando Son-O-Kong então na montanha, retornando à cena que abrira o livro.
Narrativamente, talvez não seja das obras de mangá mais interessantes. Existem divisões a mais, com separadores imensos, e splash pages que pouco ajudam à injunção de um ritmo regular da estória. Mas Terada Katsyua é conhecido pelas ilustrações e sabe tirar partido do seu talento para equilibrar os seus defeitos de contador. Folhear um livro dele, inclusive este, é uma experiência de imagens, de uma imaginação plástica quase sem limites, que criam uma vontade atroz em que as cenas que se passam, mesmo no limite da obscenidade e do abjecto, não terminem. 
27 de outubro de 2005
O Rei Macaco. Terada Katsyua (Saiyukiden/Dark Horse)
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25 de outubro de 2005
Pictures & Words. Roanne Bell e Mark Sinclair (Laurence King)

Há pouco tempo, falei do generalista livro de Carlos Pessoa e falei de uma certa aura de oportunidade desperdiçada. Tendo em conta a tacanhez e a inveja mesquinha que por vezes se faz passar por espírito “nacional” (seja lá o que isso for), gostaria de começar por dizer que não se devem certas desilusões em relação às produções portuguesas ao facto de serem portuguesas, e ser mais exigente ou menos condescendente por isso. Trata-se simplesmente de um discernimento (o meu, obviamente) que pretende um diálogo embebido num panorama o mais largo (e alargando-se) possível. Logo, não será surpresa que certas desilusões possam também ser provocadas por publicações aparentemente respeitáveis, como este volume sobre a arte e as especificidades da banda desenhada, editado pelos britânicos Roanne Bell e Mark Sinclair. Apesar do design do volume ser, ainda que simples, soberbo, e de uma clara legibilidade, não o salva dos problemas de raiz que apresenta, a saber, os seus próprios fundamentos teóricos.
Este livro é como que um catálogo, ou uma mostra, de exemplos de “boa banda desenhada” (incluindo vinhetas únicas), estando os três capítulos divididos nas seguintes linhas de força: bandas desenhadas “mudas”, de uma vinheta, e as relações texto-imagem. Quanto a esses critérios inaugurais, não há nada a dizer, já que toda e qualquer opção implica deixar algo de fora. O problema começa logo pelo facto dos exemplos (do 1º e 3º capítulos) serem excertos de trabalhos mais vastos, o que, se por um lado servem de boas ilustrações à ideia discutida, de pouco servem contudo para entender a sua contextualização na obra completa e nada satisfazem quem não conhece ou não pode conhecer essa mesma obra (existem indicações, porém, de quando e como foi essa obra publicada).
Mas para um livro que se intitula Pictures & Words, afinal pouco se reflecte sobre as díspares relações possíveis que se podem estabelecer entre elas. Algumas técnicas são exploradas, como por exemplo a discrepância entre discurso directo e imagens, mas o exemplo que dão de Jordan Crane não é particularmente diferente do que se pode encontrar em muitos outros artistas (nomeadamente Chris Ware).
Tendo como subtítulo New Comic Art and Narrative Illustration, tampouco nos admiraria que a esmagadora maioria dos trabalhos fossem contemporâneos (posteriores a 2001), e ficava-se mais uma vez pelos problema de se ter de aceitar o critério escolhido. Mas o facto de existirem excepções, com os exemplos de Andrzej Klimowski (com o seu magnífico The Depository, de 1994 – e a desculpa de ter saído uma edição polaca em 2001 parece-me esfarrapadíssima) e de David “cala-te lá com o não sabes desenhar” Shrigley (com trabalhos de 98), desregula logo essa mesma opção, e revela ainda mais a incompleta dedicação ao tema de fundo, a saber, das estruturas e potencialidades deste modo de expressão.
Se bem que se possam encontrar alguns aspectos positivos na natureza verdadeiramente internacional da escolha, e no seguimento de um certo ambiente de produção, mais inclinado aos trabalhos “alternativos”, aos “artísticos”, isto é, àqueles que procuram satisfazer uma necessidade não remetida à narratologia simples, mas ao modo concreto de a tornar mais significativa, uma segunda e mais informada consideração também põe isso em dúvida. Não é que esteja aborrecido com a ausência de Portugal (apesar da indicação tangencial à Satélite Internacional e à Bedeteca de Lisboa), pois isso é, infelizmente, expectável, dadas as “quotas de representação”. Mas não haver nenhum exemplo de Espanha, do Brasil, ou do Japão (pasme-se!), leva a colocar sérias dúvidas na selecção final. As grandes ausências são também marcantes, e repito o nome de Ware para nos limitarmos. Quanto ao ambiente “alternativo”, a inclusão dos trabalhos dos artistas britânicos Barnaby Richards, Nikhil Singh (nascida na África do Sul) e John Dunning não traz nenhum balanço em relação à noção experimentalista que parece estar em jogo. Não obstante a qualidade dos seus trabalhos, a inclusão de nomes como Barry Blitt, Jason, e mesmo Marjane Satrapi, é estranhamente vã em relação aos princípios que se prometiam avaliar e exemplificar... E isto continuaria...
