
Na verdade, dá-se aqui conta de duas séries que já reúnem 5 títulos a primeira (Ariol – um jovem burrinho que todos os dias tem de ir para a escola, mas lá chegando não se importa) e 10 a segunda (Sardine de l’Espace – jovem menina que vive aventuras siderais com o seu tio), mas que mais recentemente foram reeditadas em formato de álbum, como uma espécie de “crescimento da respeitabilidade” ou se procurassem uma maior “vida de estante”. São duas séries infantis escritas por Emmanuel Guibert, ele próprio desenhador de várias excelentes séries que tanto se imiscuem em questões de linguagem formal como das intensidades próprias de um tema recorrente, a saber, a memória, tanto em La Guerre d’Alan como Le Photographe. Ariol é desenhado por Marc Boutavant, ilustrador professional de vários trabalhos para um vasto público mais jovem, e Sardine de l’Espace por Joann Sfar.
Guibert trabalha num outro plano, como não poderia deixar de ser. Tendo como público crianças novas em idade de leitura (e o vocabulário é haddockiamente rico, mas não difícil – para uma criança francesa, pois eu preciso de dicionário), e apresentando as histórias curtas, sempre de dez páginas cada uma, numa revista (tendo sido depois reunidas em pequenos volumes que reúnem entre 4 a 6 das histórias), não nos admirará que elas sejam simples, lineares, sem variar de estratégias narrativas, registos gráficos, etc. Para além do mais, a “moral” é também directa, onde os “maus” são “maus”, e cada dia se segue como se não tivesse existido um “ontem”. Assim, os eventos de todos os dias tornam-se aventura. Não obstante, são todas personagens de imediata atracção, graças ora a detalhes que instalam crises permanentes nas histórias – por exemplo a relação do pirata “Épaule Jaune” com a mãe extremosa, a paixão de Ariol pela vaquinha Pétula, a sua crise em não ser considerado “burro”, entre outros...
Ariol fará lembrar quase de imediato, neste nosso espaço de discussão, o título Spiral-bound, sobretudo pelo emprego da “ilusão” dos animais antropomorfizados, mas mantendo ainda assim as suas próprias características comportamentais e ambientais... Outra ligação será a obra do profícuo Richard Scarry, cujo nome poderá não ser e imediato reconhecimento, mas cuja imensa obra também foi traduzida e divulgada em Portugal para um público infantil dos anos 70-80. A utilização de animais para parodiar e, ao mesmo tempo, de uma forma subtil, elogiar o comportamento humano é apanágio destas novas fábulas, e é uma tradição respeitável, na qual um dos mestres foi, como não podia deixar de o ser, Carl Barks.
Quanto a Sardine, o proveito é mais imediato, até pelo ritmo dito alucinante, e não tão ressonante em termos humanos, pois aposta antes na espetacularidade, mas é um daqueles títulos cujo intuito em “fermentar a imaginação” não pode falhar, com a profusão de personagens secundárias, estranhos planetas, criaturas tão hediondas como ridículas, procedimento inusitados, etc.
Porém, se estas estórias parecem ser desprovidas de sentido lógico, de continuidade, de objectivos unificados, não deve isso surgir como um problema, mas antes como precisamente uma osmose à mentalidade das crianças.
Nota: É uma pena que não esteja nos planos editoriais a tradução destas obras, num mercado que continua a apostar sobretudo numa certa linha “politicamente correcta” para crianças, pouco atenta a algumas experiências intensas entre nós ou simplesmente à loucura ilógica que é própria das crianças (neste aspecto, a televisão está mais atenta). + Normalmente, os posts são sobre livros que me pertencem, comprados, salvo empréstimo, que anoto. Neste caso, os livros foram requisitados da Medieteca do Instituto Franco-Português, cuja secção de banda desenhada não é nada desprezível, e aconselho aos bedéfilos francófonos e francófilos. 
30 de janeiro de 2006
Sardine de l'Espace + Ariol. Emmanuel Guibert, com Joann Sfar e Marc Boutavant (Bayard)
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Pedro Moura
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11:25 a.m.
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23 de janeiro de 2006
Lincoln 3. Playground. Irmãos Jouvray, Olivier & Jérôme (Paquet)

Dizia Borges que não havia livro no mundo, por mais banal ou medíocre que fosse, que não tivesse uma frase memorável. É talvez uma verdade, e temos de nos esforçar para ter a capacidade de a capturar, soletrar e compreender no seio do acto mais penoso de leitura.
Se bem que a leitura de Lincoln não seja, de todo, penosa, banal, e esteja bem acima da mediocridade, esta é uma série relativamente comercial, todavia, que não faz mais do que trabalhar sobre elementos clássicos de construção da banda desenhada, elementos dos quais seria até fácil fazer uma "história"... As páginas são estruturadas de formas simples, mas legíveis e bem ritmadas, as figurações claras e suficientemente agenciadoras, a peripécia (e seus "episódios") bem encaixados, se bem que sejam flechas que jamais olham para trás. Não há propriamente uma tressage de todos esses elementos diegéticos, cf. Groensteen.