Os aspectos mais problemáticos são todavia as afirmações (sem contraditório) teóricas espalhadas pelos textos de apresentação e de descrição dos trabalhos/artistas. Seria exaustivo elencar aqui todos, mas vejamos, por exemplo, alguns deles. Logo no texto de introdução às bandas desenhadas “silenciosas” diz-se que essa é uma forma que é usada desde 35 000 a.C., nas cavernas paleolíticas, passando pelos hieróglifos e a Capela Sistina. Depois de tantas discussões e publicações dedicadas à evolução das Artes, da Estética, das suas relações com a Língua, e mesmo estudos relativos à banda desenhada em particular, este tipo de boutades acabam por ser cretinices indesculpáveis. Afinal, na ausência de linguagem escrita no Paleolítico, é difícil falar de uma “ausência de texto” consciente; os hieróglifos, não é mistério nenhum, não têm valor iconográfico, sendo uma notação sobretudo fonética (consonântica) apesar de alguns valores residuais semânticos; e querer exercer algum tipo de estruturação sequencial ou mesmo multivectorial na obra de Miguel Ângelo a partir do conceito contemporâneo da banda desenhada é um violento e crasso equívoco intelectual. Historicamente, a visão é afunilada – como não podia deixar de ser para britânicos (não sendo britânico, Hobsbawn poderia ter exercido aqui alguma luz sobre os autores). E só poderia continuar com etcs...
O livro é um belo objecto, sem dúvida. Uma boa compra para “livro de mesa de café”, ou até como directório de descoberta de novos trabalhos que eventualmente não conheçam. Mas o preço não convida a uma compra fácil (19.95 libras). Finalmente, a fundamental e frequente falaciosa falibilidade faz-me fremente de fabricar mais fffs. 
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Pedro Moura
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Etiquetas: Antologias, Experimental
Comic Art Magazine. AAVV (Comic Art)

Já aqui se falou de publicações dedicadas à banda desenhada que não de banda desenhada, desde livros de ensaios, publicações periódicas de diversos, reuniões felizes de textos, livros de arte. Comic Art é uma relativamente recente publicação norte-americana (saiu o sétimo número, aqui retratado) que versa assuntos vários relacionados com a arte do desenho narrativo – já que, discussões e definições à parte, inclui o cartoon, a caricatura, o gag, entre outros modos. É uma publicação cara, devido ao papel lustroso, a impressão totalmente a cores, mas é um excelente instrumento de trabalho, de arquivo, de educação, enfim.
A diversidade vai além das já indicadas. Em primeiro lugar, em termos temporais, já que não se cinge à contemporaneidade, tampouco a uma suposta “época de ouro”, ou a um qualquer nicho de produção. O mainstream e o underground vão de mãos dadas, na única senda possível: a da qualidade superior (cujos valores ou tramas são dispostos no seio dos próprios artigos). A esmagadora maioria dos autores discutidos são, como seria de esperar, norte-americanos, mas alguma atenção é prestada a outras paragens, exemplificado pelo artigo (em dois números) sobre Hergé, ou um outro sobre “o inventor da banda desenhada”, Rodolphe Töpffer, num artigo com a colaboração do nosso Leonardo de Sá.
Não sendo uma revista que se preste à notícia e às controvérsias (bem-vindas) do The Comics Journal, nem à bonomia de outras publicações (como Comic Book Artist), prefere antes textos de maior fôlego, ora de um pendor histórico ora estético ora ensaístico. Se a maioria dos autores são também facilmente reconhecíveis para um leitor atento de banda desenhada dos nossos tempos, surgem sempre surpresas agradáveis – para mim, por exemplo, foi interessante descobrir mais duas facetas de Harvey Kurtzman (uma quase Oubapiana!), ou descobrir melhor a obra de H. M. Bateman, ou ver trabalhos inéditos de Seth ou Dave Collier. Numa biblioteca de textos passivos sobre banda desenhada, esta talvez seja uma publicação obrigatória e, não paradoxal mas necessariamente, activa. 
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Pedro Moura
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Etiquetas: Academia
Pour une poignée de polenta. Vincent Vanoli (ego comme x). Histórias de dois semi-homens II.

Vincent Vanoli. Por um punhado de ideias.
Se bem que não é a primeira vez que VV se aventura pelo género autobiográfico, por onde passara com algumas páginas na publicação Lapin e em Sentiers Battus, e parecendo-me que estará mais à vontade com outros géneros que combinavam a ficção do maravilhoso a um círculo aparentemente banal da vida (sobretudo com L’Usine Électrique) é porém esta a primeira vez em que essa aventura é o mais completa e coesa possível.