Lincoln, cowboy solitário, amargo com a vida, vive contra tudo e todos; Deus lui-même cruza-se com ele e passa a invectivá-lo a uma nova existência, feita de calma e atenção para com os outros; junte-se o Diabo para arranhar o disco um pouco, e eis que temos uma mistura de géneros - auto de mistério mais western mais comédia de acção - ligeira, mas dissonante dos escaparates. Uma pequena peregrinação pelos territórios da ascensão de uma consciência própria, enfim, que se defende do controle pouco velado desejado quer por uma parte (Deus, e os seus "inefáveis e indizíveis planos") quer por outra (Diabo, e o "só quero chatear as pessoas").
A presença de Deus foi também uma constante nesta arte, mas há de facto um mais sentido retorno de há umas décadas para cá (aliás, Le Retour de Dieu era um dos títulos das antalogias da Autrement)... Pode ser a Sua bendita presença integrada num novo sistema ficcional, como em The Sandman (Neil Gaiman et al.), pode ser como fundo político-religioso para a raiva contra o sistema odioso de controle social que a Igreja montou como em The Preacher (Garth Ennis e Steve Dillon), pode surgir ora como metaforizada de uma forma directa (Grant Morrison e Jon J. Muth em The Mystery Play) ora como personagem da sua própria história (como tento fazer na Saga de Deus, com Marcos Farrajota nas Cricas), e tantas outras formas.
Em Lincoln, não há exageros de raiva adolescente como em The Preacher, nem humores fáceis. O facto de Lincoln se aperceber imediatamente que apertar o pescoço a Deus não lhe traria prazer algum em especial revela de imediato a maturidade que se esconde na própria personagem - e nos autores. Os diálogos metafísicos não são mantidos exaustivamente, surgindo antes na troca de duas ou três frases por entre a acção que se desenvolve nesse momento - ajudar um índio na sua vingança, proteger cidadãos, salvar um miúdo - mas é esse "ruído de fundo" que de vez em quando surge à tona de forma visível o verdadeiro móbil de toda a série. O livre arbítrio é o protagonista destes livros. Sobretudo a dificuldade que ele tem em se assumir, devido à quase impossibilidade de escapar das circunstâncias presentes, dos aparentes "empurrões do destino", do peso das consequências de cada acção tomada. Como não pode deixar de acontecer, há uma certa quantidade de eventos deux ex machina, que por vezes levam a uma certa desilusão na forma como os autores mudam de cenário ou evento, mas é o expediente que encontram para delinear os papéis diferentes entre Deus e o Diabo, e voltarem então ao tema central.
Do que conheço de outros títulos dos irmãos Jouvray (separados), este parece-me o mais intenso trabalho, se bem que seja uma intensidade sob uma camada que pareça pouco notável. Como disse, é preciso um pequeno esforço e escavar até nos apercebermos do que merece ser visto... neste caso, basta riscar a superfície.
Nota: o quarto volume (e último?) deve estar quase a ser publicado. Veja-se site próprio www.bd-lincoln.com 
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Pedro Moura
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7:39 p.m.
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Aqui no Canto, boxing number. João Rubim e Manel Brito (autoedição)

Nova aventura de um fanzine de que aqui já falámos, este "boxing number" apresenta uma fórmula relativamente simples: dois artistas, desenhando "lado a lado", cada um assumindo um dos boxeurs envolvidos em uppercuts e direitas bem assentes (na verdade, cada um é responsável por uma vinheta, que pode ou não representar os dois combatentes, que mimam os rostos dos autores reais). Por um lado, poderá ser reminiscente de um trabalho que revisite um artista anterior, como quando André Lemos "brincou" com desenhos de Georges Grosz, em Super Fight II (v. comentários) ou por outro, os diálogos de Kochalka e os amigos. Este projecto está aquém das questões dessoutros trabalhos (revisitação & questionamento) mas para além em termos de diálogo vivo.
Verão que a distinção é clara entre o traço dos dois artistas - não se trata da busca de uma osmose, como no caso do Flat Bosnian Dog, de Andersson e Sjunnesson: os de João Rubim com traços desenhados de uma forma mais solta, o que faz sublinhar as costumeiras linhas de movimento da banda desenhada, de impacto, de metaforização dos choques físicos, de irradiações e linhas de fuga da acção em curso, ao passo que os de Manel Brito, mais estilizados, se parecem centrar mais nos pontos de impacto, nos ecos que um corpo faz no outro no momento do embate, nas repercussões (inclusive as visuais) que esta pequena e escorreita banda desenhada provoca...
A montagem de Ana Lúcia deve-se ao facto dos autores terem delegado essa responsabilidade - qual montagem - a outra pessoa, mas que respeitou uma "ordem aparente" da acção. Ao princípio, pensei tratar-se de um exercício livre de desenhos cuja sequencialização seria ao acaso, pela "montadora", mas fui informado pelos mesmos que iso não era assim. No entanto, uma vez que somos lançados e abandonamos a "estória" (ou o segmento, se preferirem) sempre no combate propriamente dito, sem quaisquer outros elementos laterais, faz-me pensar numa sequência circular, num loop eterno de dois amigos que se empurram um ao outro nos terrenos da criação.