Pour une poignée de Polenta apresenta cinco capítulos de tamanhos e temáticas desiguais, que tomados solitária e desassociadamente poderiam servir de histórias curtas, individuais, mas que fazem um todo: uma discussão entre que equilíbrio existirá entre o indivíduo, entidade separada e auto-suficiente, e a família como ideia de continuidade, fazendo deste livro um interessante relato no largo tema da memória e identidade. As raízes familiares, a memória dos outros como herança do próprio, as expectativas e as fantasias leves que elas proporcionam, está tudo aqui. Podendo ser o título ser traduzido literalmente por “Por um punhado de papa de farinha”, que é o que o seu avô paternal, lenhador italiano, recebia como pagamento diário, VV parece apontar para o punhado de ideias que tenta organizar neste novo livro.
Nas suas experiências anteriores, de histórias mudas (Giboulées) a adaptações de obras literárias (J’irai faire Kafka sur vos tombes?, a partir do romace de Michel Chevron e integrado na colecção do detective Le Poulpe da editora; e o Decameron de Boccacio), VV sempre apresentou um desenho muito estilizado, com as pontas dos narizes terminando num caracol, por exemplo. VV pertence a um grupo de artistas recentes que parece referenciar-se no Expressionismo alemão de Otto Dix ou num Murnau que tenha atravessado Cocteau – e isto é uma citação directa – referência que tem sido repetida várias vezes. Mas neste volume o desenho assume-se menos estilizado, apesar de não poderem ser considerados realistas e estar seguro que as suas figuras não agradarão a todos os leitores. O trabalho de um grafite carregado continua, tal como um certo minimalismo na disposição das vinhetas, sempre duas por prancha neste livro.
Não obstante o que disse até ao momento, de se tratar de um volume que se reporta ao autobiográfico, há momentos de escape, como quando surge um VV “italianizado” ou o último episódio, num hipotético futuro em que o autor se tornou um epígono do Imperial Disney. As imagens permanecem sempre no território do realismo, sem qualquer hipérbole, tirando um caso pontual das páginas 62-63 em que o protagonista surge conforme a fantasia do momento o ordena.
Conclusão: Ambos os autores, cada um à sua maneira, vão preenchendo mais uma variação do grande tema da “vida normal”, da “de todos os dias”, tradição cada vez mais respeitada e cujos avatares na bd se multiplicam. E esse respeito a um eventual cânone não diminui o interesse nem a relevância destes novos trabalhos. (Esta parte foi antes publicada na revista Número, depois da parte sobre Huizenga). 
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12:07 p.m.
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Etiquetas: França-Bélgica
Or Else. Kevin Huizenga (Drawn & Quarterly). Histórias de dois semi-homens I.

Introdução: Não será vergonhoso para a valorização de um artista a sua inserção numa longa tradição, ou mesmo num género. Vivemos em dias demasiadamente preocupados com, a meu ver, vãos princípios tais como a originalidade, a novidade, o moderno, e/ou o cool, falsamente indícios da condição de um verdadeiro saber fazer artístico e cegos perante a História. Kevin Huizenga (KH) e Vincent Vanoli (VV) têm-se inscrito numa tradição de autores cujas personagens vivem em narrativas aparentemente displicentes, desprovidas de grandes acontecimentos que não os de uma vida dita “normal”, se bem que por vezes surjam momentos de maior desvario ficcional. Essa tradição poder-se-á – como é indicado vezes sem conta – iniciar nos trabalhos conjuntos de Harvey Pekar e Robert Crumb, e no qual se poderiam incluir muitos outros trabalhos mais recentes (sobretudo na América do Norte, com uma inúmera e sobejadamente conhecida lista, mas também na Europa, na qual além de autores alternativos, me parece também incluir-se a série comercial Monsieur Jean de Dupuy e Berberian). Mas poder-se-á talvez mesmo remontar às origens deste modo de expressão, se tivermos em conta a “pré-bd” Voyage entre deux eaux, de 1829, de Rodolphe Töpffer, na qual o próprio autor se representa desapreciadamente.
Kevin Huizenga. Ganges e seus afluentes.