O preço é algo elevado (5 Euros), mas deve-se à inclusão, na compra do fanzine, de um CD com uma animação pelos dois autores, uma curta-metragem que mostra um outro combate gráfico, também experimental, também intenso. Só há 30 exemplares, duas metades com capas ilustradas ora por um ora por outro. Esta é a de Rubim. Ide: http://aquinocanto.do.sapo.pt/
(Apesar de saber que isto vai irritar pessoalmente o Manel Brito, deixo só mais uma vez a ideia de que, havendo diferenças, há também semelhanças em escolhas gráficas, ou uma linguagem geral, com o seu pai, o Fernando Brito, pintor, artista multifacetado e autor de algumas bandas desenhadas, inclusive a Fado - v. Quadrado #5, da Bedeteca - e uma epopeia de ficção científica, há anos para ser editada... Aceitam-se discussões sobre este assunto).
Nota: notarão numa dedicatória na capa. Não consta da capa original. 
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7:38 p.m.
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Dossier Bedeteca de Lisboa 2006. Crítica.

Deixo aqui o link directo ao texto que escrevi, mais uma vez a convite da Bedeteca de Lisboa, sobre o panorama da crítica de banda desenhada em Portugal, e que tenta fazer o balanço, pela minha perspectiva pessoal, do ano passado. Dão-se alvíssaras por contínuos debates. 
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Pedro Moura
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22 de janeiro de 2006
A fome faz sair o lobo do mato. Carlos Pinheiro (Senhorio)

Das páginas dos fanzines de "O Senhorio", e por ocasião da mostra de banda desenhada e ilustração e venda de fanzines A Mula, nos Maus Hábitos (Porto), eis que foi editado um fanzine num grande formato (A3, o que lhe permite, ainda que diferentes em termos de conteúdo, ser arrumado fisicamente junto ao Nemo no Século XXI, ao Memórias 10, e ao primeiro número da Satélite Internacional, para ficarmos por edições nacionais) de desenhos de Carlos Pinheiro.
São 17 desenhos no interior, alguns dos quais já tinham aparecido nas páginas dos fanzines "Senhorio" e outros, penso, inéditos. Tal como nos livros de André Lemos, não há propriamente aqui um pólo em torno dos quais os desenhos se agreguem, pelo que surgem em relações livres, e é o seu espectador que os poderá associar conforme entender e conseguir. Os desenhos são todos a preto e branco, com linhas bem definidas e torneadas, com um preenchimento de áreas através de pequenos riscos paralelos que fazem emergir uma textura "esferográfica"... Trabalhando a partir de referentes reais, corpos humanos, a maioria da vezes, Carlos Pinheiro fá-los desviar com um qualquer aparato absurdo - uma máscara enorme, a nudez, um indício qualquer de violência... A associação entre esses desenhos, parece-me a mim, poder passar por uma qualquer vontade em retratar a violência subliminar que atravessam todas as relações humanas, ou a animalidade a que retornamos sempre que deixamos a segurança do verniz social, etc. Mas isso são leituras bastante superficiais, e haverá seguramente alguém com maior capacidade de análise plástica para os apreciar melhor...
Mas se falo deste fanzine, que não é de banda desenhada tout court, é pelo que se segue. Aos poucos, parece-me estarmos a aproximarmo-nos de uma situação artisticamente mais compreensível e feliz para alguns artistas que trabalham a ilustração, a banda desenhada, ou trabalhos gráficos que estão próximos da narratividade sem por isso se tornarem criadores de bd. Tal como acontece com um sem-número de galerias (e museus, alguns) nos Estados Unidos da América, no Canadá, em França, e surgem nas páginas de algumas publicações dedicadas às artes visuais, esta família alargada da criação tem o seu próprio nicho no "mercado artístico", no circuito galerístico, etc. São questões que tinham sido levantadas e criticadas pela própria existência de alguns fanzines, que desejam ligações directa a esse mesmo mundo (e não outras publicações de contornos mais definidos e disciplinares, presos a um mercado da bd, preocupados - o que é perfeitamente válido! - em uma comunicação com um público amplo, com valores mais comerciais, narrativos, de heroicidade, etc.). Esses indícios são estas pequenas feiras que têm acontecido pontualmente, mas de uma forma coesa e com algum êxito, ainda que ainda "sob o nível do radar crítico", para parafrasear Roger Sabin. Pois nada têm a ver com mostras ou exposições maiores, de grande impacto (ou menor) sobre o público, mas em que a intensidade e liberdade dos trabalhos se dissipa no espectáculo total, e as escolhas vertem sempre sobre uma ideia preconcebida de "trabalho acabado", "publicado" ou "publicável", etc. Aqui, não se trata de manutenções profissionais, mas vontades artísticas puras.
No caso de Carlos Pinheiro, e espero que esta não seja uma informação fora do âmbito crítico nem que seja uma indiscrição, todos estes desenhos foram vendidos. Não será sinal de riqueza material, seguramente (ainda!) mas pelo menos aponta a algum interesse e discernimento da parte de um público determinado.
Acredito, por isso, que se "a fome faz sair o lobo do mato", os lobos certos, ao trabalharem deste modo inusitado e destemido, farão criar eles mesmos num público cada vez maior uma fome de que não sabiam ser capazes. 
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Pedro Moura
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9:29 a.m.
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21 de janeiro de 2006
Wimbledon Green. Seth (Drawn & Quarterly)

É notável como esta obra é fruto de um prazer. Seth trabalha lentamente, com um tipo de velocidade de artesão, dados os seus gostos e inclinações nostálgicas por um momento passado da banda desenhada - sobre-romantizado, como o próprio admite. Quase simultaneamente à edição do último número de Palookaville, que continua a “tempestade calma” da saga familiar Clyde Fans, e um pequeno volume de contos ilustrados (Bannock, Beans & Black Tea), escritos pelo seu pai, John Gallant, sobre as memórias da sua infância nos anos 20/30, sai Wimbledon Green – The Greatest Comic Book Collector in the World, pelo que se pode ler, directamente das páginas dos seus sketchbooks (de que algumas páginas foram publicadas em Vernacular Drawings, também na D&Q). Como se compreende facilmente pela leitura do prólogo do próprio autor, e por outras informações mais ou menos veladamente expressas nas histórias inclusas, Seth segue fórmulas narrativas de pequenas, aparentemente desconexas partes para construir um todo contínuo, tal como Chris Ware havia feito com Jimmy Corrigan ou Daniel Clowes em Ice Haven, ou ainda David Heatley nos seus comicbooks (todos eles directamente citados por Seth).
Os materiais usuais de Seth estão todos presentes. Personagens de meia-idade mas bons-vivants, e cuja paixão dedicada à banda desenhada, para além de um gozo aos verdadeiros coleccionadores, dos reais e muitas vezes patéticos (como todos os coleccionadores, cujo desejo é possuírem uma fatia de universo, serem um deus menor nesse seu mesmo universo), tanto atravessa a nostalgia por um tempo “de ouro” – que nunca existiu exactamente como se imaginara – como se aproxima à verve dos apreciadores e conoisseurs de vinhos antigos, exquísitos ou raros (deliciosa, a referência a um vinho “1928 St. Ogan”!). Wimbledon Green é um coleccionador de banda desenhada, misterioso, cujos gostos são “amplos mas elitistas por natureza” (p. 91), e cuja presença carismática ora conquista ora acirra, capaz de mobilizar pessoas a ajudá-lo a descobrir colecções completas de títulos obscuros, quase desaparecidos, ou até supostamente inexistentes (como o número um e único de The Green Ghost, uma espécie de Santo Graal dos bedéfilos norte-americanos). Escusado será dizer que todas essas referèncias são inventadas por Seth, tal como na busca pelo trabalho de Kalo em It’s a good life, if you don’t weaken, ou a famosa biblioteca de Hicksville, Nova Zelândia, divisada por Dylan Horrocks. Não será, por isso, difícil de conseguir fazer extrapolações e ligações a referentes reais, que ele também cita, ao falar de Batman e de Superman, de lojas existentes como a Beguiling, ou até surgindo ele próprio transmutado no papel do “vilão” Jonah…
Neste tipo de apocrifia, Seth está mais uma vez próximo de Ware, mas também de Sikoryak (que tem finalmente um site), se bem que em termos muito diferentes. Acho magistral a forma como ele cria todo um referencial sobre determinado título ou autor, conseguindo, graças às suas próprias experiências de autor, memórias de leitor e gostos educados, erigir todo um ambiente coeso e pertinente: veja-se, por exemplo, a “invenção” da série Fine & Dandy, atribuída a um Lester Moore. As pistas da filiação dessa série de banda desenhada cómica na “psique” da sua época é imediatamente sublinhada pela dupla Laurel & Hardy (apesar dos nomes lembrarem antes Amos & Andy), e depois segue-se um historial do título, “citações” de episódios vários, etc., com o intuito, conseguido, de nos fazer “crescer água na boca” em ler directamente essa série indicada... Hélas”, pura ficção!