KH é um artista (EUA) que vem do mundo das fanzines, com Supermonster, onde cultiva quer experiências formais (Chan Woo Kim; que republicada no primeiro número do comic aqui representado perde na paginação “normal” a especificidade inventiva original) quer episódios de um quotidiano cuja simplicidade é densa de ilações (Walkin’). Ambas prontas a consumir no seu site. Mas é sobretudo com os trabalhos nos quais desenvolve o seu alter-ego Glenn Ganges (GG), que há uma maior aproximação ao campo ficcional, e por vezes mesmo a géneros mais fantasiosos. Para já, não há correlação biográfica entre o autor e a personagem, ao contrário do que se poderia supor à partida. É isso o que me faz recordar M. Jean. Mas se a maior parte das preocupações da personagem a inscrevem numa realidade mais ou menos inteligível e comum a todos os mortais, há outros momentos nos quais ela se coloca num outro nível, mais próximo, como já tive oportunidade de o dizer (Quadrado 6), de autores literários como Paul Auster ou Haruki Murakami. Vejam-se os episódios incluídos em Drawn & Quarterly Showcase, nos quais a vida do jovem casal Ganges se cruza com um conto tradicional italiano e outras paranóias urbanas, como o chilrear fenético de pássaros ou uma limpeza às carpetes. Mas as histórias mantêm-se sempre claras, relativamente simples, sem pontos por dar. Esta personagem permite ao autor procurar contribuir à sua maneira para o minimalismo, escola gráfica tão em voga nos Estados Unidos, cuja formulaica “economia de meios” já parece ter-se tornado axioma, pelo momento... Pelo contrário, o desenho de KH é falsamente falso e nada tem de inacabado. É um desenho que baixa as personagens a um mínimo de informação gráfica, mas em que KH reverte os valores no sentido em que a sua economia lhe permite centrar-se na história, numa maior estruturação das narrativas e dos mecanismos que a fazem avançar, não perdendo tempo, por exemplo, numa cansativa busca por novidades formais. Outros fá-lo-ão de uma maneira bem mais conseguida e pertinente, como Nick Bertozzi (Rubber Necker) ou Jason Lutes (Berlin). Os acontecimentos relativos à vida de recém-casado, e depois de recém-pai, de GG, associam-se às pequenas revoluções típicas de um jovem casal, sobretudo o apalpar terreno cego à medida que se vive. Mas o interessante exemplo da inteligência deste autor, consciente ou não, é a integração do seu próprio programa num qualquer outro a que seja convidado. Numa antologia que reunia vários autores independentes de bd norte-americanos, Orchid, em que se pedia que adaptassem para bd contos de cariz fantástico do mundo literário anglófono do séc. XIX, KH optou por um conto do irlandês Joseph Sheridan Le Fanu: mas não o adaptou de uma forma mais ou menos previsível, optando antes por o integrar em mais um dos nós da contínua vida do semi-autobiográfico Ganges. (Esta parte foi antes publicada na revista Número, seguida pela parte sobre Vanoli.)
+ Or Else é o título das publicações de Huizenga na Drawn & Quarterly. Faz parte deste movimento a que chamei tentativamente de post-fanzine (* e *). Reúne trabalhos inéditos e éditos, sendo a maior destes últimos reformulados. Junta ainda pequenos exercícios formais, apontamentos e desenhos soltos, mais interessantes uns, menos significativos outros. Seguramente que haverá uma colecção de Ganges mais tarde, mas a busca de Huizenga mantém-se conforme os anteriores trabalhos.
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Pedro Moura
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Etiquetas: EUA
Vários fanzines. Marco Mendes & Miguel Carneiro, amigos (autoedição)

Apesar deste ser um fanzine singular, talvez não incorra no erro de o colocar no seguimento dos outros três anteriores, Paint Suck’s, Lamb-Hãert e Hum, Hum! Estou a ver... (aliás, corroborado pela capa deste mesmo fanzine, como podem confirmar). Nem em considerá-lo como palco de experiências gráficas e de expressão, ou laboratório, a outras edições futuras, uma vez que a mesma equipa se prepara para lançar uma nova publicação, em moldes menos “fanzinistas”..., a Cospe Aqui, com colaborações de mais artistas nacionais (Janus inclusive) e internacionais (o famigerado Mike Diana). Nada disto implica uma minha consideração de “melhorias” ou “evoluções”, como se o fanzine de nada servisse senão “tentativas”, “experiências”, “brincadeiras”. Insisto nos mesmos pontos, sempre.
Aliás, asseveram os mentores do(s) projecto(s), Marco Mendes e Miguel Carneiro, que “o que nos movia era a vontade de compilar desenhos, histórias e outros trabalhos, que se encontravam “perdidos” em casa e nos ateliers de alguns amigos nossos”. Nada de novo a Oeste, em termos de fanzines. E coligir ruínas para erguer novos e brilhantes edifícios não é tarefa irrealizável, de Piranesi a Walter Benjamin, e passando aos novos “Gabinetes de Curiosidades” que pululam nas artes visuais e mesmo na banda desenhada (sendo o fanzine o seu privilegiado território).
A nucleização natural destes meios tem a Faculdade de Belas Artes do Porto como ponto agregador, mas sobretudo o “desencantamento com a realidade do meio artístico local\nacional e internacional, que nos deprime”. Ou seja, a toda uma costumeira “depressão jovem urbana” muito arreigada aos fanzines, aliam-se preocupações bem mais vastas e informadas num contexto estético complexo. Esta atitude não é, ainda assim, surpreendente, e recorda, entre nós, a experiência de Alice Geirinhas, João Fonte Santa e Pedro Amaral, d’A Vaca que Veio do Espaço e A Facada Mortal, também com conexões subterrâneas a uma certa veia da arte (sua) contemporânea. Notável num grupo de amigos unidos pelas bandas desenhadas (e estudo das artes visuais) que se reagregaria mais tarde como colectivo artístico, os Sparring Partners.