Tendo o livro pranchas de formato pequeno, ainda assim Seth utiliza-as de uma forma extremamente compartimentada, com vinhetas regulares e pequenas, por vezes mesmo recorrendo à repetição da imagem do falante – síndrome “talking heads” – mas que serve perfeitamente para sublinhar a ideia de entrevista, da opinião dada dessas personagem sobre Green ou uma qualquer situação, e todas essas estratégias marcando um acelerado ritmo de leitura. É uma fórmula que não é apenas concomitante a Ware, já citado, mas também a alguma tradição europeia, que podemos encontrar deste as tiras infantis de Massimo Mattioli até vários dos primeiros álbuns de Lewis Trondheim. É esse ritmo que torna toda a diegese de um interesse inesperado. Enfim, à partida, julgar-se-ia que a história sobre a vida de uma personagem destas, e uma busca de vários coleccionadores pelo Green Ghost (um “fantasma” que jamais se reincarna, ou por outra palavra preferida dos narratologistas, um “McGuffin”), não poderia ser estruturada de um forma empolgante, mas Seth consegue-o, não fosse ele um leitor atento de Carl Barks, por exemplo (as peripécias em torno desse comicbook lembram as aventuras de um Tio Patinhas opondo-se a um Patacôncio ou um Porcolino, e, mais, também recorda a atitude de Patinhas perante os seus “tesouros”, não me mera acumulação e arrogância materialista, mas profundo prazer humano em saborear o prémio de uma busca ou de um valor humano que subjaz esse objecto). A estruturação em pequenos episódios, sub-plots, pequenas diferenças em torno de um mesmo tom, talvez moral, nostálgico, “limpo”, directo – tão próximo a uma vida de “backyard childhood” que compõe toda a filosofia de um Schulz (a quem Seth tem feito uma homenagem pelo arranjo gráfico da colecção dos Peanuts) – não o impede de explorar vários géneros que se aglomeram em torno de Green: desde a aventura ao undeground, do policial ao jornalístico, até mesmo pelo absurdo e o experimental (como na estória das páginas 104-105). [Nuno Franco alertou-me para uma entrevista em que Seth afirma nunca ter sido um leitor atento nem interessado na obra de Barks, preferindo antes a de John Stanley - o autor mais associado à Little Lulu - o que poderia anular as minhas palavras em relação à aproximação dos dois autores. Porém, não deixando de ser uma questão premente e que separa o discurso estético do biográfico-positivista, talvez o facto de Seth não ter sido um leitor directo e real de Barks não invalide o facto de se ter verificado um "trânsito de forças" entre os dois, quer se entendam essas forças como fluindo entre variados continentes, estabelecendo redes complexas de influência, tal como entendidas por Harold Bloom, quer se as vejam como formas múltiplas que se desdobram e vão reconquistando novos empregos e significados ao longo do tempo, mas fora dele, como os "sintomas sobreviventes" de Aby Warburg. Nada disto deve ser entendido como fantasmagorias facilmente derrotadas pelos cépticos, trata-se de uma aturada visão ampla e livre para além do positivismo histórico e dos saberes disciplinares, empregando métodos de trabalho e uma faculdade de entendimento que bebe de muitas fontes... Seth não foi capaz de ultrapassar o écrã - compreensivelmente irritante - das personagens Disney(C) para atingir o ouro de Barks, não obstante o seu gosto por Floyd Gottfredson. Todavia, ambos conceitos de forças permitirão dizer que Seth fez levantar esse écrã da melhor forma, que foi deixar-se habitar por uma força idêntica à de Barks, e que se revela não só nessas aparentes fórmulas de aventura (a saga, "the quest") como também no valor humano que elas acabam por revelar. Dito isto, agradeço a N. Franco.]
As cores, diminuídas a um mínimo, ora cinzentos, ora verdes, ora ocres, com um belo e denso trabalho de aguadas e sombras, apenas sublinha esse ambiente contínuo e as esperadas excepções, como a abertura das malas da colecção de W. R. Webb, que se tornam mais significativas. Os tons são típicos desta patina de nostalgia que Seth tem vido a desenvolver nas suas histórias, que procuram retomar esse “tempo falso” de um passado dourado. Ele mesmo diz que há grandes diferenças entre a sua arte e a de Ware (especialmente de Rusty Brown, mas também de Corrigan). Mas vejo-os como caminhos diferentes em direcção a um horizonte comum. Através de recursos mínimos, e bem diversos – Ware é mais conciso, sintético, geométrico, Seth mais fluido, de uma serenidade contemplativa -, querem ser o mais expressivos possível na sua comunicação desse olhar, necessariamente, solitário, e não desprovido de dor nos seus casos particulares, para o passado, para poderem então enfrentar de um modo mais protegido os dias de todos os dias...
Uma última palavra sobre o próprio objecto, cuja capa com dourados, cantos redondos, e figuras em relevo, fazem deste livro um belíssimo “objecto para meter na estante”, como diz Mário Moura, mas que tornam o acto de leitura – um acto físico em muitos sentidos e por todos os sentidos – também um acto sensual (se não o fosse, não os “levaríamos para a cama”). 
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Pedro Moura
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Etiquetas: Canadá
Acme Novelty Library #16: Rusty Brown. Chris Ware (Chris Ware)

Após alguns anos de espera, fome que foi sendo saciada pela inclusão de trabalhos curtos de Ware em outras publicações, ou seus arranjos gráficos espalhados pelo mercado, eis que nos presenteia o autor de Jimmy Corrigan com o 16º número da sua publicação Acme Novelty Library. As expectativas eram enormes, pois vivemos permanentemente sob a ilusão e desejo banal de “evolução”, de “melhoria”, de “cada vez mais” da parte dos autores. Não escapo a essa ilusão a maior parte das vezes, mas neste preciso caso, não há resposta definitiva, pois em relação a todo esse fôlego que foi a colecção de Corrigan, este Rusty Brown vem fazer um contínuo nada displicente, mas nenhum corte. Não dou qualquer valor moral nem a “contínuo” nem a “corte”.
Algumas destas pranchas foram sendo apresentadas em exposições em várias galerias norte-americanas nestes últimos três anos. Ver a “arte original” e comparar com a forma como foram incorporadas na edição em livro levar-nos-ia a discussões interessantes sobre a distância que existe entre essa pretensa “originalidade” do desenho em papel e o seu produto verdadeiramente acabado, destinado não só à reprodutibilidade como ao manuseamento e fruição do leitor, do “livro”. Um exemplo: a sub-/para-história dos irmãos Chalky e Alison, que corre como um rodapé (e funciona como tal, especialmente quando existem sobreposições/iterações de eventos em diferentes perspectivas), foi desenhado num número reduzido de pranchas, cada uma com 84 vinhetas (algumas delas sub-dividindo-se em 4), e para se incluírem no livro foram retalhadas em tiras de 7.
As personagens são recorrentes – trata-se da infância de Rusty Brown, que será em adulto um “loser” e um “nerd” dos quadradinhos e ficção científica com o seu amigo Chalky. Aliás, este é o primeiro volume dessa série prometida. Há, porém, uma assunção especial da auto-ficção, quando surge um professor de arte que é o próprio Ware. Os temas são também os frequentes: solidão, falta de amor, de compreensão, de realização, falhas e faltas de um ponto de vista existencial. O “estilo” gráfico de Ware – cenários esquematizados, vinhetas e pranchas estruturadas formalmente (ele próprio fala de “conto glacial”), cores quase mecânicas – parece minimalizar qualquer tipo de expressividade, mas esse é apenas um mal-entendido que ele próprio fabrica. A redução de informações gráficas nas personagens leva a que os mecanismos que significam as alterações de humor estejam concentradas nas pequenas diferenciações que leva a cabo nas aparentes iterações do rosto da personagem: basta a mudança de um ou dois traços (como já Rodolphe Töpffer dissera ser possível nesta “nova arte” no seu Ensaio sobre a Fisiognomonia) para transmitir toda uma onda de flutuação emotiva. Digamos que Ware é um inimigo do “actores de método” e prefere uma aproximação mais “nouvelle vague” na expressividade das suas personagens. Less is more, de facto. Não obstante, o momento em que o professor Brown centra a sua atenção na recém-chegada Alison/Alice, a vinheta que mostra esta última personagem parece escapar a essa regra de ouro do “minimalismo” wariano. É uma figuração muito subtil, que nada tem a ver com o estereotipado da “Supergirl” no sonho de Rusty, e que marca sobretudo a percepção veladamente apaixonada do professor Brown.
Há uma série de outros dispositivos gráficos interessantes e que tornam esses pequenos exercícios como mais-valias de todo o objecto-livro: o “genérico”, a introdução textual, cuja metáfora do floco de neve pode ou não ser entendida como extensível a toda a obra de banda desenhada, a prancha em que o autor/editor se dirige directamente ao leitor potencial num diálogo sobre a própria obra (e nos revela certos aspectos da sua vida, ou a romantiza da sua maneira peculiar), a inclusão dos planos de cada andar do prédio que se apresenta no final do livro, etc. Esses exercícios não são, de modo algum, ao acaso. Abaixo, explicar-me-ei melhor.
Há algum tempo, falei das edições de certos fanzines passarem para as mãos de editoras profissionais, mas em que essa mudança não implicou qualquer espécie de perda de liberdades criativas do autor. Neste caso, se bem que a liberdade esteja imaculada como antes, trata-se do contrário, pois esta edição é de autor, sem a chancela da Fantagraphics – se bem que a distribuição e a os contactos de produção tenham sido os mesmos. É uma nota de interesse, acrescida pelo facto de o próprio Chris Ware a considerar uma “edição de autor”, de limitada e irrepetível (é óbvio que se trata de estratégias comerciais, mas é um belo objecto, de facto).
As quatro “Building Stories”, uma espécie de variação d’“As Quatro Estações”, onde essa linguagem de espacialização do tempo a que Ware nos habituou se torna central e o próprio modo de estruturação das estórias, foram antes publicadas – cada uma, semanalmente – num suplemento de Domingo do New York Times. Trata-se de um edifício de três andares, com uma cave, e começando de cima e focando cada “episódio” num andar, nas personagens que o habitam e na estação (não por ordem cronológica), o círculo de relações vai-se alargando paulatinamente, complexificando as “redes narrativas” que os nem, mesmo que essas ligações sejam apenas “wishful thinking” da parte das personagens. É este tipo de experimentalismos de um grande êxito de aplicabilidade narrativa que tornam Chris Ware – ou noutros autores – a sua importância enquanto autor e verdadeiro contribuidor para uma espécie de, não de “evolução” (inexistente nas artes), mas antes de “intensidades”, fulgurações que de repente se nos tornam significativas, brilhantes… Convenhamos que esta tipo de construção, por si só, não é propriamente “original”. Francisco Ibañez (sim, o do Filémon y Mortadelo) experimentou desde os anos 80 uma fórmula quase-próxima com 13, Rua del Percebe e depois o 7, Rebolling Street. Mas ao passo que Ibañez transformava cada divisão do prédio, visto em “plano de corte”, como simples vinhetas onde colocava gags separados uns dos outros, Ware transforma essa espacialização como o fulcro da sua construção. Há outras linguagens gráficas a se concentrarem aqui ao mesmo tempo: a infografia e o pictograma, as estruturas visuais da genealogia, as convenções sígnicas dos desenho geométrico (“rigoroso”) da arquitectura… Mas nada disso surge por acaso, como um experimentalismo vazio, só “para ver como funciona”. São conscientemente aproveitados e empregues para um fito, que é o da estruturação narrativa. Não que toda a banda desenhada ou artes visuais de sequencialidade tenham de ser “narrativas” para serem de êxito – mas aqui entraríamos na discussão do que significaria “sequência” se não no tempo, e não é o momento. Importa ver que Ware, com estas quatro estórias, faz um imenso contributo à crise desse mesmo entendimento, provocando uma acronia sobre a narrativa, colocando o ónus da estrutura no espaço e não no tempo. É aí que reside o seu (ainda) valor de “revolucionário”, cuja melhor definição é aquele que permite ou faz mudar de eixo, e não que se mantém na mesma estrada, ainda que com espalhafato. 