Este outro grupo também se move contra um certo “bom comportamento”, não por uma razão de choque bacoco, mas pela franca irritação que sentem face a... “conformismos moles”, se me permitirem que cite um dirigente político (sem com isso vos permitir fazer ilações políticas mais gerais)? Aceitemos, pois, mas de imediato se sente que se a irritação é natural nas relações do mundo da arte contemporânea portuguesa (e suas danças galerísticas, museológicas, institucionais, críticas, premeísticas e apoiísticas, publicitárias e etc.) a reacção tomada é um tanto ou quanto “fora do penico”. Ok, João Marçal faz uma piada porno-escandalosa com a obra de Robert Smithson... E então? Será que crêem, de facto, que o gesto que o fanzine tenta criar chega sequer às margens desse mundo, ou simplesmente atrai quem já está nessas mesmas margens e partilha do mesmo pensamento? Nesse sentido, não posso senão entender esse objectivo como francamente falho. Seja como for, vivemos um tempo com circunstâncias de produção e circulação das artes demasiado fluidas e maleáveis (resta saber como), para que este tipo de crítica “geral” ao “estado das coisas” esteja de facto a dirigir-se a algo em concreto. Soa mais a ressentimento mal colocado. Também os Red Hot Chili Peppers diziam que jamais tocariam na MTV e veja-se onde acabaram...
Mas se se desligar a produção destes fanzines desses objectivos ciclópicos (enormes e de um só olho) que os próprios autores parecem querer fazer passar, e os olharmos enquanto portadoras de valores que lhe são próprios, então estaremos um francamente bom grupo de fanzines portuguesas. Vejamos o trabalho dos dois “mentores” com mais atenção.
O trabalho de Marco Mendes é o mais surpreendente e mais interessante de todos, a meu ver, sem com isso diminuir o valor dos restantes. O seu desenho é realista como não se costuma encontrar pelas nossas paragens, sem com isso significar os facilitismos ou clichés que o realismo pretende invocar a maior parte das vezes neste círculo de produção. Confessando beber de uma certa aura e autoridade do amigo e pintor Arlindo Silva (cujos trabalhos se incluem nas publicações e se podem ver na sua gloriosa cor em www.anamnese.pt, relançando o tal “inconformismo” em relação ao mundo das artes em cheque), Marco Mendes não deixa nenhum detalhe de fora, desde que concorra para a liberdade do olho se demorar na ordem dos seus desenhos. De acordo com o próprio, estas breves compilações de “desenhos à vista” (mais esboçados aqui, mais finalizados ali) e “excertos de conversas” (apresentados das mais variadas maneiras) poderão eventualmente ser arrumados de acordo com alguma ordem cronológica, axiológica, logo, narrativa ou sequencial, e então funcionar “como páginas de um diário em banda desenhada, que para já narram um ano de vida em comum [com os amigos retratados]”. Havendo uma preocupação de facto com a narratologia permitida pela banda desenhada – e afastando-se assim de uma aproximação mais formal e “artística” da banda desenhada (leia-se, “experimental”?) – pergunto-me se não haverá aqui uma possibilidade de estarmos perante um projecto análogo ao Journal de Fabrice Neaud? Não digo que Mendes esteja imitando, e até me pergunto se conhecerá essa obra. Simplesmente noto entre estas breves páginas espalhadas nos fanzines e fora deles e a obra do francês (4 volumes pela ego comme x) uma busca e caminho comuns. Obviamente que a de Neaud, tendo atravessado o espaço necessário à publicação em forma de livro, atravessa toda uma série mais complexa de estratégias, necessariamente longínquas desta aproximação mais directa e imediata aos acontecimentos de Marco Mendes, mas a linguagem plástica, a estruturação/encenação das personagens (existe sempre, é inevitável; “deturpar as histórias”, diz o autor), é análoga à de Neaud. Até mesmo uma certa aura sensual do(s) corpo(s) masculino(s) se parece repetir no autor do Porto, ainda que a homossexualidade seja um dos temas centrais dos Journaux e nada o indique aqui (há, porém, uma curta “memória de Verão” à la Tomine no último fanzine por Nuno Ramalho). Não é que o que está apresentado não possua força, mas se alguma vez se coligir num só, e coeso, volume, talvez estejamos perante uma novidade de fôlego entre nós, pois uma aproximação autobiográfica a plenos pulmões jamais se cumpriu em Portugal (que eu saiba).