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Pedro Moura
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Etiquetas: EUA
Tribune Brute & Even gravediggers read Playboy. André Lemos (MMMNNNRRRG/Opuntia Books)

Não sendo propriamente livros de banda desenhada, e ainda aquém de uma organização em torno de um suposto centro como outras obras nos limites desta arte, como as de "Tim Morris" de a "Obra-Prima de..." de J.C.F., não quero deixar a oportunidade de indicar a publicação quase ao mesmo tempo de duas publicações com desenhos do meu amigo André Lemos, com o qual colaboro numa obra que espero ver editada em alguns breves meses, e de que darei aqui notícia...
A primeira (cuja capa está aqui truncada) trata-se de uma publicação de vários desenhos, em serigrafia, trabalhadas pelo Mestre-Super-Serigrafia Mike Goes West, e editadas pela MMMNNNRRRG ... A segunda, um fanzine de 50 exemplares irrepetíveis, todos com detalhes únicos, fotocopiado em papel azul de 25 linhas. São desenhos soltos, que não obedecem a nenhum critério ou tema ou estruturação a não ser a plena vontade das mãos de André Lemos, que por vezes me parecem ser criaturas com vida própria. Para os fãs do seu trabalho, estes são desenhos já de si mesmo narrativos (com as costumeiras frases à la hasard mas que, queira o Santo Bourroughs, nos conduzirão a territórios de histórias submersas no absurdo e na estranheza de quem vive alerta ao mundo) e com as forças plásticas da sua tinta da china que se espalha em todas as direcções. Para quem não aprecia, serão dois óptimos instrumentos de uma mais ampla educação cultural e gráfica...
Para compra e/ou mais informações, cliquem no nome do André que irão dar ao seu próprio blog.
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Pedro Moura
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Sequential. Paul Hornschemeier (AdHouse Books)

Creio que Paul Hornschemeier é um sério concorrente na criação contemporânea da banda desenhada a ser rememorado, mais tarde, como um dos grandes da sua geração, sobretudo depois do seu Mother, Come Home e os novos títulos que já se prometem. É como se fosse possível ver no estado presente do seu trabalho, cujas curtas mas substanciais contribuições para vários títulos, como por exemplo a Mome já aqui citada, ou nos seus trabalhos do passado, em que Sequantial tem um papel preponderante, estivessem já submersos nos ecos do seu valor futuro. Nem sempre isso é óbvio, e uma tal leitura não é de todo nem positivista nem racional; entrega-se antes a uma espécie de percepção atenta a pistas que se dissipam no nevoeiro que está à frente...
Sequential trata-se de uma antologia que reune alguns dos trabalhos - sobretudo banda desenhada, mas há também textos - publicados nos sete números do fanzine do mesmo nome, iniciado em 1999 mas que veio a ser descontinuado mais tarde, por razões expressas no prólogo e nas notas de produção finais. Todo o historial está descrito exaustivamente nesses anexos ao livro. Já algumas vezes falei aqui de dois temas que me parecem estar no centro do palco ao falar deste volume de Hornschemeier: por um lado, a "liberdade intrínseca" que fundamenta a razão de ser de um fanzine, por outro, a questão da "evolução", ou falta de, no trabalho de um autor. O primeiro ponto prende-se com o facto da multiplicidade dos estilos, humores, tipos de estórias e experiências gráficas e narrativas a que o autor se entrega ao longo das suas fanzines, aqui retomadas. São raras as estórias de maior fôlego, cuja curva mais abrupta é sem dúvida a do homem-sapo que é abandonado pela companheira e que passa um dia em pensamentos sobre como lidar com a solidão (sem título). A esmagadora maioria são pequenas anedotas humorísticas ou de situações estrambólicas, muitas de apenas uma prancha, outras tantas avançando em territórios mais assertivos e políticos, mas sem nunca se assumirem totalmente como tal, outras ainda em tons mais poéticos, mas sempre com uma patina de absurdo (como as histórias do demónio). Essa liberdade é incontestável, mas por isso mesmo é possível que muitos leitores que venham a conseguir apreciar e encontrar alguma continuidade nos trabalhos mais recentes de Hornschemeier, poderão não encontrar aqui a mesma segurança, quer em termos artísticos quer de voz narrativa. Sequential é quase como que um caderno/diário - aliás, isso é dito pelo autor - onde foi experimentando todas as técnicas e saberes que foi aprendendo ao longo do tempo com a leitura e experiências de outros autores, citando-se directamente Dave Sim, do Cerebus, e Daniel Clowes. Ele acrescenta ainda, "como todas as experimentações, teve os seus resultados. Alguns desses resultados são completamente desinteressantes ou pouco produtivos ou não me levam a lado nenhum. Mas há certos momentos nestas páginas em que penso conseguir ver-me "acertar" em algumas coisas." Talvez esteja aí um possível valor na experiência de ler todo este volume, em testemunharmos essas aplicações, este longo (e provavelmente doloroso) processo estocástico e tentarmos, então, apercebermo-nos de que lhe serviu, e onde estão os êxitos que o fariam continuar.