Quanto a Miguel Carneiro, não é de somenos importância nem desmerecedor da nossa atenção. As aventuras do Monsieur Pignon (ou Sr. Pinhão) seguem uma estratégia balançada e prevê-se mesmo a publicação de um livro. Esta personagem faz-me, fisicamente e em termos de relação diegética com as restantes personagens, recordar o Espião Acácio de Relvas, e o Fernando Pessoa enquanto personagem de Fernando Pessoa Contra o Homem-Aranha de Rui Sousa Coelho (Ulmeiro), colocando-se ora em situações de um quotidiano rasteiro (amigos, a namorada) ora estranhas, absurdas, povoadas por várias e estranhas personagens (prometendo o autor que ainda se complicará mais) e entregando-se a diálogos agora amorosos, agora citacionistas, ora mesmo metafísicos intercalados com piadas à Fernando Rocha. Dos nossos contemporâneos, tanto se poderia pensar em Kaz e Ivan Brunetti como em Johnny Ryan. Mas tendo em conta a ordem dos fanzines, talvez se venha a desligar das piadas mais brejeiras para de facto se aproximar de alguma força conceptual, sem vergonhas e preso à necessidade de dizer “caralhadas” para disfarçar a verdade intelectual acabada de proferir momentos antes.
A participação de outros dos colaboradores, mesmo os regulares, é muito díspar em termos de tipo e qualidade: as breves páginas de Mariana Santo surgem como uma espécie de variação sobre Carneiro, mas com as suas idiossincrasias, obviamente; os ratos de André Sousa e os “cromos” de João Marrucho mostram possibilidades inovadoras em termos de histórias de uma página/painel. É divertida a inclusão de desenhos infantis de Marco Mendes na Lamb-Hãert, que não deixando de ser infantis, são uma mostra do virtuosismo que viria a atingir. Para ser sincero e directo, as histórias de Didi Vassi são fracas e derivativas, existindo à esquerda e à direita o mesmo tipo de trabalhos “porcos, feios e maus”. E se se podem encontrar alguns exemplos cheios de humor e valor estético nessa família (Mike Diana, claro está, Pepe del Rey, e até mesmo Janus – se bem que a arte deste seja mais virtuosa), estas adolescências inconsequentes não têm perdão. Como será de esperar, há uma flutuação s. Alguns são francamente adolescentes e inconsequentes.
Esteve na lista para o prémio dos fanzines no Festival da Amadora este ano, que acabou por ser entregue ao Venham + 5. Mas não faz mal, dizem os editores, pois preferem outro tipo de atenção. Concordo, e espero que essa atenção apenas lhes sirva de alento e combustível a fogos mais altos.
Notas: agradecimentos a Marco Mendes e Miguel Carneiro pela longa resposta que me enviaram por email. As minhas contestações às mesmas ideias estão aqui dadas e as minhas desculpas por não ter escrito directamente antes. Agradecimentos também a Ana Luísa Mirra, que me emprestou o Paint Suck’s e me mostrou outros trabalhos esparsos de alguns dos artistas, e a Marcos Farrajota, pela troca de ideias. Se estiverem interessados em obter mais informações ou a publicação, escrevam para mcarneiro@hotmail.com e/ou marcofbaup@hotmail.com. 
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Gongwanadon. Thomas Herpich (Alternative Comics). Post-Fanzine?, parte 2.

Em relação ao Big Questions, de Anders Nielsen, aqui não se trata de uma publicação que já existira enquanto fanzine (clássico) posteriormente apoiado por uma máquina editorial. Thomas Herpich tinha já uma outra publicação na Alternative Comics, Cusp (de que falei na Quadrado # 5, Junho de 2003), muito similar a esta. Tinha dito que apesar do carácter multímodo dos trabalhos aí apresentados – desenhos soltos, histórias de uma página ou pouco mais, exercícios de estilo – que se poderiam entender ali presentes “bons auspícios”. Na verdade, não posso dizer que sinto as expectativas algo goradas neste Gongwanadon. Sabendo que Herpich trabalha na animação, e que aí emprega todas as suas principais energias, leva-nos a entender as suas publicações em papel como uma espécie de prática terapêutica, de “afterthought”. Banda desenhada automática. Não é que isso em si seja uma escolha moralmente incorrecta ou esteticamente improfícua. De todo! Muitas vezes é até o contrário que sucede, e o território fanzínico é precisamente o mais aberto a esse tipo de experimentação à flor da consciência...
Simplesmente esperava que alguns dos temas, algumas das suas forças, pontos de interesse se mantivessem nesta sua segunda aventura editorial. E estando afastados dois anos um do outro, provavelmente o meu cérebro de polícia estava a desejar por uma espécie de “normalização”... como se só criando uma estória una e coesa fosse o caminho para provar o seu “crescimento” ou “maturidade”. Mea culpa.
Continuam a ser enigmáticas as formas como explora as características mais manifestas dos géneros – high-fantasy, ficção científica, self-fiction – para as derrotar através do absurdo ou de uma curva apertada na lógica que os seus desenhos, aparentemente de linhas suaves e calmas, são capazes. Penso que em “Werewolf” há uma série de piscadelas de olho e convergências para a criação desta história: desde o filme Lobijovem, a toda a panóplia de autobiografias e auto-ficções na banda desenhada (Chester Brown, Jeffrey Brown, Debbie Dreschler, & etc.), e até a uma “piada à Chris Ware”. É como se, neste seu processo ainda em curso de “descobrir a voz”, Thomas Herpich experimentasse vários territórios, estilos, para depois os abandonar – alguns dos desenhos parecem cascas abandonadas de uma ideia fugaz – e avançar numa outra direcção. Nada se apresenta como obstáculo nessa procura, nem um bocadinho de violência, nem um bocadinho de sexo, nem de perversidades hoje “ilegais”.
O nó (mínimo) com a questão do fanzine é tão-somente o facto de, sendo um objecto totalmente liberto, é apoiado por uma casa assente no mercado. Nada mais, nada menos. Mas é isso o que nos leva a pensar numa espécie de abertura contemporânea ao post-zine: ainda como “espaço de liberdade”, mas canalizado por uma máquina comercial com os seus princípios particulares. 
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Pedro Moura
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Etiquetas: Autobiografia, EUA
Big Questions. Anders Nilsen (Drawn & Quarterly). Post-Fanzine?, parte 1.

Os fanzines são, por natureza, objectos que apenas podem ser definidos pela sua intrínseca propensão a poderem escapar-se às definições “normais” (melhor dito, “normalizadas”) de outro tipo de publicações (que poderão ser revistas, jornais, periódicos, colectâneas, antologias, sketchbooks, etc.), e a se nos apresentarem como algo feito numa total liberdade em relação a “valores externos” (editoriais e comerciais, sobretudo). Um outro grande factor definitivo é a sua produção, a qual, a maior parte das vezes, é reduzida em exemplares, numa qualidade de papel acessível (logo desprovida de “luxos”). Mas bastará olharmos algumas das publicações aqui indicadas e a que damos (ou se assumem como tal) esse nome – e este blog não prima por uma grande variedade delas - para demonstrar a profusão que se nos apresenta e a dificuldade que é a utilização de um nome. Algumas são fotocopiadas, outras em offset, uns fanzines meramente agrafados, outros que atravessam um francamente profissional e agradável arranjo gráfico, uns que “põem cá fora” as vontades dos autores tal qual, outras atravessando uma escolha editorial ou princípios apriorísticos e programáticos, algumas editadas pelos próprios intervenientes/editores, outras sustentadas por uma maior e mais bem oleada máquina editorial (e distribuidora). É este último o caso dos dois títulos aqui em discussão nesta secção dupla: Big Questions, de Anders Nielsen, e Gongwanadon, de Thomas Herpich.
Anders Nielsen começou a editar o seu Big Questions como um fanzine de formato clássico. Por volta de 2000 sai um caderno de 14 folhas fotocopiadas e agrafadas: distribuição através de amigos, lojas locais, correio e passa-palavra. À medida que cada um dos números foi saindo, era como que um crescimento exponencial no formato: o segundo é materialmente similar ao primeiro, o terceiro já possui um papel melhor, uma capa elaborada com um supra-título (“Astrophysics”) intricadamente desenhado e mais páginas. O quarto, supratitulado “Asomatognosia” introduz a cor na capa em cartão, aumenta de formato, diminui em número de páginas, que passa a ser em “papel de jornal”; o quinto (como é que direi....? “contracapatitulado”?? “Nothingness”) é ligeiramente menor no formato, maior e melhor no miolo; o sexto é igual mas aumenta substancialmente de número de páginas (das anteriores 36, passa a 48, ainda com uma delas desdobrável).Finalmente, o último número (“Dinner and a Nap”) é publicado pela Drawn & Quarterly. Serão estes aspectos meramente exteriores, sociológicos? Sem dúvida, e fruto imediato dos apoios que foi recebendo, mas também vive em íntima relação com os conteúdos.
Como soe dizer-se, Nielsen foi “crescendo como autor”. Se os dois primeiros números não mais apresentavam do que interessantes exercícios gráficos (uma espécie de enorme e impossível cubo de Kubrick a desfazer-se a recompor-se), algumas anedotas com pássaros entregando-se a situações e linguagens tipicamente adolescentes (humanos) e uma história (fraquita) com personagens humanos, os números seguintes foram densificando as várias histórias que entretanto surgiram e que descobriríamos serem “tramas” de um “todo unificado”. Sem dúvida, “the plot thickens”. Este é um dos aspectos mais interessantes do moço, é contar-nos ora a história de todo um grupo de pássaros e as suas espinhosas relações ora a de um rapaz com um atraso mental, e depois mostrar-nos quais as linhas que cosem uma à outra. Presume-se que mais detalhes de cruzamento surjam no futuro.