A questão da "evolução" está nessa mesma aprendizagem, na lenta emergência de temas: como uma certa linha contemporânea, vai desembocar nas relações amorosas e nas solidões que as intervalam, em pensamentos que têm a ver com uma certa desilusão perante o futuro, a vida profissional, a vida familiar... Não propriamente um "urbano-depressivo", mas uma "bd-novela" que precisa de atravessar certos elementos-chave, habituais. A arte só falsamente parece "evoluir", mudar de campos, de técnicas. Mas no seu ruído de fundo, as alterações são poucas, ou apenas variações umas das outras, há sempre um contínuo (eterno, diria Nietzsche) retorno da brutalidade que se move sob o verniz da nossa civilização. Paul Hornschemeier parece ser um autor que dedica a sua obra precisamente a riscar esse verniz, para nos mostrar como a pele dói independentemente da cultura. Sequential foi só o aparar as unhas. 
Publicada por
Pedro Moura
à(s)
6:31 p.m.
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Fanzines "O Senhorio". AAVV (auto-edição)
Com alguns dos mesmos elementos de fanzines já aqui debatidos, vieram parar-me às mãos mais três publicações que se apresentam separadamente, com títulos e uma estrutura que lhes são próprios, a cada um dos objectos, mas que podem também ser lidos como um projecto contínuo: eis "O Senhorio". Este nome deriva de um espaço no Porto onde os artistas se reúnem, apresentam expondo os seus trabalhos, ou seja, pelo que pude compreender, que funciona como uma espécie de atelier de encontro, se não mesmo de trabalho.
Uma outra aproximação aos fanzines aqui antes debatidos é uma certa posição para com o círculo da produção e divulgação das artes visuais contemporâneas, ditas maiores ou da Alta Cultura (ou outro epíteto qualquer que julguem mais adequado). No entanto, uma diferença imediata é que esse "ataque", pela via do gozo, da subversão humorística, da reapropriação de algumas das suas estratégias ou unidades de linguagem idênticas para fins muito próprios, é muito mais directo e visível. Por um lado são referências nem sempre veladas a um "material de pensamento" (ou de mera citação) utilizado por artistas, ou directa e humoristicamente a experiências tipificadas - como nos exemplos d'"O Cantinho de Serralves", a Dra. Schmuckgeschaft, os classificados especializados, ou a personagem do Professor Catedrático. Mas essa reapropriação de estratégias da experimentação, que nem sempre é apanágio ou território fechado - não obstante a História da(s) Arte(s) ou uma certa linha de crendice cultural - das Artes Visuais, muitas vezes tomam um desvio tal que acabam por surgir precisamente criações de um franco interesse formal e esteticizante, o que não é de forma alguma para ser tomado de uma forma traumática nem busca ser redutor. A meu ver, o número que reúne num só fôlego os maiores trunfos é o de Maio de 2005 (intitulado Pingue, com uma epígrafe de Fedro que poderá apontar para o grande paradoxo da existência das fanzines de banda desenhada, na eterna discussão das vontades de criação vs. público), com "O meu enxoval em seis passos", que me faz recordar uma Renée French mais controlada em termos de referencialidade no real, mas com a mesma verve feminina em desmistificar papéis sociais, os retratos de "caça e actividades ao ar livre" com os desenhos do profícuo e virtuoso Carlos Pinheiro, e umas tiras curtíssimas e histórias de estrutura livre de Nuno Sousa. Surgem em todos os números mais episódios do Senhor Pinhão, de Miguel Carneiro, e as pranchas "diárias" de Marco Mendes, já aqui discutidas.
A presença do material já citado, e ainda de pequenos "objectos gráficos", de "personagens" (ou melhor, characters), de intervenções várias poderão tanto nos fazer lembrar os mais acabados sketches curtos dos Monty Python aquando versavam figuras da Grande Cultura, como projectos (já aqui indicados antes pelas mesmas razões) portugueses como os do trio que se viria a conhecer nas Artes como Sparring Partners, muitos dos fanzines femininos dos anos 80/90, entre até trabalhos de autores como Pedro Proença - que me veio à mente pelos desenhos de uma contracapa de Nuno Sousa -, o qual já autorou um livro de banda desenhada (ou ilustrado, se preferirem, ainda que considere eu Edward Gorey um autor do "nosso" território lato), The Great Tantric Ganster (Fenda).
O único senão está na forma como os nomes dos autores são apresentados, uma lista não organizada, impedindo o leitor normal de entender a quem atribuir os trabalhos (eu próprio posso ter aqui incorrido nalgum erro, afora as não-atribuições). Mas essa é uma responsabilidade que deve ser desde logo assumida na liberdade de edição de um fanzine.
Creio estar algum destes números esgotado, mas vale a pena contactar o editor: acsenhorio@yahoo.com.
Publicada por
Pedro Moura
à(s)
3:13 p.m.
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