E se a edição começou sua, mesmo que rapidamente contasse com o apoio pontual de várias instituições para cada um dos números até (juntamente com um outro seu título, Dogs & Water) se entregar nas mãos da Drawn & Quarterly, ela não mudou em nada. A força criativa e as decisões e o controle de toda a publicação parecem não ter saído do seu poder pessoal. No entanto, uma das perguntas que poderia surgir seria se alguma das suas “vontades”, “pulsões” ou “direcções” se alteraria com essa passagem a um outro tipo de mercado? Estaremos perante um fanzine, um prózine ou uma revista de uma editora? Será uma edição independente? Mas essa é uma independência comercial ou editorial? Ou até mesmo criativa? Não tenho respostas nenhumas. Simplesmente é interessante ver em bom pequeno exemplo que levanta uma excelente big question.
Nota: Anders Nielsen tem outros trabalhos, incluindo na Kramer’s Ergot (que lhe publicou em separata o Sisyphus do quarto número), e esta galeria tem algum do trabalho dele. 
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Pedro Moura
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Etiquetas: EUA
Le Sketch #2. Matt Madden (Paulo Patrício)

Fico-me, infelizmente, pelo recado: Paulo Patrício publica o segundo número de Le Sketch, desta feita com desenhos dos blocos de notas de Matt Madden, seu compincha na edição e pensamento subversivo... O primeiro fora com trabalhos de Jorge Alderete, algo reminiscente e um grafismo norte-americano dos anos 50. Este parece-me um projecto a um só tempo low-fi e low-profile mas que, por essa mesma razão, estenderá as suas raízes por vários cantos indizíveis do "mercado da banda desenhada".
(Para quem não conhece, Matt Madden é um profícuo artista norte-americano, autor de uma excelente "novela", Odds Off (Highwater Books), fundador da ala norte-americana do projecto Oubapo, no seio do qual tem aplicado os "Exercícios de Estilo" de Quenau a uma curta história. Mais, profundamente conhecedor dos mecanismos específicos da banda desenhada, e como já disse noutra ocasião, não sendo propriamente um inovador/inventor, utiliza na perfeição todos esses possíveis mecanismos, sempre o mais pertinentemente associados ao que pretende contar, e como o pretende contar. Prevê-se que saiam em um só volume, e valerá a pena seguramente estudá-lo de perto. É também casado com Jessica Abel, artista com a qual há, obviamente, a um nível gráfico, algumas proximidades... )
Le Sketch são desdobráveis impressos a duas cores (ou uma), totalmente grátis (obrigado!) e encontram-se sobretudo no Porto, nos locais mais "mais". No entanto, tentem: lesketch@vianw.pt e peçam ao Paulo Patrício que vos ajude a obtê-los. Ou mexam-se. Que autores e editores assim merecem uma classe de espectadores mais activos. 
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Pedro Moura
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Etiquetas: EUA
15 de outubro de 2005
Campanha anti-bélica. Unicef/IMPS, d'aprés Peyo

Como alguns de vocês, não sei muito bem que relação terá a ver isto com ler banda desenhada. Talvez se prenda ao interesse, ainda que muito secundário, pelo uso que as hegemonias comerciais, culturais, e até mesmo políticas, podem fazer com esta linguagem ou o que com ela se relaciona. Talvez se relacione com como, do próprio interior da produção mais comercial ou convencional da banda desenhada, é possível criar linhas de estranheza.
Seja como for, esta campanha desejada pela Unicef, produzida pela companhia IMPS e, de acordo com as notícias (googlem), aprovado por Peyo - apesar de terem sido recusados abusos - é por uma boa causa. Leia-se na imagem: ne laissez pas la guerre détruire l'univers des enfants. "Não deixem a guerra destruir o universo das crianças". O vídeo (má qualidade, enviem-me novo link se houver melhor), que mostra o idílio normal da aldeia dos Estrumpfes ser interrompido por bombas pouco-espertas, tenta mostrar as vítimas mais frágeis dos conflitos armados. Bom, seria discutível se este tipo de instrumentalização das crianças funciona, já que uma vítima não é, a meu ver, contabilizável, e não julgo existir hierarquias de "inocentes" (ou o são, ou não). Por outro lado, num momento em que o próprio Exército dos E.U.A. lança um jogo de computador para seduzir os mais jovens e conseguir recrutá-los (jogo em que se mata e morre no conforto do lar), novos canais de educação não são lançados nas nossas sociedades mais "avançadas", quando a ignorância continua a ser o prato do dia, pergunto-me se são os duendes azuis que nos ajudarão a despertar as consciências.
Mas isto nada tem a ver com "ler bd"... Ou, ao ser-se fã de títulos como The Authority e Sleeper, ou autores como Warren Ellis e Frank Miller, talvez no fundo seja também...
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Pedro Moura
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